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sexta-feira, 7 de abril de 2017

O museu Jim Clark

Precisamente quarenta e nove anos após o desaparecimento de Jim Clark, um dos maiores pilotos de todos os tempos, em Duns, a terra natal do piloto escocês (e onde ele está enterrado), existe um projeto para fazer um museu digno do seu nome da sua memória como piloto. O Jim Clark Museum já existe, mas a ideia é alargá-lo. O custo total é de 1,6 milhões de libras, mas neste momento, decorre um "crowdfunding" para arranjar cerca de 300 mil libras até ao dia 21 de abril, do qual já foram conseguidos cerca de 69 mil libras.

A ideia é de expor alguns dos carros que Clark correu ao longo da sua carreira, bem como salas interativas, com mostras de videos, galerias de fotos, entre outros. E claro, fatos, capacetes e os troféus que já existiam no salão original, inaugurado em 1969 pelos seus pais, James e Helen.

Vamos a ver se conseguem o dinheiro necessário. Um museu dedicado a um dos melhores pilotos de sempre merece este tipo de apoio. 

domingo, 27 de março de 2016

A nova geração dos McRae

Parece que os McRae vão a caminho da terceira geração de pilotos. Diga-se que depois de Jimmy McRae, Colin e Alistair McRae, agora temos Max McRae, filho de Alister e neto de Jimmy. Aos onze anos de idade, Max vive na Austrália com o pai, e anda de karting, mas deseja andar nos ralis, tanto que já andou num Mitsubishi Lancer Evo VIII ao lado do avô, e este ficou impressionado com a capacidade do seu neto.

Fiquei impressionado, pois com a bacquet toda puxada para a frente ele mal chegava aos pedais. Ele disse-me que aprendeu a trocar de caixa num simulador, parece que os tempos mudaram um bocadinho desde a minha altura” disse Jimmy McRae numa entrevista à Motorsport News.

Max McRae - que só poderá andar nos ralis aos 17 anos de idade - disse que conta os dias até correr num carro de ralis. "Já corro há muito tempo no karting, mas seria fantástico guiar um carro de ralis. Deslizar o carro na terra é muito divertido, estou ansioso para ter idade para correr”, contou.

O avô Jimmy revelou também que Alistair e Colin só andaram num carro destes... aos 16 anos de idade. De facto, a nova geração começa a ser cada vez mais precoce nestas coisas.

domingo, 1 de junho de 2014

JIm Clark Rally: conhecidos mais pormenores do acidente de sábado

A politica escocesa e a organização do Jim Clark Rally divulgou hoje mais pormenores do acidente que tirou a vida a três pessoas na tarde deste sábado. Soube-se agora que o acidente foi provocado pelo piloto local David Carney, que andava num Citroen DS3 R3T, que perdeu o controlo do seu carro depois de um monte, colhendo vários espectadores, ferindo seis e matando três.

Carney - um piloto com vasta experiência - seguia na sétima posição da classificação, depois de ter perdido tempo noutro despiste, no inicio do rali. O piloto e o seu navegador sairam ilesos, mas ficaram em estado de choque com as consequências deste acidente.

Quando a prova foi cancelada, a luta pela liderança era entre Daniel McKenna e Osian Price, ambos em Citroen DS3 R3T, separados por 16 segundos.


sábado, 31 de maio de 2014

Noticias: Três espectadores morrem em rali escocês

O Jim Clark Rally, um das mais importantes ralis britânicos, foi hoje cancelado devido a dois acidentes que em espaço de horas, envolveu vários espectadores, três deles fatalmente. Para além disso, um quarto espectador foi levado para o hospital, em estado critico.

Segundo conta o jornal "The Scotsman", o incidente mais grave aconteceu pelas quatro da tarde em Swinton, na zona de fronteira com a Inglaterra, quando se cumpria a 16ª das dezoito classificativas previstas pelo Jim Clark Rally. Aí, três pessoas foram declaradas mortas no local, enquanto que mais seis feridos foram atendidos pelos serviços de emergência.

Horas antes, um outro incidente com outro carro de ralis colheu cinco pessoas, uma delas foi levada para o Royal Hospital of Edimburugh em estado critico.

Uma das testemunhas, Tony Cowan, disse à BBC que: "um carro perdeu o controlo, primeiro foi para a esquerda, depois foi para o outro lado da estrada e colheu quatro pessoas. Foi terrivel, absolutamente terrivel. Corri logo para prestar ajuda, mas havia pouco que pudesse fazer. A ambulância aérea chegou 45 minutos depois. Havia carros de policia e ambulâncias. Era o caos, absolutamente o caos".

O Jim Clark Rally existe desde 1970 à volta da zona de Duns, a cidade natal do piloto de Formula 1, bicampeão do mundo e morto em 1968 no circuito alemão de Hockenheim. É essencialmente uma prova de asfalto em estradas publicas fechadas para a ocasião e desde 1999 faz parte do calendário do campeonato britânico de ralis.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

A dramática corrida de Fuji, contada por quatro dos pilotos que estiveram lá

Descobri esta entrevista há uns dias no meu Twitter, e achei por bem traduzi-la, pois é um relato direto de quatro pilotos que estiveram no Monte Fuji, naquele dramático Grande Prémio do Japão de 1976, onde, debaixo de chuva, se decidiu o campeonato do mundo daquele ano, entre Niki Lauda e James Hunt. O jornal "The Scotsman" publicou no passado dia 31 de agosto uma "conversa a quatro" com os pilotos Mário Andretti, que fez a pole-position e venceu aquela corrida pela Lotus; o norte-irlandês John Watson, então piloto da Penske; o sul-africano Jody Scheckter, que dirigia o Tyrrell P34 de seis rodas, e o novato australiano Larry Perkins, que pilotava um Brabham-Alfa Romeo que então tinha substituido a meio da época o argentino Carlos Reutemann.

A dias da estreia de "Rush" nos cinemas um pouco por todo o mundo, os jornais e as revistas aproveitam a oportunidade para colocar coisas sobre essa temporada. E falar com quatro dos sobreviventes dessa corrida absolutamente louca, mas tão decisiva para um campeonato do mundo que viu o seu lider quase morrer e "regressar dos mortos" para tentar ficar com o segundo título mundial consecutivo, era algo do qual valia a pena seguir, era uma ocasião unica para eles recordarem os eventos de há quase 37 anos atrás.

Eis a matéria na íntegra, assinada pelo jornalista Tom English:

"24 DE OUTUBRO DE 1976. Setenta e três voltas, ou 319,690 quilómetros, no Fuji Speedway, no sopé do Monte Fuji, para determinar quem seria o campeão do mundo de Formula 1.

Era um duelo entre Niki Lauda e James Hunt, uma rivalidade tão falada e uma corrida tão dramatizada que [Hollywood] decidiu fazer um filme sobre isso. "Rush", o filme realizado por Ron Howard, aparecerá no próximo mês num cinema perto de si. Niki Lauda tinha recuperado de uma experiência de quase-morte a 1 de agosto, em Nurburgring, e ainda estava na frente de Hunt no campeonato por apenas três pontos quando chegaram à prova final, no Japão. Scotland on Sunday falou com quatro homens que correram naquele dia memorável.

John Watson: Não sei se estou no filme, mas se quiserem saber o que faço, estou no carro numero 28.

Jody Scheckter: Eu estava no meu Tyrrell, na terceira fila da grelha.

Larry Perkins: Parti do 17º posto e não durei muito. Era um novato naquela altura.

Mario Andretti: Estava na pole-position com o Lotus. Tinha James ao meu lado e o Niki atrás de mim. Claro, era um milagre o Niki estar ali a competir connosco.

JW: Eu acho que aquilo que fez, voltar ao cockpit para correr após a sua experiência na Alemanha, apenas algum tempo antes, foi das coisas mais corajosas que jamais vi a ser feito. Não foram as queimaduras que quase o mataram, foram os fumos tóxicos que ele respirou enquanto o carro esteve a arder.

MA: Todos ficaram espantados quando Niki recuperou de uma maneira tão rápida. Esteve muito perto da morte. Foi inspirador de muitas formas. Temos de respeitar grandemente uma pessoa como aquela.

JW: Considerando aquilo que ele sofreu, para se estar suficientemente curado para guiar não é só inacreditável como corajoso, indo para além do possível  É um pouco como aqueles pilotos da II Guerra Mundial que ficaram feridos em combate e logo depois voltarem ao avião para ir combater de novo os alemães. O seu maior ferimento não foram as queimaduras, foi a inalação de fumos tóxicos do seu chassis. O grande perigo foram os seus pulmões queimados. Foi por isso que lhe deram os últimos sacramentos. Semanas depois, estava de volta ao carro e a conseguir pontos!

MA: Niki and James eram personalidades completamente opostas.

JW: James desprezava as pessoas porque gostava disso. Ele tinha duas faces e às vezes eu achava que exagerava. Era rude e desrespeitoso. Niki nunca foi assim. James podera aparecer em certas cerimónias onde se esperava um pouco de etiqueta, mas aparecia quase "despido" e com um comportamento de adolescente.

JS: Gostava de ambos. Dois animais de tipos diferentes.

JW: Eles eram semelhantes de uma certa forma. Ambos adoravam fo*** muito, mas o Niki era bem selectivo. Ele tinha mais a ver com o estilo do que com a quantidade. Eles gostavam de fazer. Como piloto, Niki era o profissional consumado. O seu caratér era tipicamente teutónico. James era um piloto muito veloz, mas não era muito bom em termos técnicos. Niki estava intimamente ligado ao desenvolvimento do carro, estava ali pelo desafio intelectual. Com James, bastava um carro veloz e algumas indicações.

MA: Você deve ter ouvido todo o tipo de histórias sobre o James. Principalmente aquela semana antes do Japão.

JW: Há aquela historieta de que ele dormiu com 33 hospedeiras da British Airways num hotel em Tóquio na semana anterior à corrida. Não sei como é que essa história aparece, porque ele não era um tipo selectivo em relação a hospedeiras dessa companhia em favor de outras como Lufthansa ou Aeroflot. Acho que existiu uma certo exagero nessa história, para ser honesto, porque mesmo para os padrões de Hunt, ir para a cama com 33 mulheres deixaria-te sem energia para guiar um carro. Acredito muitas das histórias sobre ele, mas creio que esta das 33 hospedeiras é um exagero.

MA: Tenho a certeza que nada foi exagerado.

JS: No dia da corrida, ninguém acreditava na quantidade de água que caia na pista.

MA: A Lotus não era o melhor carro do pelotão, mas estava na pole-position. Coloquei aquele carro com a pista seca, não em pista molhada, e no dia da corrida estava um diluvio. Na reunião com a organização, pedimos a eles que atrasassem a partida por 30 minutos, mas não nos deram ouvidos. Niki estava a tentar convencê-los a fazerem isso. Niki e James não queriam correr.

LP: Não tive nada a ver com aquilo. Era um novato e nessas situações, sentas-te no teu cantinho e não dizes absolutamente nada. 

MA: Os organizadores não estavam para serem persuadidos. Tinham o controlo total da situação e os pilotos não. Nós não dissemos que não queriamos correr, apenas dissemos: "Considerem a situação existente. Está a acontecer algo fora do vulgar, mas irá passar". As piores condições que jamais experenciei no inicio de uma corrida. Nunca tinha passado por algo assim.

JW:  O mundo inteiro estava à espera. A televisão queria transmitir o resultado de um duelo entre Lauda e Hunt [foi a primeira transmissão em direto de uma corrida de Formula 1] e inevitavelmente, a corrida tinha de ir adiante [por causa do tempo de satélite]. A certa altura, a pista estava inundada, mas a corrida tinha de acontecer de qualquer maneira. Tinhas de aceitar isso.

LP: Fui fazer a volta de aquecimento e entrei em "acquaplanning". De lado contra um poste telegráfico, que era algo imóvel. Eu guiava na altura para a Brabham e disse: "não é um bom inicio de carreira a correr para Bernie Ecclestone". Ele era o dono da equipa, e tinha danificado seriamente o carro. Quando estava a afastar-me do local, o meu companheiro de equipa, o Carlos Pace, saiu de pista exatamente no mesmo sítio. Estava a chover pesado.

MA: Quando entras no carro, tu gostarias de estar seco. Mas os teus sapatos estavam molhados e escorregadios quando tu pressionas os pedais. Estamos molhados. A partida foi às cegas, tinhamos uma visibilidade de dez por cento, se muito. A pior parte foi na primeira volta, quando estavamos numa parte de descida, após uma longa reta, que estava "ondulando" porque tinha imensa água. O "acquaplannig" era algo do qual nunca tinha experienciado em lado algum nas corridas. Havia "rios" a atravessarem a pista. Pilotos como o Hans Stuck e outros estavam de prego a fundo naqueles sitios.

JW: Tu poderias estar a fazer tudo bem, mas poderia haver alguém à tua frente que poderia cometer um erro e não verias nada. Corrias o risco de ser morto.

LP: Não queria acreditar quando soube que o diretor da corrida decidiu levar a coisa por diante. Quando os carros começam a "acquaplanar" na reta, está demasiado molhado para correr. Mas esta aconteceu e eu parei após uma volta. Disse ao Bernie: "Eu até posso continuar, mas depois destruo o teu carro num despiste, logo, não vejo a utilidade em continuar por ali". Não abandonei porque tinha medo, era jovem e não me preocupava com a minha segurança. Parei porque não queria estragar outro dos carros do Bernie Ecclestone. E na volta seguinte, Lauda decidiu retirar-se. E isso foi bem dramático, posso-te dizer.

JS: Niki parou nas boxes e disse: "Não quero continuar esta corrida". Isso é bem mais corajoso do que acabá-la naquelas condições. Estava a chover demasiado, era impossível  Deveriam ter parado, mas não o fizeram na altura. Niki achava que era desnecessariamente perigoso correr e tinha razão: naqueles dias, os piloto morriam. No Japão, por causa do "spray", não vias nada à tua frente. Só tinhas o ouvido para saber se algum motor à tua frente se tinha desligado e os reflexos para evitar bater nele. Não vias nada indo a mais de 250 km/hora. Se por azar algum carro parasse à tua frente, não tinhas hipóteses. Lutas pela segurança quando estás fora da pista, mas dentro dela, lutas ao máximo para venceres, e não pensas em mais nada. 

MA: Era complicado manter-me na pista. tinhas momentos aqui e ali, mas eu não iria desistir nunca de correr. Não podes abandonar a equipa. No momento em que estás "na pista de dança", danças o ritmo, quer gostes ou não da musica. Nunca me ocorreu a ideia de parar. Olhando para a situação do Niki, eu tenho de compreender a sua decisão, depois do seu acidente horrível na Alemanha. Era uma notável excepção, mas vendo bem as coisas, Niki sempre foi uma pessoa pragmática. Ele disse: "Se eu não vejo, não guio". Depois do que aconteceu na Alemanha, toda a gente entendeu.

JW: Houve muitas razões pelo qual ele decidiu abandonar. Os eventos no Japão mostraram até que ponto as condições eram ou não aceitáveis. Niki abandonou porque as condições eram inaceitávelmente perigosas, mas também porque ele tinha problemas em controlar um canal lacrimal, que tinha sido danificado por causa do incêndio. E também ele jogou com a situação, lançando os dados: James tinha de acabar em primeiro, segundo ou terceiro para ser campeão do mundo, e naquelas condições, não havia a garantia de que ele iria conseguir. A decisão do Niki era baseado no que aconteceu na Alemanha, mas também no seu pragmatismo. Ninguém conseguiria prever o que James iria fazer durante a corrida. Chegaria em terceiro? Ou poderia ter um acidente ou uma falha mecânica? Naqueles tempos, as falhas mecânicas eram bem mais frequentes do que agora. Não tinhas garantias de que irias acabar a corrida. Então, Niki Jogou os dados e... perdeu. 

MA: Foi uma corrida de sobrevivência durante cerca de um terço dela, mas depois a chuva amainou e parou, e era mais suportável. Acabei por ganhar e claro, houve euforia, mas também muito alivio.

JS: Eu acabei por me retirar na volta 50 e tal. Quando fiz, só pensei: "Ainda bem que acabou"

JW: James acabou em terceiro e levou o título mundial. Houve uma festa depois, e estive por lá durante um pouco. Pode-se imaginar o ambiente...

MA: Se não tivesse chovido naquele dia? Bastava que Niki tivesse levado o carro até ao fim que ficava com o título. Somente levar o carro até à meta.

JW: Se a pista estivesse seca, o desfecho teria sido diferente, sem dúvida.

MA: Mas foi por causa do que aconteceu que fizeram um filme, não foi?

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Youtube Racing Classic: David Coulthard guia o Lotus 25

Por alturas do GP da Grã-Bretanha, a revista Motorsport convidou o escocês David Coulthard para que apresentasse e conduzisse o Lotus 25, no ano em que se comemoram os 50 anos do primeiro título de Jim Clark na Formula 1. O modelo idealizado por Colin Chapman, apresentado no ano anterior ao mundo, era o primeiro monocoque conhecido, com uma celula que rodeava o piloto, mais resistente e veloz do que as anteriores estruturas tubulares.

Com Clark ao volante, o modelo 25 deu ao escocês não só o seu primeiro titulo mundial para ele e para a marca, como conquistou 14 vitórias entre 1962 e 1965, todas alcançadas pelo escocês. Para além disso, obteve 14 pole-positions e 18 voltas mais rápidas. Outros pilotos que tiveram o privilégio de o guiar foram Trevor Taylor e Mike Spence, entre outros.

Assim sendo, apreciem o video.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Noticias: Acidente em rali escocês mata uma espectadora

Uma mulher de cinquenta anos morreu esta tarde durante uma especial da jornada de abertura do campeonato escocês de Ralis, o Snowman Rally. Segundo a policia local, um veículo capotou num cruzamento da especial de Glen Urquhart, perto da vila de Balnain, junto ao famoso Lago Ness.

Segundo a policia local, mais duas pessoas ficaram feridas, entre os quais uma criança de oito anos.  Não há noticias sobre o estado de saude do piloto e do seu navegador, mas presume-se que nada de grave tenham sofrido com este acidente.  

Devido ao sucedido, os organizadores decidiram cancelar o rali de imediato.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Lembrando Colin McRae, o senhor 110 por cento

Sempre admirei o Colin McRae, embora nos ralis fosse mais fã de Carlos Sainz. Era aguerrido, rápido e muitas vezes sem cérebro. Dá que ele fosse chamado na Grã-Bretanha de "Colin McCrash". Mas tinha os ralis nos seus genes, tal como tinha o seu pai Jimmy, campeão britânico por várias vezes num Ford Escort MKI, ou o seu irmão Alistair, também campeão, mas com menor sucesso nas classificativas um pouco por todo o mundo.

Conhecemo-o e aprendemos a admirar o seu estilo de condução a bordo dos Subaru preparados por David Richards. Primeiro os Legacy e depois os Impreza, onde aprendeu a guiar mais depressa sem bater, e depois venceu corridas e foi campeão em 1995, batendo o seu companheiro de equipa... Carlos Sainz. Lembro-me bem da sua primeira vitória, na Nova Zelândia, em julho de 1993, porque deram uma coroa de louros ao vencedor, a ele e ao seu navegador de sempre, Nicky Grist, e comemorou com uns "donuts" e a bandeira escocesa na mão.

O mais engraçado dele é que era um "petrolhead", adorava automóveis e a adrenalina que se retirava deles. Era tão viciado nisso que quando viu a sua carreira nos ralis numa espécie de beco sem saída, foi acelerar para o Dakar, inclusivé deu umas cambalhotas no deserto a bordo de um Nissan, em 2006 ou 2007, se a minha memória não me falha.

Além de ralis, Dakares e X-Games, também chegou a fazer uma perninha a Le Mans, num Ferrari, e fez um teste num carro de Formula 1, em 1996, pela Jordan. Portanto para ele, era tudo normal, fazia parte do entretenimento, do prazer que tinha em conduzir, da felicidade que tinha em guiar a 110 por cento, independentemente do resultado.

Quando ele morreu, em 2007, decidi escrever um testo em sua homenagem, e publiquei num projeto que o Ron Groo andava a fazer no Wordpress chamado "Mondo Interativo", uma primeira tentativa de agregar o pessoal da blogosfera. Foi algo que durou pouco tempo, mas deu para fazer alguns artigos. E este foi um deles, um tributo a este escocês voador.

COLIN MCRAE, O SEHNOR 110 POR CENTO

"A minha ideia inicial era o de fazer um tributo a Marcus Gronholm, que na passada sexta-feira anunciou que se iria retirar no final da época, provavelmente com o seu terceiro título mundial no bolso, mas o Destino encarregou-se de dar outro rumo, este bem mais triste: o acidente mortal de Colin McRae, este Sábado, vítima de um acidente de helicóptero.

Os factos são conhecidos de todos: McRae regressava a casa depois de uma ida a Londres com um amigo o os seus respectivos filhos. Na altura em que escrevo estas linhas, ainda não se sabe o que aconteceu, pois McRae era um piloto de helicópteros experimentado, com centenas de horas de voo, Mas o tempo estava chuvoso e o vento era forte, portanto, este pode ter tido algum efeito no acidente fatal.

Tinha acabado de fazer 39 anos. Estava a preparar-se para uma nova ida ao Lisboa-Dakar, a bordo de um BMW X5 Raid da equipa oficial, mas a ideia de um regresso aos Ralies ainda não o tinha abandonado a sua mente. Tivera um regresso frustrado em 2006 a bordo de um Citroen Xsara, substituindo o francês Sebastien Löeb, que tinha tido um acidente de bicicleta. As suas performances ainda estavam lá, mas um problema eléctrico tinha impedido de chegar em segundo no Rali da Austrália. Com a retirada de Gronholm, anunciada no dia anterior, a ideia de um regresso à equipa da Ford, onde estivera de 1999 a 2002, começava a ser plausível. Mas isso já não vai acontecer…

Pessoalmente, nunca tive a oportunidade de conhecê-lo. As minhas incursões no Rali de Portugal limitam-se às classificativas, onde os via de passagem. Mas sei que nos anos 90, haviam dois pilotos que mexiam os adeptos: Colin McRae e Carlos Sainz, esse era mais por causa dos muitos espanhóis que nos visitavam, e não só...

Ele era filho e irmão de campeões. O seu pai, Jimmy McRae, tinha sido campeão britânico de Ralies por cinco vezes, nos anos 70. O seu irmão, Alistair, tinha sido piloto da Hyundai e da Mitsubishi no início desta década, mas sem o sucesso do irmão.

Desde cedo que se revelava que queria ser piloto. Aos 19 anos, em 1987, teve a sua estreia em Ralies do Campeonato do Mundo. Primeiro num Ford Sierra Cosworth, mostrou rapidez e tendência para acidentes... muitas das vezes, Colin chegava aos finais das classificativas com o carro destruído, sem vidros e com o tecto amolgado. Cedo, os jornalistas desportivos, como o Martin Holmes, lhe deram uma alcunha: “Colin McCrash”. A razão era simples: a sua rapidez era muitas vezes compensada com uma ida à berma, normalmente com o carro destruído.

Mas o seu patrão na altura, David Richards, confiava nas capacidades do seu piloto. E que a sua hora iria chegar. E assim foi: em Julho de 1993, no Rali da Nova Zelândia, Colin McRae fez uma prova sem falhas, e subiu ao lugar mais alto do pódio. Tinha 25 anos, e era o piloto mais jovem de sempre a ganhar um rali, até então. E David Richards tinha razão: o seu piloto era capaz de ganhar corridas, sem perder a rapidez...

Dois anos mais tarde, ele finalmente disputava um título mundial contra os melhores: Carlos Sainz, Juha Kankunnen, Didier Auriol, Francois Delecour, Tommi Makinen, Armin Schwartz... Nesse ano, o escocês voador ganhara somente o Rali da Nova Zelândia, mas a sua regularidade era impressionante, e depois de uma luta com o seu companheiro, o espanhol Carlos Sainz, ele acabou por ganhar o Rali da Inglaterra (então o Rali RAC), batendo o espanhol na classificação por cinco pontos.Nos anos seguintes, continuava a ser rápido, consistente, e vencedor.

Podia ter ganho mais títulos mundiais, mas ele foi um dos maiores rivais de Tommi Makinen, que ganhou quatro títulos consecutivos, entre 1996 e 2000. Chegou até a ganhar cinco ralis em 1997 (mais do que qualquer um dos seus rivais), mas o título acabou nas mãos do finlandês da Mitsubishi… por um ponto!

No final de 1998, decidiu abandonar a sua equipa de sempre, a Subaru, para ajudar a Ford a desenvolver o seu novo modelo, o Focus. Na realidade, ele começou a sua carreira na Ford, guiando Sierrras Cosworth, mas graças a ele, o modelo tornou-se num carro vencedor, fazendo com que a WRC, no final do século, fosse a categoria mais competitiva de então no automobilismo internacional. Um exemplo: as cinco primeiras provas do mundial de 1998 foram ganhas por cinco pilotos diferentes!

As suas passagens por Portugal, por alturas do Rali, nunca passavam despercebidas: ou vencia, ou desistia. “Do or Die!” Ganhou por duas vezes, na primeira das quais, a luta com Carlos Sainz tinha sido tão épica que só conseguiu ser o vencedor por apenas... 2,3 segundos. Foi a diferença mais curta em ralis até então, batido somente este mês, no Rali da Nova Zelândia, por Marcus Gronholm e por Sebastian Löeb, que ficaram separados entre si… por 0,3 segundos.

Nesta altura, McRae já era conhecido noutros meios: os videojogos. Foi o primeiro piloto a dar a cara por um videojogo, que se tornou num marco: “Colin McRae Rally”. Quase todos nós já jogamos, pelo menos uma vez, numa versão deste jogo de computador, seja ele na versão PC, na versão consola (Playstation, XBox…). Certamente têm o seu carro favorito (pessoalmente, hesitava sempre entre o Ford Focus e o Subaru Impreza) e o seu rali favorito (durante muito tempo era fã da Nova Zelândia), mas nunca vira em computador o Rali de Portugal, o que me dava pena. Mas como ultimamente não tenho jogado as novas versões, espero que essa lacuna tenha sido preenchida...

Com o passar dos anos, e com a profissionalização cada vez maior das estruturas das equipas, notava-se que McRae perdia a paciência com os testes cada vez mais exaustivos, e as minúcias cada vez maiores nos carros. Para ele, o carro é que se devia adaptar-se ao seu estilo de condução, e o verdadeiro teste era em pista, e não em simuladores. A sua passagem pela Citroen foi tudo menos famosa, e no final de 2004 fica sem carro competitivo pela primeira vez em quase 15 anos. Então, vira-se para outros desafios: começa a correr em todo-o-terreno, num Nissan oficial, com a mesma rapidez de sempre, e por vezes com os resultados de sempre... No ano passado, no Lisboa-Dakar, apesar de ter ganho cinco das 22 etapas do mais longo e conhecido “rally-raid” de todo-o-terreno, teve um arrepiante despiste que causou o seu abandono.

Também aproveitou para participar num acontecimento americano: os X-Games. Levou os ralis para o público norte-americano, e fez o espectáculo do costume: sempre rápido, nem sempre a acabar bem. Mas com ele, o espectáculo estava sempre garantido. O carro, esse, nem sempre voltava inteiro..."

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Noticias: Inquérito afirma que acidente de McRae era "evitável"

Vai fazer quase quatro anos que aconteceu: o acidente de helicóptero que tirou a vida de Colin McRae. O acidente, que ocorreu a 15 de setembro de 2007 e o matou, bem como o seu filho de cinco anos e mais duas pessoas, uma delas outra criança, foi alvo de dois inquéritos na sua Escócia natal, e uma delas, a "Scottish Fatal Accident Inquiry", publicou ontem o seu relatório final.

Segundo eles, o acidente era evitável. Nesse relatório apontam-se vários fatores negativos, especialmente ao piloto, que nesse dia fatal era o próprio McRae. Ele não só não tinha uma licença válida para voar - tinha caducado há muito - como se aponta também o fato de estar a voar a uma distância insegura, e também que não tinha treino adequado para lidar com um aparelho como aqueles. Assim sendo, descarta-se completamente a hipótese de mau tempo ou de ventos fortes, pois nesse dia fatal, o tempo não estava famoso.

Este acidente já tinha sido alvo de investigação por parte da "Air Accidents Investigation Branch", que no seu relatório final, publicado em 2009, não tinha encontrado uma causa específica para o acidente. McRae, então com 39 anos e em estado de semi-retirada do WRC, voava para a sua casa acompanhado do seu filho de cinco anos e de mais dois amigos, um deles uma criança, quando o seu Eurocopter AS350 caiu em Lanark, no norte da Escócia, a pouco mais de um quilómetro de sua casa. Nesse acidente, não houve sobreviventes.

terça-feira, 5 de abril de 2011

O homem do dia - Rob Walker

Sempre houve construtores privados na história do automobilismo. Pessoas com maior ou menor fortuna que compraram chassis de outros construtores e conseguiram obter vitórias com bons pilotos. Nos primeiros tempos da Formula 1, para além das equipas oficiais havia uma série de equipas privadas que usando vários chassis, conseguiam por vezes subir ao lugar mais alto do pódio. O mais famoso desses privados era gerido pelo herdeiro da marca de whisky Johnny Walker, cujos carros eram azuis com uma faixa branca, representando a sua Escócia natal.

Um apaixonado por automóveis desde a infância, hoje irei falar de Rob Walker.

Nascido em 1917, Rob Walker herda a fortuna do seu pai aos três anos. A sua mãe casa-se de novo, e o seu padrasto, para além de ser tão rico como o seu pai, era um apaixonado pelos automóveis e aos sete anos leva o seu enteado para Boulogne, para ver uma prova de automóveis. Este fica apaixonado pelos carros, algo que não o largaria para o resto da sua vida.

Ao longo da sua adolescência, arranja e corre com motos e carros à volta da sua propriedade. Preocupada, a sua mãe lhe disse que poderia ter o que quisesse, caso abandonasse os automóveis. Respondeu que queria um Rolls Royce. Quando foi para a Universidade de Cambridge, aprendeu a voar ao Esquadrão local, mas o automobilismo não andava longe. Depois de ter um Lagonda, arranjou um Delhaye onde foi correr as 24 horas de Le Mans na edição de 1939. Com Ian Connell a seu lado, acabaram a corrida num respeitável oitavo posto. Contudo, a II Guerra Mundial matou a sua carreira de piloto de automóveis e foi para a Rotal Navy como piloto.

Após o final do conflito, em 1945, voltou ao automobilismo em eventos locais, mas no final da década decidiu adquirir carros e contratar pilotos. O primeiro a ser contratado por ele foi o Tony Rolt, que na II Guerra Mundial tinha sido prisioneiro em Colditz, o equivalente alemão a Alcatraz, onde eram presos os militares que tentavam fugir de outros campos.

Após alguns sucessos no inicio da década, Rob Walker fundou a equipa com o seu nome em 1953. Com Rolt como piloto, a sua primeira participação foi na Lavant Cup de Formula 2 a bordo de um Connaught. Na corrida seguinte, em Snetterton, outro dos seus pilotos, Eric Thompson, foi o vencedor da corrida. Algumas semanas depois, Walker participa na sua primeira prova internacional com um promissor piloto chamado Stirling Moss. Foi em Rouen, numa prova de Formula 2, onde Moss participou num Cooper-Alta e acabou a corrida em quarto lugar na sua categoria. Poucas semanas depois, Tony Rolt leva o Connaught para o GP britânico, mas desiste.

Nos dois anos seguintes, Rob Walker participava esporadicamente em eventos na Grã-Bretanha e na Europa, especialmente na Formula 2 através de pilotos como Peter Collins e Tony Brooks. Em 1956 e 57, Walker começa a correr em Coopers, especialmente na Formula 2, com carros de motor atrás que se tornavam crescentemente competitivos às mãos de Brooks, Moss e o australiano Jack Brabham, que corria esporadicamente pela Rob Walker Racing.

Conscientemente de que estes carros poderiam ser o futuro da Formula 1, e que por fim eles iriam ter a motorização que mereciam (na altura eram motores de 2.5 litros), Walker encomenda um chassis Cooper e convence Stirling Moss, piloto da Vanwall, a participar na primeira prova do ano, o GP da Argentina. Como a prova era em janeiro e os Vanwall não estariam prontos a tempo, Walker aproveitou as facilidades concedidas pela organização para levar o seu Cooper, bem como a autorização concedida pela Vanwall para que Moss corresse por lá.

Quando os organizadores ficaram espantados com o carro que Walker trouxe, a principio ficaram zangados e houve criticas, mas ele seria o último a rir. Com um motor não muito potente, mas que consumia menos do que os carros com motor á frente, apostou numa estratégia sem paragens para pneus e reabastecimento... e resultou. Apesar dos esforços de Ferrari e Maserati, Stirling Moss deu à Cooper, ao motor traseiro e a Rob Walker a sua primeira vitória oficial na Formula 1. Era uma vitória marcante, que poderia não ter acontecido, pois a caixa de velocidades de Moss tinha-se avariado no inicio da corrida, e só voltou a funcionar quando uma pedra entrou na engrenagem, colocando-se de forma a fazer funcionar no resto da corrida.

Se alguns pensavam que a vitória tinha sido por acaso, a prova seguinte provou que isso não era assim. Às mãos do veterano francês Maurice Trintignant, o Cooper Climax inscrito pela Rob Walker vence nas ruas do Mónaco. O acaso passara a certeza, e todos sabiam que a Cooper era o futuro do automobilismo. Ao longo de 1958, Moss e Trintignant venceriam em diversas corridas extra-campeonato, e no ano seguinte, Jack Brabham venceria o campeonato do mundo com os Coopers oficiais. Assim começava uma nova era na Formula 1.

Nessa temporada de 1959, Walker inscreve dois carros para Moss e Trintignant, e o britânico vence duas corridas em Monsanto e Monza, enquanto que o piloto francês acabou por duas vezes no pódio, sendo terceiro no Mónaco e segundo na prova final do campeonato, na pista americana de Sebring. Fora das corridas oficiais, Moss venceu a Glover Trophy, que se disputou no circuito de Goodwood.

No ano seguinte, Rob Walker decide reduzir a sua equipa para um carro e troca de chassis, passando da Cooper para a Lotus. Mantêm a aposta em Stirling Moss, mas a época é marcada pelo acidente que o britânico tem no GP da Belgica, em Spa-Francochamps. Moss fica ausente por duas corridas e Walker não alinha durante esse tempo. Antes disso, tinha ganho o GP do Mónaco. Quando voltou, venceu a corrida final do campeonato, no circuito americano de Riverside.

Em 1961, a formula mantêm-se, mesmo com os novos regulamentos em relação aos motores, que tinha passado para os 1.5 litros. Moss é o piloto e vence na primeira prova do ano, no Mónaco, contra os Ferrari 156 Squalo, que eram os claros favoritos à vitória. Volta a vencer em pleno circuito de Nurburgring, na Alemanha, e termina o ano no terceiro lugar na classificação de pilotos, com 21 pontos. Algum tempo antes, Walker inscrevera o Ferguson P99 de motor à frente, mas com quatro rodas motrizes, guiado por Jack Fairman. Era o primeiro carro com essa tracção. Meses depois, Moss pegou nesse carro para o Oulton Park International Golden Cup e o venceu, sendo esta a unica vez que um carro com quatro rodas motrizes venceria uma prova de Formula 1.

Walker e Moss ficaram para 1962, esperando continuar com o sucesso, mas o britânico sofre um acidente grave em Goodwood e fica largos meses sem competir. Ainda com um Lotus 24, chama Maurice Trintignant para o lugar, mas não consegue marcar pontos. Para piorar as coisas, no final do ano, Walker contrata dois jovens pilotos, o mexicano Ricardo Rodriguez e o rodesiano Gary Hocking. Ambos tem acidentes fatais em provas no México e Africa do Sul, respectivamente.

Em 1963, Rob Walker contrata o sueco Jo Bonnier para um dos seus carros, agora um Cooper. Não foi uma temporada fabulosa, mas Bonnier cumpriu, e no ano seguinte, para além do Cooper, arranjou um Brabham BT7 que alugou a outros pilotos. Foi assim que deu a primeira hipótese de guiar um Formula 1 ao jovem Jochen Rindt e no final do ano acolheu outro jovem, o suiço Jo Siffert. Vai ser ele que lhe dará o seu primeiro pódio em quatro temporadas, um terceiro lugar no GP dos Estados Unidos.

Em 1965, alinha com Bonnier e Siffert, arranjando dois Brabham, num programa algo ambicioso, mas não consegue mais do que cinco pontos, todos ganhos pelo piloto suiço. E quando a Formula 1 começa a correr com motores de 3 Litros, decide ficar com Siffert. Começa o ano com o Brabham, mas depois passa para o Cooper, conseguindo apenas um quarto lugar em Watkins Glen. Em 1967, Siffert consegue mais dois quartos lugares, em Le Mans, palco do GP de França, e Watkins Glen.

Mas em 1968, Rob Walker compra um Lotus 49 com motor Cosworth e a sorte umda um pouco. Sendo o melhor chassis do pelotão, consegue, com alguma surpresa, vencer o Grande Prémio britânico, à frente do Ferrari de Chris Amon. Era a primeira vitória depois da era de Stirling Moss, e a primeira de uma equipa privada. Ainda consegue mais uma pole-position e duas voltas mais rápidas no campeonato, e doze pontos ao todo.

Aos poucos, as coias mudam um pouco, mas uma nova era vinha a caminho, e Walker sentia cada vez mais que as coisas começavam a ser puxadas para ele. Siffert continuou em 1969, conseguindo quinze pontos e dois pódios, mas este vai para a March em 1970 e no seu lugar vem o veterano Graham Hill e o patrocinio de Brooke Bond Oxo. Continuando com um chassis Lotus, primeiro um velho 49 e depois um modelo 72, Hill, que ainda recuperava do seu grave acidente no ano anterior em Watkins Glen, conseguiu apenas sete pontos. No final de 1970, Hill foi para a Brabham, e Walker depois de uma conversa com John Surtees, decidiu juntar as suas forças para se concentrar numa só equipa.

Walker ficou a ajudar Surtees, e ajudou a trazer Mike Hailwood, que lhe deu os melhores resultados de sempre da equipa em pista, com um segundo lugar no GP de Itália de 1972. A sua participação acabou em 1975, quando ajudou outro amigo seu, Harry Stiller, a comprar um chassis Hesketh para um jovem australiano de seu nome Alan Jones. Contudo, a aventura foi breve e no final desse ano, decidiu reformar-se, aos 57 anos.

Mas não ficou muito tempo afastado. Desde 1967 que costumava cobrir os Grandes Prémios como repórter da americana Road & Track Magazine e quando se retirou de forma ativa da Formula 1, continuou a andar pelos "paddocks" a cobrir os fins de semana de corridas, bem como vários artigos históricos. Contunuou a fazer esta tarefa até bem para lá dos anos 90, quando a velhice o começou a apanhar. Acabou por morrer em Abril de 2002, aos 84 anos, vitima de pneumonia.


Fontes:

sexta-feira, 4 de março de 2011

O campeão tranquilo: a biografia de Jim Clark

Como tinha prometido antes, coloquei hoje no sitio Pódium GP a biografia do mais ilustre aniversariante do dia, o escocês Jim Clark. Morto numa simples prova de Formula 2 no circuito alemão de Hockenheim, a 7 de Abril de 1968, o calmo piloto escocês foi um dos melhores pilotos do seu tempo, um homem que na Formula 1 somente correu para uma equipa, a Lotus, e a sua amizade com Colin Chapman foi algo que somente aconteceu logo depois com Ken Tyrrell e Jackie Stewart.

Clark precisou apenas de 72 Grandes Prémios, corridos entre 1960 e 68, para establecer recordes. Conseguiu 27 vitórias e 33 "pole-positions", recordes que perduraram até respetivamente, 1973 e 1989. Venceu as 500 Milhas de Indianápolis, o primeiro a fazê-lo num carro a motor traseiro. Teve momentos unicos de condução no automobilismo e os seus pares reconheciam que ele era o melhor. Eis um excerto do artigo:

(...) "Para 1968, Chapman estava a experimentar uma solução revolucionária. Enquanto que qualquer um podia comprar motores Cosworth a 7500 libras por unidade, decidiu que colocar mais carga aerodinâmica sobre as rodas traseiras seria ideal para conseguir maior aderência, logo mais velocidade em curva. Enquanto isso, a FIA decidiu liberalizar as pinturas no chassis, que até então eram baseadas nas cores nacionais. Sendo assim, Chpaman não perdeu tempo: arranjou um patrocínio da Imperial Tobacco e por 60 mil libras, pintou os seus carros com as cores da Gold Leaf, vermelhas e douradas. Esse dinheiro era o suficiente para sustentar as suas equipas de Formula 1 e Formula 2.

Clark correu com as novas cores na Tasman Series e foi também o primeiro piloto a experimentar a asa num carro, ao correr na Nova Zelândia: era a pá de um helicóptero adaptada ao carro. Mas pouco antes, em Kyalami, mais precisamente no primeiro dia desse ano, Clark não usou nem as asas, nem o patrocínio da Gold Leaf, para ganhar o GP local, naquela que se tornaria na sua 25ª vitória na Formula 1, batendo o “record” de dez anos que pertencia até então ao argentino Juan Manuel Fangio. Também fizera no dia anterior a sua 33ª pole-position da sua carreira, um “record” que iria ficar até 1989.

Por esta altura, Clark já tinha 32 anos e vivia em Paris, para escapar aos altos impostos que o fisco britânico impunha às pessoas com altos rendimentos. Foi por isso e por outras coisas que Clark decidiu não participar a 7 de Abril de 1968 nas 1000 Milhas BOAC de Brands Hatch, que era uma prova de Turismos em Inglaterra. Em vez disso, Clark decidiu participar numa prova de Formula 2 no circuito alemão de Hockenheim. Chapman tinha um compromisso com a Firestone, e queria que ele experimentasse o novo modelo de Formula 2 em Hockenheim.

O piloto escocês era um homem que raramente cometia erros. O seu único acidente grave tinha sido o de Monza, seis anos e meio antes, e era um piloto que tinha um estilo seguro de guiar. Apesar de todos saberem que a formula era uma competição perigosa e fatal, poucos acreditavam que algo poderia suceder a Jim Clark. (...)"

Caso estivesse vivo celebraria agora o seu 75º aniversário natalicio.

domingo, 26 de setembro de 2010

Noticias: Piloto local morre no Colin McRae Forest Stages Rally

O Colin McRae Forest Stages Rally, na Escócia, foi ontem cancelado após a morte de Jimmy Girvan, antigo bicampeão escocês de ralis. O piloto de 56 anos perdeu o controlo do seu Subaru Impreza na classificativa de Girvan e bateu, primeiro a pedras e depois a uma árvore na berma da estrada. O seu navegador, Mike Ramsey, foi levado para o hospital Ninewells, em Dundee, para ser observado.

Girvan era um dos mais conhecidos pilotos da região e tinha uma longa carreira, que tinha começado em 1981 a bordo de um Ford Escort e que tinha resultado em dois títulos de campeão escocês, em 1990 e 2008, o último dos quais a bordo de um Subaru Impreza.

A ironia é que Girvan acaba por morrer num rali que foi feito para honrar Colin McRae, um piloto de ralis morto em 2007 após um acidente de helicóptero na sua Escócia natal.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Um tributo a Jackie Stewart, o Escocês Voador




É certo e sabido que Jackie Stewart é um dos grandes de sempre do automobilismo mundial. Aos 70 anos de idade, e 35 anos após a sua retirada de competição, os seus feitos como piloto e como paladino pela segurança são sempre recordados por todo e qualquer admirador de automóveis. Pode-se dizer que existe muita gente que deve agradecer a ele por estar viva hoje: afinal, muito do que foi feito em prol da segurança tem o seu cunho, como já expliquei detalhadamente no mês passado, quando publiquei a sua biografia.


Ao contrário do normal, este video não é do prodigio finlandês Antti Kalhola. É de um hungaro que responde pelo "nick de MasterCsizi, mas é um pouco mais velho do que Antti. tem 21 anos. E no video tem uma frase do Jackie, que se definia a si prório da seguinte forma "Nunca pensei em mim próprio como o melhor para ganhar. Aliás, sempre pensei que todos os outros eram melhores do que eu, que iriam bater-me". Modesto, humilde ou disléxico, Jackie Stewart tem assegurado o seu lugar no Olimpo do Automobilismo.

sábado, 13 de junho de 2009

Jackie Stewart, 70 anos! - A biografia (5ª e última parte)

(continuação do capitulo anterior)

Após a sua carreira competitiva, tornou-se comentador televisivo, na americana ABC, e na australiana Channel 9. Ao longo da década de 70 e 80, até quase á actualidade, os seus comentários eram largamente ouvidos por milhões de espectadores em todo o mundo, o que ajudou a elevar a sua popularidade, especialmente devido ao seu carregado sotaque escocês... E para além disso, as suas participações em anúncios publicitários, para fazer render ainda mais o seu nome.


Para além disso, “matava o bichinho” conduzindo de vez em quando as máquinas de Formula 1 do momento. Conduziu o modelo P34 de seis rodas, no inicio de 1976, o modelo 008, ambos da Tyrrell, o Brabham Alfa-Romeo BT46, o Williams FW 11, entre outros, durante os anos 70 e 80, em ensaios para a televisão, demonstrando a sua mestria não só em pilotar, como a descrever o comportamento desses modelos. Um “test driver” de elite, sem dúvida…


A sua presença em circuitos atraiu um realizador, Roman Polanski, que decidiu fazer o documentário “Weekend of a Champion”, que seguia os passos do piloto escocês durante o fim-de-semana do GP do Mónaco de 1971, vencido por ele. E alguns anos mais tarde, dois cantores fizeram videoclips em sua honra: o “beatle” George Harrisson escreveu “Faster” em 1978, e em 2000 foi a vez de Robbie Williams o incluir no videoclip da música “Supreme” onde ele, “Bob Williams”, competia com Stewart pelo título mundial de 1970…


Entretanto, Stewart continuava ligado à Ford, a marca que sempre o apoiou na sua carreira competitiva. E foi com eles que ele volta a entrar competitivamente na Formula 1, como construtor. Em meados dos anos 80, o seu filho Paul Stewart começa a seguir os passos do pai, e começa a competir na Formula Ford 2000, em 1988. No ano seguinte passa para a Formula 3, e monta a sua própria estrutura, com a assistência do seu pai. Em 1991, passa para a Formula 3000, tendo como companheiro o italiano Marco Apicella, e os resultados são bons para o italiano. No ano seguinte, acolhe um jovem escocês, de seu nome… David Coulthard, e os resultados são melhores, inclusive, o próprio Stewart consegue pontuar. Em 1993, tem agora como companheiro o brasileiro Gil de Ferran, e se Stewart Jr tem a sua melhor época de sempre (um pódio e 14 pontos), já o brasileiro conseguiu uma vitória para a equipa, e o quarto lugar no campeonato.


No final de 1993, Paul Stewart pensou bem e verificou que era melhor a dirigir as operações das boxes do que a conduzir um carro, e decidiu melhorar a sua equipa na Formula 3000 Internacional. Em 1994, tentou o título com Gil de Ferran, mas só ganhou uma corrida, e em 1995, tinha a seu lado o escocês Alan McNish, mas o ano correu pior. Por outro lado, na Formula 3, a equipa era a melhor do pelotão, vencendo três campeonatos consecutivos, entre 1992 e 1994. Gil de Ferran, o dinamarquês Jan Magnussen e o inglês Kelvin Burt foram os campeões ao volante das máquinas de Paul Stewart.


No final de 1995, ele e o pai decidiram perseguir o sonho da Formula 1. De inicio expressavam algum receio, dadas as experiências de anteriores, que tiveram pouca duração, mas quando tiveram o apoio da Ford para um projecto de cinco temporadas, avançaram. Andaram a preparar a sua entrada ao longo do ano de 1996, e a sua estreia oficial aconteceu no GP da Austrália de 1997, tendo como pilotos o brasileiro Rubens Barrichello e o dinamarquês Jan Magnussen. As primeiras corridas não foram bem sucedidas, dado que os carros raramente chegavam ao fim, mas no Mónaco aconteceu a primeira alegria da equipa, quando Barrichello lhes deu o seu primeiro pódio, um segundo lugar. Contudo, esse foi o único sucesso do ano, pois Magnussen falhou qualquer oportunidade de pontuar. A temporada acabou com seis pontos e o nono lugar no campeonato de Construtores.


No ano seguinte, a dupla continuava, mas os resultados eram piores. Barrichello conseguiu quatro pontos, e Magnussen um, antes de ser substituído a meio da época pelo holandês Jos Verstappen. Os cinco pontos deram-lhe o oitavo lugar no campeonato de construtores.


No final desse ano, a Cosworth tinha sido adquirida pela Ford, o que fazia com que entrasse uma enorme quantidade de capital. Stewart tinha contratado o projectista Gary Anderson, que tinha vindo da Jordan, para desenhar e desenvolver aquele que se iria tornar no SF3. Rubens Barrichello continuava, mas tinha como companheiro o inglês Johnny Herbert, que vinha da Sauber. Quer o carro, quer os motores, demonstraram potencial competitivo, mas pouco fiável, pelo menos de inicio. Mas a meio da época, os carros davam nas vistas: Barrichello subuiu ao pódio em San Marino e França, depois de ter feito a pole-position à chuva, a primeira da marca, e Herbert começava a aparecer regularmente nos pontos.


Até que chegou o GP da Europa de 1999. Corrido no circuito de Nurbrurgring, palco das melhores vitórias de Jackie Stewart, os carros nem estavam bem colocados na grelha de partida (14º e 15º colocados), mas aproveitando bem a hecatombe que assistiam à sua frente, chegaram à frente da corrida por alturas da 50ª volta, com Johnny Herbert no primeiro lugar, enquanto que Rubens Barrichello era terceiro. As coisas acabaram assim e Stewart entrava na estrita elite de pilotos vencedores que se tornaram também vencedores como construtor. Antes dele, somente Jack Brabham, Bruce McLaren e Dan Gurney tinham conseguido tal feito. E a vitória tinha acontecido na melhor altura: a Ford tinha comprado a equipa por 60 milhões de dólares, e iriam renomeá-lo de Jaguar Racing. Um verdadeiro negócio para os Stewart, pois eles tinham investido… zero cêntimos do seu bolso para montar a equipa.


No final da temporada, a Stewart Racing tinha conseguido 36 pontos e o quarto lugar entre os construtores, a sua melhor época de sempre. A partir dali, com novas cores, nunca iriam ter o mesmo sucesso anteriormente, pelo menos até ter sido comprado no final de 2004 por Dieter Mateschitz e renomeá-lo de Red Bull.


Hoje em dia, Stewart trabalha como relações públicas para o Royal Bank of Scotland, logo, é muitas vezes visto nas boxes da Williams. Nos últimos anos, recebeu várias condecorações, foi o primeiro nome a ser introduzido no Scottish Sports Hall of Fame (que ajudou a elaborar), e três doutoramentos “Honoris Causa” por três universidades escocesas, a última das quais em Novembro de 2008, por uma das mais famosas da Escócia, a Universidade de St. Andrews.


Fontes:


Santos, Francisco: Grand Prix – A História da Formula 1, Ed. Público, Lisboa, 2003.


http://www.sirjackiestewart.com/ (sitio oficial)
http://en.wikipedia.org/wiki/Jackie_Stewart
http://www.grandprix.com/gpe/drv-stejac.html
http://www.ddavid.com/formula1/stew_bio.htm
http://www.motorsportshalloffame.com/halloffame/1990/Jackie_Stewart_main.htm
http://www.f1girlsonline.com/especialjackiestewart01.html
http://jcspeedway.blogspot.com/2009/06/sir-jackie-o-segundo-escoces-voador.html


http://continental-circus.blogspot.com/2007/07/gp-memria-alemanha-1968.html (Alemanha 1968)

http://continental-circus.blogspot.com/2008/10/francois-cevrt-anatomia-de-um-desastre.html (Acidente mortal de Francois Cevért)


http://continental-circus.blogspot.com/2007/12/bolides-memorveis-stewart-sf3-1999.html (Stewart SF3 de 1999)

http://www.independent.co.uk/news/obituaries/jimmy-stewart-racing-driver-brother-of-jackie-768821.html (Jimmy Stewart)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

O maior legado do Escocês Voador



No capitulo anterior, descrevi em pormenor o acidente que Stewart teve no GP da Belgica de 1966, e aquilo que passou até estar na cama de um hospital inglês, menos de meio dia depois. Foi um acidente que marcou a sua vida e a sua carreira, que o transformou num paladino pela segurança nos circuitos.

O video que coloco aqui faz parte de um documentário biográfico sobre a carreira do "Escocês Voador", tri-campeão do mundo e um dos primeiros pilotos profissionais da Formula 1 moderna. Na altura, pode não ter sido o piloto mais popular do "paddock", mas a médio e longo prazo, as suas acções despertaram a consciência das pessoas, e transformaram a Formula 1 num desporto seguro. É graças a ele, e a outros, que não existem mortes na Formula 1 há 15 anos atrás.

“Se tiver algum legado que gostaria de deixar ao desporto, espero que seja na área da segurança, pois quando cheguei à Formula 1, elas não existiam ou eram diabolicamente insuficientes”.
Ainda bem, Jackie.

Jackie Stewart, 70 anos! A biografia (3ª parte)

(continuação do capitulo anterior)


No início da temporada de 1968, Jackie Stewart desistiu na Africa do Sul, e um acidente numa prova de Formula 2 em Espanha, que o colocou de fora durante mais de um mês, fez pensar que a sua temporada com a Matra iria ser difícil. Mas com a entrada do novo chassis MS10, combinado com os pneus Dunlop, fizeram com que Stewart desse a primeira vitória da marca no circuito holandês de Zandvoort, debaixo de imensa chuva. Três provas mais tarde, no circuito de Nurburgring, debaixo de imensa chuva e nevoeiro, o escocês consegue aquele que, para muitos, é a sua vitória mais memorável da sua carreira.


Partindo do sexto lugar da grelha de partida, depois do “poleman” Jacky Ickx e de Chris Amon, ambos nos seus Ferrari, do Lótus de Graham Hill, do Brabham de Jochen Rindt e do Cooper de Vic Elford. No momento da largada, chovia copiosamente. Hill partiu bem e tomou a liderança, seguido por Amon, Rindt e Stewart. E no final da primeira volta… o escocês era o líder da corrida!


Mas as coisas não ficariam por aí. Para além de ter passado quatro carros nos 22 km de circuito, em condições extremas, tinha aberto... nove segundos de diferença! Nas 13 voltas seguintes, Stewart esteve imparável: os pneus Dunlop do seu Matra MS10 estavam no seu melhor, e o escocês "voava", enquanto que a concorrência "patinava". Tudo isso num circuito que tinha zonas secas e molhadas, o que complicava ainda mais a tarefa dos pilotos. No final da corrida, Stewart cortava a meta com quatro minutos de avanço sobre os restantes concorrentes. Humilhando os seus adversários com uma exibição só paralela a de Tazio Nuvolari, em 1935, e a de Juan Manuel Fangio, em 1957...


Apesar da sua grande exibição, Stewart não deixava de confessar o seu espanto sobre a maneira como ganhou, especialmente sob aquelas condições. Anos mais tarde, descreveu as condições dessa corrida:


"A chuva era incrível - não se via nada! Não via os meus pontos de referência para as travagens, nem o carro à minha frente (...) nem queria pensar o que acontecia atrás de mim. O circuito é estreito e mesmo com boa visibilidade é difícil ver onde estamos. (...)"

"Depois (de chegar à liderança) foi andar o mais depressa possível. Duas voltas depois, tinha uma vantagem de 34 segundos e continuei a aumentá-la, sempre com o cuidado de não pisar qualquer poça. A três voltas do fim, a chuva aumentou. Havia rios cruzando a pista. Perto do Karrussel, o carro fugiu, o motor morreu, derrapei em direcção a um comissário, ao lado de uma árvore. Quando ele saltou para um lado, vi que o ia atropelar, mas aí os pneus aderiram e retomei o controlo do carro. Quando Graham Hill chegou a esse local, saiu de pista, mas o comissário tinha mudado de local..."

" (...)Foi uma vitória esfuziante para mim, mas fiquei ainda mais feliz por acabar a corrida. Esta foi talvez a maior ambição quanto a ganhar em circuito. Aquela corrida jamais deveria ter sido realizada e tê-la ganho com tal vantagem deu-me credibilidade sempre que pedia algo a favor da segurança".


Stewart consegue mais uma vitória, no circuito americano de Watkins Glen, em mais uma vitória convincente para a Matra, e o coloca como um dos candidatos ao título nesse ano. Mas na sua corrida final, no México, as coisas correm mal e não chega mais além do que o sétimo lugar, e perde o título mundial desse ano a favor de Graham Hill.


Stewart começou a temporada de 1969 com o mesmo chassis MS10, enquanto que não vinha o novo carro, que só estrearia no Mónaco. Mas Stewart conseguiu duas vitórias, em Kyalami e Montjuich, começando a temporada com o pé direito. Desistiu no Mónaco, na estreia do novo carro, o MS80, mas a partir daí, venceu quatro das cinco provas seguintes (Zandvoort, Clermont-Ferrand, Silverstone e Monza). Nessa última corrida, o escocês venceu por meio carro o seu rival e grande amigo, o austríaco Jochen Rindt. O seu título mundial foi conquistado com 63 pontos, e por fim dava à Matra o título tão ambicionado: ser o primeiro chassis francês a conseguir um título mundial.


Mas isso foi conseguido através de motores Cosworth, e não com os seus próprios motores, que o escocês achava serem demasiado fracos, apesar de terem 12 cilindros, contra os oito cilindros dos motores Ford. No final de 1969, Lagardére queria que eles usassem os motores Matra na temporada de 1970, algo que nem Stewart, nem Tyrrell queriam, devido aos compromissos que tinham com a Ford. Assim sendo, abandonaram a Matra, mas Ken Tyrrell não queria fazer ainda o seu chassis. Andaram várias semanas à procura outros fabricantes, até aparecer a oferta de uma recém-chegada à Formula 1: a March.


Com um chassis desenhado por Robin Herd e tendo como “manager” um tal Max Mosley, a March era o melhor chassis que poderiam ter na altura. Com motores Cosworth e pneus Firestone, e tendo como companheiro o francês Johnny Servoz-Gavin, Stewart começou bem a época com uma “pole-position” na Africa do Sul e uma vitória em Espanha, mas o chassis não dava para mais, apesar de terem conseguido mais duas polé-positions e mais dois pódios. Com a época a passar e com a ideia cada vez mais feita de que era preciso fazer o seu próprio chassis, Ken Tyrrell recorreu aos serviços de Derek Gardner para construir aquilo que seria o chassis 001.


"A 21 de Janeiro [1970] Ken perguntou-me o que eu achava de construirmos o nosso próprio carro. Ken falaria com o projectista Derek Gardner. Segundo ele, poderia estar pronto no final do Verão. Se fosse rápido, tudo bem, se não fosse, teria sido apenas dinheiro desperdiçado... A 6 de Março, depois de conseguirmos a pole na estreia com o March, tivemos a certeza de que o nosso projecto iria avançar. Só Ken, Derek e eu sabiamos deste SP - Secret Project"


O carro estreou-se no GP do Canadá, no final de Setembro, onde fez a pole-position (Stewart tem o feito inédito de ter sido o piloto que fez “pole-position” para duas equipas no mesmo ano), mas desistiu. No final daquela temporada, Stewart marcou 25 pontos e acabou na quinta posição no campeonato, numa temporada nitidamente de transição.


(continua amanhã)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Jackie Stewart, 70 anos! - A biografia (2ª parte)

(continuação do capitulo anterior)


A temporada de 1966 começa primeiro com a vitória no inicio do ano na Tasman Séries, o campeonato de Formula 1 que acontecia na Austrália e Nova Zelândia, e quando o campeonato começou oficialmente, com uma vitória retumbante na corrida inaugural, disputado nas ruas do Mónaco, a bordo da sua BRM. E poucas semanas mais tarde, nas 500 Milhas de Indianápolis, a bordo do Lola T90-Ford, Stewart ia a caminho de uma inédita vitória, quando uma avaria de uma bomba de combustível, a oito voltas do fim, o impediu de vencer à primeira a mítica corrida americana. No entanto, a sua prestação na prova lhe valeu ter sido eleito pelos pares como o “Rookie do Ano”, numa corrida onde outro “rookie”, Graham Hill, foi o vencedor.


Após as 500 Milhas, Stewart foi correr o GP da Bélgica, realizado no enorme traçado de Spa-Francochamps. Então com 21 quilómetros, era um circuito tão desafiador com o de Nurbrurgring, na Alemanha e tal como ele, estava sujeito aos caprichos do tempo. Nessa corrida, ganha por John Surtees, na sua última vitória ao serviço da Ferrari, Stewart tem o acidente mais marcante da sua vida, que o iria despertar para a pouca ou nenhuma segurança existente na altura, e que seria a sua causa durante a sua carreira de piloto.


Eu devia ir a uns 265 km/hora quando o carro entrou em acquaplaning e perdi o controlo. Primeiro bati contra um poste telegráfico e depois entrei na fazenda de um lenhador e acabei na cave exterior de uma propriedade. O carro ficou todo retorcido, comigo preso dentro dele. O tanque de combustível tinha rebentado internamente e o monocoque estava todo cheio de gasolina, que enchia o cockpit, O painel de instrumentos fora arrancado e encontrado a uns 200 metros do carro, mas a bomba de gasolina elétrica continuava a funcionar. Não conseguia retirar o volante e não conseguia sair dali”, contou anos depois, na sua autobiografia.


O primeiro a socorrer foi o seu companheiro de equipa Graham Hill. Ele contou na altura como foi o resgate: “A primeira coisa que fiz foi desligar tudo para a bomba não puxar mais gasolina para dentro do carro e para não haver o perigo de alguma faísca. A gasolina estava a queimar o Jackie, isso pode até arrancar a pele de uma pessoa somente pela reacção química. Tentei levantá-lo, ele estava atordoado e queixava-se de dores no ombro. Foi quando vi que tinha de retirar o volante para o retirar, mas estava preso contra as suas pernas. Corri para pegar uma caixa de ferramentas junto de um comissário. Foi então que conseguimos tirar o Jackie do carro e ficar seguros que o BRM não se ia transformar numa tocha.


Levamo-lo para uma propriedade e despimo-lo. Não chegavam os socorros, pelo que telefonei de um posto de comissários. Quando as enfermeiras chegaram, a primeira coisa que fizeram foi tapar o Jackie com o seu próprio macacão ensopado em gasolina! Foi uma luta com elas, que estavam mais preocupadas com a nudez do que com a saúde dele
”, referiu.


Stewart continuou depois o seu relato: “No meio delírio, nem sei mesmo se elas lá estiveram. Tinha magoado o pescoço, deslocado o ombro e fracturado costelas, com mais umas contusões nas minhas costas. No entanto, a minha maior preocupação era estar ensopado em gasolina. No fim, tive queimaduras e a toda a minha pele caiu.

O edifício para onde fui levado, um tal de centro médico mas na realidade mais parecia uma lixeira, com pontas de cigarros e porcaria. Meteram-me numa ambulância e levaram-me para o Hospital de Liége, ainda longe. Para piorar as coisas, o condutor da ambulância perdeu-se da escolta policial e não sabia o caminho. Apesar de todos estes precalços, seis horas após o acidente, estava no Hospital de St. Thomas, graças a Louis Stanley
[patrão da BRM]”, concluiu.


O piloto escocês ficou de fora na corrida seguinte, em Reims, mas regressou ao activo em Brands Hatch, palco do GP de Inglaterra. E aí tinha tomado medidas preventivas, em caso de novo acidente: “Coloquei no meu BRM uma chave de fendas no meu cockpit, colada com fita adesiva, com instruções escritas em tinta fluorescente na língua do país onde estivesse correndo. Era um pormenor importante para quem ficasse preso num carro, como eu”, afirmou.


Graças à ajuda do seu patrão, Louis Stanley, decidiu implementar medidas no seu carro, como o uso de cintos de segurança, volantes removíveis, e capacetes integrais, para além de uma ambulância médica, para socorrer os pilotos no local, em caso de acidente. Contratou um médico que o acompanhava em permanência. Mais tarde, estas medidas ajudaram a revitalizar a Grand Prix Drivers Association (GPDA), para pressionar os organizadores para melhorar as condições de segurança das pistas. Algo que foi criticado na altura por pessoas como o ex-piloto Stirling Moss:


Eu fui presidente da GPDA em 1963 e tentamos motivar os organizadores a melhorarem os circuitos, sobretudo para os espectadores. Não defendemos que devem ser cortadas árvores, por exemplo, eliminar coisas que os tornam interessantes. Não queremos zonas de escape. Nós gostamos dos riscos naturais, como no Mónaco, ou de precipícios. Gostaríamos de fazer um circuito à volta de Hyde Park ou Central Park sem mudar nada na sua topografia. Não tem graça jogar a feijões…”


Anos mais tarde, Stewart defendeu-se destas acusações na sua autobiografia: “A minha postura era de que, como piloto, estava a ser pago pela minha técnica de pilotagem. No entanto, não era pago para por a minha vida em risco. Foi muito difícil conseguir apoio para o que queria. Havia criticismo de alguns pilotos e os media, com algumas pessoas a afirmar que se eu não conseguia aguentar a pressão, devia ir embora. Fui acusado de tentar embrulhar os pilotos em lã e algodão, e de roubar todo o romance e espectacularidade em volta da competição. Este era um desporto em que as lesões graves e a morte rondavam a toda a hora, e não havia uma infraestrutura para o apoiar, e muito poucas medidas de segurança para o evitar. Por isso achei na altura que devia fazer alguma coisa”, afirmou.


E a sua luta valeu a pena, mesmo na altura. Alguns pilotos o defenderam, como o neozelandês Chris Amon, que disse uma frase que resumia tudo: “Jackie falava por todos nós. Ele era o único com coragem para o fazer”. E anos depois, quando resumiu a sua carreira, afirmou: “Se tiver algum legado que gostaria de deixar ao desporto, espero que seja na área da segurança, pois quando cheguei à Formula 1, elas não existiam ou eram diabolicamente insuficientes”.


Em termos competitivos, o resto da época foi discreto: só conseguiu mais duas classificações nos pontos e o sétimo lugar no campeonato, com 14 pontos. Nessa altura, a formula 1 passava por uma era de transição, com os motores de 1.5 Litros a serem substituídos por os de 3 Litros, e a BRM era das poucas a ter o seu próprio motor, o H16, que era pouco fiável e pouco competitivo, face aos motores Repco V8 da Brabham e aos novos Cosworth V8 que só se iriam estrear no ano seguinte.


Prova disso foi que na temporada de 1967, Stewart conseguiu apenas dois pódios e dez pontos no total. Nessa altura, corria com Ken Tyrrell na Formula 2, a bordo dos seus Matra M5 ou M7S, e ganhara quatro provas na Europa: Karlskoga, na Suécia, Albi, em França, Enna-Pergusa, em Itália e Oulton Park, na Grã-Bretanha.


Nessa altura, a Matra tinha-se decidido aventurar-se na Formula 1, com o apoio do estado francês e sob a liderança de Jean-Luc Lagardére. Ele iria construir um motor V12 (que ficaria na história com o seu silvo característico), mas precisava de um piloto e um “manager” competitivos para a sua equipa. Com Ken Tyrrell a cuidar da sua equipa de Formula 2, a escolha foi natural, mas Stewart trazia consigo um fornecimento de motores Cosworth, pois era apoiado pela casa, através de Walter Hayes, então vice-presidente da Ford para a Europa. Com motor e piloto, o chassis Matra era combinação ideal para Stewart arriscar uma mudança. Assim o fez, no inicio da época de 1968, e iria ficar até ao final da sua carreira.


(continua amanhã)