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domingo, 19 de agosto de 2018

Youtube Formula One Classic: 1973, GP da Áustria


Duas semanas depois de Jackie Stewart ter vencido de forma convincente o GP da Alemanha, em dobradinha com Francois Cevért - segunda consecutiva da Tyrrell - máquinas e pilotos estavam em Zeltweg para o GP da Áustria, numa altura em que o campeonato começava a ser decidido a favor do piloto escocês. E Emerson Fittipaldi tinha aqui a sua última grande chance de alcançar o escocês no comando.

Aqui coloco, ao vivo e a cores - sem narração - a corrida completa do campeonato de 1973, onde José Carlos Pace iria obter pela segunda corrida consecutiva a volta mais rápida, e o seu primeiro pódio, um terceiro posto com o seu Surtees, atrás apenas do vencedor, o sueco Ronnie Peterson, e do segundo classificado, Jackie Stewart

Eis a corrida na íntegra.

domingo, 12 de agosto de 2018

A personagem do dia - Enzo Ferrari (Parte 3)

(continuação do capitulo anterior)



SUCESSO EM LE MANS, REVOLTA EM MARANELLO



Como já foi dito num capitulo anterior, o primeiro grande sucesso da Ferrari foi em Le Mans, quando Luigi Chinetti venceu a edição de 1949. A Ferrari voltou a vencer cinco anos depois, com Froilan Gonzalez e Maurice Trintignant, a bordo do modelo 375 Plus. Quatro anos depois, com o modelo 250 TR/58 guiado pelo belga Olivier Gendebien e pelo americano Phil Hill, a Scuderia tinha acabado de vencer pela terceira vez em La Sarthe. 

Por esta altura, já havia o Mundial de Endurance, onde as marcas contavam para o campeonato, independentemente dos pilotos que os guiavam. Enzo Ferrari tinha uma enorme equipa, onde substituíam os pilotos à media que saiam ou morriam. Wolfgang Von Trips tinha já chegado, mas também os belgas Olivier Gendebien e Paul Frére - outro belga surgiria mais tarde, Willy Mairesse - e mais tarde surgiriam outros americanos, recomendados por Chinetti: Dan Gurney e Richie Ginther.

Em 1959, a Ferrari tinha o britânico Tony Brooks e os americanos Gurney e Ginther, com Von Trips a ajudar. Mas nesse ano, os ingleses começavam a dominar a Formula 1, especialmente os Cooper de modelo traseiro. Ferrari desprezava-os - chamou-os de garagistas - mas eram eles que se concentravam em construir carros de competição e vencer corridas. Stirling Moss tinha provado isso quando vencera o GP da Argentina de 1958 com o pequeno Cooper, e no ano seguinte, com Jack Brabham ao volante, alcançou o título mundial.

A temporada de 1960 seria a última dos motores de 2.5 litros, para passar a ser a de 1,5 litros. Ferrari rendeu-se ao motor traseiro, aproveitou o motor Dino, projetado pelo seu falecido filho, com a ajuda de Vittorio Jano, e meteu nos modelos 156 - sigla para V6 de 1,5 litros - e em 1961, estava pronto para alcançar o título mundial. Tinha uma boa dupla no americano Phil Hill e no alemão Wolfgang Von Trips, e secundários como Richie Ginther, Olivier Gendebien, Willy Mairesse e um jovem mexicano de apenas 19 anos, chamado Ricardo Rodriguez. O título acabou por se decidir no GP de Itália, a 10 de setembro de 1961. E acabou mal.

Von Trips, o "poleman", largou mal e no final da primeira volta, procurava recuperar posições quando chegou ao final da reta oposta ao lado do Lotus do escocês Jim Clark. Na travagem para a Parabólica, as rodas de ambos os carros tocaram-se e Von Trips saiu disparado para as bancadas, matando-se a ele e a mais 14 pessoas. Hill venceu a corrida e o campeonato, sendo o primeiro americano a fazê-lo, mas o custo foi enorme. E como em 1957, Ferrari sentiu a opinião pública contra ele.

No ano seguinte, a concorrência apanhou os Ferrari, especialmente a Lotus, com o seu modelo 25, o primeiro com monocoque. Hill, Mairesse, Giancarlo Baghetti e Ricardo Rodriguez sofriam com o 156 desfasado, e para piorar as coisas, havia agitação dentro da fábrica de Maranello. Um conjunto de personagens importantes, entre eles Carlo Chiti, o engenheiro por trás do V6 de Formula 1, Giotto Bizarrini, o chefe do departamento de engenheria, Romolo Tavoni, o chefe de equipa, e Girolamo Gardini, chefe do departamento de vendas, revoltaram-se contra Ferrari - a razão tinha sido sua mulher, Laura - e foram despedidos. Eles acabaram por criar a Automobili Turismo & Sport, que faliu ao fim de dois anos. E para além deles, arrastaram pilotos como Phil Hill e Giancarlo Baghetti.

Anos depois, em 1998, Romolo Tavoni confirmou o despedimento numa entrevista. "Nosso erro foi ter ido a um advogado e escrever-lhe uma carta, em vez de discutir abertamente a questão com ele. Sabíamos que sua esposa não estava bem [devido à morte de Dino]. Deveríamos ter sido capazes de lidar com isso de uma maneira diferente. Quando ele convocou a reunião para nos despedir, ele já havia nomeado nossos sucessores”, contou.

Ferrari não se abalou com esta enorme deserção, e promoveu jovens engenheiros aos seus lugares, dois deles foram Mauro Forgheri e Gian Paolo Dallara. Outro que entrou na equipa foi Sergio Scaglietti. E em relação aos pilotos, promoveu italianos como Ludovico Scarfiotti e Lorenzo Bandini, e contratou os britânicos John Surtees e Mike Parkes.

Mas também foi nesta altura que recebeu uma oferta irrecusável. Henry Ford II, o "Deuce", neto de Henry Ford, estava interessado no automobilismo e acharia que adquirir a Ferrari seria uma coisa ótima para o seu portfólio. Deu uma oferta irrecusável a Enzo Ferrari, mas recusou. Ford aceitou mal a decisão e jurou que o iria bater na pista e na corrida onde era mais bem sucedido: as 24 horas de Le Mans.

E de facto, era verdade: desde 1960 que eles eram sempre os vencedores.

Em 1964, a Ferrari voltou a vencer o campeonato do mundo de Formula 1, com Surtees ao volante, e com... concorrência interna. Amadeo Dragoni, o diretor de equipa, queria que Bandini fosse o primeiro piloto, em detrimento de Surtees, que não só era bom piloto mas tinha boas capacidades de engenharia. A Ferrari continuaria a vencer em 1965 em Le Mans, apesar da Ford mostrar os seus carros, com os GT40, engenheiros como Carrol Shelby, e pilotos como Ken Miles.

A temporada de 1966, a primeira com os motores de 3 litros na Formula 1, tinha tudo para ser mais uma de consagração para a Ferrari. John Surtees venceu na Bélgica, mas as intrigas palacianas levaram a melhor. Durante as 24 Horas de Le Mans desse ano, Amadeo Dragoni conseguiu excluir John Surtees da equipa, alegando não estar em forma para uma corrida dessas - tinha sofrido um acidente no ano anterior em Mosport, deixando-o fora do volante para o resto do ano. Irado, Surtees deixou o circuito e foi a guiar até chegar a Maranello no dia seguinte. Ali, discutiu com o Commendatore e decidiram cada um seguir o seu caminho. Surtees foi para a Cooper e o título mundial caiu nas mãos de Jack Brabham, apesar da vitória de Ludovico Scarfiotti em Monza. E em Le Mans, a Ford conseguiu a sua vitória, com os três carros nos três primeiros. Ferrari voltaria a tentar, mas nunca mais venceria em La Sarthe.

(continua amanhã)  

sábado, 4 de agosto de 2018

GP Memória - Alemanha 1963

Duas semanas depois do GP britânico, máquinas e pilotos encaravam o GP da Alemanha, no Nurburgring Nordschleife. Com Jim Clark a dominar o campeonato, todos já sabiam que apenas um problema iria tirar o escocês da vitória, e naquela temporada, ele já tinha praticamente o título na mão. 

Na lista de inscritos, havia algumas novidades. Os ATS iriam participar na prova, mas durante a viagem, o camião que levava os chassis sofreu um acidente e acabaram por não participar na prova. Os Scirocco estavam presentes, bem como a inscrição individual de Bernard Collomb, que guiava um Lotus 24. A Scuderia Centro Sud inscrevia um segundo piloto ao lado de Lorenzo Bandini, o português Mário de Araújo Cabral, a bordo de um Cooper-Climax. Outros Lotus iriam participar, nomeadamente os inscritos pela Reg Parnell Racing, com Tim Parnell e o belga André Pilette, e o Lotus com motor Borgward, inscrito pelo local Kurt Kuhnke.

Carl Godin de Beaufort inscreveu um segundo Porsche da sua Ecurie Maasbergen para outro local, Gerhard Mitter.

Na qualificação, Clark foi pole, com John Surtees atrás dele, no seu Ferrari. Bandini foi terceiro, no BRM da Scuderia Centro Sud, melhor que o BRM oficial de Graham Hill. Bruce McLaren fizera o quinto melhor tempo, no Cooper-Climax, seguido pelo BRM de Richie Ginther. Willy Mairesse era sétimo, no segundo Ferrari, seguido por Jack Brabham, no seu carro, de Jo Siffert, no Lotus da Rob Walker Racing, e de Tony Maggs, no segundo Cooper-Climax oficial.

Quatro pilotos não se qualificaram: os Lotus da Parnell de André Pilette e Tim Parnell, o Gilby de Ian Gilby e o Lotus-Borgward de Kurt Kuhnke.

A corrida começou com Clark a liderar de Surtees e Hill, enquanto atrás, havia confusão: Bandini perdeu o controlo do seu BRM, e bateu no Lotus-BRP de Innes Ireland, acabando ambos na berma. Mais adiante, Willy Mairesse sofreu um acidente grave, acabando também na valeta, com ferimentos num braço e matando um condutor de ambulância. Atrás, Chris Amon tinha ficado sem direção e desistiu de imediato da corrida. Contudo, no final da primeira volta, Clark teve problemas de motor, e caíra para terceiro, atrás de Ginther e Surtees.

Graham Hill ficou sem caixa de velocidades na segunda volta, deixando Ginther e Surtees lutando entre si pela liderança. O americano teve também problemas na caixa de velocidades e cedeu a liderança ao piloto da Ferrari. Surtees começou a afastar-se da concorrência, e Clark, com o motor apenas em sete cilindros, tinha dificuldade em aguentar os ataques do Cooper de Maggs, antes deste ter tido problemas com a caixa de velocidades. Ginther herdou o terceiro posto, mas não podia ir atrás de Clark, pois lidava com o seus problemas.

No final, Surtees deu à Ferrari a sua primeira vitória do ano e a sua primeira na Scuderia, com Clark a ser segundo - a única vez na sua carreira que ficou nessa posição - e Ginther a ficar no lugar mais baixo do pódio. O Porsche de Gerhard Mitter foi quarto, seguido pelo Lotus de Jim Hall e pelo Cooper de Jo Bonnier.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

GP Memória - Grã-Bretanha 1963

Duas semanas depois de terem corrido em Rouen, a Formula 1 atravessava o Canal da Mancha para participar no GP da Grã-Bretanha, que fazia o seu regresso a Silverstone, depois de dois anos de ausência do calendário. 

Havia alguns debutantes na lista de inscritos para a corrida britânica, que largaram a lista de inscritos para 23. Dois deles eram pilotos de motociclismo: Mike Hailwood, que tentava a sua sorte num Lotus-Climax da Reg Parnell Racing, e Bob Anderson, que iria correr a bordo de um Lola da DW Racing Enterprises.

Na Scirocco, finalmente havia um segundo carros para Ian Burgess, e iria correr ao lado de Tony Settember. Em contraste, quem deveria ter aparecido em Silvertone era a ATS, mas os carros de Phil Hill e Giancarlo Baghetti não ficaram prontos a tempo.

No final da qualificação, Clark fez a pole-position, com Dan Gurney, no seu Brabham, e Graham Hill, no seu BRM, logo a seguir. Jack Brabham era quarto, na frente de John Surtees, na sua Ferrari. Bruce McLaren era o sexto, no seu Cooper-Climax, seguido do seu companheiro de equipa, Tony Maggs, do BRM de Lorenzo Bandini - o melhor dos privados - e a fechar o "top ten" estavam o BRM oficial de Richie Ginther e o segundo Lotus de Trevor Taylor.

Na partida, Clark largou mal e viu Brabham e Gurney ficar com os primeiros lugares. O escocÊs era quinto, atrás de McLaren e Hill, mas ao fim de quarto voltas, o escocês já os tinha passado e estava no comando da corrida. McLaren iria desistir pouco depois, com o motor Climax avariado, e na volta 27, era a vez de Jack Brabham encostar de vez, também devido a um motor rebentado. Hill era terceiro, mas cedo o seu lugar foi ameaçado pelo Ferrari de Surtees.

Gurney tentava acompanhar Clark no segundo posto, mas na volta 59, o seu motor também explodiu e viu o resto da corrida das boxes. Com isso, o escocês estava confortável a caminho da vitória, o que acabou por acontecer. Mas na última volta, houve drama, quando Hill ficou sem combustível no seu BRM e perdeu o segundo posto para Surtees. trocando de lugares com a bandeira de xadrez.

Com os três primeiros definidos e Clark a ser celebrado pela multidão, com Colin Chapman a seu lado, nos restantes lugares pontuáveis ficaram os BRM de Richie Ginther e de Lorenzo Bandini - este sendo da Scuderia Centro Sud, e a fechar, o Lotus-BRM do americano Jim Hall.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Vende-se: BMW 507 de John Surtees

Este está a ser um bom ano para os leilões de clássicos. Depois de termos visto esta semana carros e fatos de Ayrton Senna, agora vamos ver um "daily driver". E não é um qualquer, é um BMW de luxo dos anos 50, que teve apenas um dono, mas não foi um mero dono qualquer. "Apenas" uma lenda do automobilismo e do motociclismo. Pois bem, este raro BMW 507 Coupé está à venda. A casa de leilões Bonhams vai leiloar este belo exemplar de 1957 que foi propriedade de John Surtees por mais de 50 anos. 

Tudo aconteceu em 1957, depois de ele ter conseguido o seu primeiro título mundial pela MV Agusta. O Conde Agusta queria dar uma recompensa ao seu piloto pela conquista do Mundial do ano anterior, e Surtees viu este carro em Hockenheim, guiado por Alexander von Falkenhausen. Apaixonado por ele, convenceu-o a adquirir o carro por três mil libras, uma fortuna na altura. Para além disso, ajudou a desenvolver pneus para a Dunlop e como recompensa, o carro têm travões de disco às quatro rodas.

Quando no final de 1962, ele foi para a Ferrari correr para eles, apareceu em Maranello ao volante do BMW, algo do qual Enzo Ferrari recompensou... com um desconto no seu salário!

Surtees, o único piloto que foi campeão nas duas e quatro rodas, e também foi construtor, usava este carro frequentemente até morrer, em março do ano passado.

O leilão vai acontecer a 13 de julho, em Goodwood, e sem reserva, a casa de leilões acha que poderá alcançar valores na ordem dos dois milhões de libras.

sexta-feira, 17 de março de 2017

A imagem do dia

Na história da Formula 1, apenas três pilotos venceram como construtores: Jack Brabham, Bruce McLaren e Dan Gurney, como construtor da Eagle, no GP da Bélgica de 1967. Contudo,há um quarto piloto do qual poderemos dizer que também venceu a bordo das suas próprias máquinas. E ainda por cima, venceu por duas vezes no mesmo circuito! Trata-se de John Surtees, que venceu em 1970 e 71 na Gold Cup, disputado no circuito britânico de Oulton Park.

Como é sabido, no final de 1969, Surtees decidiu abandonar a BRM, depois de um ano infernal com eles, e achou por bem que construir o seu próprio chassis seria o ideal. Contudo, este não ficou pronto logo na temporada de 1970, e começou com um McLaren. Só teve o seu carro, o TS7, em Brands Hatch, no GP da Grã-Bretanha.

Poucas semanas depois, a 22 de agosto, Surtees alinhou em Oulton Park, para o International Gold Cup, uma das muitas provas extra-campeonato existentes um pouco por toda a Grã-Bretanha. Contra ele, tinha mais alguns carros de Formula 1, um dos quais o Lotus 72 de Jochen Rindt e o Tyrrell 001 de Jackie Stewart. Aliás, era a estreia do Tyrrell com chassis próprio, numa corrida de automóveis. O resto do pelotão era constituido por carros de Formula 5000, mais baratos, mas menos potentes.

A corrida teve duas mangas, e Surtees venceu a primeira, com o BRM de Jackie Oliver em segundo e o Lotus de Rindt em terceiro a 12,4 segundos. Na segunda corrida, Rindt venceu, mas Surtees foi o segundo, a 9,4 segundos, e no conjunto das duas mãos, Surtees acabou sendo o vencedor. Para Rindt, aquela seria a sua última vitória, pois iria morrer três semanas depois, em Monza.

No ano seguinte, Surtees voltou como vencedor, e claro, cabeça de cartaz da edição de 1971, como podem ver na imagem acima. Nesse ano, dos 24 carros que apareceram, oito eram de Formula 1, num pelotão de Formula 5000. Surtees andava no novo TS9, e entre os outros carros de Formula 1, haviam os BRM de Hownden Ganley e Peter Gethin ou os March 711 de Henri Pescarolo e Mike Beuttler.

Os Formula 1 foram mais velozes, com Gethin a fazer a pole-position, enquanto que Henri Pescarolo venceu na primeira manga. Surtees largava do quarto lugar na grelha e acabou em terceiro na primeira manga, enquanto que na segunda, aproveitou para passar os BRM e a desistencia do piloto francês para ficar com o primeiro lugar e vencer a Gold Cup, com Ganley em segundo. 

Curiosamente, nessa corrida, tinham alinhado mais dois Surtees, mas de Formula 5000: um para Alan Rollinson, que acabou em quarto, e outro para Mike Hailwood, que ficou no 12º posto, a cinco voltas do vencedor.

quinta-feira, 16 de março de 2017

A imagem do dia

Quase uma semana após o desaparecimento de John Surtees, dei de caras com o momento em que ele começou a passar das duas para as quatro rodas. A coisa interessante sobre o próprio "Big John" é que em 1960, quando essa transição aconteceu, ele não tinha qualquer intenção de se meter nas quatro rodas. No final, foi um misto de aborrecimento, escape de um contrato que lhe era desfavorável e oportunidade.

Tudo começou em 1959, quando Surtees estava no auge da sua carreira nas motos. Vencia tudo nas classes de 350 e 500cc, graças às máquinas italianas da MV Agusta. O conde Agusta estava feliz por saber que tinha o melhor piloto do pelotão, mas surtees estava aborrecido. Queria ter maior liberdade no seu contrato, especialmente para correr noutras máquinas, entre os Grandes prémios de motociclismo. Agusta recusou, e depois de pensar um bocado, recordou uma conversa que tinha tido algum tempo antes com Mike Hawthorn: de que deveria tentar os automóveis, não só porque tinham mais duas rodas que as motos, mas também "porque não cais tão facilmente", citando o primeiro campeão inglês de Formula 1.  

Como nada havia no seu contrato que impedisse de correr em quatro rodas, Surtees tentou a sua sorte num Aston Martin de Le Mans. Esse teste aconteceu em Goodwood e ele andou bem. Tão bem que... superou os tempos feitos por Stirling Moss no mesmo carro. Os resultados do teste chegaram aos ouvidos de Tony Vanderwell, dono da Vanwall, que ficou fascinado com o que Surtees tinha feito, e telefonou-lhe, oferecendo um dos exemplares do carro de 1958. 

Surtees contou esse episódio anos depois, à Motorsport: "Ele disse, 'o que diabos você estava a fazer dirigindo essa coisa? Por que você não me disse que queria experimentar um carro?' Ele me disse para estar em Goodwood no dia seguinte, onde havia um Vanwall de Formula 1 à minha espera."

Dito e feito: com o Vanwall à sua espera, Surtees saltou para o carro e fez tempos melhores do que Tony Brooks e Stirling Moss. Vencidas as reticências, Surtees alinhou na sua primeira corrida, uma prova de Formula Junior em Goodwood, no inicio de 1960. O seu maior rival na grelha? Um tímido escocês chamado... Jim Clark, que alinhava num Lotus. Surtees estava num Cooper-BMC inscrito por um madeireiro chamado Ken Tyrrell.

A corrida foi um duelo entre Clark (que estava a fazer a sua segunda corrida em monolugares!) e Surtees, que tinha feito a pole-position. Tudo acabou quando ele bateu contra um concorrente que iria dobrar. Mas a experiência - e a maneira como duelou com o escocês - foi mais do que suficiente para que corresse na Formula 1 logo nesse ano, no GP do Mónaco. A bordo de um Lotus 18, que tinha como companheiro de equipa... Clark.

A corrida nas ruas monegascas não teve o inicio que queria, desistindo ao fim de 17 voltas, mas em Silverstone, conseguiu o seu primeiro pódio, um segundo lugar. E na Boavista, conseguiu ainda mais: uma pole-position, a primeira de sempre da equipa de Colin Chapman. Liderou a corrida sem problemas até à volta 37, quando uma fuga de óleo o fez escorregar o seu pé do pedal do travão e causou uma batida contra os fardos de palha. Mas tinha convencido Chapman ao ponto de ele poder escolher o seu companheiro de equipa. Ele quis Clark, mas sentiu pena por Innes Ireland, com quem tinha uma boa relação de amizade, e decidiu ele mesmo sair da Lotus.

Mas ele já tinha feito a decisão de ir para as quatro rodas, retirando-se das duas no auge, com ambos os títulos de 350 e 500cc no bolso.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Youtube Motorsport Documentary: A vida e carreira de John Surtees


Campeão do mundo das duas e quatro rodas, foi piloto e construtor, e correu uma variedade de carros e motos. A carreira foi longa, e nem sempre proveitosa. Teve acidentes graves, zangas eternas com personalidades como Enzo Ferrari, uma personalidade algo dificil de se tratar - José Carlos Pace que o diga... - e sentiu no final da sua vida a dolorosa perda do seu filho Henry, vitima de um acidente de viação do qual foi um tremendo azar.

A Sky Sports fez este documentário, algures em 2016, para contar a sua carreira e vida. Vale a pena vê-la, ainda mais no dia em que saiu da vida e passou para os livros de História. Um dia destes, ainda veremos um filme ou um documentário sobre ele. 

The End: John Surtees (1934-2017)

O britânico John Surtees, único piloto que venceu em duas e quatro rodas, morreu esta tarde aos 83 anos de idade, segundo informou a familia. "Big John" estava internado há cerca de um mês com problemas respiratórios. Era o campeão do mundo mais antigo ainda vivo e um dos poucos pilotos ainda vivos da década de 60.

"Big John" nasceu a 11 de fevereiro de 1934 no sul de Londres. O seu pai era Jack Surtees, que tinha sido piloto de motos na sua juventude, e tinha, depois de pendurar o capacete, decidido abrir um concessionário de motos. O final da II Guerra pode ter acabado a carreira do pai, mas abriu a carreira do filho, pois em 1948, começou a correr numa Vincent. A primeira prova foi num sidecar, com Jack ao volante. Ambois venceram, mas quando os organizadores descobriram que John ainda era menor de idade - tinha 14 anos - acabaram por desclassifica-lo. 

No ano seguinte, começou a andar sozinho em motos, e logo, melhorou os seus talentos em cima de duas rodas. Com uma Vincent - firma do qual foi trabalhar como aprendiz em 1950 - começou a mostrar o seu talento como piloto de fábrica, e cedo passou para motos mais potentes, como Triumph e Norton. Foi em cima de uma moto de 250cc, comprado por doze libras, que venceu a sua primeira corrida em Brands Hatch, em 1951.

Com o passar dos anos, Surtees chamou a atenção da Norton, com bons resultados, especialmente na corrida de Ulster. Foi aí que conseguiu o seu primeiro pódio, em 1955, o suficiente para que Joe Craig, o patrão da marca. lhe desse uma chance. Contudo, com todo o talento mostrado, a Norton passava por dificuldades, e libertou do seu contrato no final dessa temporada.

Assim sendo, Surtees foi para Itália, onde assinou pela MV Agusta. O Conde Agusta tinha ficado admirado com as suas capacidades, e logo em 1956, participou no mundial com motos de 350 e 500cc, numa altura em que os pilotos poderiam participar em mais do que uma categoria. Nesse ano, conseguiu o seu primeiro campeonato de 500cc, e os italianos o chamaram de "filho do vento".

No final de 1957, Gilera e Moto Guzzi tinham decidido abandonar o campeonato, e basicamente as MV Agusta dominaram as pistas. Entre 1958 e 1960, Surtees venceu tudo: não só os campeonatos de 350 e 500cc, como também o Isle of Man TT e o Ulster TT. Em suma, dominou em todas as provas onde tinha duas rodas. Em 1959, a BBC nomeou-o como "Personalidade do Ano", o primeiro motociclista a sê-lo.

Por essa altura, tinha 27 anos. Estava no auge, e decidiu que era a melhor altura para mudar de montada. Passou das duas para as quatro rodas, e em 1960, a sua adaptação foi fenomenal. Ainda corria na MV Agusta, mas decidiu ir para a Lotus, correndo na equipa oficial em algumas corridas seleccionadas. Começou no Mónaco, e na Grã-Bretanha, alcançou o seu primeiro pódio, um segundo lugar. Mas o melhor foi na Boavista, palco do GP de Portugal, onde conseguiu a pole-position, a primeira da Lotus na sua carreira. Na corrida, Surtees não chegou ao fim, mas fez a volta mais rápida.

Apesar de tudo, Surtees não quis ficar na Lotus, pois viu que as máquinas de Colin Chapman eram demasiado perigosas. Em Spa-Francochamps, por exemplo, viu dois pilotos morrerem, Chris Bristow e Alan Stacey, e outros dois ficaram feridos, Stirling Moss e John Taylor. O detalhe comum a todos eles era que guiavam Lotus. Assim, sendo eles carros demasiado perigosos para ele, foi correr com um chassis Cooper em 1961.

A sua primeira grande temporada foi em 1962, quando com o Lola da Bowmaker-Yeoman Credit, conseguiu dois segundos lugares e 19 pontos no total, acabando o campeonato no quarto lugar. Foi nessa altura em que chamou a atenção de Enzo Ferrari, que o contratou com vista à temporada de 1963, ao lado de Ludovico Scarfiotti e Lorenzo Bandini, entre outros. Os seus conhecimentos eram preciosos, e Surtees corria bem quer na Formula 1, quer na Endurance. A sua primeira vitória foi no Nurburgring Nordschleife, e repetiu o mesmo no ano seguinte, para além de outra vitória em Itália, o que o colocou numa excelente posição para alcançar o título mundial contra o BRM de Graham Hill.

A última corrida do ano foi na Cidade do México. Os Ferrari, pintados de azul e branco com as cores dos Estados Unidos, tinham Surtees e Bandini, e na corrida, o italiano andou atrás de Hill no sentido de o passar e conseguir abrir uma distância maior entre os dois. Ambos tocaram-se na volta 39, com Hill a atrasar-se de modo irremediável, e com muitos a dizerem que o italiano tinha feito isso de propósito.

Mas se Hill estava de fora, havia outros candidatos. Jim Clark era um deles, e parecia que ia a caminho da revalidação do seu título quando na última volta, o seu motor explodiu. Surtees precisava de um terceiro lugar para ser campeão, mas ainda nessa altura, Bandini deixou-o passar e ficou na segunda posição, atrás do vencedor, Dan Gurney, no seu Brabham. Naquele dia, Surtees tinha entrado na história: para além das duas rodas, também era campeão nas quatro. E pela Ferrari.

No ano seguinte, Surtees voltou a ganhar... mas na Endurance, ao vencer os 1000 km de Nurburgring. Contudo, a 25 de setembro, quando corria uma prova em Mosport ao volante de um Lola, sofreu um grave acidente que o deixou fora de combate por cerca de três meses. A reabilitação tinha sido longa, mas com persistência, Surtees conseguiu. Por essa altura, ele estava a ter uma discussão com Eugenio Dragoni, o diretor desportivo da Ferrari, que não gostava de Surtees e preferia Bandini. Quando Surtees voltou a correr no inicio de 1966 - e voltou com vitórias nos 1000 km de Monza e no GP da Bélgica, em Formula 1 - fez de tudo para o impedir de correr. E foi o que aconteceu nas 24 Horas de Le Mans. Ao exclui-lo da corrida, Surtees, furioso, pegou no carro e foi ter a Modena, para falar com Enzo Ferrari. No final da conversa, "Big John" despedia-se da Scuderia de vez.

Surtees foi para a Cooper, voltou a ganhar no México e acabou a temporada como vice-campeão. No ano seguinte, seguiu para a Honda, onde lhes pediu para que construisse um chassis com as suas especificações. Pediram à Lola para que fizesse isso - daí ele se ter chamado de "Hondola" - e resultou, pois Surtees venceu o GP de Itália ao sprint, batendo Jack Brabham por centésimos de segundo. Continuou até ao final de 1968, quando a marca japonesa decidiu abandonar a Formula 1.

Depois de uma passagem curta pela BRM, decidiu criar a sua própria equipa. A Team Surtees serviu para que os carros fossem feitos à sua maneira. John foi piloto e amealhou os seus últimos pontos, pendurando o capacete de vez em 1972, aos 38 anos.

Depois disto, tornou-se dono de equipa a tempo inteiro. Teve pilotos como Mike Hailwood, seu companheiro e rival no motociclismo e que também fizera a transição para os automóveis. Foi com ele que teve o melhor resultado como construtor, um segundo lugar mo GP de Itália de 1972, atrás do vencedor Emerson Fittipaldi. Outro piloto foi o brasileiro José Carlos Pace, que com ele, teve novo pódio, um terceiro lugar no GP da Áustria de 1973.

Contudo, Surtees tinha uma personalidade conflituosa, e alguns pilotos saíram da equipa em divergências. Foi o que aconteceu com Pace, a meio de 1974, onde depois seguiu para a Brabham. Surtees também teve outros pilotos como Alan Jones, Vittorio Brambilla e René Arnoux, mas com alguns deles, as coisas não acabaram bem. Jones, por exemplo, só ficou uma temporada com ele, em 1976, saindo logo depois.

No final de 1978, Surtees decidiu fechar as portas, por causa das dividas e dos custos cada vez mais incomportáveis de construir chassis e gerir uma equipa de Formula 1. Ficou a gerir um concessionário de motos perto de sua casa, em Edenbridge, no Kent inglês, e um concessionário da Honda, e participou em encontros de clássicos, quer em motos, quer em automóveis, em sitios como Goodwood.

No final da década passada, voltou mais ativamente ao automobilismo, a apoiar a carreira do seu filho Henry Surtees. John nunca se tinha casado até depois dos 50 anos, após a sua carreira de piloto e construtor. Teve três filhos e Henry era o mais novo, nascido em 1991, já Big John tinha 57 anos. Depois de andar na Formula Renault e uma pequena passagem pela Formula 3, Henry foi para a nova Formula 2, constuida pelo ex-piloto Jonathan Palmer. Ele, que usava o capacete do seu pai, acrescentando apenas um H, tinha demonstrado ser veloz, e em Brands Hatch, a 18 de julho, tinha conseguido um terceiro lugar. Henry comemorou efusivamente, com o pai a aplaudir, orgulhoso.

Ninguém poderia saber que aquela iria ser a última vez que o veria vivo. No dia seguinte, a segunda corrida da ronda de Brands Hatch de Formula 2, uma roda solta do carro de Jack Clarke atinge Surttes em cheio na cabeça, matando-o quase de imediato. Henry tinha apenas 18 anos, e para John, que sobrevivera a um período onde viu morrer alguns dos seus amigos no automobilismo, ver morrer o seu filho num acidente estanho - uma semana antes de Felipe Massa quase passar a mesma coisa na Hungria - foi como se o Destino tivesse sido bem cruel para ele.

Com isso, decidiu criar uma fundação com o nome de Henry, para ajudar os centos médicos em relação à rapidez na assistência hospitalar em situações de emergência. O dinheiro angariado fez com que fossem adquiridos equipamentos hospitalares e melhorado o treino do pessoal médico e ambulatório.

Agora que "Big John" sai da vida e passa à História, há uma estória do qual se pode recordar dele, e que está no livro de A.J. Baime, "Go Like Hell". Certo dia, nos anos 80, Surtees vai visitar Enzo Ferrari, já a beirar os 90 anos. Tinha passado mais de vinte anos sobre a discussão que os separou, e Ferrari recebe-o. A conversa é cordial, e no final, o Commendatore diz que é melhor recordar todos os bons momentos que passaram juntos. E de uma certa forma, é verdade. Ars lunga, vita brevis, Big John.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Como um preservativo (quase) impediu a Grã-Bretanha de ver a Formula 1

Jackie Stewart disse certo dia que no seu tempo, o sexo era seguro e o automobilismo perigoso. Lá isso é verdade, mas parece que, nos tempos que correm, as atitutes e as mentalidades mudaram um pouco de, por exemplo, do ano que nasci. Porque no ano da graça de 1976, num dos campeonatos mais interessantes da história da Formula 1 - lembrem-se, Hollywood fez um filme sobre ele - os ingleses foram privados de o assistir. E por uma razão: um preservativo.

Conhecia a história, mas pensava que tinha sido apenas no GP britânico. Sabia que a BBC apenas tinha começado a acompanhar fortemente o mundial de Formula 1 em 1978, mas que passava Grandes Prémios britânicos desde há algum tempo - e desde 1970 a cores, com comentadores como Raymond Baxter, Jackie Stewart e o próprio Murray Walker. Mas a história que a BBC conta hoje e que fui buscar do Facebook de Alastair Caldwell - sim, esse Alastair Caldwell! - demonstra até que ponto as coisas vistas pelo prisma atual podem ser consideradas como... ridiculas. E tudo por causa de uma ideia arrojada de uma marca de preservativos.

Primeiro que tudo, temos de colocar as coisas num panorama geral. A BBC não gostava da patrocinios em eventos desportivos, e a Formula 1 entrava num canto de tolerância por causa dos carros que já tinham marcas estampadas nos seus carros. Noutras modalidades, por exemplo, isso não acontecia. O futebol, numa era pré-Premiership, e amuito antes dos milhares de milhões de hoje, não tinha publicidade nas camisolas.

A BBC, como já disse, transmitia algumas corridas do campeonato, como a Grã-Bretanha, Mónaco, França, Itália, Alemanha e pouco mais. Não fazia a transmissão de todas as corridas. Mas no final de 1975, John Surtees, campeão do mundo de Formula 1 em 1964 e construtor por seu próprio direito desde 1970, assinou um contrato com a London Rubber Company, que tinha a marca Durex, marca de... preservativos. Lembrem-se, o HIV só foi reconhecido como ameaça pública sete anos depois, em 1983, altura em que os médicos recomendaram os preservativos nas relações sexuais protegidas, para evitar espalhar a doença.

Quando a BBC soube da apresentação pública do carro com o logotipo da Durex - uma apresentação bem discreta, com a presença da Miss Inglaterra, Vicky Harris - a cadeia de televisão disse que tal coisa seria inaceitável pelos seus "padrões morais".

Murray Walker conta sobre isso num certo capítulo na sua autobiografia. Quando se deslocou a Brands Hatch para cobrir a Race of Champions, no inicio desse ano, contou a seguinte conversa:

"Pelos padrões da BBC, o logotipo da Durex visível [no chassis] era algo totalmente inaceitável para a visão da família britânica.

"Quando cheguei em Brands Hatch [para a Race of Champions] fui recebido pelo produtor Ricky Tilling, que começou por falar:

- Ei Murray, saberemos por volta das onze horas se vamos estar no ar ou não.'
- O que estás a falar, Ricky?
- Durex. Nós não vamos transmitir a corrida a menos que a Surtees concorde em tirá-lo dos seus carros."

Não houve acordo, logo, a BBC arrumou as câmaras e abandonou a pista.

A razão pelo qual tal coisa aconteceu tem a ver com dinheiro. Quem conhece a história de Surtees como construtor - que durou de 1970 e 78 - sabe que não houve muito sucesso. Com pilotos como Mike Hailwood, José Carlos Pace, Jochen Mass, Alan Jones, John Watson e Vittorio Brambilla nas suas fileiras, nunca conseguiu mais do um segundo lugar como melhor resultado, e três voltas mais rápidas. Surtees sempre lutou para ter dinheiro suficiente para pagar as contas dos seus chassis, quer para a Formula 1, como para a Formula 2, e qualquer patrocinador era bem vindo. Mas os mais chorudos eram as tabaqueiras, e essas iam para a McLaren ou para a Lotus, e não para a Surtees. Então, quando a London Rubber Company lhe deu uma consideravel soma de dinheiro - nas palavras do próprio Surtees - ele não hesitou em aceitar, desconhecendo a reação da BBC.

"Eu disse a eles que teríamos que conversar e fazer isto de uma maneira muito saudável e apresentável - começou por contar "Big John", agora com 82 anos - eu pensei que aquilo iria causar um rebuliço, mas a verdade é que não havia nada desprezível sobre isso e nós não estavamos a quebrar qualquer regra", continuou.

"[Aquele patrocinio] revitalizou a equipa e deu-lhe uma segunda chance", concluiu.

Jonathan Martin, produtor do programa Sportsnight em 1976, contou que o patrocinio "causou uma agitação ao nível da gestão de topo" na BBC e ITV, que também transmitam ocasionalmente a sua corrida de Formula 1.

"As corridas de Grande Prémio já tinham um lugar especial [na programação] e quando a Durex apareceu nas laterais de um carro, havia certas pessoas ao nosso redor um pouco encolerizadas", disse ele.

Resultado final: um boicote não-oficial aos Grandes Prémios. Os ingleses só viram, por exemplo, o que aconteceu em Brands Hatch, a 18 de julho, palco do GP britânico, num resumo passado uma semana depois na televisão britânica. E sem qualquer Surtees nas imagens, numa altura em que outras marcas tinham patrocinios mais... estranhos. Como por exemplo a Hesketh, que tinha pintado no seu chassis a revista para adultos Penthouse.

O boicote acabou por ser levantado no final da temporada por uma boa razão: James Hunt tornou-se candidato ao título, e após a sua vitória em Watkins Glen, a diferença entre ele e Niki Lauda tinha ficado reduzida a dois pontos, com tudo a ser decidido no Japão. Os direitos televisivos foram adquiridos para serem transmitidos para todo o mundo, e a BBC, em conjunto com a ITV, decidiram que entre transmitir um carro com marca de preservativo e ver um britânico campeão do mundo, James Hunt levou a melhor. E às 3 da manhã do dia do Grande Prémio, milhões estavam acordados para ver correr vários carros debaixo de chuva.

No final, Surtees disse que a decisão da BBC teve consequências. "Foi puramente uma questão da BBC tomar a sua própria decisão. Do ponto de vista desportivo, estava muito infeliz", disse. "Eu achei que eles foram mal aconselhados, considerando as inumeras agências governamentais que vão lá fora, promovendo esses produtos."

Martin, que depois se tornou no diretor desportivo da BBC e promoveu a transmissão das corridas de Formula 1 a partir de 1978, consegue ver ambos os lados da questão.

"Em retrospectiva, [o patrocinio da Durex] foi uma coisa bastante provocatória de se fazer. Ele estava dentro dos seus direitos em arranjar este patrocinio, da mesma maneira que as emissoras estavam no seu direito de não transmitir", disse ele.

"Eu acho que levou as emissoras aos seus limites, porque a Formula 1 já tinha uma dispensação especial em comparação com muitos outros desportos", concluiu.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Quando mudar a meio do ano fez bem... ou nem tanto (Parte 1)

As noticias da substituição de Daniil Kvyat por Max Verstapen caíram que nem uma bomba na Formula 1, não tanto por causa da troca, que era provável de acontecer no final da temporada, mas pelo facto de ter acontecido após a quarta prova do campeonato, tão cedo na mente de muitos analistas. Mas quando a mudança vem da Red Bull, a única marca que têm duas equipas na Formula 1, espera-se um pouco de tudo pelas bandas de Milton Keynes...

Contudo, muitos acham que o holandês, filho de Jos Verstappen,  tem de facto muito talento, apesar de ter apenas dezoito anos de idade. Fala-se que a movimentação teve a ver com o interesse em segurá-lo, dado que Ferrari e Mercedes podem já ter manifestado interesse nele, e o seu contrato atual é válido até ao final de 2017, altura em que poderá haver movimentações nas principais equipas do campeonato. Mas esta não é a primeira, nem a última mudança de pilotos a meio do ano. Ao longo da história da Formula 1 houve dezenas de mudanças, muitas por força maior, como acidentes fatais, mas outras aconteceram por causa de atritos entre piloto e equipa, ou a incompetência do piloto, devido aos fracos resultados. 

Assim sendo, nos próximos três dias, vou contar dezasseis casos de pilotos que foram substituídos a meio do ano devido à sua má performance, zangas com a equipa ou a acidentes incapacitantes, mas em muitos casos, essas substituições fizeram melhorar a equipa. Outras, nem tanto. Para aqui não contam as trocas de pilotos devido a acidentes fatais.


1 - John Surtees/Mike Parkes (1966)


No inicio de 1966, John Surtees partia para a quarta temporada seguida ao serviço da Ferrari. Era um excelente piloto, tendo dado o título mundial de Formula 1 em 1964. Contudo, desde que tinha chegado à equipa, tinha uma má relação com o diretor desportivo, Amadeo Dragoni, que preferia o local Lorenzo Bandini, que achava melhor que "Big John", que tinha tido uma boa carreira nas duas rodas e lidado com equipas italianas, quando correu pela MV Agusta.

A meio de 1965, Surtees sofreu um acidente grave no circuito de Mosport, quando corria com um Lola, estragando o final da temporada pela Ferrari, e feito zangar o Commendatore. E isso foi também aproveitado por Dragoni para fazer "lobby" contra Surtees, preferindo os pilotos italianos. Surtees recuperou e fez uma excelente corrida em Spa-Francochamps, aproveitando uma chuvada que caira na primeira volta, deixando a concorrência na berma e conseguindo aquela que foi provavelmente a sua melhor vitória na Formula 1.

Contudo, quando se começou a decidir as duplas para as 24 horas de Le Mans, Dragoni deixou Surtees de fora e este, irado, pegou num carro e foi ter com Enzo Ferrari a Maranello, guiando por quase um dia ininterruptamente. Depois de uma discussão com ele, decidiu abandonar a equipa, com efeito imediato.

Irónicamente, o seu substituto não seria um italiano, como por exemplo Ludovico Scarfiotti, mas sim... outro inglês, Mike Parkes. Engenheiro de profissão, Parkes pegou no carro no GP de França e acabou a corrida no segundo posto. Depois conseguiu outro pódio, em Monza, conseguindo uma temporada decente, acabando com doze pontos e o oitavo lugar do campeonato.

Contudo, foi de curta duração: um acidente em Spa-Francochamps, no ano seguinte, feriu-o gravemente e terminou a sua carreira na Formula 1.     


2 - Johnny Servoz-Gavin/Francois Cevért (1970)


No inicio de 1970, Ken Tyrrell abandonou os chassis Matra, pois estes queriam que abdicasse do seu contrato com a Cosworth, e assim ficou com os March, levando consigo Jacke Stewart, o campeão do mundo. Mas para a sua própria equipa também levou um francês, Johnny Servoz-Gavin, que tinha talento para ser um excelente piloto, depois de um segundo lugar no GP de Itália de 1968. Contudo, no inverno de 1970, Servoz-Gavin sofreu um acidente que afetou a sua visão, e foi dominado pelo seu medo da morte. Apesar de tudo, conseguiu um quinto lugar no GP de Espanha, ganho por Stewart.

Contudo, quando não conseguiu qualificar-se para o GP do Mónaco, Servoz-Gavin, então com 28 anos, decidiu que iria abandonar a Formula 1 de vez. Ken Tyrrell procurou outro piloto, com o critério de ser francês, por causa do patrocinio da Elf. Aí, Stewart recomendou um jovem piloto, que tinha conhecido no ano anterior na Formula 2 e era cunhado de Jean-Pierre Beltoise. Seu nome era Francois Cevért, e Stewart viu nele um piloto que poderia ensinar a ser campeão do mundo com ele.

Chegado à Formula 1 no GP da Holanda, apenas conseguiu um ponto nesse ano, mas a partir do ano seguinte, os resultados melhoraram e formaram uma excelente dupla até à trágica morte do francês, no GP dos Estados Unidos de 1973.


3 - Ricky Von Opel/José Carlos Pace (1974)



Rikky Von Opel está na história, não só por ser o herdeiro da marca alemã, mas como o único piloto a correr na Formula 1 com a licença desportiva do... Lichtenstein! Estreando na Formula 1 em 1973, pela Ensign, foi para a Brabham no ano seguinte, no GP sul-africano, para substituir Richard Robarts. Contudo, os resultados foram bem modestos, e após o GP do Mónaco, ele foi dispensado. No seu lugar - a partir do GP da Grã-Bretanha - foi o brasileiro José Carlos Pace, que tinha começado o ano na Surtees, onde conseguira um quarto posto em Interlagos.

Feita a devida adaptação, Pace começou a mostrar resultados dignos de registo, culminando com o seu primeiro pódio no GP dos Estados Unidos de 1974, segundo segundo, atrás de Carlos Reutemann, na primeira dobradinha da marca em sete anos. No ano seguinte, conquistou a sua primeira (e única) vitória no GP do Brasil, em Interlagos. 



4 -  Patrick Depailler/Jacky Ickx (1979)



A Ligier estava "em brasa" no inicio da temporada de 1979, com três vitórias nas seis primeiras corridas do ano, duas delas na Argentina e no Brasil, graças a Jacques Laffite, e em Espanha, graças a Patrick Depailler. Este último tinha vindo da Tyrrell, onde tinha vencido uma corrida no ano anterior e encontrava-se mais liberto de compromissos "extra-campeonato". É que Depailler era um amante da natureza e experimentava desportos arriscados na sua Clermont-Ferrand natal. Motocross e asa-delta estavam entre os seus depostos favoritos, para além do mergulho.

Entre as corridas do Mónaco e de França, Depailler foi experimentar asa-delta, mas ela não correu bem, e embateu contra uma montanha, estatelando-se no chão e partindo ambos os tornozelos. Ficaria fora de combate até ao final do ano, e Guy Ligier substituiu-o pelo belga Jacky Ickx

Então com 34 anos, mas veterano de 13 temporadas na Formula 1, Ickx estava mais interessado na Endurance (naquela altura, tinha ganho por três vezes as 24 horas de Le Mans) do que na Formula 1, e as suas performances foram sempre modestas, conseguindo três pontos até ao final desse ano, pendurando o capacete de vez por ali e continuando na Endurance, onde ao serviço da Porsche, venceu mais duas edições da clássica de La Sarthe.  


5 - Ricardo Zunino/Hector Rebaque (1980)


Bernie Ecclestone sempre quis um segundo piloto que fizesse dois papéis: para preencher um lugar e que injetasse dinheiro na equipa. Quando no final de 1979, Niki Lauda decidiu abandonar a equipa, Ecclestone já tinha visto um promissor piloto argentino, de seu nome Ricardo Zunino, que tinha feito um teste com o seu carro e tinha feito resultados decentes, para além de uma carteira recheada de dinheiro local. Zunino estava em Montreal quando pegou no carro deixado vago por Lauda e até fez um trabalho decente, deixando-o no sétimo posto final (na altura não contava para os pontos) e foi correr para eles em 1980.

Contudo, Zunino nunca deslumbrou, andando sempre bem mais lento do que Nelson Piquet e nunca pontuando em qualquer corrida até ao GP de França, em Paul Ricard. Depois disso, Bernie Ecclestone achou por bem dispensá-lo e contratando para o seu lugar o mexicano Hector Rebaque, que já tinha corrido com um Lotus 79 e feito o seu próprio chassis, o Rebaque HR100, com a ajuda da Penske.

O mexicano começou a correr logo no GP da Grã-Bretanha, mas não fez muito mais, conseguindo um sexto lugar no Canadá, a duas corridas do fim. Irá fazer melhor em 1981, com treze pontos, mas a sua contribuição foi menor, em comparação com Nelson Piquet.

(continua amanhã)

quinta-feira, 17 de março de 2016

Bólides Memoráveis - Ferrari 158/1512 (1964-65)

Quando em 1963, boa parte dos engenheiros da Ferrari se foi embora para fundar a ATS, Enzo Ferrari ficou com um grupo de jovens algo inexperientes, e muitos vaticinaram que a Scueria iria passar por um mau bocado, quer na Formula 1, quer na Endurance. Contudo, esse grupo constituiu as bases de um novo período de sucesso no automobilismo para as cores italianas. Liderados por Mauro Forgheri, exploraram outras vias em termos de potência, em tempos dos motores de 1.5 litros. O resultado destas experiências de 1964-65 resultou em mais um campeonato, desta vez nas mãos do britânico John Surtees, e fez com que usassem quer motores V8, quer motores V12.

Projetado por Mauro Forgheri, o nome de código 158 vem do motor de 1.5 litros, V8, semelhante aos usados pelos Climax britânicos, os seus grandes rivais nas pistas. Depois de ser batido pela BRM e Lotus, em 1962 e 63, decidiu-se combater com as mesmas armas, construindo um motor V8. Mas no mesmo ano, a Honda entrou na categoria máxima do automobilismo, usando um V12, e apesar de em principio ter problemas de desenvolvimento, demonstrou-se ser suficientemente potente para os apanhar. Assim sendo, os dois motores foram construídos em simultâneo para serem usados, sempre que a ocasião surgisse, pois o chassis era o mesmo – usado até para o modelo 156, mais antigo.

O 158 estreou-se nas mãos de John Surtees no GP do Mónaco de 1964, a primeira corrida do ano. O britânico não chegou ao fim da corrida, mas foi segundo classificado na seguinte, em Zandvoort, batido apenas por Jim Clark. Nessa corrida, Lorenzo Bandini pode também usar o 158, mas não chegou ao fim. Em Brands Hatch, Surtees voltou a alcançar um pódio, um terceiro lugar, antes de vencer no Nurburgring e depois, em Monza, colocando-se como candidato ao título.

Nessa altura, estava pronta a versão com o motor V12, que iria ser guiado por Bandini. A sua estreia foi em Watkins Glen, onde não chegou ao fim, numa corrida onde Surtees, com o 158, foi o segundo classificado. E a mesma coisa aconteceu na corrida final, no México, desta vez à frente de Bandini, o terceiro classificado.

Em 1965, ambos os carros foram usados profusamente, tal como também foi usado o 156. Surtees usou primeiro o 158, mas a partir da corrida britânica usou o 1512, alcançando três pódios em conjunto, mas sem vitórias. Aliás, o seu acidente em agosto, durante uma prova de Endurance em Mosport, o deixou fora de combate durante o resto da temporada, com Bandini a tomar conta da equipa. O mexicano Pedro Rodriguez substituiu-o nas etapas americanas, mas os resultados foram modestos.
  
Em 1966, novos regulamentos fizeram com que se passasse para o dobro da cilindrada, os 3 litros, e a Ferrari adotou o formato V12 para os seus motores, construindo um chassis novo para a ocasião, o 312, que teria varias versões até 1980. Como legado, um dos 158 é hoje em dia frequentemente visto em corridas históricas, tendo como piloto… John Surtees. E ele o guarda na sua garagem.


Ficha Técnica (Ferrari 158)


Chassis: Ferrari 158
Projetista: Mauro Forgheri
Motor: Ferrari V8 de 1.5 litros
Pneus: Dunlop
Pilotos: John Surtees, Lorenzo Bandini, Nino Vacarella e Bob Bondurant
Corridas: 19
Vitórias: 2 (Surtees 2)
Pole-Positions: 2 (Surtees 2)
Voltas Mais Rápidas 2 (Surtees 2)
Pontos: 58 (Surtees 53, Bandini 5)
Títulos: Campeonato do Mundo de Construtores de 1964, Campeonato do Mundo de Pilotos (John Surtees) 


Ficha Técnica (Ferrari 1512)


Chassis: Ferrari 1512
Projetista: Mauro Forgheri
Motor: Ferrari V12 de 1.5 litros
Pneus: Dunlop
Pilotos: John Surtees, Lorenzo Bandini, Ludovico Scarfiotti, Pedro Rodriguez
Corridas: 12
Vitórias: 0
Pole-Positions: 0
Voltas Mais Rápidas: 0
Pontos: 22 (Bandini 16, Surtees 4, Rodriguez 2)

terça-feira, 15 de março de 2016

Bólides Memoráveis: Ferrari 156 (1961-64)

Há 55 anos, a Ferrari preparou-se para os novos regulamentos com uma máquina que se provou imbatível para a concorrência e rendeu um duelo fratricida entre os seus pilotos, que resultou num acidente mortal. A sua frente “sui géneris” marcou toda uma geração, mas foi um tempo que também resultou numa rebelião, dividindo para sempre a Scuderia. Hoje, falo do Ferrari 156, preparado para uma era de motorização, e o primeiro carro feito de raíz com motor traseiro.

Em 1959, a Comission Sportive International decidiu que a partir de 1961, os carros de Formula 1 viriam a sua cilindrada reduzida de 2,5 litros para 1,5 litros, de forma a que estes reduzissem a sua velocidade em reta. Antecipando o novo regulamento, a Ferrari decidiu fazer de raíz o seu primeiro carro com motor traseiro, pois até esse momento ainda adotava o motor fontal. Um modelo de ensaio surgiu em 1960, mas os resultados tinham sido modestos. Contudo, funcionaram como uma experiência para o que viria aí.

O motor foi desenhado por Carlo Chiti, e era o Dino V6 de 1.5 litros, produzindo cerca de 190 cavalos de potência. A frente tinha duas entradas de ar, para otimizar o fluxo de ar para o motor. Essa frente iria ficar na mente dos apreciadores, dando-lhe o nome que ficou conhecido: “Nariz de Tubarão” (Sharknose)

O carro ficou pronto para a primeira corrida do ano, nas ruas de Monte Carlo. Três bólidos foram inscritos para o alemão Wolfgang von Trips e os americanos Phil Hill e Richie Ginther. Contudo, os novos carros de Modena foram batidos nas ruas monegascas pelo Lotus 18 de Stirling Moss, que apesar de ter menos cavalos no seu motor Climax, conseguiu levar a melhor graças ao seu talento atrás do volante.

Contudo, nas seis provas corridas seguintes, a Ferrari dominou, com vitórias em cinco delas. Phil Hill na Belgica e em Itália, enquanto que Von Trips venceu na Holanda e Grã-Bretanha, com Giancarlo Baghetti a cometer a proeza de vencer em França, na primeira corrida oficial da sua carreira! Outros pilotos correram nos modelos 156, como os belgas Willy Mairesse e Olivier Gendebien, e o mexicano Pedro Rodriguez, que quase fez a pole-position na prova de estreia, em Monza.

Quando os carros chegaram ao GP de Itália, praticamente a Scuderia tinha o campeonato de Construtores na mão, e o título de pilotos era um assunto interno entre Hill e Von Trips. O alemão fez a pole-position, mas largou mal e atrasou-se. No final da segunda volta, quando tentava passar o Lotus de Jim Clark, ambos os carros se entrelaçaram e o Ferrari do alemão foi para a barreira de espectadores, matando 14 pessoas, além de ele mesmo. O acidente causou sensação e polémica para Ferrari, que já tinha uma má reputação devido aos acidentes nos quais os seus carros tinham estado envolvidos nos últimos anos, desde as Mille Miglia de 1957, quando o espanhol Alfonso de Portago e o seu navegador causaram um acidente que lhes custou as suas vidas, mais seis espectadores que estavam na estrada.

Em 1962, Hill ficava, acompanhado por Baghetti e Rodriguez, com Mairesse a fazer algumas corridas selecionadas. Outro italiano também entrou na Scuderia, Lorenzo Bandini. Apesar de não se ter mexido na formula vencedora, a concorrência trabalhou melhor e não houve vitórias oficiais, pois tinham sido batidos por BRM e Lotus. Para piorar as coisas, Mairesse teve um acidente feio em Spa-Francochamps e ficou afastado por algumas corridas. 

Na frente interna, as coisas ainda estavam piores. Havia tensão entre Ferrari e alguns dos seus engenheiros, liderados por Chiti, e para além disso, problemas laborais nas suas fábricas, que culminaram com uma greve em junho de 1962, que os impediu de irem correr o GP de França. No final do ano, essa tensão causou rutura, com Chiti e alguns dos engenheiros a abandonar a fabrica, para fazerem a ATS (Automobili Turismo e Sport), acompanhados por Hill e Baghetti. Com esta rutura, Ferrari teve de voltar a fazer as coisas quase do zero, promovendo Bandini e contratando o britânico John Surtees.

Em 1963, o carro voltou a ter uma frente mais tradicional, batizada de “Aero”, e o motor trocou os carburadores por um sistema de injeção desenvolvida pela Bosch. Com a temporada a ser dominada por Jim Clark e o seu Lotus 25, John Surtees foi um dos poucos privilegiados a vencer-lhe uma corrida, neste caso, o GP da Alemanha. 

Na temporada seguinte, a Ferrari introduziu variações do seu modelo 156, com o 158 e o 1512, que continham, respectivamente, um motor V8 e um motor V12. Esses três chassis conviveram durante a temporada de 1964, e enquanto que Surtees usava mais o 158, na sua caminhada para o título mundial, o seu companheiro usou o 156 em mais ocasiões, dando a ele a sua única vitória na Formula 1, na base aérea de Zeltweg, na Áustria. Nessa temporada, o caro ainda seria guiado por outro italiano, Ludovico Scarfiotti, e por outro mexicano, Pedro Rodriguez, irmão de Ricardo. E foi com ele que o 156 conseguiu o seu último ponto na Formula 1, no GP do México de 1964, ao mesmo tempo que via John Surtees ser consagrado campeão do mundo.  

Ficha Técnica: 

Carro: Ferrari 156
Projetista: Carlo Chiti
Motor: Ferrari V6 de 1.5 litros
Pneus: Dunlop
Pilotos: Phil Hill, Wolfgang Von Trips, Richie Ginther, Ricardo Rodriguez, Giancarlo Baghetti, Olivier Gendebien, Willy Mairesse, Lorenzo Bandini, John Surtees, Ludovico Scarfiotti e Pedro Rodriguez.
Corridas: 29
Vitórias: 7 (P.Hill 2, Von Trips 2, Baghetti 1, Surtees 1, Bandini 1)
Pole-Positions: 7 (P.Hill 5, Von Trips 1, Surtees 1)
Voltas Mais Rápidas: 7 (P. Hill 2, Ginther 2, Surtees 2, Baghetti 1)
Pontos: 168 [172] (P. Hill 48 [52], Von Trips 33, Bandini 23, Surtees 22, Ginther 16, Baghetti 14, R. Rodriguez 4, Gendebien 3, Mairesse 3, Scarfiotti 1, P. Rodriguez 1)   
Campeonatos: Campeão do Mundo de Pilotos em 1961 (Phil Hill), Campeonato do Mundo de Construtores em 1961 e 1964.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Noticias: John Surtees condecorado pela Rainha

O britânico John Surtees, de 81 anos, cuja carreira se estendeu nas duas e quatro rodas, foi hoje condecorado pela Rainha Isabel II pelos seus serviços ao desporto com o grau de CBE (Comandante do Imério Britânico). Basicamente ele sobe na hierarquia, dado que recebeu o MBE (Membro do Império Britânico) em 1960, quando venceu os seus campeonatos de motociclismo, e em 2008 subiu para o OBE (Ordem do Império Britânico), sempre pelos seus serviços no automobilismo, primeiro como piloto, e depois como construtor.

Contudo, ele ainda não almejou o grau de cavaleiro (KBE), o que faria com que fosse tratado por "Sir".

Surtees é neste momento o mais antigo campeão do mundo ainda vivo, e também é o unico piloto na historia a ser campeão do mundo em duas e quatro rodas, tendo sido campeão do mundo de Formula 1 em 1964, ao serviço da Ferrari. Em 1970 tornou-se construtor, tendo a sua equipa até à temporada de 1978, onde estiveram pilotos como Mike Hailwood, José Carlos Pace, John Watson, Alan Jones e Vittorio Brambilla, entre outros.

Para além disso cuida da Henry Surtees Foundation, criada em memoria do seu filho, morto em 2009 numa prova de Formula 2 em Brands Hatch, que lida com a rápida resposta em caso de acidente, neste caso com a evacuação de sinistrados para o hospital por via aérea (helicópteros). 

sábado, 17 de outubro de 2015

Youtube Motorsport Classic: Elkhart Lake, Can-Am, 1967


A Can-Am foi uma série que no final dos anos 60 e inicio dos anos 70 a mais rica competição automobilistica do mundo. Com prémios finais a rondar o meio milhão de dólares, rendeu um série de campeões e uma geração de pilotos talentosos veio aqui para mostrar o seu talento. 

Hoje, trago-vos o filme da prova de Elkhart Lake, em 1967, com os McLaren dominadores contra os Lolas e Chaparrais, guiados por uma série de pilotos que marcaram uma geração, como Mark Donohue, John Surtees, George Follmer, Peter Revson, Mário Andretti, Bruce McLaren ou Dennis Hulme, entre outros.

O filme tem vinte minutos, e claro, vale a pena. E vi isto em primeiro lugar no Facebook do Cristiano da Matta. Sim, o piloto!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

A foto do dia

Aos 81 anos de idade, feitos hoje, só lhe falta o reconhecimento da coroa para o elevar ao grau de "Sir", algo que já merece há muito tempo, pelos seus feitos desportivos nas duas e quatro rodas, e também pelas ações na fundação Henry Surtees, feito para honrar a memória do seu filho, morto em 2009 em Brands Hatch, numa corrida de Formula 2.

Mas mais do que falar sobre a sua vida e os seus feitos (existe um excelente documentário sobre ele feito no ano passado pela BBC) quero falar sobre uma fase da vida e carreira de "Big John": a sua passagem pela Ferrari. E como a politica pode ter impedido de alcançar o bicampeonato em 1966.

Chegado em 1963, depois de uma passagem pela Lola, Surtees era aprovado pela Ferrari, mas tinha oposição dentro da equipa, na figura de Eugenio Dragoni, o diretor desportivo, que preferia Lorenzo Bandini. As coisas até andaram relativamente bem até ao dia 25 de setembro de 1965, quando Surtees estava a correr no circuito canadiano de Mosport, a bordo de um Lola T70. Gravemente ferido nas pernas, ficou várias semanas a tentar recuperar, e o resto da temporada foi perdido, quer na Endurance, quer na Formula 1.

Em 1966, Surtees recuperou das feridas e voltou a competir. A foto que ilustra este post é de Bernard Cahier, nos 1000 km de Monza, e até então, Surtees tinha feito alguns bons performances, como no GP do Mónaco, onde esteve a liderar até que o motor rebentou. Depois, a vitória épica em Spa-Francochamps, na corrida onde oito pilotos ficaram de fora devido à chuva que caiu na primeira volta.

Depois... a politica interferiu. Nas 24 horas de Le Mans, Dragoni aproveitou para atacar. Apenas com dois carros oficiais em Le Mans, para cinco pilotos (Surtees, Bandini, Ludovico Scarfiotti e o francês Jean Guichet), decidiu excluir o inglês, alegando que ainda não estava devidamente em forma com o acidente em Mosport. Irado, Surtees pegou no carro e não parou até chegar a Modena, para falar pessoalmente com o Commendatore. Depois de uma conversa tumultuosa, ambos decidiram terminar o contrato, de forma imediata.

Surtees não ficou muito tempo parado: arranjou um lugar na Cooper e venceu no México, mas o campeonato ficou nas mãos de Jack Brabham. A Ferrari penou com os seus pilotos, como Mike Parkes, mas a vitória de Ludovico Scarfiotti, em Monza, só demonstrou o desperdício que foi aquela temporada em Maranello. Bandini tentou a sua sorte em 1967, mas a sua morte no Mónaco acabou com os sonhos de um dominio que poderia ter acontecido... mas não aconteceu. Mas por essa altura, Surtees dava cartas na Honda.

Anos depois, já nos anos 80, Surtees e Ferrari reencontraram-se. Na conversa, ele afirmou que "o melhor é recordar os bons tempos que passaram juntos". E de uma certa maneira, é isso que ele faz, quer quando fala sobre esse período de tempo, quer quando anda no modelo 158 do qual foi campeão do mundo, há 50 anos, em corridas históricas, como Goodwood.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

A foto do dia

Vocês querem saber porque é que não existem imagens em direto da BBC dos Grandes Prémios da Grã-Bretanha de 1976 e 1977? Por causa deste carro e do patrocínio que os leva. Em 1976, John Surtees tinha colocado três carros na sua equipa, todos com patrocinios diferentes: o francês Henri Pescarolo, com a decoração da Norev, o americano Brett Lunger, com os cigarros Chsterfield, e o australiano Alan Jones, (aqui, no Mónaco, numa foto tirada por Bernard Cahier) que tinha o patrocinio... da Durex, uma marca de preservativos.

Os anos 70 eram tempos diferentes dos nossos. Era a altura que "o sexo era seguro e o automobilismo perigoso" (Jackie Stewart dixit), e onde coisas como o HIV era algo vindo da ficção cientifica. Eram tempos libertos... mas ainda com muito puritanismo. Que o diga a BBC.

Esta não queria transmitir as corridas por causa do controverso patrocínio levado por Jones, e quando chegou à altura mais critica, a do GP britânico, pura e simplesmente não decidiu transmitir a corrida, nem em direto, nem em diferido. Por uma razão bem fútil, mas do qual acreditavam naqueles tempos.

Assim sendo, ninguém viu em direto, mas televisões das suas casas, as cenas que se passaram em Brands Hatch, como a carambola em Paddock Hill Bend e a subsequente pressão do público em exigir a colocação de James Hunt na pista. Ou depois, a ultrapassagem na curva Druids ao Niki Lauda, na véspera do seu acidente em Nurburgring.

Mas o mais engraçado é que o pelotão da Formula 1 tinha patrocínios "politicamente incorretos" nesse tempo. Não, não falo das tabaqueiras, falo por exemplo do patrocinador que tinham os Hesketh, que era a revista Penthouse. As suas "Pets" posavam muitas das vezes nos carros, ao lado dos pilotos, que sorriam sem contemplações com aquilo que viam. 

A mesma coisa aconteceu no ano seguinte, em Silverstone, porque a equipa teve sete pontos nessa temporada - todos conquistados por Jones - e o patrocínio continuou, noutros carros. (Vittorio Brambilla, católico praticante, recusou-o no seu carro) e essa teimosia fez com que os britânicos - e o resto do mundo - evitassem ver em direto a estreia do Renault Turbo e a de um canadiano fogoso, de seu nome Gilles Villeneuve, no terceiro McLaren oficial.

Assim sendo, só quando o "patrocinador indesejado" se foi embora, em 1978, é que se pode ver corridas na televisão. A Surtees foi-se embora no final desse mesmo ano, e a BBC meteu Murray Walker a fazer o que sabia melhor no ano seguinte, até aos dias de hoje, com outros protagonistas. E provavelmente, perdeu-se a vergonha de filmar mesmo com patrocinadores politicamente incorretos nas carenagens dos carros.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A foto do dia

Nos anos 70, muitos acharam que ele era um piloto tão bom como Emerson Fittipaldi. Conheciam-se desde crianças, pois frequentavam juntos as boxes de Interlagos, e aos poucos, nas provas dentro do Brasil, primeiro com a Willys-Interlagos (ao lado de Bird Clemente ou Luiz Pereira Bueno), e depois com a Dacon, José Calos Pace demonstrou rapidez suficiente para ser considerado como um dos melhores do Brasil na sua geração.

Em 1970, ele seguiu Emerson para a Europa e facilmente subiu nas categorias de acesso, mostrando-se na Formula Ford e na Formula 3 britânica, e naturalmente, apareceu a sua oportunidade para correr na Formula 1, com um March inscrito por Frank Williams. Poderemos dizer que ele foi o primeiro brasileiro com quem o Tio Frank trabalhou, muito antes de Nelson Piquet, Ayrton Senna, Rubens Barrichello, Felipe Massa e tantos outros.

Em 1973, foi para a Surtees, onde mostrou o seu talento com um carro que era do "meio do pelotão". A sua velocidade, especialmente quando conseguia acompanhar os Tyrrell, os McLaren e os Lotus, fazia com que existissem muitos olhos virados para ele, e os seus resultados na Alemanha e na Austria, onde conseguiu um terceiro posto, e com duas voltas mais rápidas pelo meio, praticamente "salvaram a honra do convento" na equipa de John Surtees.

Contudo, em 1974, depois de um quarto lugar em Interlagos, o mau chassis irritou-o e fez abandonar a meio do ano, para tentar a sua sorte na Brabham. E naquele dia 6 de outubro, em Watkins Glen, não comemorava os feitos do seu compatriota e amigo Emerson Fittipaldi, como também comemorava o seu 30º aniversário natalicio. E o seu melhor resultado na Formula 1 até então, o segundo lugar, atrás do vencedor e companheiro de equipa, o argentino Carlos Reutemann.

O resto é conhecido: a vitória em Interlagos, a pole em Kyalami, o "ano que poderia ter sido dele", e as dificuldades que teve com o motor Alfa Romeo. E novo pódio em Buenos Aies e o começo da temporada que prometia antes do seu acidente fatal. Se tivesse vivo, Pace faria 70 anos. Onde quer que esteja, feliz aniversário! E os seus feitos serão sempre lembrados.