Como agora é a semana do GP do Mónaco - este ano, trocaram a data pelo GP do Canadá - hoje decidi lembrar a edição de 2001, aquela onde... sim, vocês adivinharam, Enrique Bernoldi aguentou David Coulthard, porque ambos disputavam uma posição!
Numa corrida onde Michael Schumacher dominou a seu bel-prazer, conseguindo ali a sua quinta e última vitória no Principado, igualando Graham Hill, a corrida poderia ter caído para David Coulthard. Pelo menos, para quem tinha visto a corrida no sábado, quando conseguiu a pole-position, e ele era, agora o primeiro piloto da McLaren, depois do colapso de Mika Hakkinen, no inicio dessa temporada. Aliás, o Mónaco era a segunda corrida depois dos eventos de Barcelona, onde o finlandês ficou sem motor na última volta.
Contudo, o pesadelo de Coulthard, que foi aquele domingo começou na volta de aquecimento. O seu sistema elétronico de lançamento falhou e ele ficou parado na grelha de partida, acabando por alinhar no último lugar e sabia que iria passar a corrida tentar recuperar posições. Como ele corria no Mónaco, e era um tempo onde apenas os seis primeiros pontuavam, iria ser uma tarefa bem complicada.
Contudo, o escocês foi adiante e tentou recuperar o tempo - e os lugares - perdidos. Enquanto Schumacher se afastava de Hakkinen no comando da corrida, tentando passar o mais que pode, até que na volta 11, chegou à traseira de enrique Bernoldi, então piloto da Arrows. Tentou passar na curva Tabac, mas foi mal sucedido. Ele iria tentar mais tarde, mas o que não sabia era que isto iria ser o principio de um inferno que iria durar mais de um terço da corrida.
Nas voltas seguintes, o escocês, mais rápido que o brasileiro, tentava passar o piloto da Arrows, mas como era uma disputa de posição, iria defender-se com unhas e dentes, as tentativas acumulavam-se, volta após volta, e na McLaren, as frustrações vinham ao de cima, especialmente da parte de Ron Dennis, que achava um abuso aquilo que Bernoldi estava a fazer. Mas era uma disputa de posição, sem bandeiras azuis...
Na volta 32, Coulthard via Rubens Barrichello atrás de si, a pedir para que passasse, pois tinha dado uma volta. Ele assim o fez, esperando que, quando o piloto da Ferrari passasse o seu compatriota, ele aproveitasse e livrasse dele. Mas Bernoldi, atento, não o deixou aproveitar essa manobra. O inferno continuou até â volta 44 quando Bernoldi descobriu que tinha um depósito de combustível mais pequeno que o da McLaren, indo às boxes e deixando que Coulthard pudesse acelerar à vontade. Afinal de contas, ele era quatro segundos mais rápido.
No final, Coulthard acabou em quinto lugar, a uma volta do vencedor, conseguindo dois pontos, enquanto Bernoldi foi nono, a duas voltas. Nos bastidores, porém, as coisas andavam agitadas: Ron Dennis acusou Bernoldi de anti-desportivismo, que tinha feito isso para conseguir tempo de antena na televisão, e ameaçou que iria prejudicar a sua carreira se repetisse a gracinha numa corrida futura.
Tom Walkinshaw, o patrão da Arrows, rejeitou as acusações, e David Coulthard disse que queria falar sobre o assunto na próxima reunião da GPDA, a associação de pilotos. "Concordámos [entre nós] que não nos mexermos depois de um piloto ter feito a sua manobra. Tu tomas a tua decisão – e quando subia a colina [Massenet] por algumas vezes, eu estava a tentar colocar as minhas rodas ao lado dele e ele movia-se para o lado.", queixava-se o escocês.
Anos depois, no podcast "Beyond the Grid", Bernoldi contou a história do que aconteceu depois da corrida, e o que ficou na sua mente foi o gesto de defesa por parte de Michael Schumacher.
“Fui chamado para a conferência de imprensa pós corrida com o David [Coulthard], o Michael [Schumacher] e o Jacques [Villeneuve]. Eu estava sentado e lembrei-me da primeira pergunta a mim e pensei: estou ao lado de Michael Schumacher, David Coulthard, Jacques Villeneuve, porquê escolher as perguntas para mim? A pergunta era sobre o Mónaco e o Michael pegou no microfone e nem me deixou responder, dizendo: ‘Já chega, rapazes, ele fez o que tinha a fazer, e espero que, se voltar a encontrar nesta situação, faça o mesmo’.
“Recebi uma mensagem dele [após a corrida do Mónaco] nessa noite a dizer que eu tinha feito tudo bem.", concluiu.
A moral da história é que, no Mónaco, largar numa boa posição é meio caminho para um bom resultado. E se tiveres azar na volta de lançamento... é bom que tenhas sorte.