Ando a ler as noticias do acordo entre a FIA, a F1 e o governo do Ruanda, algo que já se sabia desde 2022, e agora, chegou a uma conclusão. O mais impressionante para mim - e eu ando nisto há algum tempo - nem é o “sportwashing” (agora tem as suas consequências, com as guerras no Médio Oriente), mas até que ponto eles assinaram um acordo “com os olhos fechados” com o Ruanda, que não tem qualquer tradição automobilística, nem uma pista para podermos ver. Confiança e… pronto.
Sabem o que me fez lembrar? O acordo com o Vietname, para o GP de Hanói, que iria acontecer em 2020, lembram-se? A corrida que chegou a estar no calendário, a pista desenhada e construída no centro da cidade de Hanoi, com bancadas, paddock, e se não fosse essa chatice chamada Covid-19, teria acontecido em março de 2020.
Só que depois, viu-se, não era algo sancionado pelo governo central, era meramente uma projeto do governador de Hanoi, que depois se descobriu ter desviado dinheiro para a construção da pista e pago à FOM para ter a corrida. Resultado final? Meia dúzia de anos de prisão e o governo vietnamita a renegar tudo. E ali está, hoje em dia, sem saberem muito bem o que fazer às coisas construídas entretanto. E já agora, custou ao todo... 600 milhões de dólares.
Se forem ver, o primeiro GP de Ruanda acontecerá “a partir de 2030” e terá a duração de… dez anos. Sabem a duração do GP de Portugal? Duas edições. Ou seja, em 2029, poderá saltar do campeonato, se este governo não quiser. Ou acontecer algo fora de controlo.
E isso pode acontecer. Porquê? Já não se lembram, mas na primavera de 1994, enquanto Nelson Mandela era eleito presidente da África do Sul e a Formula 1 entrava em crise por causa dos eventos de Imola, 800 mil pessoas eram massacradas por terem a etnia errada. Em cem dias, entre 6 de abril e 15 de julho de 1994.
O Ruanda tem duas etnias: hutus e tutsis. A maioria é hutu, e a minoria é tutsi, que nas suas origens eram criadores de gado, em contraste com os hutus, agricultores.
Os europeus chegaram no final do século XIX, e foram os alemães que tomaram conta daquilo que se chamou, na altura de "Colónia de Ruanda-Urundi", que depois de tornou no Burundi. Em 1914, começou a I Guerra Mundial, e os belgas, vindos do Congo, a Oeste do Ruanda, tomaram conta daquelas terras, e quando a guerra acabou, tomaram conta delas, graças a um mandato da Sociedade das Nações.
Em 1960, Ruanda e Burundi tornaram-se independentes, mas mergulharam quase desde o primeiro dia em rebeliões e guerras civis. A razão foi a divisão étnica. Os tutsis tornaram-se funcionários públicos, professores, advogados, médicos e sobretudo, políticos. Os hutus quase não tinham nada, quase nenhuns direitos, e em 1966, um golpe de estado colocou os hutus no poder, e os tutsis foram logo discriminados. Bastaram alguns anos até que se criasse um exército de guerrilha, chamado Frente Patriótica do Ruanda (FPR).
Passemos para o inicio da década de 90 do século XX. Ruanda e Burundi passam por uma transição difícil para a democracia, e em 1993, chegam a um acordo entre um governo hutu e os rebeldes da FPR, instalados no Uganda e que tinham feito uma guerra de guerrilha relativamente bem sucedida, onde, entre muitas coisas, resulta numa força de paz das Nações Unidas, que está em Kigali, a capital ruandesa. O acordo é de difícil implementação, e para piorar as coisas, contavam com o apoio dos Estados Unidos, que no ano anterior, tinham acabado de levar uma tareia na Somália e não queriam saber de África para nada.
Nem todos os hutus estavam a favor. Os mais extremistas queriam fazer algo que os nazis fizeram aos judeus, no verão de 1941. E tinham uma rádio para espalhar o ódio: "Radio Mille Colines", que fazia apelos repetidos ao massacre, chamando aos tutsis de "baratas". E a 6 de abril de 1994, Juvenal Habymariana, o presidente do Ruanda, é morto quando o avião onde seguia caiu, vitima de um rocket disparado por um soldado, que o esperava nos arredores do aeroporto de Kigali. Horas depois, começava o massacre dos tutsis, quase todos mortos à catanada. Nem as igrejas escaparam: numa localidade em particular, Nyarubuye, sete mil tutsis, abrigados dentro de uma igreja católica, foram brutalmente assassinados, com a conveniência dos padres e bispos locais. Hoje em dia, é um memorial, e as suas múmias, esbranquiçadas devido à cal, estão expostas aos visitantes.
Como disse, o genocídio passou "despercebido" - as noticias falavam disto todos os dias, recordo isto, era adolescente - mas em julho, os massacres pararam. Os que puderam, fugiram para a Tanzânia ou Uganda, os que conseguiram abrigar, como a história do "Hotel Ruanda", a história de um hotel em Kigali e do seu diretor, Paul Rusembagina, deu filme em Hollywood, são parcas excepções.
E no meio disto tudo, a FPR correu para Kigali e tentou chegar ao poder o mais depressa possível, para parar os massacres. O seu comandante era Paul Kagame. Tudo terminou em julho, não sem antes uma intervenção por parte de tropas francesas na fronteira para o então Zaire. A paz instalou-se, e o país passou por uma espécie de "cura", onde se tentou diluir as diferenças étnicas. O país foi reconstruído, e desde 2000 é governado por Kagame, que só sairá dali depois de morto.
Sim, o Ruanda é uma ditadura. Ele é o homem forte, e toda e qualquer dissidència será combatida, até mesmo no exílio. Estão a ver o senhor Rusembagina, o homem por trás do "Hotel Ruanda"? Ele exilou-se na Bélgica, por ter feito criticas ao governo, e este não perdoou. Um dia, foi de visita a Kigali e o governo o prendeu, condenando-o a uma longa pena de prisão. Portanto, quando falo de "sportwashing", é por causa de coisas destas.
Eu poderia escrever por aqui muito mais coisas sobre o que sei e li sobre o Ruanda, a Terra dos Gorilas - a paisagem é deslumbrante - e poderia recomendar alguns livros interessantes sobre autores. Tenho um aqui em casa sobre esse tempo - infelizmente, só em inglês - do jornalista irlandês Fergal Keane, chamado "Season of Blood", que fala sobre a sua "road trip" num país em guerra, a par de qualquer coisa escrita por gente como o polaco Rischard Kapuszinski, por exemplo. Ou Scholastique Mukasonga, que escreveu uma autobiografia sobre esse período de tempo, chamado "Inyenzi e as Baratas". Já agora, Inyenzi é isso mesmo: batatas, na língua local.
Podia fechar isto colocando mais uma longa diatribe contra a Formula 1, a FOM e a FIA por permitirem dinheiros de lugares que estão no fundo da tabela em termos de direitos humanos, que são pobres ou muito pobres - apesar do Ruanda querer ser a Singapura de África - e da Formula 1 querer correr no continente africano, e isto estar há muitos, muitos anos, a ser construído, acho engraçado confiarem fortemente, quase cegamente, que as coisas vão acontecer. Uma década de corridas garantidas, sem sabermos quando irá começar, e uma pista que ainda não foi feita. Que confiança!
Pensava que teriam aprendido com os eventos do Vietname, e agora, com o Médio Oriente a ferro e fogo por estes dias. Já agora, o senhor Kagame tem 69 anos e não faço ideia se está em forma. Se a Formula 1 avançar e ele estiver vivo, poderei pensar em 74 ou 75 anos para o senhor. Bem sei que ficará no poder até à sua morte, e não acredito que a IA vá a uma velocidade suficiente para inventar um comprimido que o fala prolongar a sua vida por mais tempo. O que sei é isto, e vejo-o todos os dias: o que é certo hoje, será incerto amanhã. Literalmente.


























