segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

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Em tributo a Hans Hermann, que morreu na passada sexta-feira aos 97 anos, e que teve juma longa carreira no automobilismo, entre Mercedes, Abarth e por fim, Porsche, vou para o final da sua carreira, quando ele começou a andar na Endurance, especialmente na equipa oficial de (uma das) marcas de Estugarda.

E em particular, falarei sobre as 24 Horas de Le Mans de 1969, onde entre boicotes, acidentes mortais e outros incidentes, o primeiro e o segundo ficaram separados por 120 metros... ao fim de 24 horas. Um pouco como a atualidade no WEC onde mesmo as corridas de um dia se tornaram num "sprint", devido à resistência dos materiais.

Em 1969, a Porsche apostava forte na Endurance. Era o ano da estreia do modelo 917, mas o carro, que tinha sido mostrado no Salão de Genebra, em março, e que tinha o flat-6 de cinco litros, com 520 cavalos, era instável na traseira, devido à colocação do peso no carro. Apesar de tudo, já tinham construído os 25 exemplares necessários para a homologação, e vendidos a 35 mil dólares cada um, uma fortuna para os números da época. Um dos carros tinha sido vendido privadamente para o britânico John Woolfe, que corria as 24 Horas como amador. 

Oficialmente, a Porsche tinha dois 917, para Vic Elford e Richard Attwood, e para a dupla alemã Rolf Stommelen e Kurt Aherns Jr, e corriam contra os Ford GT40, que já tinham quase cinco anos. Corriam oficial pela J.W. Automotive, de John Wyer, e tinham dois carros, um para a dupla Jacky Ickx e Jackie Oliver, e o segundo para a dupla David Hobbs e Mike Hailwood

Mas para além dos 917, havia os 908 LH Coupé, de três litros, e a marca inscrevera oficialmente dois carros. Um, para Rudi Lins e Willy Kahusen, e o segundo para Hans Herrmann e Gerard Larrousse. Enquanto muitos viam com expectativa os Porsche e davam o favoritismo aos Ford, havia outras equipas de marca como a Matra, que corria na classe de 3 litros, e eram os rivais dos 908, ou a Alfa Romeo, que sofrera um golpe nos testes de março quando um dos seus pilotos, o belga Lucien Bianchi, vencedor em 1968, sofrera um acidente fatal quando embateu contra um poste. A Ferrari estava lá, mas não oficialmente, logo, o seu favoritismo era baixo. 

Na qualificação, Stommelen foi o melhor, fazendo uma volta de 3.22,9, e conseguiu a pole-position com folga. Elford foi o segundo, mas era dois segundos (!) mais lento que o seu companheiro de equipa, mostrando que em termos de velocidade, tinham tudo. 

Nos primeiros momentos da corrida, que ainda era feito com os pilotos de um lado da pista, correndo para os carros, que estavam dispostos em diagonal, Jacky Ickx decidiu ir a passo até ao seu Ford, em boicote contra o procedimento de largada, que considerava perigoso. Sendo o último a largar, mostrou um simbolismo que aquela corrida iria demonstrar, alguns minutos depois. 

No final da primeira volta, na parte da Maison Blanche, antes da chegada à chicane Ford, Woolfe tinha dificuldades em controlar o seu Porsche 917, e acabou por embater na casa existente naquele local, partindo-se em dois e acabando por morrer de imediato. O deposito de gasolina do 917, cheio, em chamas, descontrolado e separado do chassis, embateu fortemente contra o Ferrari de Chris Amon, acabando por pegar fogo, mas o piloto neozelandês, conhecido por ter muito azar em termos de vitórias, teve sorte em sair do seu carro apenas com escoriações menores. Logo na primeira volta, o automobilismo mostrava a sua pior cara, e o 917 mostrava também o seu grande defeito. 

Depois soube-se que, na pressa para entrar no carro, Woolfe não tinha apertado o seu cinto de segurança. Sem isso, fora projetado no seu acidente e contribuiu para a sua morte prematura. Ickx, por seu lado, ao caminhar a passo e largar de último, tivera tempo para apertar o cinto e largar em segurança. Isso iria ser marcante para o futuro.

Stommelen liderou a corrida até à troca de pilotos, o primeiro de cinco Porsches, com Hans Herrmann em quinto, mas subiu um lugar quando o carro de Stommmelen sofreu uma fuga de óleo da sua transmissão. Jo Siffert ficou com a liderança, mas na quarta hora, teve um problema com a sua fuga de óleo, mas da caixa de velocidades. Assim sendo, o comando pertencia a Vic Elford, noutro 917, com Gerhard Mitter em segundo, num 908.

Chegada a noite, era um duelo Porsche-Ford, com os alemães a levarem a melhor. Elford liderava, tendo feito 192 voltas, uma das mais rápidas até então, cinco voltas adiante de Gehard Mitter. Contudo, às 2.45 da manhã, dois 908 colidiram, entre o carro guiado por Schutz e o guiado por Larrousse, com o primeiro a ficar cortado ao meio e em chamas. Larrousse conseguiu levar o carro às boxes, onde viu os danos e prosseguiu. Ambos os pilotos saíram ilesos.

Elford ainda liderava quando a manhã apareceu, com outro Porsche em segundo, e os Ford em terceiro e quarto, enquanto a dupla Herrmann e Larrousse era quinto e Jean-Pierre Beltoise, no melhor dos Matra, era sexto. Um nevoeiro cerrado tinha caído sobre Le Mans e estava a ser difícil ver a pista e os carros. 

Parecia que a Porsche ia a caminho da vitória, a sua primeira à geral, mas por volta das dez da manhã, de forma inesperada, os dois primeiros foram às boxes com problemas. Primeiro, Kahusen, que tinha a embraiagem quebrada, sem chances de reparação, e tinha parado o seu 917 em Mulsanne. Elford parou meia hora depois, com uma solda na caixa de velocidades totalmente quebrada.

Com isto, Ickx ia para a frente, e a dupla Herrmann-Larrousse era segundo, e a recuperar o tempo perdido. Na hora final, com a última paragem nas boxes, tinham uma diferença de... 10 segundos. Ambos estavam na mesma volta, e agora iria ser uma corrida "sprint" até à meta. Mas os carros não estavam incólumes: o Porsche tinha problemas nos travões, e menos 400 rpm no seu motor, enquanto o Ford no escape. 

Os carros estavam tão perto um do outro que passavam na reta das Hunaudiéres. O Ford era mais lento que o Porsche, mas passava na zona mais sinuosa. Hermann foi para a frente no inicio da última volta, mas Ickx, que poupava combustível, aproveitou o cone de ar para passá-lo em Mulsanne. Depois, foi aguentar os ataques do Porsche até à meta, onde 120 metros os separaram, numa das mais curtas diferenças na história da clássica prova de Endurance. 

Para a Ford, foi a sua quarta vitória seguida, e para Ickx, a primeira das suas cinco vitórias naquela pista. Para a Porsche, a enorme frustração de estar tão perto de ganhar e não conseguir. Mas o potencial estava lá, e para o ano haveria mais. Até para Hans Herrmann, então com 41 anos, iria ter a sua chance. 

 

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