Sérgio Perez regressa à Formula 1 em 2026 pela Cadillac, mas não esqueceu a sua passagem pela Red Bull, pouco mais de um ano depois de ter saído pela porta pequena. Há alguns dias, o piloto mexicano falou num podcast e claro, as relações com a equipa dos energéticos, com Christian Horner e sobretudo, com Max Verstappen, especialmente quando a hierarquia era quebrada.
O ponto de partida, na versão de Pérez, foi o primeiro diálogo com Christian Horner, quando chegou à equipa e esta lhe disse ao que iam.
“O Christian disse-me muito abertamente: ‘Nós colocamos dois carros em pista porque temos de o fazer. Mas este projeto foi construído para o Max, ele é o nosso talento.’ Eu disse-lhe: ‘Isso não me interessa, desde que eu possa ter palavra no desenvolvimento e que tenha uma hipótese real.’” Contudo, isso nunca aconteceu, e segundo ele, com o passar dos meses, a equipa começou a deslizar para o lado de Max.
“Eu talvez estivesse no melhor carro, mas numa equipa extremamente complicada. Ser colega de equipa do Max já é difícil. Mas, na Red Bull, ser seu colega de equipa é o trabalho mais ingrato de toda a Fórmula 1.”
No final de 2024, quando estava na porta de saída, Perez teve aquela que viria a ser a sua última conversa com Christian Horner, em que falaram sobre o carro e a sua (agora) cronica fragilidade do segundo carro, numa equipa que trabalha apenas para Max. E também do desapego existente em relação aos outros pilotos, a começar pelo Junior Team.
“Perguntei-lhe: ‘Christian, o que fazes se não resultar com o Liam?’ Ele disse: ‘Então ainda há o Yuki.’ E eu perguntei: ‘E se também não resultar com o Yuki?' Ele disse apenas: ‘Temos pilotos suficientes.’ Eu disse: ‘Vais queimá-los a todos.’ E ele respondeu simplesmente: ‘Sim, eu sei.’”
No final da entrevista, aquilo que ficou foi a forma como a Red Bull alcançou o seu sucesso, um pouco à semelhança de outros projetos mais antigos: a Brabham, nos tempos de Nelson Piquet, no inicio dos anos 80 do século passado, que também tinha um patrão na figura de Bernie Ecclestone, e um projetista-estrela, na figura de Gordon Murray. E uma década mais tarde, primeiro na Benetton, com Flávio Briatore, com Rory Bryne e Ross Brawn, repetido na viragem do milénio na Ferrari, ambos com Michael Schumacher como piloto.
É verdade que a ideia ficou entre os fãs: esta é a melhor maneira de ter sucesso. Horner apenas repetiu o que foi feito no passado. O segundo piloto só existe porque os regulamentos assim o obrigam. Houve exemplos no passado onde houve equipas que só inscreveram um carro e foram muito bem sucedidos. A Wolf, em 1977, foi assim. Ken Tyrrell queria fazer isso de inicio, mas o facto de ter a Elf como patrocinador o obrigou a ter um piloto francês como secundário, mas a amizade com Francois Guiter, o representante da petrolifera francesa fez com que aparecesse bons pilotos e não os "queimasse". Mas isso eram os anos 70, e era um mundio diferente.
Hoje, as coisas são assim: acha-se a formula exata e o resto é acessório. Mas também, se formos pensar, o que aconteceu em 2025 foi o confronto de duas formulas, entre a concentração e a delegação. Na Red Bull, com a Formula exata, o resto que acompanhe. Se concentrarmos num, seremos fortes. Se dispersarmos, seriamos fracos. E queriam mostrar isso, especialmente numa McLaren que não decidia quem seria o primeiro piloto - e havia quem dissesse que tinham apostado no cavalo errado.
Contudo, o que Pérez não conta nesta entrevista é o seguinte: a Red Bull já não tem nem Horner, nem Helmut Marko, nem Newey. E sem Max, a equipa poderá ter de recomeçar tudo de novo, num caminho que poderá ser longo ou curto - dessa parte ainda não sabemos - e nem sabemos se será com Max a bordo. Ele é o único que ficou entre o seu tempo e agora. E parece que eles estão excessivamente dependentes dele, porque já deram o chassis que queria, e a equipa nada toda ao seu ritmo. E se o chassis ou o novo motor Ford não sair como esperam?
Mas também o que Sérgio Pérez contou foi uma verdade que poucos gostam, incluindo ele mesmo: numa equipa grande como a Red Bull, ninguém gosta de comer os restos.