quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

"Sportwashing"


Tudo isto começou com um sapato. Este sapato que vêm na foto. Ou, se quiserem, foi este sapato que me fez transbordar algo que estava trancado na minha garganta há algum tempo. Para quem ainda não sabe, é o que Sebastian Vettel irá usar no fim de semana saudita, em apoio à causa LGBTQ+. Ele e Lewis Hamilton são os únicos que farão algo em nome de algo que está ainda metida no armário nessa parte do mundo. A Península Arábica, onde quatro países da região acolherão em 2021 provas de Formula 1: Bahrein, Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, onde Abu Dhabi acolherá a prova final do campeonato.

Aliás, desde há algum tempo que a Formula 1 começa e acaba na Península Arábica. Sempre em provas noturnas, porque não estão lá pelas belas paisagens desérticas e porque é bonito correr à noite. Aquele é um dos locais mais inóspitos do mundo, onde viver lá em julho, a 55ºC, é insuportável para o ser humano. Então, se correm em paisagens monótonas e num lugar insuportável numa determinada altura do ano, porque lá vão? Pelas "verdinhas". Dinheiro.

Dinheiro, em países cujos registos de direitos humanos são péssimos. Estes quatro países têm a pena de morte nos seus códigos penais e na Arábia Saudita, dezenas de pessoas são executadas por ano. E os direitos dos LGBT's? Se assumires, não só és preso, como podes ser executado. Pois é!


Mas neste final de semana, alguns até celebram o facto de estarem em Jeddah, na Arábia Saudita. Os Safety Car da Aston Martin até modificaram o seu verde para ficarem parecidos com o da bandeira saudita. E faço esta pergunta: se corressem em 1983 em Kyalami, na África do Sul, também pintariam os seus carros de laranja "Orange" para celebrar a bandeira local, dos tempos do "apartheid"?

Vivemos na era do "sportwashing". Sempre houve uma hipocrisia ocidental de, embora apoiem os direitos humanos e impõem avisos e sanções a certos países como a China, Rússia, Cuba, Venezuela, Coreia do Norte e outros, quando se trata dos países da península arábica, fundos soberanos desses países comprarem clubes de futebol por este Europa fora, sem sanções ou avisos por parte das entidades competentes porque são "entidades privadas", ou quando a FIFA ou o Comitê Olímpico Internacional aceitam que os mundiais de futebol aconteçam num pequeno país como o Qatar ou aceite que a Arábia Saudita desfile só com homens até aos Jogos de Londres, em 2012, e não permitisse que as mulheres guiassem automóveis até 2018, pergunto a mim mesmo como alguns são filhos e outros enteados. Para não falar pior.


Quem é mais velho, como eu, e era criança nos anos 70 e 80 do século passado, sabia que a África do Sul vivia em isolamento desportivo internacional. Por causa do seu regime de segregação racial, separando brancos e negros, dando a estes o poder, em minoria, o resto do mundo reagiu com um boicote desportivo. Foram excluídos da FIFA e do COI pelo seu racismo e até foram excluidos do rugby, seu desporto nacional. Contudo, a Formula 1 era a única que quebrava esse isolamento. Iam regularmente a Kyalami em março ou outubro, e o GP sul-africano era uma paragem obrigatória.

Isto... até 19 de outubro de 1985. 

Nessa altura, o governo do apartheid decidiu executar três prisioneiros políticos. Isolado internacionalmente, com o mundo inteiro já a pedir a libertação de Nelson Mandela, o líder do ANC então preso desde 1964, a comunidade internacional decidiu pressionar a FISA, liderado por Jean-Marie Balestre, a cancelar o GP sul-africano, e Bernie Ecclestone, que detinha os direitos televisivos. Também pressionaram os pilotos a não irem a Joanesburgo, cidade do qual se situava o circuito. Apesar do governo francês ter proibido a Ligier e a Renault de lá irem, e o australiano Alan Jones ter decidido boicotar a corrida no próprio dia, alegando uma indisposição, 21 carros participaram numa prova ganha pelo Williams de Nigel Mansell.

A BBC e mais outras cadeias não transmitiram a corrida, mas a Formula 1 não voltou mais lá até 1992, quando já se faziam as reformas para que chegassem o governo de maioria negra, o que aconteceu em 1994. 

Hoje, mais de 35 anos depois, parece que isso foi esquecido, porque como podem ver, há gente que está entusiasmada por estarem na Arábia Saudita. A Formula 1 está a fazer uma festa com esta chegada, e até os Safety Car da Aston Martin, como os falei, mudaram de verde para saudar aqueles que têm sengue nas mãos. Lembram-se de Jamal Kashoggi, o jornalista morto nas instalações do consulado saudita em Istambul, a mando de Mohammed Bin Salman, o príncipe herdeiro?  

O que quero dizer é que a Formula 1, pelo dinheiro, não se importa com o resto. Parece uma garotinha a quem precisa de um "sugar daddy" para manter o seu estilo de vida. Mas não é só a Formula 1, o futebol permitiu que realizasse um Mundial de futebol no Qatar, que ai acontecer no ano que vêm, e nos termos deles, não da FIFA. O que quer dizer que o dinheiro é rei, até os direitos humanos se dobram face a ela. 


Agora, está tudo bem. É uma pedra que passa pela garganta, mas está tudo bem. E quando as coisas explodirem, como aconteceu em 2011, com a Primavera Árabe? Lembram-se o que aconteceu no Bahrein, e como a corrida de 2012 aconteceu, custou o que custou? Já tolero - mal, como andam a reparar - a Formula 1 no Médio Oriente, mas... quando algum destes governos mostrar a sua verdadeira face - e vão mostrar, acreditem - vai ser "business as usual"? Ou continuaremos com o "sportwashing"? A Formula 1, FIFA ou outra entidade qualquer vai trocar de fato e mandar o que está cheio de sangue para a lavandaria? Não sei se assistiam aos episódios do CSI, mas por muito que lavem o sangue, baste uma luz de infravermelhos para detetarem os seus vestígios 

E nem falo só disso, também poderemos falar como, crescentemente, clubes de futebol um pouco por todo o mundo (desde a francesa PSG até à inglesa Newcastle, passando por Manchester City) estão a ser comprados por fundos soberanos desses países, por centenas de milhões de dólares, porque os fãs querem ganhar, não interessa como.

Em jeito de conclusão, apesar do duelo excitante que temos em mãos nesta temporada de 2021, entristece-me que isto aconteça no pior dos cenários, num país que reprime pessoas por pensarem e serem diferentes. Estamos numa era triste. Em tudo. Deitaram a ética para o caixote do lixo, e não sei quando e como reagiremos quando cair a gota que transbordará este copo. 

Portanto, para a Formula 1 em particular, e para o desporto em geral, prefiro chamá-los por aquilo que são: hipócritas sugadores de dinheiro. E deixo aqui o meu protesto. Não posso ficar calado, começo a cansar-me desta cegueira. Adoro a Formula 1, mas a dignidade humana tem de estar acima do dinheiro. Não vale tudo!

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