quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A imagem do dia






A 14 de janeiro de 1986, o Rali Dakar estava na sua 12ª etapa, entre Niamey, no Niger, e Gourma-Rhaous, no Mali. Era o dia a seguir ao dia de descanso do rali, e rumavam para Dakar, faltando toda uma semana, já que acabaria no dia 22, em Dakar, depois de passagens por Guiné-Conakri, Mauritânia e Senegal. 

Estava a ser um Dakar complicado. logo na primeira etapa, a caminha de Séte, o porto francês onde iriam embarcar para África, um motociclista japonês, Yazuko Keneko, de 41 anos, é atropelado mortalmente por um condutor alcoolizado. Nos dias seguintes, alguns acidentes, uns mais sérios, como o de Hubert Auriol (que parte a clavícula) e de Jean-Michel Baron, que sofre um traumatismo cranio-encefálico, e outro cervical, que o deixa quadriplégico e em coma até 2010, quando morre. 

A tudo isto assiste Thierry Sabine, o fundador e organizador do Dakar. Acompanha os pilotos a bordo do seu helicóptero branco, um Ecreuil AS-350, e ele organiza a evacuação de Baron para um hospital de campanha, antes de ser evacuado para Paris, a 14 de janeiro.

Nesse dia, Sabine acompanha os concorrentes no seu helicóptero. A pilotar está Francois-Xavier Bagnoud, que apesar de jovem, era um piloto experimentado neste tipo de aparelho, e ele transporta quer Sabine, quer o seu convidado VIP: o cantor Daniel Balavoine, um dos mais populares do seu tempo em França. Com eles está o jornalista Patrick Chéne e o fotógrafo Yann-Arthus Bertrand, um dos mais famosos de França - está a fazer o álbum fotográfico do Dakar - que acompanha Sabine e Balavoine nesta aventura. 

Eles estão a ajudar a abrir poços de água naquela região do Sahel, importantes para abastecer as famílias e regar as culturas perante o avanço do deserto. No final do dia, no lado da Guiné, irão participar num jogo de futebol com aldeões locais, para comemorar a abertura de mais um poço. Tudo isto enquanto o rali decorre. 

Mas o dia começa com Chéne adoentado e a ficar em Bamako, no seu lugar vai outra jornalista, Nathalie Odent, mais o seu "cameraman", Jean-Paul Le Fur. No final do dia, os cinco vão seguindo a caravana, num tempo não muito fantástico: uma tempestade de areia está a aparecer no horizonte. E entre eles, também a acompanhar o rali, está Patrick Port D'Avort, o mais famoso "pivot" de televisão de França naqueles tempos. Está ali, ao serviço do semanário "Journal de Dimanche", um dos mais lidos do país. 

O jogo de futebol demora tempo demais, e quando tudo acaba, o sol já se está a por e a tempestade está perigosamente perto. Na correria para apanhar uma boleia aérea, Port D'Avort e Yann-Arthus Bertrand decidem apanhar um avião que estava ali perto, e iriam seguir para Gourma, na meta. Com duas vagas, Odent e Le Fur vão nele, acompanhados por Sabine e Balavoine, que não era para seguir inicialmente no helicóptero, mas não encontrou alternativas. Eram 17:15 da tarde.

Chegados a Gourma, decidem seguir para Gao, 250 quilómetros mais abaixo. Com a visibilidade baixa, o piloto decidiu seguir o rio Niger para orientação, e irão pousar por duas vezes. Primeiro em Gossi, pelas 18:10, onde Sabine sai para falar com alguns concorrentes sobre a etapa, e depois, perto de Gourma, onde a noite já se instalou. E tinham de aterrar, custasse o que custasse, porque aquele aparelho não estava equipado para viajar de noite. 

Na segunda aterragem, Sabine pede por um veículo para que leve até à meta, mas nada aparece, a não ser os carros dos concorrentes. Frustrado por nada aparecer, arrisca e entra de novo no helicóptero, e este anda raso ao solo, com a tempestade a levantar-se e a visibilidade nula, quer pela areia levantada, quer pela luminosidade que está a desaparecer. Eles passam por um carro, a alta velocidade, porque estavam a contornar uma duna, mas quando faziam isso, os patins tocam na areia e o piloto perde o controlo. Desiquilibrado, atinge os ramos de uma acácia e estatela-se no chão com estrondo.

Os cinco ocupantes tiveram morte imediata. Sabine tinha 36 anos, Balavoine 33, Le Fur 35, Odent 25 e o piloto, Bagnoud, 24.

Nos tempos seguintes, no inquérito que se seguiu, tentou apurar-se quem ia pilotar o helicóptero naquele instante. Houve quem dissesse que era Sabine, mas ele não era capaz de pilotar durante a noite, e ainda por cima houve outra razão: a descoberta de um penso curativo na perna, aparentemente por causa de uma mordida de animal - picada de escorpião ou mordedura de serpente - que poderia explicar a urgência de levantar o helicóptero na sua descolagem fatal. Mas hoje em dia, a explicação mais racional foi que a tempestade e o facto de voarem no final do dia, quase sem visibilidade, ajudou no desastre que causou um tremendo choque em França, e faz hoje 40 anos. 

Sem comentários: