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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

A imagem do dia






A 14 de janeiro de 1986, o Rali Dakar estava na sua 12ª etapa, entre Niamey, no Niger, e Gourma-Rhaous, no Mali. Era o dia a seguir ao dia de descanso do rali, e rumavam para Dakar, faltando toda uma semana, já que acabaria no dia 22, em Dakar, depois de passagens por Guiné-Conakri, Mauritânia e Senegal. 

Estava a ser um Dakar complicado. logo na primeira etapa, a caminha de Séte, o porto francês onde iriam embarcar para África, um motociclista japonês, Yazuko Keneko, de 41 anos, é atropelado mortalmente por um condutor alcoolizado. Nos dias seguintes, alguns acidentes, uns mais sérios, como o de Hubert Auriol (que parte a clavícula) e de Jean-Michel Baron, que sofre um traumatismo cranio-encefálico, e outro cervical, que o deixa quadriplégico e em coma até 2010, quando morre. 

A tudo isto assiste Thierry Sabine, o fundador e organizador do Dakar. Acompanha os pilotos a bordo do seu helicóptero branco, um Ecreuil AS-350, e ele organiza a evacuação de Baron para um hospital de campanha, antes de ser evacuado para Paris, a 14 de janeiro.

Nesse dia, Sabine acompanha os concorrentes no seu helicóptero. A pilotar está Francois-Xavier Bagnoud, que apesar de jovem, era um piloto experimentado neste tipo de aparelho, e ele transporta quer Sabine, quer o seu convidado VIP: o cantor Daniel Balavoine, um dos mais populares do seu tempo em França. Com eles está o jornalista Patrick Chéne e o fotógrafo Yann-Arthus Bertrand, um dos mais famosos de França - está a fazer o álbum fotográfico do Dakar - que acompanha Sabine e Balavoine nesta aventura. 

Eles estão a ajudar a abrir poços de água naquela região do Sahel, importantes para abastecer as famílias e regar as culturas perante o avanço do deserto. No final do dia, no lado da Guiné, irão participar num jogo de futebol com aldeões locais, para comemorar a abertura de mais um poço. Tudo isto enquanto o rali decorre. 

Mas o dia começa com Chéne adoentado e a ficar em Bamako, no seu lugar vai outra jornalista, Nathalie Odent, mais o seu "cameraman", Jean-Paul Le Fur. No final do dia, os cinco vão seguindo a caravana, num tempo não muito fantástico: uma tempestade de areia está a aparecer no horizonte. E entre eles, também a acompanhar o rali, está Patrick Port D'Avort, o mais famoso "pivot" de televisão de França naqueles tempos. Está ali, ao serviço do semanário "Journal de Dimanche", um dos mais lidos do país. 

O jogo de futebol demora tempo demais, e quando tudo acaba, o sol já se está a por e a tempestade está perigosamente perto. Na correria para apanhar uma boleia aérea, Port D'Avort e Yann-Arthus Bertrand decidem apanhar um avião que estava ali perto, e iriam seguir para Gourma, na meta. Com duas vagas, Odent e Le Fur vão nele, acompanhados por Sabine e Balavoine, que não era para seguir inicialmente no helicóptero, mas não encontrou alternativas. Eram 17:15 da tarde.

Chegados a Gourma, decidem seguir para Gao, 250 quilómetros mais abaixo. Com a visibilidade baixa, o piloto decidiu seguir o rio Niger para orientação, e irão pousar por duas vezes. Primeiro em Gossi, pelas 18:10, onde Sabine sai para falar com alguns concorrentes sobre a etapa, e depois, perto de Gourma, onde a noite já se instalou. E tinham de aterrar, custasse o que custasse, porque aquele aparelho não estava equipado para viajar de noite. 

Na segunda aterragem, Sabine pede por um veículo para que leve até à meta, mas nada aparece, a não ser os carros dos concorrentes. Frustrado por nada aparecer, arrisca e entra de novo no helicóptero, e este anda raso ao solo, com a tempestade a levantar-se e a visibilidade nula, quer pela areia levantada, quer pela luminosidade que está a desaparecer. Eles passam por um carro, a alta velocidade, porque estavam a contornar uma duna, mas quando faziam isso, os patins tocam na areia e o piloto perde o controlo. Desiquilibrado, atinge os ramos de uma acácia e estatela-se no chão com estrondo.

Os cinco ocupantes tiveram morte imediata. Sabine tinha 36 anos, Balavoine 33, Le Fur 35, Odent 25 e o piloto, Bagnoud, 24.

Nos tempos seguintes, no inquérito que se seguiu, tentou apurar-se quem ia pilotar o helicóptero naquele instante. Houve quem dissesse que era Sabine, mas ele não era capaz de pilotar durante a noite, e ainda por cima houve outra razão: a descoberta de um penso curativo na perna, aparentemente por causa de uma mordida de animal - picada de escorpião ou mordedura de serpente - que poderia explicar a urgência de levantar o helicóptero na sua descolagem fatal. Mas hoje em dia, a explicação mais racional foi que a tempestade e o facto de voarem no final do dia, quase sem visibilidade, ajudou no desastre que causou um tremendo choque em França, e faz hoje 40 anos. 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

As imagens do dia










Agora que teremos o Dakar à porta, hoje decidi falar sobre o homem por trás da ideia. E ele foi mais do que um mero fundador, acreditem. 

A 11 de janeiro de 1977, um motociclista perdeu-se no meio do deserto, mais concretamente, no Tchigai Plateau, no leste da Argélia. Ele acionou os meios de socorro, mas à medida que demoravam para o salvar, ele convenceu-se que esses socorros poderiam chegar demasiado tarde. Pensou seriamente na ideia, caso chagasse ao limite: se expusesse o seu pescoço ao calor de 45 graus do deserto do Sahara, a sua língua iria inchar tempo suficiente para morrer sufocado. Contudo, depois de três dias de caminhada, ele é salvo "in extremis" pelo avião de Jean-Michel Sinet, que estava ao serviço do organizador do "rally-raid", Jean-Claude Bernard

Depois de recuperado, disse: "É uma experiência que não desejo nem ao meu pior inimigo, mas não me arrependo". O nome da pessoa salva? Thierry Sabine. Dois anos depois, iria organizar o primeiro Dakar. 

Thierry Sabine nasce a 13 de junho de 1949 em Boulogne-Billancourt, em Paris. Filho de um dentista, Gilbert Sabine - que depois irá ajudar na organização da prova fundada pelo seu filho - ele começa a correr em ralis, em 1969, num Alpine A110. Mas a sua paixão são as motos, apesar de participar em carros - em 1975, chega a correr nas 24 Horas de Le Mans, num Porsche 911. 

Entre corridas, ele exercia a função de relações públicas e assessor de imprensa. Um dia, ele é contactado pela autarquia de Le Toucquet, estancia balnear do Canal da Mancha, e lhe pergunta sobre se tinha sugestões para reavivar a cidade durante os meses de inverno. A sua solução? Um enduro. 

O "Enduro de Le Touquet" é basicamente, um percurso na praia, onde os pilotos partem em linha e percorrem as primeiras centenas de metros à beira do mar, antes de penetrarem nas dunas e dão uma volta, num circuito de quinze quilómetros. A primeira edição acontece a 16 de fevereiro de 1975 e torna-se num êxito absoluto: 286 concorrentes, todos em cima de uma moto, e quase todos amadores. A inspiração para este Enduro é basicamente... Steve McQueen. Mais concretamente a sua paixão pelas motos, que passou para filme, de seu nome "On Any Given Sunday". 

Com a experiência do Le Touquet, em 1977, participa no "raid" Abidjan-Nice, numa moto, e tem a sua experiência-limite. No regresso à França, começa a pensar na ideia de colocar gente aventureira no meio do deserto, para passar a experiência a outros, e assim, atrair gente para a travessia no deserto. No dia a seguir ao Natal de 1978, com a Torre Eiffel como pano de fundo, 170 viaturas, entre carros, motos, buggys e camiões, partem rumo a Dakar, onde chegarão a 14 de janeiro de 1979. Torna-se um êxito, e Sabine diz logo o que se trata: "Um desafio para os que partem, um sonho para os que ficam". 

O percurso é simples: de Paris até Marselha (ou Toulon ou outro porto importante no Mediterrâneo), embarcam de "ferry" para Argel, e dali, percorrem o deserto, rumo, primeiro, para o sul, depois para o Oeste, atravessando o Mali, o Niger, a Mauritânia, e por fim, o Senegal, acabando no Oceano Atlântico, passando pelo Lago Rosa. 

Como não há classificações separadas para carros, motos ou camiões, o vencedor é uma moto, guiada por Cyril Neveu

Nos anos seguintes, é um sucesso tremendo. Os inscritos aumentam, as equipas de fábrica participam, com os profissionais a entrarem nisto a sério, mas os amadores não são enxotados de lado, bem pelo contrário: todos eram bem-vindos. E todos tinham de ser salvos, caso se perdessem. Foi o que aconteceu em 1982, quando o Peugeot 504 que levava Mark Thatcher, o filho de Margaret Thatcher, então primeira-ministra do Reino Unido, e piloto amador, perdeu-se na Argélia, e foi salvo quando foi avistado por um Hércules C-130 da Força Aérea Argelina.

No ano seguinte, ainda mais drama houve, quando 40 pilotos se perderam no enorme deserto do Teneré, depois de uma tempestade de areia. Pegou no seu helicóptero e nos quatro dias seguintes, localizou-os, um a um, e os ajudou a guiar rumo ao caminho indicado, sem perdas. Tempos depois, um dos concorrentes falou sobre os seus esforços de resgate da seguinte maneira:

"Temos sempre a impressão que o Thierry Sabine é Deus que cuida das ovelhas do seu rebanho no alto do seu helicóptero, descendo sobre nós para ajudar aqueles que se perderam no caminho".

Em 1986, o percurso do Dakar partia de Paris no dia de Ano Novo, e acabava a 22 de janeiro em Dakar. Iam até Sète, em França, e desembarcavam em Argel, onde partiriam para etapas no Niger, Mali, Guiné-Conakri, Mauritânia, para, por fim, chegarem à meta, no Senegal. Muitos e muitos inscritos: 486, divididos entre 282 motos, 131 carros e 71 camiões. 

Os favoritos? A Porsche, que metia uma equipa oficial, com 959, guiados pelo veterano Jacky Ickx, vencedor do rali em 1981. Ano Novo, competição nova e Sabine, então com 35 anos, a zelar pelo bom rumo dos concorrentes, no alto do seu helicóptero.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

A imagem do dia

O normal fos filhos é ficarem com o negócio dos pais quando eles morrem ou reformam-se. Mas para Gilbert Sabine, um pacato dentista do norte de França, aos 64 anos de idade, foi acometido de algo inesperado: ficar com o negócio do filho, tragicamente desaparecido num acidente. Pode-se imaginar que isso é anormal, mas mais anormal seria se esse negócio fosse o Paris-Dakar, precisamente a mais famosa prova de todo-o-terreno, fundada pelo seu filho, Thierry Sabine.

E tudo isso se passou em 1986. A 14 de janeiro, quando a caravana estava em Gao, no Mali, o helicóptero, um Ecreuil, levava Sabine, o piloto e co-piloto, o cantor Daniel Balavoine e a jornalista Nathalie Odent quando este se despenhou numa duna, matando-os a todos. A organização, apanhada em choque, pediu ao seu pai para que administrasse da melhor maneira possível a administração deste rali, enquanto passava pela tarefa de sobreviver - como todos - à morte do seu fundador. 

Gilbert Sabine fez o seu melhor, mantendo-se à frente da organização até ao final da década de 80, quando esta passou para as mãos da Amaury Sports Organiation, a ASO. Ao ver que esta estava em boas mãos, decidiu regressar ao anonimato da sua vida e observar o legado do seu filho crescer e ir para outros lados, como este ano, onde passará a correr nas areias do deserto saudita, onde um século antes, T.E. Lawrence ajudou os beduinos do deserto se libertar do jogo otomano, apesar da Grã-Bretanha e França não lhes terem dado logo a independência...

Gilbert Sabine morreu no último dia de 2019, aos 97 anos de idade. O Dakar, independentemente do lugar, continua a ser tão famoso e tão forte como era nos tempos do seu filho, porque não interessa o lugar, o que se que é muita areia e que seja aquilo que o seu filho disse um dia. Que fosse o desafio para os que partiam, e um sonho para os que ficavam. 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A imagem do dia

Há precisamente 30 anos, o Dakar estava em África, e ainda era uma aventura de amadores que, com carros altamente modificados, aventuravam-se nas areias africanas para chegar à capital senegalesa, provenientes de Paris. E quem manobrava tudo, oleava a máquina para que as coisas correm sem incidentes era o seu idealizador, Thierry Sabine. Em 1977, perdeu-se no deserto libio a bordo da sua moto Yamaha, e por momentos, pensou que seria o seu fim. Contudo, quase por um milagre, foi salvo por um avião que ia a passar... por acaso. É que os organizadores já o davam como morto. Mas salvou-se. E decidiu aproveitar esse momento para fazer algo melhor.

Dois anos depois, já acontecia o primeiro rali, de Paris a Dakar, passando por Argel, palco da chegada a África. E era assim em 1986, quando, apesar dos amadores serem a maioria, as equipas profissionais já andavam por ali, com a Porsche a colocar os seus 959 nas areias do deserto, por exemplo.

A 14 de janeiro, Sabine e a caravana do Dakar estavam entre o Niger e o Mali, a caminho do Dakar. Ele seguia tudo no seu helicóptero Ecreuil, com o cantor Daniel Balavoine e mais dois fotógrafos (um deles Yann-Arthus Bertrand, o autor de "A Terra Vista do Céu") para distribuir bombas de água pelas populações locais. O vento começou a levantar, à medida que o dia acabava, e no final, a visibilidade era escassa, a pouco mais de vinte quilómetros da meta. Contudo, o piloto tentou abusar da sorte (provavelmente, a pedido de Sabine) e não viram uma duna. O resultado é o que vêm na fotografia: Sabine, Balavoine, o piloto, mais a jornalista Nathalie Odent, da TF1 e o seu cameraman, Jean-Yves Le Fur, acabaram por morrer. Estes dois últimos trocaram de lugar com Bertrand e o jornalista Patrick Port D'Arvor (um dos mais famosos de França), que queriam chegar mais cedo a Bamako e apanharam um avião, numa das pausas da etapa.

O rumor correu forte durante a noite, mas só de manhã é que a noticia foi confirmada, e foi um choque. Lembro-me bem disso, do alto dos meus nove anos, e também me lembro das dúvidas que se colocava em relação ao futuro do Dakar sem Sabine. Pois bem, como podem ver, continua firme e forte... apesar de acontecer noutro continente.

Hoje em dia, as cinzas de Sabine estão espalhadas numa árvore que tem o seu nome, não longe do local onde o helicóptero caiu. O legado, esse, continua. 

"Um desafio para os que partem, um sonho para os que ficam" Thierry Sabine, 1949-1986

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

No Nobres do Grid deste mês...

(...) "Em janeiro de 1977, [Thierry] Sabine decide participar no Rally Abidjan-Nice numa moto Yamaha XT500, na companhia de três amigos, Dominique Sauvêtre, Patrick Schaal e Uwe Ommer. As coisas correm sem problemas até que o rali entre no deserto do Sahara, numa zona no sudoeste da Libia. Sabine fica sem gasolina na sua moto e decide caminhar em busca de assistência durante três dias, debaixo de um calor intenso, com mais de 45 graus de temperatura. Quando estava prestes a desistir, um avião aparece e acaba por salvá-lo. O avião tinha aparecido por acaso, pois a organização já o tinha dado como perdido. Após ter encontrado, o piloto lhe disse: “Meu amigo, depois disto, tudo o que você viver será lucro”. Depois de ser assistido, regressa à França, onde a imprensa lhe dá destaque por causa da aventura que tinha vivido."

(...)

"Tudo ficou pronto para a partida da primeira edição, na véspera de ano Novo de 1979. O rali começava em Paris, e a caravana ia até Sête, onde embarcariam um ferry-boat rumo a Argel, a capital da Argélia, e atravessavam o deserto do Sahara até atravessarem a fronteira do Nigel, o Mali (com um dia de repouso em Gao) para por fim, chegarem ao seu destino, o Senegal. 140 concorrentes aparecem no rali, e o vencedor é Alain Genestier, em carros, e Cyril Neveu, em motos. O rali se torna num sucesso, e Sabine, questionado sobre o que deveria ser este rali, responde “Um desafio para os que partem, um sonho para os que ficam”. Tornou-se no lema do rali para os anos seguintes, que cedo começa a mostrar a sua periculosidade, com a primeira morte a ocorrer na primeira edição, um motard francês, de seu nome Patrick Dodin, que é projetado quando tentava ajeitar o seu capacete."

(...)

"Quando o Dakar entra na sua sétima edição em 1986, já era uma prova incontornável no automobilismo. Entre carros, motos e camiões, nesse ano, estavam inscritos 486 veículos, e marcas oficiais como Porsche e Mercedes fazem parte do rali, entre as dezenas de pilotos amadores e entusiastas, vindos um pouco por todo o mundo."

"E também se sabia que era um rali perigoso, pois todos os anos morria sempre alguém normalmente motards, que caíam a alta velocidade nas classificativas do deserto, mas também havia espectadores atropelados pelos carros em alta velocidade. E o rali, que começara em Paris no 1º de janeiro, começava mal quando na madrugada do dia 2, nos arredores de Sête, o motard japonês Yazko Kaneko é mortalmente atropelado por um condutor em sentido contrário. Veio-se a saber depois que esse condutor estava alcoolizado."

(...)

"Para Sabine, agora com 36 anos, os acidentes fazem parte do espetáculo, e o que interessa é fazer que tudo corra sobre rodas. Numa roda-viva entre as diversas autoridades, e verificar o estado dos pilotos, entre outros, Sabine desloca-se num helicóptero Ecreuil, sempre disponível para as suas deslocações." (...)

No próximo dia 14 de janeiro, numa altura em que o Rali Dakar estará a acabar em terras argentinas, passarão 30 anos sobre o acidente mortal de Thierry Sabine, que ocorreu na zona de Gourma-Rhaous, no Mali, quando o seu helicópetro tinha batido contra uma duna no final desse dia e no meio de uma tempestade. Para além de Sabine e do seu piloto, iam também o cantor Daniel Balavoine e os jornalistas Nathalie Odent e Jean-Paul Le Fur, e todos tiveram morte imediata.

Trinta anos depois, o legado de Sabine continua forte, mas noutro continente. E mesmo em África, provas como o Africa Race continuam a existir, palco de muitos entusiastas, que pretendem correr nas areias do deserto do Sahara, passando por condições extremas, só para viver a aventura. Tudo isto e muito mais pode ser lido este mês no site Nobres do Grid

terça-feira, 10 de julho de 2012

O extraordinário ano de 1986

Ainda não tinha visto, mas coloco aqui: a capa da Autosport portuguesa deste mês. Eles decidiram este mês recordar um ano extraordinário que foi o de 1986. E eu concordo com eles, porque de facto foi um ano verdadeiramente extraordinário. Pelas boas e claro, más razões. Ainda não li a revista, mas tenho quase a certeza que me irei recordar disso tudo. Afinal de contas, tinha dez anos quando tudo isto aconteceu.

Já fiz menção dessas recordações ao longo do ano passado, quando passaram as "bodas de prata" desses eventos. Falei atempadamente da morte de Thierry Sabine, no Rali Dakar daquele ano, no Mali. Falei também dos eventos que rodearam o acidente da Lagoa Azul, no Rali de Portugal, onde se consciencializou de que os carros estavam a ficar cada vez mais descontrolados e o comportamento selvagem dos espectadores no Rali de Portugal começou a ser domado. E claro, onde se colocou o primeiro prego no caixão dos "Grupo B", sendo o último colocado a 2 de maio daquele ano, quando Henri Toivonen e Sergio Cresto mergulharam para o sens fins num ribanceiro corso, vítimas de um Lancia fora de controlo.

Falei também sobre os eventos de um mero teste em Paul Ricard, onde Elio de Angelis acabou os seus dias quando tentava melhorar um carro que à partida era tão radical que a experiência se tornou num fracasso, o modelo BT55. E isso também marcou o inicio do fim de uma equipa como a Brabham, chefiada por Bernie Ecclestone e cujos carros eram desenhados por um génio chamado Gordon Murray.

Mas claro, o ano de 1986 não foi só feito de desgraças. Falamos de uma temporada onde os motores turbo estavam no auge, em que existiam quatro talentos na Formula 1 cuja fotografia deles, no muro do Autódromo do Estoril, em setembro daquele ano, se tornou iconicamente famosa. E claro, tem de se dizer que essa foto foi arranjada graças a Bernie Ecclestone, que sempre percebeu o poder da imagem nestas coisas todas. Mas se a foto imortalizou aquelas quatro personagens - Alain Prost, Ayrton Senna, Nelson Piquet e Nigel Mansell - não se pode esquecer que outros grandes pilotos também existiam no pelotão da Formula 1: Keke Rosberg, Gerhard Berger, Michele Alboreto... que deram luta a estes quatro nas corridas e eram tão bons como eles. E por vezes, tinham máquinas melhores do que eles.

E quem fala disso na Formula 1, fala também dos ralis, com os Peugeot, os Audi e os Lancia, entre outros, com a interferência dos Ford e dos MG, e pilotos como Markku Alen, Juha Kankkunen, Michele Mouton, Timo Salonen, Miki Biasion, Walter Rohrl, entre outros, que se mostravam nas classificativas um pouco por todo o mundo, e do qual Henri Toivonen era visto como um dos valoes em ascensão, antes do acidente na Córsega ter modificado tudo. E não se deve esquecer que eram grandes os momentos nos Sport Protótipos, com os Porsche e os Jaguar, com a Sauber à espreita, pelo menos nas 24 Horas de Le Mans. E nem a clássica da Endurance escapou da turbulência, com o que aconteceu a Jo Gartner... 

E não foi só no automobilismo que esse ano foi extraodrinário. Houve coisas que aconteceram nesse ano que para quem os viu, nunca mais o vai esquecer. O acidente do "space shuttle" Challenger. O acidente da central nuclear de Chernobyl. O Mundial do México e a Argentina de Maradona. E a "mão de Deus", que não foi mais do que uma batota bem sucedida. E claro, este foi o tempo onde se começou a vislumbrar o fim da Guerra Fria.

Tenho de ler a revista. Para poder recordar tudo de novo.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Caro Thierry Sabine:

Caro Thierry Sabine:

Calha este dia ser o penúltimo do rali que você imaginou há mais de trinta anos. Se você ainda andasse por cá, teria visto o quanto é que mudou e se reinventou para poder manter a aura que você construiu enquanto andou por aqui: já saiu de Paris, já saiu de África. O Dakar é mais uma palavra que toda a gente identifica como "desafio", "perigo", "esforço" e "recompensa". Mas já não se corre em África, está na América do Sul, mais pacifico de se correr do que bandos de tuaregues ou muçulmanos extremistas, que para darem nas vistas não se importam de matar uns quantos ocidentais. Aliás, foi por causa disso que mataram quatro franceses na Mauritânia e cancelaram a edição de 2008, que iria partir de... Lisboa.

Eis uma pergunta que gostaria de fazer a si, caso estivesse vivo: você seria inflexível em relação ao local de partida e de chegada, ou queria pura e simplesmente correr no deserto do Sahara? Eu sei que teve uma experiência de "quase morte" no deserto, quando se perdeu, em 1977. E que foi por causa disso que viu o seu poder e decidiu criar este rali. E que naquele dia de Natal de 1978, quando viu mais de 80 carros, 90 motos e uma dúzia de camiões, você disse que o risco de morte era real.

Depois de você ter desaparecido naquele acidente de helicóptero no Niger, muito mudou. Primeiro o local de partida foi mudado: Córdoba, Madrid, Lisboa... um dia, em 2008, mataram quatro franceses na Mauritânia e o governo francês decidiu pressionar a ASO para cancelar o Dakar, na véspera da sua partida. Se você andasse por lá, era capaz de evitar que isso acontecesse? Aliás, você era a pessoa que conseguia tudo: desbloquear burocracias, falar com governantes, patrocinadores, imprensa... parecia que conseguia tudo, nada lhe era impossível de resolver. Um dia, nesse ano de 2008, a politica levou a melhor e foi cancelado. E é por isso que andam a rolar em sítios tão estranhos como o Deserto do Atacama. 

Sim, hoje, as coisas estão "caramelizadas", no sentido de não há perigo de se perder no deserto, como havia nesses tempos. É certo que o risco de morte está lá, especialmente entre os motards, mas ver perder alguém no deserto do Atacama é uma inverosimilhança tão grande como ver dragões de Komodo nas Ilhas Galápagos. Claro, há iguanas, mas não é a mesma coisa. É isso onde quero chegar: o Dakar conseguiu viver depois de você, mas perdeu um pouco da aura. Não para em Dakar, para este ano em Lima, a capital do Peru, e pelo que me contam, vai acabar em Santiago do Chile no ano que vêm. Qualquer dia, caro Thierry, ainda vou ver o Dakar a acabar em Las Vegas. Era isso que tinha em mente quando o criou? Duvido, e não sei se seria capaz de o ver noutro continente. Fazer um rali diferente, sim, mas não o Dakar.

Pessoalmente, fico com a sensação de que usar o nome "Dakar" mais parece ser um engodo para atrair trouxas, provavelmente os mesmos que ainda acreditam que o Dakar voltará alguma vez a África. Acho que deverá voltar, mas não deverá ser nos meus tempos. Enquanto existir confusão naquela parte do Norte de África, não deverão voltar para lá. E depois, fico com a sensação que os organizadores fartaram-se daquilo. Não sei se concorda com a minha ideia, mas é assim que vejo.

Caro Thierry, se for daqueles que acha que o essencial era ter um "rally-raid" que fosse fiel à frase que disse certo dia, de que "era um desafio aos que partem, um sonho para os ficam", pois digo de uma certa forma que o objetivo está a ser cumprido, pois apesar das equipas de fábrica, ainda continuam a vir os amadores e os loucos para fazer este rali. E se calhar, de onde você estiver, até deve estar feliz por saber que nesse aspecto, a essência está lá, independentemente do continente. Pois enquanto existirem os aventureiros e os loucos a quererem fazer parte deste "rally-raid" absolutamente esgotante, você já ganhou a eternidade. 

Não o incomodo mais no sitio onde está. Certamente deve estar a ver o que se passa por estas bandas. E provavelmente contente por ver que a prova continua, dê por onde der, noutro continente. Abraços e até um destes dias, algures nesse grande universo desconhecido, tão misterioso como o deserto que aprendeu a a gostar e a respeitar, e que quis que um dia repousassem as suas cinzas. Conseguiu isso tudo. 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O dia em que o Rali Dakar perdeu o seu criador

Faz hoje exactamente vinte e cinco anos. Já parece ser muito tempo, mas parece que ainda me lembro de o que estava a fazer quando a noticia foi dada na televisão. Sabia-se que o Rali Paris-Dakar era duro e longo, mas no meu caso, na inocência dos meus nove anos de idade, desconhecia que também poderia ser mortal. E recordo-me nos dias seguintes das angustias sobre o futuro desse mesmo rali após a morte súbita e trágica do seu fundador - e para muitos, a sua alma - do Dakar: Thierry Sabine.

Os eventos que irei descrever nas linhas a seguir mostram até que ponto a sorte e o acaso andam de mãos dadas. E que como é que algumas das figuras desta história escaparam de uma morte violenta, ou então a razão pelo qual foi o puro azar que os fez parte desta história. Pelas piores razões. E como isto tudo ainda tem uma certa aura de mistério, que até alguns acreditam na teoria de sabotagem, dados os envolvidos nesta acidente mortal.

A 14 de Janeiro de 1986, o Rali Paris-Dakar fazia a etapa entre Niamey, a capital do Niger, e Gourma, no Mali, no total de 843 quilómetros. A caravana já estava no Sahel, onde o deserto dava espaço à terra, com arvores esparsas aqui e ali. Já não faltava muito para o final do evento, em Dakar, mas ainda que percorrer o suficiente para chegar à capital senegalesa.

O rali corria bem em termos de concorrentes, apesar de uma sombra sobre ela logo no segundo dia, quando o motard japonês Yasuiro Kaneko tinha sido vitima mortal de uma colisão em Sête, ainda em território francês, com um condutor de um automóvel que dpeois se verificou estar alcoolizado na hora do acidente. Para Sabine, isso não lhe augurava nada de bom. Tinha dito numa entrevista, semanas antes, que esperava algo de surpreendente na edição desse ano do Dakar, só não sabia o quê.

Como organizador, Sabine tinha de estar atento aos detalhes. Desde falar com as autoridades dos paises onde a caravana passava para facilitar a passagem pelas suas fronteiras e garantir a segurança dos concorrentes e das populações onde passavam, pois os atropelamentos começavam a ser frequentes, até assistir a algum concorrente perdido ou ferido em algum acidente. E nesse dia, as coisas não seriam diferentes: como começava num país e acabava noutro, tinha que lidar com burocracias de ordem alfandegária. E era por isso que tinha um helicóptero Ecreuil branco sempre à mão.

Pilotado pelo suiço Francois-Xavier Bagnoud, para além de Sabine, havia normalmente mais três ocupantes nesse helicóptero: o técnico de rádio Jean Paul Le Fur, o jornalista Jean-Luc Roy e o fotógrafo Yann-Arthus Bertrand, famoso anos depois pelo conjunto de fotografias que resultou no álbum "A Terra vista do Céu".

O dia tinha começado em Niamey com algum vento forte, do qual teriam de ter algum cuidado. Sabine ocupa o seu lugar na organização, até que o chamam a meio da tarde à fronteira entre o Niger e o Mali para resolver um problema burocrático: as autoridades malianas não deixavam passar os camiões da "Paris du Coeur", uma organização não-governamental que providencia furos de água às aldeias onde passa a caravana do rali. E é aqui que Sabine se cruza de novo com outra personagem deste evento: o cantor a activista Daniel Balavoine.

Daniel Balavoine. Tem 33 anos e é por esta altura um dos cantores mais famosos do hexágono francês. Para além do sucesso musical, é militante activo de várias causas, que vão desde a Amnistia Internacional até ao SOS Racisme. Politicamente, era um critico do sistema, a sua entrada mediática tinha acontecido em 1980, quando em directo num programa de televisão, ter acusado os politicos presentes, nomeadamente o socialista Francois Miterrand - que dali a um ano iria ser eleito presidente - de ignorar os problemas da juventude. Apaixonado por Africa, irá participar como concorrente em duas edições do rali, e quando tomará conhecimento das condições subhumanas do Norte de Africa, irá aproveitar o Dakar para fazer activismo solidário. Em 1986, estava no Dakar numa acção em conjunto com a organização, no sentido de colocar bombas de água nas aldeias de onde passaria a caravana do rali.

O problema é resolvido somente pelas 16 horas, com ordens de Bamako para deixar passar os camiões. Pouco depois, todos seguem para a zona de Gao, onde tinham organizado um jogo de futebol em honra de Sabine e do Rali Dakar. A cerimónia demora mais tempo do que o previsto, e quando terminou, a noite já se aproximava (eram quase 18 horas) e a caravana já tinha avançado muito.

Quando estavam para partir, um avião vindo de Bamako, a capital do Mali, tinha acabado de aterrar. E aqui se começa a jogar a sorte e o azar. Roy e Bertrand apanham o avião e resolvem ceder os seus lugares para quem quisesse. Sabine convida Balavoine para o seu helicóptero onde, após algum tempo de hesitação, acaba por aceitar. O vôo é breve, até Gossi, onde há um checkpoint.

Quando chegam, e enquanto que Sabine fala com os concorrentes e com a organização, o vento - que até então tinha ficado amainado - volta em força. Apesar de haver pó e a pista ser marcada, havia dunas aqui e ali no caminho. Com a noite a aproximar-se, não podiam ficar ali por muito tempo e voltam a levantar vôo, desta vez com a companhia da jornalista Nathalie Odent, que tinha o hábito de aproveitar boleias de tudo que mexia. Aparelho errado, à hora errada.

Ao levantar, seguem o rio Niger, não muito longe dali, evitando correr riscos desnecessários, pois a tempestade se tinha fortalecido. A oito quilómetros da meta, em Gourma, o helicópetro poisa, incapaz de ir mais adiante devido ao deterioramento das condições meteorológicas. Mas Sabine tinha visto um carro avariado e decidira pousar ali para os assistir. Depois de lhes dizer para que assinalassem a sua posição e ficassem à espera de socorro da organização, voltou para o helicóptero e decidiu tomar uma decisão arriscada e fatal: voar até Gourma.

O Ecreiul descolou, mas não andou mais do que duizentos metros: aparentemente, um golpe de vento os fez desiquilibrar e ir ao encontro de uma duna, onde as pás do helicóptero o fizeram embater e cair no solo. Todos os ocupantes tiveram morte imediata. Thierry Sabine tinha 36 anos.

Quando a noticia do acidente mortal chegou a França, o choque foi enorme. Sabine e Balavoine eram nomes famosos e consagrados e o assunto fez parte das primeiras páginas nas semanas a seguir. Houve um inquérito sobre asa causas do acidente mortal, mas de modo surpreendente, as suas conclusões nunca formam publicadas. Pouco depois, todo o tipo de teorias puluavam: desde uma picada de escorpião que um dos ocupantes teria sentido quando este esteve no solo, enquanto que Sabine assistia os ocupantes do jipe, até à cedência do comando a Sabine, passando por sabotagem e um ataque de guerrilhas "touaregs". Algumas das hipóteses foram rapidamente desmentidas, nomeadamente a da cedência de comando (Sabine não tinha licença para pilotar à noite), mas ainda existe algum mistério. Contudo, o adiantado da hora e as condições do tempo, nomeadamente um golpe de vento, poderão ter contribuido para o trágico fim.

Hoje, vinte e cinco anos depois, o espirito do Dakar sobrevive ao seu criador, mas há muito que abandonou Africa. As dificuldades politicas e as ameaças de terrorismo devido ao seu crescente mediatismo, que fizeram com que se cancelasse a edição de 2008, fizeram com que mudasse de continente. Hoje, as cinzas de Sabine estão perto do local onde morreu, no Mali, num sitio chamado adequadamente de "Arvore de Thierry Sabine", uma das poucas existentes na zona. Quando ao Dakar, hoje em dia para muitos dos "puristas" pode nada significar, mas hoje em dia muitos aventuram-se na competição graças à frase do seu fundador cunhou no seu inicio, em 1979, significando que mesmo estando na segurança da América do Sul, o espirito da competição e o apelo do deserto nunca morrerá. "Um desafio para os que partem, um sonho para os que ficam".

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O homem do dia - Thierry Sabine

Ele é o homem por detrás da criação do Rali Dakar, a mais famosa corrida de todo o terreno do mundo. Mas as pessoas tem pouca noção de que aquilo que o moveu a criar esta aventura no deserto foi uma experiencia no limite passada por ele em 1977, no deserto libio, onde no meio do desespero, admitou a beleza o deserto e respeitou a sua potência e a capacidade de derrubar os espiritos mais fracos. Mas o rali era a concretização do sonho de um homem que nasceu com o vicio do desporto e da aventura e foi por ela que teve o seu fim precoce. Hoje falo do francês Thierry Sabine.

Nascido a 13 de Junho de 1949 em Neully-sur-Seine, nos arredores de Paris, a sua paixão pelo desporto nasce cedo. Começa a fazer hipismo, chegando aos 14 anos a fazer parte da selecção francesa junior. Aos vinte, larga os cavalos e mete-se no rugby, mas foi uma aventura de curta duração, pois nessa mesma altura, descobriu o motociclismo, quando estudava marketing e comunicação na universidade.

Quando terminou o curso, vai tomar conta da estância de ski de Corbier, enquanto que também se torna no acessor de imprensa da Câmara Municipal de L'Touquetno Pas de Calais francês. Sempre inventivo, propõe ao presidente da câmara um evento que atraia turistas ao local nos meses de Inverno, batizando-o de "Enduro de L'Touquet", uma prova que é realizada nas dunas da vila com o mesmo nome. A prova realiza-se pela primeira vez em Fevereiro de 1975 e torna-se num sucesso e em poucos anos albergando no seu auge cerca de 1200 concorrentes e atrairá mais de trezentos mil espectadores, sempre que é realizada, na primeira semana de Fevereiro.

Sempre inventivo, cria pouco depois a Croisiére Verte, um percurso de enduro que liga de uma ponta à outra de França, de Touquét e Séte, perto da fronteira com o Mónaco. A prova torna-se também num sucesso, mas ele próprio é um viciado em adrenalina. Participa nas 24 Horas de Le Mans de 1976, num Porsche 911 Carrera de Grupo 5, com os seus compatriotas Jean Claude Andretut e Philippe Dragoeau, terminando no 13º lugar da geral, sexto da sua classe. Faminto por adrenalina, concorre em 1977 no rali Abidjan-Nice numa Yamaha XT500 com o objectivo de participar e de ver mais perto o Deserto do Sahara. As coisas correram-lhe bem até que o rali passa pela Libia e Sabine perde-se. As buscas são intensas, e ao fim de alguns dias, sem resultados positivos por parte das equipas de socorro, Sabine é encontrado vivo por acaso, pelo piloto de um avião a monomotor.

Contudo, durante esse tempo, e nessa experiência extrema, Sabine tem uma "epifânia". Atraído pelo deserto, promete que caso saia vivo, iria fazer algo semelhante, mas melhor equipado. Um projecto louco para muitos, mas ao qual Sabine dedicou boa parte do ano de 1978 a projectar o rali, a conseguir autorizações de passagem pelos vários países e a tratar das fornalidades de segurança, entre outros. A ideia era de sair da Praça do Trocadero, após o Natal, e chegar até Dakar em cerca de três semanas, levando os concorrentes através do deserto do Sahara e de regiões tão inóspitas como belas, como o Teneré.

A 26 de Dezembro de 1978, os primeiros loucos alinham à partida: oitenta carros, noventa motos e 12 camiões, ao todo eram 182 veículos, dos quais apenas 74 chegarão à meta em Dakar, a capital do Senegal. Vendo o sucesso da iniciativa, Sabine avisou os concorrentes para os perigos que enfrentariam: "Ainda estão a tempo. Depois, não podem voltar para trás, nem dizer que não os avisei [...] Podem morrer, e devem sabê-lo antes de partir". Mas a primeira edição tinha sido um sucesso e outras edições iriam acontecer.

Sabine era a "alma" da organização. Tratava das burocracias dos governos do Norte de Africa, fazia os controles e organizava a logistica de um rali que crescia a cada ano em termos de concorrentes, quer em termos de quantidade, quer em termos de qualidade. As equipas oficiais começavam a alinhar com os seus modelos, ao lado de carros excêntricos como um veículo de seis rodas ou um Rolls-Royce de seis rodas com um motor capaz de alcançar os 190 km/hora em linha recta... nesses primeiros anos, a aventura era o mote, apesar das motres que começavam a polvilhar nas edições. Mas apesar dos avisos feitos pelo organizador, era outra a frase de Sabine que os concorrentes retinham: "Um desafio para os que partem, um sonho para os que ficam".

Em 1986, a prova ia na sua oitava edição. Partia de Paris, até Marselha, onde embarcariam num "ferryboat" para Argel, e dali percorriam a Argélia, o Mali, o Niger, o Burkina Faso e o Senegal, até chegar a Dakar, três semanas depois. Mas logo no primeiro dia tinha havido um acidente mortal, quando o motociclista japonês Yasuko Keneko tinha sido vitima de uma colisão com um Peugeot 205, guiado por um condutor sob influência de alcool, perto do porto de Sête.

Sabine sempre teve consciência dos perigos deste rali. Algumas semanas antes, tinha dito num jornal francês que "sinto que se vai passar alguma coisa este ano. A prova terá uma dimensão dramática". O tempo diria que seriam palavras proféticas...

A 14 de Janeiro de 1986, o rali estava a fazer o percurso entre as cidades de Niamey, no Niger e Gourma, no Burkina Faso, e Sabine assistia a prova no seu helicóptero Ecreuil, para observar algum piloto em dificuldades. Perto do final do dia, tinha-se levantado uma tempestade e Sabine levantou o seu helicóptero à procura de concorrentes perdidos. Consigo iam o piloto, Francois-Xavier Bagnoud, o cantor Daniel Balavoine, um dos mais famosos de França e que o acompanhava numa missão de solidariedade com os povos que atravessavam no percurso do Dakar, a jornalista Nathalie Odent e o técnico de som Jean-Paul Lefleur, ambos da cadeia de rádio RTL.

O helicóptero tinha sobrevoado a região e preparavam-se para regressar à base, devido à fraca visibilidade devido à tempestade de areia e ao final do dia quando bateram com uma duna de areia, das poucas que existiam naquela região do Sahel. Os cinco ocupantes tiveram morte imediata, e Sabine tinha apenas 35 anos. As suas cinzas foram depois colocadas no local onde morreu, numa árvore que passou a ser chamado "a arvore de Sabine".

A perda do seu fundador foi um golpe profundo na organização, mas a prova seguiu o seu caminho, tornando-se numa organização cada vez maior e mais popular, apesar de hoje o Dakar só ser nome. Já teve várias partidas, passando de Paris para Granada e Lisboa, e quando foi cancelada À última da hora em 2008, por receio de ataques terroristas, é que esta passou para a América do Sul, com partida e chegada a Buenos Aires, com passagens pelo deserto do Atacama. Outras paisagens, e certo, mas o espirito é o mesmo.

Fontes: