Em 2001, já era tradição desde 1959, altura da construção da oval de Daytona, que a NASCAR Cup Series começasse com as 500 Milhas de Daytona, na Florida. Como as 500 Milhas de Indianápolis, era um espetáculo dentro do espetáculo, daqueles que mostram o que é a América ao mundo. E, para uma competição que tinha começado no final da II Guerra Mundial como uma competição sulista, com boa parte dos seus pilotos a serem antigos contrabandistas de álcool, que afinavam os seus carros para escapar aos carros da policia, Daytona foi a "ponta de lança" que ajudou a sair a competição de algo regional para nacionalizar, senão internacionalizar, a competição. E tudo graças à família France, a começar por Bill France Sr., o homem que idealizou a oval de Daytona.
Entre muitos pilotos que participavam nesta competição, muitas das luzes estavam apontadas para Dale Earnhardt. Aos 49 anos, parecia que era a idade certa para pendurar o capacete e ir para casa cuidar dos filhos e netos, mas na NASCAR, não era raro pilotos a ganharem depois dos 50 anos. E Earnhardt iria chegar ao meio século a 29 de abril, e na temporada anterior, tinha ganho duas corridas, uma em Atlanta e outra na "superspeedway" de Talladega. E a sua vitória em Daytona fora em 1998, aos 47 anos, mostrando que nunca era tarde para se estrear na mais importante corrida da competição.
Competindo desde 1975, tinha ganho na década seguinte a reputação de "Intimidator", depois de ter ganho o seu primeiro campeonato em 1980, voltando a triunfar em 1986 e 87, em 1990 e 91, e em 1993 e 94. Para além disso, tinha ganho por duas vezes a International Race of Champions, a IROC, em 1990, 1995 1999 e 2000. E duas semanas antes, a 4 de fevereiro de 2001, a bordo de um Chevrolet Corvette, tinha sido quarto classificado nas 24 Horas de Daytona, ao lado do seu filho Dale Jr, numa rara aparição sem ser em carros da NASCAR. E tirando o IROC, foi a única vez que competiu em Daytona sem ser pela Cup Series.
Competindo com o Chevrolet numero 3 da Richard Childress Racing, a sua equipa desde 1984, Earnhardt esperava que esta seria uma boa corrida. Tinha conseguido o sétimo melhor tempo na qualificação, o que significava que poderia ter chances de vitória na corrida. Aliás, mostrava confiança nesse resultado.
A corrida até foi relativamente calma. Apenas duas situações de bandeiras amarelas, na volta 49, com Jeff Purvis, e na volta 157, quando Kurt Busch, então um estreante, tocou em Joe Nemechek e atingiu o muro das boxes. Tudo isto sem grandes estragos nos carros. Isto... até à volta 173, quando 18 carros foram eliminados num "big one", entre eles Jason Leffer, Steve Park, os irmãos Rusty e Kenny Wallace - Rusty voltaria e acabaria em terceiro - Bobby e Terry Labonte, Mark Martin, Tony Stewart, Elliott Sadler, Jeff Burton e Ward Burton (ele tinha feito 53 voltas na liderança, Dale Sr. fizera 17), Jerry Nadeau, John Andretti (um dos membros da família Andretti, mais concretamente filho de Aldo Andretti e sobrinho de Mário Andretti), Buckshot Jones, Dale Jarrett e Andy Houston. Dale Jarrett tinha ganho a Daytona 500 em 2000 e claro, este "Big One" tinha sido um contratempo severo nas suas aspirações à vitória.
Com os comissários a limpar a pista para as voltas finais, antes do recomeço, na volta 180, Earnhardt Sr falou com as boxes, e resmungou sobre o "Big One" e os seus potenciais perigos. Falou o seguinte a Richard Childress: "Richard, se não fizerem nada com estes carros, isso vai acabar por matar alguém.",
A corrida recomeçou na volta 180, com Darryl Waltrip a liderar, seguido por Dale Earnhardt Jr, enquanto o Dale Sr. tentava bloquear os avanços de Sterling Marlin, que tinha passado pela liderança, mas à entrada da volta final, era quarto, com o veterano na sua frente. Na última curva, Waltrip, que estava mais perto do muro, toca em Earnhardt pela traseira, ,as ele recuperou, perdendo velocidade. Mas logo a seguir, outro carro, o de Ken Schrader, tocou novamente no carro de Earnhardt Sr, obrigando-o a tocar no muro a cerca de 250 km/hora, e num ângulo de 55 graus.
O acidente aparentava ser normal. E enquanto Waltrip cruzava a meta em primeiro, com Earnhardt Jr em segundo e Rusty Wallace em terceiro, passados os carros, Schrader saiu do seu e foi ver como estava Earnhardt Sr. E de imediato, pediu por socorro. Dez anos depois, em 2011, numa entrevista, afirmou: "É o seguinte. Quando me aproximei do carro... eu sabia. Sabia que ele estava morto, sim. Eu não queria ser eu a dizer 'O Dale está morto'."
Apesar de tudo, os socorros vieram logo para retirá-lo do carro e levá-lo para o Halifax Medical Center, onde foi pronunciado morto à chegada, pelas 17.16, hora local. No exame "pos-mortem" indicou-se que a causa da morte tinha sido uma fratura na base do crânio, devido ao impacto do carro no muro, e o impacto propriamente dito teve uma força de entre 48 a 68 G's. Duas horas depois, o presidente da NASCAR, Mike Helton, anunciou à imprensa que "perdemos Dale Earnhardt".
Desde este dia que este dia é referido como "Domingo Negro" e muitos fãs comparam com os eventos do GP de San Marino de 1994. Entenda-se o porquê: 17 milhões de espectadores na América tinham assistido em direto na televisão à morte de um dos seus pilotos mais apoiados e mais populares. Como tinha acontecido seis anos e meio antes, numa pista em Itália.
Mas isto ainda não tinha acabado. Havia mais para além desse dia, que mudou a face da NASCAR e ainda hoje causam impacto.



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