quinta-feira, 14 de maio de 2026

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O dia 14 de maio de 1986 calhou ser uma quarta-feira. Se poderia ser um agradável dia de primavera em Paul Ricard, no sul de França, em termos automobilísticos, as coisas estavam bem agitadas. O inicio do ano tinha começado mal a 15 de janeiro com a morte de Thierry Sabine, o fundador do Paris-Dakar, vítima de um acidente de helicóptero, e quase dois meses depois, a cinco de março, quando o Ford RS 200 de Joaquim Santos entrou no meio de uma multidão na Serra de Sintra, nas primeiras classificativas do Rali de Portugal, matando três espectadores. Os pilotos de fábrica tinham boicotado o resto do rali, afirmando que era demasiado perigoso, e quem lera o comunicado oficial tinha sido o finlandês Henri Toivonen, piloto da Lancia e vencedor do Rali de Monte Carlo, no final de janeiro desse ano.

Contudo, duas semanas antes, a 2 de maio e em plena Volta à Córsega, o mundo ficava ainda mais chocado quando o mesmo Toivonen, e o seu navegador, o italo-americano Sergio Cresto, morriam quando o seu Lancia Delta S4 se despistava na 18ª especial, e pegava fogo, não dando chances de fuga a ambos. A Lancia, chocada, decide abandonar o rali de imediato, e movimentações para acabar com o Grupo B por parte da FISA tinham sido efetuadas. O automobilismo estava nas primeiras páginas, e pelas piores razões.

A Formula 1 estava um pouco mais tranquila, mas toda a gente sabia que o automobilismo era perigoso, embora não acontecia um acidente fatal há quase quatro anos, quando Riccardo Paletti tinha morrido na partida do GP do Canadá de 1982, depois de ter batido na traseira do Ferrari de Didier Pironi. E este, alguns meses depois, tinha sofrido um acidente que terminaria com a sua carreira, nos treinos do GP da Alemanha, em Hockenheim, quando ficou com fraturas graves em ambas as pernas e estava a passar por uma longa reabilitação.

O teste era uma preparação para o GP de França, que só aconteceria em julho. Ele tinha andado na pista no dia anterior, e naquele 14 de maio, iria fazer a mesma coisa, para afinar o carro e tentar melhorá-lo para também melhorar os resultados que estavam a ter até aquele momento. 

Estes testes não eram vistos por muita gente, não é como agora. Logo, não há ninguém que tenha visto o acidente no seu todo, excepto dois mecânicos da Benetton, que estavam a instalar um controlo intermédio de tempo, e que viram a parte final do acidente. No "S" de La Verriére, logo depois da meta, a mais de 225 km/hora, a asa traseira cedeu e o carro número oito capotou algumas vezes e foi parar fora dos guard-rails, ficando de cabeça para baixo, prendendo o piloto italiano. Instantes depois, o carro pegou fogo, que foi extinto em pouco tempo.  

Alguns pilotos, como Nigel Mansell, Alan Jones e Alain Prost pararam logo a seguir, para o tentar tirar do carro, mas as tentativas foram infrutíferas. Chegou uma ambulância e alguns socorristas - que estavam ali, por acaso, a fazer treinos para o GP de França - e conseguiram retirar o piloto do carro. Uma câmara de televisão, que estava presente para filmar os testes, captou o momento em que ele foi retirado. 

Socorrido de imediato, descobriram a gravidade dos ferimentos e chamaram um helicóptero, que não estava naquele momento. O socorro demorou quase uma hora, até chegar a Marselha, onde exames mais aprofundados descobriram que ele tinha ficado sem ar, porque o "santantônio" tinha-se afundado ao ponto de ele ter ficado preso, sem possibilidade de respirar, porque em termos físicos, não tinha sofrido mais do que um ombro deslocado e algumas queimaduras ligeiras. 

"Foi uma série de curvas quase planas, mas não totalmente, depois da saída das boxes", recordou Gordon Murray numa entrevista em 1996, uma década depois desse fatídico dia. "Tínhamos tido um grande acidente um ano antes, com François Hesnault. E Elio sofreu exatamente o mesmo embate, exatamente no mesmo sítio.", continuou.

"O principal problema era não conseguir virar o carro. Como não estava gravemente ferido, poderia ter sido rapidamente retirado se o fogo tivesse sido controlado. Cheguei muito depois dos mecânicos e não conseguimos chegar perto do carro por causa do fogo. Quando o carro dos bombeiros finalmente chegou, muito tarde, a mangueira soltou-se. Foi totalmente desnecessário, essa é a pior parte."

Quem ajudou nas operações de socorro foi gente como Tyler Alexander, que em 1986 trabalhava na Lola-Haas, que testava naquela pista, ao lado da McLaren, Williams e Brabham. E o seu testemunho, contado anos depois a Adam Cooper, foi de alguma impotência.

"Havia uma grande nuvem de fumo negro", começou por contar. "Ninguém parecia estar a fazer nada, por isso, pegámos em alguns extintores nas boxes e fomos até lá. Alguns pilotos estavam a regressar a pé. Tinham-se afastado porque o fogo era muito grande. Mas o fogo estava na parte de trás do carro. Robin Day [da Brabham], John Barnard e eu virámos o carro para trás. Quase fui atingido no olho por um pedaço da suspensão, fiquei com um olho negro e estávamos todos cobertos com aquele maldito pó [da fibra de carbono]. E o Elio estava simplesmente sentado no carro."

Quando resgataram De Angelis do carro, o seu estado já era muito grave. O coração tinha parado e foram feitas manobras de ressuscitação. Alexander contou depois que um jovem médico lhe deu uma injeção de adrenalina, que fez o coração retomar a sua marcha.

"Tiramos-lhe o capacete e realmente não tínhamos a certeza do seu estado", disse Alexander. "Ali estava aquele tipo sem absolutamente nada de errado com ele, tanto quanto podíamos ver – não havia sangue, nada. Havia connosco um jovem médico, que não falava inglês, e no fim pegou numa seringa grande e enfiou-a no peito. Finalmente, chegou um helicóptero, com alguns paramédicos. Verificaram o pulso dele e tudo mais, e o cateter estava a mexer. Levamos a maca até ao helicóptero.", concluiu.

No hospital, De Angelis era tratado pelos mesmos médicos que tinham socorrido Frank Williams, cerca de dois meses antes. Herbie Blash, que não estava em Paul Ricard naquele dia, foi chamado urgentemente para o sul de França e quando chegou, viu Nigel Mansell, em lágrimas, a dizer que o seu estado era muito grave. "Entrei num carro alugado e fui para o Ricard. Depois, fiquei no hospital até ao fim."

O final foi na manhã de 15 de abril de 1986. Elio de Angelis tinha 28 anos e a causa da morte oficial tinha sido a falta de oxigenação no cérebro. E tinha sido a primeira morte na Formula 1 em quase quatro anos desde outro italiano, Riccardo Paletti, durante o GP do Canadá de 1982.

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