terça-feira, 11 de maio de 2010

Grand Prix (parte décima)

(continuação do capitulo anterior)

Depois do acordo verbal entre os três, os tramites legais e financeiros foram rápidos. Delaney, Aaron e O'Hara, depois de negociarem o acordo com Dan Gurney, compraram a estrutura de Northampton por cerca de 60 mil dólares, excluindo os chassis, que foram comprados por O'Hara, que gastou mais dez mil dólares no processo. Em compensação, o espaço publicitário era todo dele, com liberdade artistica para pintar o carro com as cores que quisesse. Mas não fez muito, paenas mudou o azul escuro para verde escuro, mantendo a faixa branca. A unica grande diferença da destilaria O'Hara, criada em 1733 pelo seu antepassado, também chamado John O'Hara, era o desenho da casa onde a destilaria fora primeiro construida, nos arredores de Dublin, e que desde 1946 era gerida pela sua mãe, Shioban O'Hara, nascida Griffin em 1919, e que herdou após a morte inesperada do seu marido Peter, quando John tinha apenas quatro anos.

John era o unico filho varão, pois tinha uma irmã mais nova, Sinead de seu nome, nascida poucos meses antes da morte do seu pai. Como Shioban decidiu casar-se com a empresa em vez de ser com outra pessoa, cedo os dois cresceram sem pai. Se para John, o automobilismo era um belo escape, graças primeiro à colecção do seu tio Arthur, e depois aos conhecimentos de mecânica adquiridos desde cedo, no MG que o seu tio deu quando tinha... 12 anos, depois de o conseguir a funcionar de novo, pois quando ele o deu, era uma sucata sem conserto. como conseguiu o reparar, a recompensa foi mais do que válida.

Aos 18 anos, rumou para Londres, com o objectivo de estudar Economia, mas cedo largou os estudos para correr aos fins de semana em Crystal Palace, Brands Hatch ou outros circuitos, naquilo que se chamava de "club races". Cedo, a sua mãe descobriu e cortou-lhe a mesada, o que implicou que passasse para o profissionalismo. Desembaraçou-se bem e no ano seguinte, comprou um Jordan de Formula Junior e deu nas vistas em Inglaterra e no Continente.

No final de 1967, tinha sido vice-campeão da nova Formula 2, apenas batido pelo belga Patrick Van Diemen, sendo que vencera uma das corridas no mítico Nurburgring Nordschlieife, ao voltante de um Jordan de Formula 2. Como era óbvio, Jeff Jordan ficou interessado nele e fez testes no carro. Contudo, o turbulento ano de 1968 foi horrivel para a Jordan e ele decidiu comprar um chassis. Mas para isso, tinha de pedir dinheiro à mãe, que depois da zanga inicial e da sua relação ter fico gelada, as coisas tinham desanuviado, graças à persuasão de Arthur, seu cunhado, que tinha a companhia da irmã Sinead.

Agora uma jovem de 23 anos, decidiu prosseguir os estudos. Primeiro cursou História, pois julgava que John estava melhor servido. Quando ele perferiu os automóveis aos numeros, decidiu prosseguir no mesmo sitio onde o seu irmão tinha deixado. Mas começara a ficar curiosa pelos automóveis e aos fins de semana, levava uma máquina fotográfica para entreter-se nos circuitos. Aos poucos, enquanto fazia o curso (com excelentes notas, diga-se), mostrava as fotos do irmão à mãe. E ela via o seu filho e começava a dar importância ao que ele fazia. Aliado ao tio Arthur, quando ele pediu dinheiro à mãe para comprar um chassis para correr na Formula 1, acedeu com uma condição: que a sua irmã o acompanhasse. Aceitou a oferta.

John e Sinead O'Hara eram dois dos elementos que correspondiam à Team O'Hara em 1968. Ela, para além de tirar fotos, marcava os tempos com um cronómetro e via as despesas com manutenção e pessoal. Isto até seria um belo estágio para a vida que iria ter, provavelmente na destilaria da sua mãe e do seu tio, mais tarde na vida. E quando ele começou a ser o melhor privado do pelotão, e as noticias dos seus feitos chegavam às páginas dos jornais de Dublin, todos começaram a pensar que isto poderia ser algo que deveria ser levado a sério.

E quando John chegou ao pé do tio Arthur e da irmã com a ideia de comparar parte de uma equipa e de serem os patrocinadores principais, ambos concordaram com a ideia. Agora tinham de convencer a matriarca, porque 20 mil dólares era uma fortuna, mesmo que ali a moeda usada fosse a libra irlandesa. Relutantemente, acedeu, porque achou que patrocinar as aventuras do seu filho até podia impulsionar as vendas do produto, fora da Irlanda, patria de outra bebida famosa: a cerveja Guiness.

Foi por essa altura que o tio Arthur lhe trouxe um estranho licor, vindo de uma leitaria do County Wicklow, a sul de Dublin. Um seu velho amigo, leiteiro na sua sexta ou sétima geração, costumava misturar o seu whiskey com o leite da sua vacaria. Normalmente bebia-o para ajudar a dormir em noites de insónia, e de manhã, antes do trabalho de ordenha com as vacas. Já fazia isso há anos, e certo dia convidou o tio Arthur a casa, pois na juventude tinham jogado na mesma equipa de rugby. Depois de provado o licor e ter gostado, levou uma garrafa à cunhada e ao sobrinho, para o provarem. Ambos gostaram e começaram a pensar no potencial de comércio, nestes tempos de mudança. Se o havia em termos de mentalidade, porque não em termos de gostos? E sempre que podia, John e Sinead levavam algumas garrafas pelo mundo fora, como emissários não-oficiais deste inédito produto.

Com isto tudo, chegados a 1969, John e Sinead entraram na estrutura da Apollo como piloto e cronometrista oficiais, respectivamente. Michael Delaney decidiu ser o "silent partner" e a ser a cara do projecto, dando publicidade à Anglo-Irish. Ainda por cima, Delaney sempre poderia mostrar orgulho pelos seus antepassados irlandeses, provavelmente provenientes de Conty Clare, certamente fugidos da Grande Fome 120 anos antes. E mesmo que quisesse estar lá de forma mais intensa, não podia, pois... tinha um filme para fazer.

E decidira que iria fazer um sobre as 24 horas de Le Mans. Pete Aaron, que já estava em forma depois de muita sessão de fisioterapia, mas que ainda não tinha tirado a placa na sua perna direita, não queria dispersar-se pela Endurance, mesmo sabendo que não teria de trabalhar muito nessa área. Contudo, Aaron recomendou-os a um velho amigo, Roger Weir de seu nome, para que tentasse a sua sorte. Weir aceitou, e ainda convenceu O'Hara a correr com ele. Cedo decidiram fazer uma parceria, pois as suas oficinas não eram muito longe um do outro. Mecânicos da Anglo-Irish e da Weir Automotive lá estavam a montar carros, ajudando-se uns aos outros.

Como os trabalhos na empresa começaram em Fevereiro, o calendário já era apertado para irem a Kyalami, a prova inicial do campeonato do mundo, logo, apontaram baterias para a primeira prova europeia, no circuito espanhol de Montjuich. Mas antes disso, iam correr em Brands Hatch, para o Race of Champions, uma semana depois das 12 horas de Sebring. No seu 908, Delaney e O'Hara acabaram a corrida na segunda posição, atrás do Ferrari 312P Spider de Peter Reinhardt e do jovem francês Gilles Carpentier. Ambos eram carros de 3 litros, mas o futuro era para os de 5 Litros, palco do novo modelo 917, que Weir tinha visto em Genebra e ficado impressionado.

Logo, com a ajuda de Delaney e O'Hara, que submeteu as suas cores, o carro ficou elegamentemente atraente, mesmo para as câmeras de cinema. Dois 917 com essas cores iriam para Le Mans, com o 908 modificado para ser um "camera car". Delaney iria fazer parelha com O'Hara, como combinado, enquanto que o segundo carro iria ser guiado por dois jovens talentos. Weir e Aaron gostaram de Gilles Carpentier, e queriam vê-lo em acção quando partiram juntos rumo a Thruxton, para vê-lo na Formula 2, a convite do seu amigo Pierre de Beaufort, que também iria competir. Mas estavam a caminho de ver algo completamente diferente...


(continua)

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