quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Francois Cevért visto pelos mais próximos

Falar de Francois Cevért todos os dias 6 de outubro, para mim, não se torna um exercício de obsessão, não. Este tipo de exercício - que não é diferente dos que fazem o mesmo exercício todos os 1º de maio para recordar Ayrton Senna, por exemplo - faço-o para afirmar até que ponto admiro tal personagem e até que que ponto fico tocado pela sua história e carreira. Pela sua amizade e lealdade perante um dos melhores pilotos do seu tempo, que quis aprender tudo o que podia para poder ter a hipótese de ser campeão do mundo, e no preciso momento em que o seu mestre se prepara para sair de cena, ele tem um acidente e morre. E como nunca o vi correr ao vivo, resta-me ler a sua história e ouvir os seus testemunhos. E a cada ano que passa, ganho cada vez mais admiração pelo piloto e pela pessoa.

Ao longo dos anos escrevi e li muitas coisas sobre Cevért, um jovem moreno de olhos azuis, que nasceu na pior altura para nascer, numa Paris ocupada pelos nazis, onde o seu pai, judeu, joalheiro e membro da Resistência, decidiu que todos os seus filhos tivessem o nome da mãe.

Este ano, as efemérides coincidem com o 40º aniversário da sua única vitória no Grande Prémio dos Estados Unidos, no mesmo circuito de Watkins Glen que o iria matar dois anos mais tarde, num evento relativamente escondido pela triste coincidência de ter acontecido no primeiro dia da Guerra do Yom Kippur. Mas já li jornais da época que mostram fotos do seu acidente mortal, ou seja, mesmo com guerra, teve o seu devido relevo nas primeiras páginas.

Esta semana, dei por mim a ler um blogue que gosto de frequentar, o francês "Memoires des Stands". Esse blog tem a particularidade de recordar, sempre que podem, Francois Cevért e Jean-Pierre Beltoise, que curiosamente eram... cunhados. Beltoise, sete anos mais velho do que Cevért, era casado com Jacqueline Cevért-Beltoise, e ambos eram bons amigos e se admiravam mutuamente. Aliás, Beltoise foi o primeiro herói automobilistico de Cevért, e foi ele que lhe deu a oportunidade de participar no Volant Elf de 1966, prova que venceu, batendo outro futuro piloto de Formula 1 - de destino igualmente trágico - Patrick Depailler.

Em outubro de 71, logo após a sua vitória de Watkins Glen, vê a sua recepção e recorda os eventos de dez meses antes, na Argentina, quando o seu cunhado provoca - sem qualquer intenção, diga-se - o acidente mortal do italiano Ignazio Giunti. "Esses jornalistas!" - começa por dizer à sua irmã Jacqueline - "quando Jean-Pierre voltou da Argentina depois do 'caso Giunti', estavam 300 jornalistas à espera dele no aeroporto. Eu venço uma corrida e não estão mais do que três ou quatro à minha espera. Decididamente, a imprensa adora os escândalos!", conclui.

Beltoise, que todos pensavam que iria quebrar esse 'enguiço' ficou feliz pelo feito de Cevért. "Estou muito contente por ele." Mas depois desabafou: "Mas às vezes penso para mim mesmo que só consigo apanhar carros de m**** na Formula 1!" Sete meses depois, no Mónaco, iria redimir-se, ao conseguir estrear-se na galeria dos vencedores, no mesmo local onde Maurice Trintignant conseguira por duas vezes. Curiosamente, Beltoise e Cevért coincidirão numa coisa: só vencerão uma corrida nas suas carreiras.

Jean-Pierre Beltoise fala sobre a relação entre os dois, e sobretudo sobre Jackie Stewart, do qual ambos foram companheiros de equipa: "Fui muitas vezes levantar-lhe a moral, pois pensava que era incapaz de bater Stewart. Era genial, é certo, mas estava ao seu alcançe. Dizia-lhe que podia bater de igual para igual contra um dos melhores pilotos da sua época. Algum tempo depois, ele veio ter comigo e com a Jacqueline e nos disse: 'Stewart... sinto-me iluminado quando o observo!'

Em 1973, Cevért estava enamorado de uma aristocrata europeia, Cristina de Caraman. E nos dias anteriores a Watkins Glen, tinha dito à sua irmã que intenções de se casar com ela. Aliás, já tinha dado essa ideia na sua derradeira entrevista quando disse que "estou pronto para me casar!" e quando esteve de ferias nas Bermudas com Jackie Stewart e Ronnie Peterson, mandou-lhe uma carta a propôr-lhe em casamento. O destino não deixou que o enlaçe fosse concretizado.

No final de semana de Watkins Glen, Ken Tyrrell e Jackie Stewart conversaram sobre a retirada, e o "tio Ken" perguntou-lhe se deixaria Cevért ganhar essa corrida, como forma de recompensar a sua colaboração. Stewart estava relutante, pois não era do tipo de abdicar da vitória, mesmo que fosse a alguém que era seu companheiro e amigo: "Tyrrell me tinha pedido para que deixasse Cevért ganhar em Watkins Glen. Seria o meu derradeiro Grande Prémio, e era uma bonita maneira de passar o testemunho. Mas isso era terrivel para mim, e respondi a Ken: 'voltaremos a falar sobre isso domingo de amanhã'. Mas tal conversa acabou por não existir..."

A brutalidade do seu acidente mortal chocou o pelotão da Formula 1, naquele sábado ao meio-dia. Num dia em que se soube do recomeço das hostilidades no Médio Oriente, quando as tropas egípcias atravessaram o Canal do Suez, de surpresa, para atacar os israelitas, na América do Norte, a Formula 1 vivia o seu drama pessoal. Muitos pilotos não contiveram as lágrimas, desde os que chegaram ao local do acidente, como José Carlos Pace - que fazia anos nesse dia - até os que souberam depois e aguentaram o tempo suficiente para chegar às suas "motorhomes" para poderem derramar as suas lágrimas longe de câmaras e microfones.

E muitos olharam para Beltoise, que tinha sido dos últimos a chegar às boxes, e que teve de ser ajudado a sair do carro. Anos depois, conta as circunstâncias desse acidente: "Cheguei ao local do acidente mesmo depois de Scheckter ter parado. Pensei: 'Diabos, Scheckter fez de novo asneira e bateu em alguém'. Depois vi o Tyrrell e pensei logo: 'é Stewart. É a sua última corrida e teve este acidente!' Pensei que era o Jackie porque toda a gente sabia que aquela seria a sua última corrida."

"Passei pela zona do acidente sem olhar atentamente para os destroços ou para o carro, que tinha voado para além do guard-rail. Parei cerca de quarenta metros depois do local e fui para lá a pé. Depois vi Scheckter, que regressava do local com os braços no céu, como a dizer por gestos: 'é terrivel, não podemos fazer nada por ele'. Depois vi Stewart a parar, e por um momento, julguei que era Chris Amon [n.d.r: a Tyrrell tinha um terceiro carro para o neozelandês Chris Amon nas corridas americanas], mas logo a seguir, ele para atrás de Stewart. E só depois é que me apercebi que tinha sido Francois."

Beltoise é amparado por Gerard Crombac, o jornalista suiço e uma das lendas do "paddock" dessa era, e vai para a caravana da Goodyear no sentido de telefonar com a sua mulher - e irmã de Francois - para dar a terrivel noticia. No dia seguinte, Beltoise, depois de muito pensar e refletir, decide correr, ao contrário de Stewart e da Tyrrell, que em sinal de luto, não participam no Grande Prémio. Acaba a corrida no nono lugar.

Em jeito de conclusão, pode-se dizer que há sempre um motivo para que a cada seis de outubro se fale de Francois Cevért. Não de uma maneira chata, ou em forma de "viuvez" sentida como vejo muitas vezes por aí em relação a Senna ou de Gilles Villeneuve. É de forma a apresentar algo de novo sobre uma personagem que continua a ser fascinante, mesmo para alguém como eu, que nasceu depiois de ele morrer, e não deixa de olhar para tudo isto e ainda encontrar algo de novo. Talvez deva ser a melhor maneira que existe para continuar a recordar uma personagem, não?

3 comentários:

Lane Marx Carr disse...

Cevert é alguém digno de ser lembrado sempre. Sua humildade se confunde com o tamanho da sua inteligência no que tange a aceitar com lisura seu posto de segundo piloto da equipe, que o fazia com dignidade, fazendo disso uma virtude em nome da determinação que havia nele e da certeza de se tornar campeão mundial um dia. Lutou por isso, aprendeu, dedicou-se arduamente...já era o maior nome do automobilismo francês naquele ano. Mas a fatalidade não permitiu que isso acontecesse. O mundo da fórmula 1 perdeu muito porque Cevert tinha um grande talento nato, amava os carros e a velocidade. Suas corridas nunca foram medíocres, principalmente no último anos onde foi seis vezes segundo lugar no pódio. Francois Cevert foi meu maior ídolo na adolescência e continua sendo até hoje. Descanse em paz, meu campeão !

Lane Marx Carr disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Lane Marx Carr disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.