quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Falando de novo sobre o projeto do Formula 1 português

Neste feriado relativamente chato - e com imenso calor, diga-se! - colidi de novo com a história do "Formula 1 português", cortesia do Pedro Costa, do blogue Mania dos Carrinhos. Já falei sobre este assunto aqui neste blog, há cerca de dois anos, mas desde então nunca mais vi falatórios sobre este projeto, nem uma reportagem de fundo, nada. Nunca vi ninguém com curiosidade suficiente para, por exemplo, falar com os projetistas deste carro - caso ainda estejam vivos, claro - sobre a ideia que tiveram e o que aconteceu para que este tenha ficado congelado permanentemente.

Já agora, para quem não sabe o porquê do surgimento deste projeto, tem de se ir ao inicio dos anos 70, quando um grupo de entusiastas decidiu construir uma equipa para correr na Endurance, com o apoio de um banco local chamado BIP - Banco Intercontinental Português, fundado por Jorge de Brito, que anos depois, entre 1991 e 93. viria a ser presidente do Benfica. Essa equipa, a Team BIP, compra um Lola T272 e consegue resultados de relevo em circuitos europeus, como Vila Real e Spa-Francochamps, pilotado por pessoas como Mario de Araujo Cabral, o popular "Nicha", Carlos Gaspar e Carlos Santos.

No final de 1973, começa-se a pensar em grande, ou seja, a Formula 1. Nicha Cabral fala sobre isso na sua biografia, chegando a haver até transferências de dinheiro para Londres, no sentido de pagamentos para a construção de um chassis. Creio que seria a Chevron a construir esse chassis, provavelmente convencional, com o motor Cosworth DFV, como era habitual nesses anos 70, por ser uma unidade barata e fiável. Contudo, o golpe militar do 25 de abril de 1974, que derrubou a ditadura vigente, causou agitação social, levando a que, em março do ano seguinte, após uma tentativa de golpe de estado, os bancos - incluindo o BIP - fossem nacionalizados. Aí, o projeto morreu, mas duas pessoas, o José Megre - não me perguntem se é "o" José Megre, e o Bravo Marinho - que tinha estagiado na Team Lotus - decidiram reavivar o projeto em meados de 1976 para o estrear em 1977.

E vendo a entrevista da Auto Hebdo, vejo caracteristicas que acho invulgares - digo eu, que não sou engenheiro ou algo que se pareça. Eis um excerto:

Falando de suspensões, a sua disposição não é invulgar?

- Sim, os amortecedores foram colocados em V. A explicação é simples. Uma pressão vertical é exercida sobre as rodas. Esta reparte-se sobre os amortecedores, juntando-se à pressão de que falei anteriormente. Resumindo, obtêm-se a convergência de todas estas forças nos dois pontos A e B (ver esquema) assegurando desta forma uma melhor estabilidade do carro.


- Que motor estão a pensar utilizar?


- Muito provavelmente um Ford Cosworth. Já efectuamos ensaios a diversos motores. Este permite-nos de desenhar uma culassa de design revolucionário, que permite aumentar a potência de 480 HP para cerca de 650 a 700 HP. Como compreende, não posso dar mais pormenores.

- Esse aumento de potência não vos vai colocar problemas ao nível da refrigeração e da travagem?

- No que diz respeito ao circuito de refrigeração, não temos grandes problemas após a colocação lateral dos radiadores de óleo e água. Para a travagem temos uma inovação: o carro estará equipado com oito discos de travão de pequena dimensão. Quatro serão acoplados às rodas e os outros quatro estarão junto ao chassis.

Não sei o que aconteceu depois da entrevista, porque não existem elementos - que tenha conhecimento - sobre o que se passou para que o projeto terminasse. Não há modelos, nunca se tentou construir o carro para ver se essas caracteristicas funcionariam num carro desses. Mas havia algo que condenaria o projeto quase à nascença: o efeito-solo. Em 1977, modelos como o Lotus 78 já exploravam de forma mais concreta esse conceito e começavam a resultar. Mesmo com um carro desses em pista e o projeto continuasse em 1978, teriam de construir o mais rápido possivel um carro com efeito-solo, porque caso contrário ficariam imediatamente para atrás, como aconteceram a muitas equipas nesse tempo...

Tendo voltado a ver esse projeto num blog que fala sobre miniaturas, seria engraçado se fizesse algo como uma miniatura desse carro, baseado nos desenhos existentes e divulgados pela Auto-Hebdo, há cerca de 35 anos. Pelo menos ficariamos com uma ideia de o que teria sido a primeira experiência portuguesa na categoria máxima do automobilismo.

1 comentário:

Manuel Alves disse...

Boa noite, conheço um dos envolvidos neste projecto posso tentar obter mais informações