quinta-feira, 14 de maio de 2026

As imagens do dia (II)





Nos anos 60 do século XX, o começo do campeonato era muitas vezes começava no Mónaco, e a temporada de 1961 não era excepção. Com os novos regulamentos para essa temporada a entrarem em vigor, com os motores de 2,5 litros a serem substituídos pelos motores de 1,5 litros, normalmente quem estava melhor preparado era a Ferrari, com os seus motores. E com o seu novo chassis, batizado de "Nariz de Tubarão" (Sharknose) com duas pequenas entradas de ar na frente dos seus carros, a Scuderia iria inscrever três carros para os americanos Phil Hill e Richie Ginther, e o alemão Wolfgang von Trips.

A Cooper estava mais atrasada - estava a desenhar o seu carro e ainda por cima, iria tentar a sua sorte em Indianápolis - logo, não iria ser um dos favoritos ao título. A BRM ou a Porsche poderiam ser as equipas que iriam tentar o contra-ataque, mas alguns olhavam para a Lotus, calmamente, construía os seus chassis, adaptando o motor Climax, que era aquele que fornecia a todas as equipas que não faziam os seus motores. 

Mas a Lotus não construía os seus chassis para eles mesmos, também vendia alguns. Rob Walker, herdeiro do whisky Johnny Walker, tinha montado há alguns anos a sua Rob Walker Racing, pintando os seus carros de azul com uma faixa branca, e tinha um piloto "fetiche" nas suas fileiras: Stirling Moss. Desde 1958 que, primeiro com chassis Cooper, e a partir de 1960, com chassis Lotus, Moss tinha dado à equipa cinco vitórias, entre elas o GP da Argentina de 1958, a primeira com um motor na parte traseira do carro, e o GP do Mónaco de 1960, o ano anterior, com um Lotus. E em ambos os casos, ganhou antes das primeiras vitórias oficiais de ambas as equipas!

Com 21 pilotos inscritos, a Lotus oficial passava por dificuldades quando na qualificação, com o escocês Innes Ireland bateu no muro e partiu a perna direita, impedindo-o de correr no resto do fim de semana. Moss conseguiu a pole-position, e a seu lado tinha o Ferrari de Richie Ginther. Moss sabia que em termos de competividade, era inferior aos Ferrari, mas contava com o traçado da pista e a sua habilidade para contrariar o favoritismo de Maranello. 

O dia da corrida acabou por ser primaveril... mas quente. Sabendo disso, Moss pediu aos mecânicos para que tirassem os painéis laterais do seu carro para que pudesse entrar um fluxo de ar fresco e pudesse estar totalmente relaxado e concentrado na corrida. Imaginam isto acontecer hoje em dia? 

Apesar de tudo, na partida, Ginther largou melhor e fez a primeira curva na frente, com Jim Clark e Moss logo atrás. Contudo, Moss livrou-se rapidamente do escocês que guiava o carro oficial, e foi à partida de Ginther. E teve sorte: a bomba de combustível do seu Ferrari estava com defeito e na volta 14, passou-o e ficou com o comando da corrida. Logo atrás vinha o Porsche do sueco Jo Bonnier, que vinha rápido e iria passar Ginther, que lutava contra um carro não muito colaborante. No meio disto tudo, Moss ia-se embora e já tinha dez segundos de vantagem, por alturas da 33ª volta, numa corrida com cem voltas à pista.

Contudo, as coisas no carro de Ginther parecem se resolver por elas mesmas e começa a apanhar a concorrência, especialmente Bonnier. Primeiro Hill - que tinha passado o seu compatriota Ginther - depois o próprio Ginther, passam o piloto sueco, e depois partem em perseguição de Moss. Conseguem diminuir a diferença para oito segundos a meio da corrida, e para três no final da volta 60, prometendo um duelo na parte final. Ginther passaria Hill para ser segundo, e foi ao ataque de Moss.

As voltas finais foram, realmente, um duelo, mas à distância. É que Moss conseguia aproveitar bem o circuito para andar ao mesmo ritmo dos pilotos da Ferrari, apesar da diferença de potência entre ambos os carros. Aliás, ambos os pilotos fizeram o mesmo tempo nas suas voltas mais rápidas: 1.36,3 segundos, e ambos uma volta a seguir ao outro: o americano na volta 84, o britânico na 85ª passagem pela meta. 

No final, a diferença entre ambos acabou por ser de 3,6 segundos, e Moss conseguia, ali, a sua 15ª vitória na Formula 1, o piloto britânico mais vencedor de sempre, e a sua terceira vitória nas ruas do Principado, a segunda seguida. Tudo isto numa pilotagem de génio, onde a inteligência se sobrepôs à potência. Aliás, hoje em dia, os especialistas afirmam que este poderá ter sido, provavelmente, a mais brilhante demonstração de pilotagem do britânico.  A Ferrari ficou com as três posições seguintes, mostrando que eram os melhores, mas não ocupavam a posição mais cobiçada. 

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