Ando a ler e a ver as reações do que é aquele que se tornou no primeiro Ferrari elétrico, e francamente, queria ficar calado, deixando que os outros dissessem o que tem para dizer, mas depois desta imagem, achei que era altura. E começo por perguntar: ainda se lembram do carro da Jaguar? Se sim, ótimo. E outra pergunta: ainda falavam disso antes de verem o Luce? Jã não? Então, só confirmam a minha ideia: falam tudo agora, lá para setembro, isto cairá no esquecimento, se calhar por outro motivo, tão ou mais polémico.
Dito isto, eu tenho uma abordagem a mais pragmática possível, num mundo alimentado à paixão. E é esta: eu vivo num mundo em constante evolução. E o mundo de 2026 não é o mundo que muitos idealizam, algures num tempo qualquer. E é isso que eu vejo. E da mesma maneira que vejo toda esta paixão em relação ao Ferrari, não vi, por exemplo, quando a Lotus decidiu fazer um SUV elétrico, sabendo eu que o mantra do Colin Chapman era "velocidade, adiciona leveza". Mas a Lotus, como a Lamborghini, a Jaguar, a Porsche... todas estas marcas míticas nos nossos sonhos, nas nossas imaginações, estão a dar estes passos, porque estamos no século XXI e os tempos estão a mudar.
Mas isto nem é o mais doido. Alguém me mostrou a diferença de tamanho entre o Luce e o F40, que saiu há quase 40 anos, em 1987. Sabem porque é que temos carros "gordos" nestes dias, até os Formula 1? Segurança. E conforto. Lembro-me da história do "Halo" e de como todos falavam que era feio e queriam que fosse removido. E essa discussão acabou no dia em que o Romain Gorsjean saiu da bola de fogo que tinha virado o seu carro, no Bahrein. Hoje, quem fala sobre o Halo?
Hoje em dia, queremos carros seguros, que aguentem um embate. Queremos que os carros sejam "gadgets" - que é o que são, hoje em dia. São telemóveis, ou computadores, em ponto grande, e falam prejorativamente que os carros elétricos são os maiores elétrodomésticos que andam por aí. Há carros a gasolina que tem enormes computadores de bordo! Não os vejo tão indignados assim. Já viram o tamanho do Porsche 911 entre o tempo que nasceram e agora? Não é o mesmo tamanho, não é? E nem falo do Mini, do 500, de qualquer carro dos anos 50 e 60 do século XX, que, agora vendo as coisas para trás, eram pouco mais do que folhas de metal unidas, com quatro todas, um motor e um volante...
Bem sei que as pessoas não querem entender estes tempos. Mas estamos a vivê-los. Bem sei que poderemos reclamar contra o futuro, que nos tirou do paraíso que só existe nas nossas cabeças, bem sei que muitos de nós estão a imaginar a cena do "Rush", onde o Niki Lauda e o mecânico da Scuderia estão a discutir sobre o Ferrari e ele responde "é uma bosta!" Mas... e daqui a 40 anos? Ou vocês acreditam que já estarão mortos daqui a 40 anos? Olhem que a cada dia que passa, tenho cada vez mais dúvidas sobre a minha mortalidade.
Sinceramente, isto é a evolução. E esta conversa acabará dentro de algum tempo, até à próxima polémica. Eu vivo no século XXI, e apesar de falar do passado, não fico agarrado a ele. É uma maneira desapaixonada de ver as coisas? Sim, claro. Mas para mim, o automóvel significa ter quatro rodas e um volante. E não interessa o motor, senão, aconselharia a comprarem um Ford modelo T, e tentem guiar um.
E pronto, "here's my two cents". Valem o que valem.



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