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sexta-feira, 23 de julho de 2021

A imagem do dia


Didier Pironi e Jean-Pierre Jaussaud comemoram em plenos Campos Elíseos a sua vitória nas 24 Horas de Le Mans de 1978, e de uma certa forma, o final de uma era da marca do losango na Endurance, antes de mergulharem a tempo inteiro na aventura da Formula 1, do qual triunfariam quase doze meses depois, também em terras francesas. Mas o que conta hoje tem a ver com a corrida no circuito de La Sarthe.

A Alpine era uma preparadora fundada em 1954 na cidade de Dieppe por Jean Redélé, que preparava Renault 4CV no sentido de terem um pouco mais de cavalagem no sentido de competir em rampas um pouco por toda a França. Com o tempo, construiu carros de fibra de vidro como o modelo A110, o mais famoso nos anos 60 e 70, principalmente nos ralis. Em 1971, a Renault começou a ter um maior envolvimento no automobilismo, ficando com participações maiores na marca, acabando por a comprar em 1976. Mas eles já nessa altura tinham começado a construir aquilo que viria a ser o A442. Com um motor de 2 litros, acompanhado de um Turbo Garrett, tinha uma potência inicial de 490 cavalos, acabando por ter 520 cavalos lá para 1978.

Nesse ano, Gerard Larrousse, ex-piloto por boa parte dos anos 60 e inicio dos anos 70, era o diretor da Renault e tinha elaborado um plano com três objetivos: triunfar em Le Mans, fechar as operações na Endurance com o objetivo de apostar tudo na Formula 1, para alcançar o mesmo sucesso. E ali, a Renault tinha reforçado bastante o seu orçamento, e construíram três chassis, inscrevendo-o na prova, com os melhores pilotos franceses. E nesse ano, estavam na primeira temporada inteira na Formula 1, com Jean-Pierre Jabouille ao volante, lutando contra um motor potente, mas frágil.

Três carros estavam inscritos na edição de 78. O primeiro era para Didier Pironi e Jean-Pierre Jaussaud, o primeiro um jovem que se tinha estreado na Formula 1 nesse ano, pela Tyrrell, o segundo um veterano de 41 anos, e que tinha corrido pela Matra e Mirage. No segundo carro estavam o britânico Derek Bell e Jean-Pierre Jarier, e no terceiro, quatro pilotos: Jabouille, os pilotos de ralis Guy Frequin e Jean Ragnotti, e o irmão de Pironi, José Dolhem. Havia também um A443, para Jabouille e Patrick Depailler. Todos iriam correr contra os Porsche 935 e 936, especialmente os guiados por Jacky Ickx, Bob Wollek, Hurley Haywood, Peter Gregg, Reinhold Joest ou Rolf Stommelen, entre outros.

Essencialmente, foi uma questão local. Os Renault, cujos chassis eram idênticos aos Porsche 936, que eram já capazes de fazer 390 km/hora na reta das Hunaudrieres, conseguiram controlar os carros alemães, ao ponto de terem decidido que, caso acontecesse, os vencedores seriam Jabouille e Depailler, muito mais velozes Tudo corria bem até à 18ª hora, quando o motor explodiu, e o comando foi herdado por Pironi e Jaussaud. O veterano levou o seu carro a bom porto, e no inicio da manhã, já tinham um bom avanço sobre o Porsche de Ickx quando começou a ter problemas com a caixa de velocidades. Larrousse disse que Pironi deveria levar o carro ate ao fim, esperando que conseguisse a vitória tão esperada. 

Quando conseguiu, Pironi estava exausto, não conseguindo ser capaz de sair do seu carro pelo próprio pé, e assim sendo, Jaussaud teve de ir sozinho ao pódio ir buscar o troféu. Tinham ganho com quatro voltas de avanço sobre o melhor dos Porsches, e depois, foram comemorar como os franceses gostam de celebrar: com um passeio nas ruas de Paris. Dali a um ano, voltariam a sair à rua para comemorar a primeira vitória de um motor Turbo na Formula 1.

A vida de Pironi é conhecida: uma curta carreira na Formula 1, Tyrrell, Ligier e Ferrari e provavelmente o favorito ao título mundial de 1982, antes de um acidente no "warm up" do GP da Alemanha ter terminado prematuramente a sua carreira. Cinco anos de reabilitação o fez andar nos "powerboats" até um acidente na ilha de Wight, em agosto de 1987, ter terminado com a sua vida. Jaussaud foi correr para a Rondeau e voltou a vencer em Le Mans ao lado de Jean Rondeau, em 1980, sendo participante do único piloto de Le Mans a ganhar em Le Mans a bordo do seu próprio carro. 

Jean-Pierre Jaussaud morreu ontem, aos 84 anos, deixando a sua marca na vida a fazer o que gostava e também a fazer sonhar outros nas aventuras em que viveu. Ars longa, vita brevis

quinta-feira, 22 de julho de 2021

The End: Jean-Pierre Jaussaud (1937-2021)


O francês Jean-Pierre Jaussaud, vencedor por duas vezes das 24 Horas de Le Mans, em 1978 e 1980, ambas em máquinas francesas, morreu esta quinta-feira aos 84 anos de idade, vitima de ataque cardíaco. Dono de uma carreira longa no automobilismo, porém nunca esteve na Formula 1, apesar de passagens pela Formula 2 e de ter vencido o GP do Mónaco de Formula 3.

Nascido a 3 de junho de 1937 em Caen, e filho de um negociante de vinhos, apaixonou-se pelo automobilismo na adolescência, ao ver correr Stirling Moss nas pistas ao pé da sua terra natal, e começou a tentar a sua sorte em 1962, quando decidiu tirar um curso na Jim Russell Drivers School, depois de ler o anuncio na revista Sport Auto. Pouco dpeois, este abre uma filial francesa no circuito de Magny-Cours, e ali nasce o Volant Shell, do qual ele também se inscreve, pois o prémio era uma temporada na Formula 3 francesa, com todas as despesas pagas. Com bom aproveitamento em ambas, decidiu apostar numa carreira na Formula 3 francesa, apoiado pela Shell. Em 1965, passa para a Matra, que tinha acabado de montar uma equipa nessa categoria, na companhia de Jean-Pierre Beltoise, Henri Pascarolo e Johnny Servoz-Gavin. Todos acabarão por seguir para a Formula 1, excepto ele. Tem as suas primeiras participações nas 24 horas de Le Mans, ao lado de Pescarolo, mas não termina.


Em 1968, participa na Formula 3, ao volante de um chassis Tecno, e ganha o prestigiado Grande Prémio do Mónaco, passando também pela Formula 2, com algum sucesso. Chega até a ser sondado para correr em carros de Formula 1, nomeadamente quando Bruce McLaren lhe pede para ser uma alternativa, caso não conseguisse Dennis Hulme, mas a chance de correr na categoria máxima do automobilismo não acontece.

Em 1970, torna-se campeão francês de Formula 3, com um Tecno, e no ano seguinte, passa para a Formula 2, num March da Shell Arnold Team, ao lado de Jean-Pierre Jarier. Em 1972, é candidato ao título, vencendo três provas, mas perde o título a favor do britânico Mike Hailwood. Contudo, nesta altura, ele já estava a caminho dos 35 anos e os planos para correr na Formula 1 não mais se materializaram. E quando a Matra procurava gente para competir na temporada de Endurance de 1973, Jaussaud nem olhou para trás.


Terceiro na edição desse ano das 24 horas de Le Mans, num Matra 670, e ao lado de Jean-Pierre Jabouille, começa a apostar mais nessa categoria. E quanto passou para a Alpine-Renault, no final de 1975, depois de ter conseguido outro terceiro lugar na edição desse ano, guiando um Gulf-Mirage, ao lado do australiano Vern Schuppan, ajudou no crescimento e consolidação da marca nessa categoria, que culminou na edição de 1978 das 24 horas de Le Mans. Com três carros inscritos, e correndo ao lado de Didier Pironi, que nesse ano tinha-se estreado na Formula 1, Jassaud consegue levar o seu carro a bom porto, apesar dos problemas na caixa de velocidades. 

No final, mais do que uma vitória francesa e uma da marca do losango, que foi comemorada com um passeio nos Champes Elisées, em Paris, era também o fechar de uma parte do projeto e investir a cem por cento no projeto da Formula 1. Jaussaud torna-se piloto de testes da marca, mas claro, nunca terá a oportunidade de andar em Grandes Prémios. 


Em 1979, Jean Rondeau convida-o para o seu projeto particular, que tinha como objetivo vencer as 24 horas de Le Mans com o seu próprio carro. Em 1980, corre ao lado do piloto e patrão e a ideia é de ficar bem classificado, o que acontece... com novo triunfo, e ainda por cima um especial, porque nunca antes - nem depois - houve um piloto-construtor no lugar mais alto do pódio. Jaussaud continuou a correr pela Rondeau até 1983, sem grande sucesso.

Pelo meio, participa no rally Patis-Dakar, onde em 1982 acaba na terceira posição, a bordo de um Mercedes Classe G. Passa o resto da década a palmilhar as dunas do norte de África, até 1992, quando participa em camiões Hino. A partir desse ano, abandona o automobilismo ativo e passa a ser instrutor de condução e participante ativo nas diversos clássicos de automobilismo em França.