terça-feira, 28 de julho de 2026

As imagens do dia










No final de julho de 1976, Niki Lauda tinha 27 anos e estava no auge da sua carreira. Na sua terceira temporada na Ferrari, tinha conquistado o seu primeiro título mundial, e parecia que a renovação do título seria uma questão de tempo. Se calhar, queria ganhar em Monza, como acontecera na temporada anterior, numa Ferrari que era moldada para o seu estilo de condução. 

E também esse poderia ser um momento em que poderia olhar para trás e afirmar que conseguira tudo usando a sua cabeça e o seu talento, e não o seu dinheiro, indo contra tudo e todos, incluindo a sua família. 

Nascido a 22 de fevereiro de 1949, em Viena como Andreas Nikolaus Lauda, era neto de Hans Lauda, que a certa altura tinha sido presidente da Confederação Austríaca de Industria e da Cruz Vermelha Austríaca. Certo dia, ao saber das aspirações do seu neto, vetou todo e qualquer empréstimo bancário porque achava desprestigioso ver o seu nome nas páginas desportivas que nas páginas económicas. E o seu bisavô, Ernst Lauda, tinha sido arquitecto e engenheiro, tendo construído diversas pontes um pouco por todo o Império Austro-Húngaro, tendo sido elevado a nobre pelo Imperador Francisco José. Mas ele tinha uma coisa muito boa: acreditava nele mesmo e nas suas capacidades. E como tinha um nome, não tinha muitos problemas em pedir dinheiro a outros bancos para financiar a sua subida à Formula 1.

Em 1971, foi â March e pagou 3500 libras para poder correr o seu Grande Prémio, onde a bordo de um modelo 711, partiu de 20º e penúltimo, e acabou na volta 20, com problemas na coluna de direção. Nos meses seguintes, pediu 30 mil libras emprestadas a um banco e comprou um lugar na March para 1972, mais um extra de oito mil libras para financiar a sua temporada na Formula 2. Robin Herd contou mais tarde que foi com o dinheiro de Lauda que manteve a equipa a funcionar. 

Contudo, mesmo com esse financiamento, não impediu a má temporada da equipa. Apesar do 721G ter sido feito com os "imputs" do próprio Lauda, não pontuou nessa temporada, e ele acabou por ser despedido. Pensou seriamente em desistir, mas decidiu que iria novamente ao banco pedir um novo empréstimo, desta vez de 35 mil libras para rumar à BRM, na temporada de 1973, arranjando um lugar ao lado do suíço Clay Regazzoni e do francês Jean-Pierre Beltoise, e com o generoso patrocínio da Marlboro.

Apesar disso tudo, e o chassis nem ser mau de todo, era das poucas equipas sem o motor Cosworth. E estava desfasado da realidade. Um quinto lugar na Bélgica deu-lhe os primeiros pontos da sua carreira, e boas prestações em corridas como o Mónaco - onde foi terceiro, antes de desistir por problemas mecânicos - Grã-Bretanha, onde chegou a andar entre os da frente antes de acabar a quatro voltas do vencedor, e Canadá, onde chegou a liderar por 16 voltas, numa corrida à chuva, foi o suficiente para causar o interesse de Enzo Ferrari. Que perguntou a Regazzoni, pois iria retornar à Scuderia, o que achava de Lauda. Ele elogiou as suas capacidades de pilotagem e de engenharia, e no final de 1973, acabaria por ser contratado. 

Ferrari e Lauda também conversaram sobre a sua situação financeira e ele arranjou forma de pagar as suas dívidas e poder guardar o seu dinheiro para o futuro. Para 1974, havia menos uma preocupação na sua cabeça. 

O seu primeiro pódio foi na Argentina, acabando em segundo, e três corridas depois, em Jarama, ganharia a sua primeira corrida, e a primeira da Scuderia desde o verão de 72, com Jackie Ickx ao volante. A meio do ano, liderava o campeonato, com 36 pontos, mais quatro que o seu companheiro de equipa, Clay Regazzoni. A equipa era comandada na pista por Mauro Forgheri e Luca de Montezemolo, um jovem advogado que trabalhava na Fiat. Contudo, não pontuou nas últimas cinco corridas da temporada e acabou em quarto, com 38 pontos.

Mas em 1975, depois de um inicio algo modesto, cinco pódios seguidos, quatro dos quais vitórias, o colocaram como o favorito numero um ao título. E confirmou, em Monza, dando o primeiro título de pilotos à Scuderia em onze anos. Para 1976, confirmou a sua reputação do melhor piloto no pelotão: sete pódios seguidos, quatro deles vitórias. Depois do GP da Suécia, onde acabou em terceiro, tinha 55 pontos. O segundo classificado, o sul-africano Jody Scheckter, que corria nessa temporada com o Tyrrell P34 de seis rodas, tinha... 23. E James Hunt, piloto que na temporada de 76 estava na McLaren, em substituição de Emerson Fittipaldi, que seguiu o sonho brasileiro da Copersucar, apenas... oito.

Mas a chegada do verão viu algumas contrariedades naquilo que parecia ser uma caminhada imparável para o bicampeonato. Primeiro, desistiu em Paul Ricard, com um problema de motor, e viu Hunt a ganhar, passando a ter 17. Mas poucos dias depois, o recurso vindo da McLaren, que contestou a desclassificação de Hunt no GP de Espanha, foi válido e Hunt tinha agora 26, contra os 52 de Lauda. De repente, tinha perdido 12 pontos, e o britânico tornava-se no seu maior rival do campeonato. Mas tinha tudo sob controlo, mesmo depois da confusão no GP britânico, onde Hunt, forçado pelos comissários e pelo público a poder correr a sua corrida, acabar por triunfar.

Afinal de contas, quando chegou a Nurburgring, tinha um avanço de 23 pontos. Tinha tudo sob controlo. O que poderia falhar?

Sem comentários: