sábado, 20 de junho de 2026

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A Osella, em junho de 1986, viu-se de repente sem um dos pilotos, e tinha pouco tempo para arranjar um substituto. Quando Marc Surer ficou gravemente ferido num acidente de ralis, a Arrows, por causa da BMW, quis os serviços de Christian Danner, a Osella disse "sim", mas entre a teoria e a prática, demorou mais tempo que julgavam. Tanto que a Arrows correu com apenas um carro em Montreal. 

A equipa fundada por Enzo Osella precisava de um substituto para o lugar que Danner iria vagar, e algum dinheiro para ser compensado, e claro, se isso agora não é algo que se resolva num estalar de dedos, agora imaginem em 1986, não é?

Mas isso resolveu-se rapidamente, quando a equipa descobriu um piloto local com palmarés suficiente para poder preencher o lugar, mesmo com o maior dos obstáculos: ele nunca tinha participado numa corrida de Formula 1. Testes? Sim. O fim de semana de um Grande Prémio, não.

Aos 24 anos - nascera a 1 de agosto de 1961 em Vancouver, na Columbia Britânica - Allen Berg tinha começado no karting, antes de passar aos monolugares em 1982, na Formula Pacific, onde ganhou a Tasman Series. Um ano depois, foi para a Formula 3 britânica, ao serviço da Neil Trundle Racing, onde conseguiu três pódios, e foi quinto no campeonato, que tinha Ayrton Senna e Martin Brundle como candidatos ao título. Berg continuou em 1984, na Eddie Jordan Racing, onde andou bem melhor, onde conseguiu uma pole-position, onze pódios, mas nenhuma vitória. Acabou vice-campeão, numa temporada dominada por Johnny Dumfries, que também iria chegar à Formula 1, pela Lotus. 

No final dessa temporada, Berg testou quer pela Tyrrell, quer pela Arrows, e conversou com gente da Spirit e da RAM, para arranjar um lugar na Formula 1, mas as coisas não deram muito resultado. Em 1985, foi para o Canadá, procurar patrocinadores para tentar a sua sorte na categoria máxima do automobilismo, enquanto competia no México, mas foi apenas a meio de 1986 que conseguiu o que queria. Tudo graças ao seu manager, Michael Koenig, que era ao mesmo tempo, o editor da revista "Grand Prix International".

O Michel [Koenig] ajudou-me quando corria na Formula 3”, disse Berg, numa entrevista feita à motorsport.com em 2018. “Acabámos por perder contacto, mas encontrámo-nos por acaso no lobby de um hotel em Toronto. Falámos sobre a Formula 1 e decidimos unir forças para 1986”.

As conversações foram relativamente rápidas, o pagamento fora feito, mas não a tempo de se estrear no GP do Canadá, a corrida caseira de Berg.

Passei o fim de semana do Grande Prémio do Canadá com a equipa em Montreal. O Enzo Osella e eu assinámos o contrato no domingo à noite, depois da corrida, em cima de um bidão de combustível nas boxes antigas, usando uma cópia do antigo contrato do Christian [Danner], basicamente preenchendo o contrato com o meu nome. O contrato previa um primeiro pagamento de apenas 25 mil dólares canadianos! Fizemos o ajuste do banco na segunda-feira de manhã e voei para Detroit para a minha primeira corrida”, recordou.

Passada a euforia inicial, cedo viu que a Osella era uma equipa artesã, de Itália, num plantel altamente competitivo, que fazia modificações sempre que tinha um material novo para estrear, ou uma nova versão do motor, com mais cavalos. Berg estava a lidar com motores que, na base, eram de 1983... e para piorar as coisas, a equipa tinha-lhe dado uma ordem: trazer o carro até ao fim sem danos. Não era o melhor dos conselhos.

Anos depois, numa entrevista feita em 2010 para um site, "Richards F1", berg contou um episódio com Ken Tyrrell, na sua estreia em Detroit:

"Enquanto caminhava pelas boxes, no início do fim de semana [de Detroit], encontrei Ken Tyrrell. Eu conhecia o Ken há muito tempo e já tínhamos falado sobre a possibilidade de eu pilotar ao lado do Brundle, mas nunca conseguimos o patrocínio necessário. Queria muito estar lá, pois admirava muito o Ken. Enfim, estava a caminhar pelo pit lane quando ele me disse: "Allen, a melhor coisa que podes fazer por ti este fim de semana é manter-te na linha."

"Foi literalmente o meu caso: entrar diretamente no Osella, [um chassis] que tinha cerca de 850 cavalos, turboalimentado, sem qualquer treino, e ali estava eu, num circuito fechado sem margem para erro. Foi uma tarefa assustadora no início, mas apanhei o jeito. Estive muito bem e cheguei a andar juntamente com o meu companheiro de equipa [Piercarlo Ghinzani] – o meu companheiro de equipa é, obviamente, o meu melhor parâmetro."

A qualificação até foi boa para ele: 25º na grelha de 26, iria participar no seu primeiro Grande Prémio da sua carreira. De uma certa maneira, conseguia o seu sonho, e quatro anos depois de Gilles Villeneuve, o Canadá voltava a ter um piloto na grelha.  

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