terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

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Bovenkerk é uma pacata vila nos arredores de Amesterdão, nos Países Baixos. Mas há meio século, este era o lugar onde se sediava... uma equipa de Formula 1. Não era Grove ou Surbiton, no Reino Unido, ou Maranello, em Itália, ou Nevers, em França. Mas era ali onde dois irmãos, Bob e Rody Hoogenboom, construíram uma equipa à volta de um chassis, um Ensign. E com eles, durante seis corridas em 1976, aconteceu a Boro. 

Tudo começou antes, em 1975. A Ensign tinha construído aquilo que viria a ser o N175, encomenda para Rikky von Opel. Contudo, a meio da construção, von Opel decide pura e simplesmente abandonar o automobilismo e retirar-se da vida pública - ele é um monge budista, algures na Tailândia - e não pagou a conta. Endividado, Mo Nunn, o fundador da Ensign, decidiu vender o chassis para os irmãos Hoogenboom, que aproveitaram a oportunidade e foram correr. Com um patrocínio vindo do sistema de alarmes HB, inscreveram o local Roelof Wunderink, e começou a correr no GP de Espanha, em Montjuich. Ao mesmo tempo, ele também corria na Formula 5000, também com um chassis da Ensign. 

Mas um acidente a meio do ano em Zandvoort, onde Wunderink saiu com o pé partido, o impediu de correr algumas provas, dando o lugar a outro piloto neerlandês: Gijs van Lennep. Mais experimentado - tinha ganho as 24 horas de Le Mans em 1971, num Porsche, ao lado do austríaco Helmut Marko - acedeu a correr em três provas. No GP da Alemanha, no Nurburgring Nordschleife, alcançava um grande feito, acabando em sexto e conseguindo o primeiro ponto (de 18 conquistados) da história da equipa. 

Contudo, durante o fim de semana de Zandvoort, onde Wunderink teve o acidente, os irmãos Hoogenboom acusaram Nunn de colocar uma embreagem velha, que se tinha partido e causado o acidente. este defendeu-se, e para piorar as coisas, ele estava a negociar um novo patrocinador, a francesa Ricard. Os irmãos sentiram-se ofendidos e decidiram quebrar o contrato, levando com ele o N175 que tinham comprado. Com o apoio do patrocinador, decidiram fundar a Boro, que era uma associação das letras dos seus primeiros nomes, BOb e ROdy. 

Contudo, quando eles atravessaram o Canal da Mancha para ir buscar o chassis, Mo Nunn estava à espera deles. Com uma barra na mão, disposto a fazer vida negra a eles. A briga quase aconteceu, mas os outros membros da equipa conseguiram agarrá-lo, porque, afinal de contas, estavam a fazer tudo de forma legal. 

Algumas semanas depois, Graham Hill e boa parte da sua equipa morre num acidente de aviação, nos arredores de Londres, e os irmãos decidem comprar alguns elementos num leilão para cobrir as despesas da desafortunada equipa - não tinham o seguro em dia - e inscrevem o carro como Boro, que é modificado o suficiente para ser chamado de 001. Como piloto, contrataram o australiano Larry Perkins, que tinha tido experiência na Formula 1 em 1974, pela Amon, e tinha sido campeão europeu de formula 3 em 1975. E com uma particularidade: ele corria de óculos!

A estreia foi em Jarama, no GP de Espanha, onde acabou por acabar na 13ª e última posição, a três voltas do vencedor. Contudo, na corrida seguinte, em Zolder, palco do GP da Bélgica, conseguiu um oitavo lugar final, que iria ser a melhor classificação na temporada. Uma não-qualificação no Mónaco e uma desistência no GP da Suécia, foram os resultados seguintes, antes de voltar a correr no final de agosto, no GP dos Países Baixos. Contudo, depois dessa corrida, a HB, a patrocinadora, decidiu retirar o seu patrocínio. 

Sem se render, Perkins convenceu os irmãos Hoogenboom para que emprestassem o chassis e dois dos seus mecânicos para correrem em Monza com o carro. De forma surpreendente, consegue o 13º melhor tempo na qualificação do GP de Itália, apesar de não ter acabado a corrida. A Boro não participa mais na temporada, enquanto Perkins decide fazer o resto de 1976 pela Brabham.

Em 1977, a Boro decidiu regressar para o fim de semana do GP neerlandês, com o 001 com mais algumas modificações, e a ser guiado pelo britânico Brian Henton. Participou no GP dos Países Baixos, onde se qualificou na 23ª posição, mas acabou por ser desclassificado, depois de um pião, e regressou à pista, empurrado pelos comissários. Mas o pior estava para vir, onde depois do GP de Itália, em Monza, Henton não se qualifica, e os irmãos acusam-no de ficar com o chassis, acabando com o acordo. Sem piloto, decidiram então vender parte do seu conteúdo a Teddy Yip, dono da Theodore, e abandonar de vez a Formula 1. O chassis ainda correu em algumas provas da Aurora AFX Series, o campeonato britânico de Formula 1, em 1978, e hoje em dia, corre em provas históricas de Formula 1... como um chassis Ensign. 

Os Paises Baixos tinham de esperar mais três décadas para voltar a ver uma equipa sua na Formula 1, graças à Spyker.  

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