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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Youtube Motorsport Video: O sonho supersónico de Donald Campbell

Semana passada, falei-vos sobre a fascinante história de Donald Campbell e da sua obsessão de bater os recordes de velocidade, herdados do seu pai, Malcom Campbell. E de como ele a querer ser o mais rápido em terra e na água terminou abruptamente numa fria manhã em janeiro de 1967, a bordo do Bluebird K7.

O que também falei por alto é que depois de ele bater o seu recorde na água, ele queria regressar de novo a terra para conseguir um recorde a bordo de um carro a jato. O Bluebird Mach 1.1/CN8 seria um carro que bateria a velocidade do som e ele pensaria que estaria pronto para as suas primeiras tentativas em 1969 ou 1970, com tecnologia britânica, capaz de a colocar na vanguarda da técnica. 

O carro foi apresentado a 7 de julho de 1965 em Londres, e Campbell disse o seguinte na conferência de imprensa:

"... Em termos de velocidade, o meu próximo passo deve ser construir um carro Bluebird que possa atingir Mach 1,1. Os americanos já estão fazendo planos para tal veículo e seria trágico para a imagem mundial da tecnologia britânica se não competirmos neste grande concurso e vencermos. A nação cujas tecnologias são as primeiras a conquistar o recorde do 'mais rápido que o som' em terra será a nação cuja indústria será vista como [dando] um salto para os anos 70 ou 80. Podemos ter o carro na pista dentro de três anos.", afirmou.

Sobre o que seria o Bluebird Mach 1.1, eis um vídeo que encontrei no canal do Youtube "Scarf and Goggles", que trata de recordes de velocidade, e sobre um carro que poderia ter sido, mas acabou por não acontecer. E curiosamente, o Mach 1.1 só foi alcançado em 1997, quase 30 anos depois do planeado.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

A história mortal de Donald Campbell


(...)

Donald, nascido a 23 de março de 1921, já tinha experiência e o "bichinho" da velocidade, especialmente depois da guerra. Com a morte do seu pai, em 1948, esperou pelo ano seguinte para tentar a sua sorte com o barco do seu pai, o Bluebird K4. Mas não só não conseguiu, mas soube que Stanley Sayres melhorou o recorde para os 257 km/hora, para além das capacidades do seu barco. 

Na altura, Campbell seguia as tentativas de velocidade de John Cobb. Ambos se davam bem, porque ele tinha sido amigo do seu pai. Em 1952, ele tinha construído o "Crusader", o primeiro barco com um motor a jato. E enquanto ele reconstruia o "Bluebird", Cobb ia para o Lago Ness, na Escócia, para bater o recorde de velocidade sobre a água. Mas a 29 de setembro desse ano, durante uma nova tentativa, o barco de Cobb desequilibra-se sobre uma onda e desfaz-se, causando a morte imediata do piloto, que fora cuspido do seu barco no impacto. 

Ali, Campbell ficou a saber que aquele poderia ser o seu destino, e que o seu pai até foi um privilegiado por ter tido uma longa vida. 

(...)

Depois da água, regressou à terra, onde outra ideia se apossou dele: ter ambos os recordes. Outro carro Bluebird foi construído, com a ajuda da Dunlop e da BP, e com a ajuda de Sir Alfred Owen, que iria ser o dono da BRM, graças à sua firma, a Rubbery Owen. Batizado de CN7, tinha um turbina e cerca de 4450 cavalos, com a esperança de alcançar 450 a 500 milhas por hora, ou... 800 km/hora. 

Pronto na primavera de 1960, e equipa foi para o lago salgado de Bonneville, no estado americano do Utah, e a ideia inicial era de chegar aos 700 km/hora nesse ano, ficar com o recorde e depois regressar em 1962, para levar o carro ao limite, ultrapassando os 800 km/hora. Pelo meio, regressaria à água e melhoraria o recorde com o outro Bluebird, e depois, quem sabe, abandonaria a competição, porque já estava perto dos 40 anos e sabia que o futuro era o jato puro e a barreira do som.

Contudo, na sua sexta tentativa, a 360 milhas por hora - cerca de 579 km/hora - perdeu o controle do carro e despistou-se. Foi hospitalizado com fratura craniana e um tímpano perfurado, mas sobreviveu para contar a história. Tinha sofrido o acidente mais rápido em terra e iria contar a história.


(...)

Para 1966, e também para arranjar publicidade para o seu projeto para o carro-foguete, Campbell regressou à água com o seu Bluebird K7. O objetivo era chegar para os 480 km/hora, ou as 300 milhas por hora, se calhar, passar dos 500 km/hora. O lugar escolhido foi Conninston Water, no Lancashire inglês, e Campbell esperava resolver a questão antes do final do ano, quando lá chegou, em setembro. Contudo, problemas no motor o impediram de tentar ao longo do outono de 1966. 

O barco ficou pronto em dezembro, e nas primeiras tentativas, andou a rondar os 400 km/hora, pronto para bater o recorde. Mas por causa de problemas com o sistema de alimentação de combustível, Campbell não conseguia chegar à marca pretendida. Alguns dias no estaleiro para tentar resolver o problema, e tudo ficou pronto por alturas do Natal. Com isso, agora, ele esperava por um dia perfeito para tentar. E este só apareceu depois do Ano Novo, a 4 de janeiro. 

Na véspera, ele estava a jogar póquer com os amigos quando lhe saiu uma mão com a Rainha e o Ás de Espadas, precisamente as mesmas que Mary, a rainha da Escócia, jogava na véspera da sua decapitação, em 1587. Ao reparar na coincidência, Campbell disse que tinha um mau pressentimento e e acabou dizendo: "acho que acabarei sem cabeça, desta vez." (...)


Donald Campbell herdou a paixão pela velocidade e a obsessão pelos recordes do seu pai. Conquistador em terra e na água, por um tempo, foi o homem mais rápido do mundo em ambos os elementos, e quis alcançar os 1000 km/hora em terra, e provavelmente, aproximar-se da barreira do som. Era do tipo de pessoas que Bruce McLaren descreveu-os certo dia como aqueles que "medem a sua vida em realizações e não em anos."

Contudo, a 4 de janeiro de 1967, há 55 anos, em Conniston Water, Campbell tentou alcançar os 550 km/hora na superfície aquática, no seu Bluebird K7. Na sua passagem de regresso, o seu barco voltou-se e desintegrou-se no impacto, matando-o de imediato. Aos 45 anos, terminava ali o percurso do homem que odiava o verde e o número 13, não corria às sextas-feiras e não se separava de Mr. Whoppit, o seu ursinho de peluche. E é sobre ele que falo este mês no Nobres do Grid.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Youtube Speed Video: O preço [a pagar] por um recorde

Ontem passaram-se 55 anos sobre o acidente mortal de Donald Campbell, o filho de Malcom Campbell, que tentava bater um recorde do mundo em água a bordo do seu barco a jato, o Bluebird K7, em Cominston Water, no norte de Inglaterra, no Lake District.

Campbell tentava marcar um recorde acima dos 500 km/hora a bordo do seu barco a jato, e tentava desde outubro, um projeto que era algo lento e penoso, numa busca que era mais por ele mesmo do que por "estar lá", ao contrário dos alpinistas que subiam ao monte Evereste, o ponto mais alto do planeta Terra. É que, sendo ele filho de quem é, estava a construir um legado maior que o do seu pai.

E é um pouco isso que passa neste documentário de meia hora, feito em 1968, e filmado no inverno de 1966-67, seguindo os passos dele até ao dia fatal. 

No Nobres do Grid deste mês...


Começa a ser frequente as dinastias automobilísticas, quer nos Estados Unidos, quer na Europa. Pais, filhos e até netos já experimentam as sensações da velocidade, e este ano, como sabemos, tivemos em Max Verstappen o quarto filho de piloto de Formula 1 a ser campeão do mundo. E há muitos mais noutras categorias, como os Unsers ou os Earnhardts na América, ou os Nakajimas no Japão. Mas muito antes disso, no Reino Unido, uma família apanhou o bicho da velocidade e marcou o seu nome na história do automobilismo. E nem antes, nem depois, nenhuma família se dedicou aos recordes de velocidade. Falo dos Campbell, e o primeiro da dinastia, Malcom Campbell. (...)

(...) Trabalhando para a Sunbeam, em 1924, aos 39 anos, pede para que se faça num carro especial para bater o recorde de velocidade em terra. Com isso nasce o 350HP, que tem um motor V12 com esse número de cavalos. Pintado no azul que se tornara a sua cor da sorte, foi para a praia de Pendine Sands, no País de Gales, faz 235.22 km/hora, marcando o seu primeiro recorde mundial em terra.

No ano seguinte, pilota um Chrysler Speed Six e torna-se no primeiro piloto a fazer Brooklands a uma velocidade média de 160 km/hora - cem milhas por hora - e voltou ao seu 350HP para fazer 242,8 km/hora, o primeiro a fazer as 150 milhas por hora. O recorde aguentou-se por sete meses, até ser batido por Henry Segrave, no primeiro dos seus recordes mundiais. 

Sabendo que o carro tinha os seus limites, começou a construir outro. Projetado por ele e com um motor Napier, tornou-se no primeiro dos Bluebird. Tinha um motor W12 de 23,2 litros, que tinha 502 cavalos, e em fevereiro de 1927, em Pendine Sands, tentou a sua sorte no recorde de velocidade. Apesar de andar perto dos 320 por hora - 200 milhas por hora - no final das suas passagens, conseguiu 281.45 km/hora, suficiente para que o recorde de velocidade voltasse para as suas mãos.

Mas menos de um mês depois, Henry Segrave conseguiu bater a barreira das 200 milhas por hora. Campbell não queria ver os carros passar, e decidiu modificar o seu carro, rebatizando-o de "Bluebird III". Pediu um motor Supermarine S.5, com 900 cavalos, vindo da aeronáutica, e adaptou-o ao seu carro. Melhorando-o aerodinamicamente nas instalações da Vickers, com uma cauda para efeitos aerodinâmicos, onde foram colocados os radiadores. Quando o carro foi mostrado, um jornal francês comparou-o... a uma baleia. (...)


Há um século, o mundo começa a ficar pendurado com as tentativas de ser o piloto mais rápido à face da Terra, e no mês passado falei de Henry Segrave, um piloto britânico que bateu recordes na terra e no mar, antes de um acidente em 1930 o ter tirado a vida. Este mês falo de Malcom Campbell, o primeiro de uma família que teve a velocidade nos seus genes. Ao longo de uma década e meia, até ao inicio da II Guerra Mundial, Campbell bateu recordes na água e em terra, a bordo de carros pintados de azul, a sua cor favorita, dando o apelido de "Bluebird".

E é sobre ele e os seus feitos que escrevo este mês no site Nobres do Grid.

terça-feira, 23 de março de 2021

A imagem do dia


Se fosse vivo, Donald Campbell teria comemorado hoje o seu centenário. Campbell foi um exemplo bem precoce do filho de piloto, pois era descendente de Malcom Campbell, um dos grandes recordistas de velocidade de antes da II Guerra Mundial, e dos poucos desse tempo que teve uma morte natural, já que faleceu em 1948, aos 63 anos, com recordes estabelecidos em terra e na água, muitos deles com o seu Bluebird.

A Royal Air Firce homenageou-o hoje com a passagem de dois aviões Hawk por Coniston Water, o local onde, a 4 de janeiro de 1967, sofreu o seu acidente fatal quando tentava bater um recorde na água a bordo do seu Bluebird. 

Quando Donald começou as suas tentativas de velocidade, tinha uma fasquia bem alta para superar, e isso se tornou numa obsessão para toda a sua vida. Aliás, isso e as suas superstições foram as coisas que se tornaram obsessivas para ele: nunca se separou do seu ursinho de peluche, Mr. Whoppit, odiava o verde - em contraste, tosos os seus carros eram azuis, como eram os do seu pai - não corria com o 13 e nunca se metia em provas às sextas-feiras, porque acreditava que nada de bom acontecia nesse dia.

Começou a correr na água, com um barco veloz, com motor a jato, que chamou de Bluebird, e estava determinado a trazer o recorde de volta à Grã-Bretanha, sobretudo após a morte de John Cobb, numa tentativa de velocidade no Lago Ness, em 1952. Durou três anos, mas conseguiu 325,60 km/hora em Ullswater, no Lake District britânico. Foi o primeiro de oito recordes que iria bater até 1964, quatro dos quais em Coniston Water, também no Lake District.

Em novembro de 1966, Campbell regressou ao Lake District para bater novo recorde na água, depois de ter andado a bater recordes em terra na planície salgada do Lago Eyre, na Austrália, a bordo de um Bluebird que foi construído com a ajuda de Alfred Owen, um dos sonos da BRM. A ideia era de usar esse recorde de velocidade como publicidade para angariar dinheiro para construir o seu Bluebird 1.1, o carro a jato que pretendia bater o recorde de velocidade em terra, um último antes de se retirar. Já tinha 46 anos, o seu corpo sofria com o acidente que tinha tido em 1960 em Bonneville.

Ao longo de novembro e dezembro, Campbell sofreu com o tempo. Tinha de ser feito sem vento, e o inverno inglês não era bom. E quando o tempo era suficiente para uma tentativa, apesar de chegar aos 400 km/hora, problemas de motor e de injeção de combustível abortavam as suas tentativas. Só no final de dezembro que, depois de substituir a bomba de combustível é que ele aguardava por um bom dia para tentar a sua sorte.

Esse dia aconteceu a 4 de janeiro de 1967. E foi o último da vida de Donald Campbell. Na véspera, quando jogava cartas com os seus mecânicos, saiu-lhe o ás e a rainha de espadas, precisamente as mesmas que Mary, a Rainha da Escócia, tinha saído na véspera da sua execução. Notando a coincidência, ele afirmou que "I will get the chop" (vão cortar-me a cabeça, numa tradução aproximada) 

Cedo, ele levou o barco para o meio do lago e começou a sua tentativa às 8:45 da manhã. Acelerou até aos 475 km/hora, e depois passou dos 500 km/hora, acabando com uma média de 478,9 km/hora, superior ao recorde de então. O barco portava-se bem e o tempo mantinha-se estabilizado. 

Contudo, ele queria fazer a passagem de volta o mais rapidamente possível, sem reabastecer e sem esperar que as ondas no lago abrandassem. Apesar de não ser algo invulgar, acabou por ser um erro de consequências fatais. A meio da sua tentativa, acima dos 350 km/hora, passou por cima das ondas, a frente levantou-se e catapultou o barco contra a água, destruindo-o. Campbell teve morte imediata.

No final, a falta de reabastecimento - tornou o barco mais leve - o facto de ter passado os seus limites aerodinâmicos - poucos dias antes, atingiu um pato e danificou um dos estabilizadores - causou o seu final trágico. 

Pouca coisa foi recuperada da água, como o seu ursinho de peluche e o seu capacete. O resto, como o Bluebird e o seu corpo, ficou no fundo do lago, apenas foi recuperado em maio de 2001. Numa profecia autocumprida, nunca encontraram a sua cabeça, dando vazão à teoria que ele teve morte imediata, decapitado com o impacto do barco com a água. He got the chop.

O Bluebird foi reconstruído e agora está em exposição em Coniston Water, não muito longe do cemitério onde repousam os restos mortais de Campbell.