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sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Youtube Automotive Video: Tentar chegar aos 320 km/hora

Parece que chegar aos 320 km/hora (ou 200 milhas por hora, em termos americanos), não parece ser grande coisa, porque hoje em dia, temos hipercarros que alcançam isso. Mas falemos de Bonneville, e o seu lago salgado, e carros modificados numa categoria, e Nolan Sykes, um dos membros do Donut Media. É algo do qual ele deseja entrar, para poder participar numa categoria que tem recordes mais... acessíveis, digamos assim.

E no espírito de Bonneville, na semana do ano em que todos aparecem ali para tentar alcançar os seus objetivos, que se trata deste video. 

sexta-feira, 18 de julho de 2025

A imagem do dia




As pessoas gostam daqueles que chegam aos limites do espaço conhecido e sobrevivem para contar. Então do nosso pálido Ponto Azul, chega ao ponto de fascínio. Só em meados do século XX, com o começo da aviação, e depois, o desenvolvimento das viagens espaciais, começamos a conhecer como passamos lentamente de uma atmosfera rica em oxigénio e dióxido de carbono, para um onde, protegidos de raios cósmicos ultra-violeta, somos uma bola azul, frágil perante um espaço totalmente hostil.

Ao longo dos anos, descobrimos desafios e aqueles que se propuseram a quebrar. Encaramos essas pessoas como audazes, viciados em adrenalina onde, conhecidos os perigos, resolvem fazer na mesma. Mesmo quando alguns desses desafios aconteciam ao serviço dos exércitos e das Forças Aéreas, em nome de objetivos mais guerreiros, não deixamos de pensar na coragem daqueles que, aceitando a missão, arriscam a vida pelo seu dever. Se formos ver bem, na NASA e na Agência Espacial Russa, os primeiros a irem para o Espaço, todos eles eram militares, ao serviço do seu país, enchendo as primeiras páginas dos jornais deste planeta para serem os primeiros heróis de todo um novo mundo.

Passada essa fase, apareceram os aventureiros, puros e duros. Bater recordes é uma maneira de não só satisfazer o ego, como também o de mostrar que é a sua melhor maneira de mostrar que gostam de se sentir vivos. Hoje em dia, saltar de 33 mil metros de altura é uma maneira muito cara de saltar de paraquedas e um décimo dessa altura. Ou então, saltar de um prédio alto - isso tem nome, BASE jumper - ou voar num fato voador, entre as paredes de um qualquer fiorde na Noruega, arriscando a vida. Tudo isso por essas tais descargas de adrenalina.

A história de Felix Baumgartner, morto nesta quinta-feira em Porto Ercole, em Itália, aos 56 anos, num acidente de paraquedas, é bem interessante. Ele era de um tipo que buscava a adrenalina, mas queria algo mais. A ideia de bater um recorde que não era tocado, na altura, há mais de meio século - o recorde de Joseph Kittinger, em 1960 - era demasiado boa para ser deixado de lado. E só essa ideia fez-nos ficar agarrados à televisão ou ao portátil, vendo por algumas horas o canal do Youtube onde ele iria fazer esse feito. E no final seguiu, passo a passo, aquilo que Kittinger fizera. E com ele a testemunhar.

Sempre olhei para aquilo como se olhava, há mais de 60 anos, numa era heroica, e já distante, os recordes de velocidade. Mais que uma tarde bem passada, ou colocar em perigo a sua existência, para poder dizer o teu nome como o recordista de altura em alguma categoria, sem dúvida deve ser algo que vale a pena.

Hoje em dia, sabem como Baumgartner é chamado? Em inglês, é "daredevil". Para português, é algo parecido com "desafiador". Mas ele desafia o quê? A gravidade? Capaz. A vida? Sem dúvida? As estrelas? Não indo para o espaço, fica num limbo entre o ar que nós respiramos, protegidos por camadas invisíveis, do Espaço hostil.

O que sei, no meio disto tudo, é que ele viu um desafio, aceitou-o. Trabalhou para ele, e conseguiu alcançar os seus objetivos. Mesmo que depois, esse recorde tenha sido superado - o atual recorde é de 41 quilõmetros, alcançado pelo americano Alan Eustace. Mas acho que todos sabem disso: os recordes são para ser superados. O momento que fica para sempre, que iremos sempre recordar, é aquele onde ele se colocou fora da cápsula, e saltou fora. Isso é melhor que todos os recordes do mundo. Ad astra.  

domingo, 17 de novembro de 2024

Youtube Automobile Vídeo: O descapotável mais rápido do mundo

A Bugatti já tem recordes interessantes como carro de produção mais rápido do mundo. E no passado dia 9 de novembro, acrescentou mais um: o de descapotável mais rápido. Andy Wallace sentou no descapotável Mistral, foi para a pista de testes do centro da Alemanha - num dia de chuva - e conseguiu a espantosa marca de 453,8 km/hora. 

Curioso é que nas imagens da equipa que está a assistir ao teste, está Mate Rimac. É que neste momento, a Bugatti pertence à croata Rimac, numa joint-venture.  

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

Youtube Motorsport Vídeo: O Oldsmobile Aerotech

Há 40 anos, uma marca de carros aliada à General Motors, a Oldsmobile, construiu um motor potente de 4 cilindros e para provar a sua potência, decidiu construir um chassis aerodinâmico o suficiente para bater alguns recordes de velocidade. Convidou uma lenda do automobilismo, A.J. Foyt, e começou a marcar alguns recordes - andando acima dos 400 km/hora.

Este filme conta o que foi o carro, para quê serviu e o que era o motor que colocaram dentro do protótipo.

quinta-feira, 6 de abril de 2023

The End: Craig Breedlove (1937-2023)


O americano Craig Breedlove, piloto que bateu alguns recordes de velocidade a bordo do seu "Spirit of America", morreu ontem aos 86 anos, anunciou a família. Ele entrou na história por ser o primeiro a bater recordes num carro a jato, em 1964, e também o primeiro a bater a barreira, primeiro dos 800 km/hora, e depois dos 900 km/hora. Para além disso, a certa altura, a sua mulher, Lee Breedlove, também pilotou o seu carro e foi temporariamente a mulher mais rápida do mundo, a quase 500 km/hora. 

Durante um período de tempo nos anos 60 e 70, foi o homem mais rápido do mundo em terra, e até muito tarde, sempre quis ir mais além.

Nascido a 23 de março de 1937, Breedlove envolveu-se cedo no automobilismo e em 1962, aos 25 anos, apareceu com o seu primeiro Spirit of America em Bonneville, no lago salgado, para a sua primeira tentativa de recorde. O carro, apenas com três rodas, não era válido para a FIA, que exigia que qualquer veículo tivesse quatro rodas, mas mesmo assim, alcançou 655,73 km/hora no final das duas passagens obrigatórias para validar o recorde. Contudo, apenas a FIM, a Federação Internacional de Motociclismo, é que se interessou na homologação do recorde. Para além disso, tinha sido o primeiro carro a usar um motor a jato, um  General Electric J47 vindo de um F-86 Sabre. 

Na altura, o recorde durou pouco tempo porque por esses dias, Donald Campbell tentava bater o recorde com o seu Bluebird, ainda com motores a pistão. Tinha conseguido em 1964, mas Breedlove regressou em outubro a Bonneville com uma nova versão do Spirit of America, para ver se alcançava as 500 milhas por hora, ou 800 km/hora. Mas tinha concorrência. 

Nesse ano, dois projetos estavam presentes em Bonneville: o Green Monster, guiado por Art Arfons, e o Wingfoot Express, guiado por Tom Green e Walt Arfons, o irmão mais velho de Art. A 2 de outubro, o recorde foi batido por Tom Green, com 665,0 km/hora, para tres dias depois, a 5, o Green Monster chegar aos 698.50 km/hora. Breedlove reagiu no dia 13, fazendo 754,330 km/hora, e melhorando dois dias depois, com 846,961 km/hora de média, sendo o primeiro piloto a passar acima das 500 milhas por hora. 

Contudo, o recorde durou... 12 dias. A 27 de outubro, Arfons alcançou os 863,751 km/hora na sua última tentativa do ano com o Green Monster. Que tinha quatro rodas, a propósito. 

Os dois regressaram no ano seguinte para melhorar o recorde, numa competição que, de uma certa maneira, tinha encantado a América, na era da corrida espacial. Aliás, as duas principais marcas de pneus, Goodyear e Firestone, apoiavam cada um os seus pilotos, e Breedlove era patrocinado pela Goodyear. Ele apareceu com um novo Spirit of America, e a 2 de novembro, conseguiu 893,966 km/hora, tirando o recorde e Arfons, e este respondeu cinco dias depois com o seu Green Monster, alcançando 927,872 km/hora. a coisa ficou resolvida a 15 de novembro a favor de Breedlove, que conseguiu 966,574 km/hora, mas em medida imperial, eram 600,601 milhas por hora, o primeiro a alcançar. 

Pelo meio, até a sua mulher, Lee tentou a sua sorte, alcançando um recorde feminino, conseguindo 496,492 km/hora no seu Spirit of America. Contudo, teve o seu quê de golpe publicitário, porque queria ter um dia só para o seu carro e não dando chances ao seu rival de poder responder ao seu recorde, e claro, com o apoio do seu patrocinador. Esse recorde ficou nas mãos dela até 1976.

O recorde ficou nas mãos de Breedlove até 1970, quando Gary Gabelich o bateu com o Blie Flame, um carro pilotado por foguetes, sendo o primeiro a ultrapassar os 1000 km/hora. 

Um tempo antes, em 1968, a AMC, American Motor Company, contratara o casal Breedlove para bater recordes de pista no seu novo "muscle car", o AMX. Acabaram por conseguir 14 recordes de velocidade e endurance num carro de produção, com médias de 226,58 km/hora em 24 horas, e 278.487 km/hora em 100 milhas (161 km), largando de forma parada. Levados a Bonneville, o AMX conseguiu 304 km/hora, num recorde sancionado pela USAC. 

Depois disto, Breedlove afastou-se dos recordes por mais de 20 anos, para se dedicar à imobiliária, até no inicio de 1990, regressar o seu interesse pela velocidade. Desenhou um novo Spirit of America - Formula Shell LSRV, com um motor a jato GE J79, e a 28 de outubro de 1996, foi ao deserto de Black Rock, no Nevada, para tentar passar dos 1000 km/hora e tentar alcançar a barreira do som, algo que outro projeto, os britânicos da ThrustSSC, com dois motores a jato Rolls-Royce, guiado por Andy Green, tentava fazer. O carro descontrolou-se a 1086 km/hora, e ficou danificado, mas Breedlove, então com 59 anos, saiu ileso. Regressou no ano seguinte, mas a sua tentativa acabou cedo, quando bateu de novo com o carro, depois de ter conseguido 1088 km/hora, e assistiu depois à quebra da barreira do som batido pelo ThrustSSC, com 1228 km/hora, o recorde atual.

Breedlove vendeu o chassis para Steve Fossett, conhecido por bater diversos recordes na terra e no ar, e preparava-se para tentar a sua sorte quando em 2007 desapareceu no seu avião na Sierra Nevada californiana, tendo os seus restos mortais encontrados um ano depois. 

Até morrer, Breedlove continuou a projetar carros para tentar bater o recorde de velocidade, mostrando que a sua paixão continuava a fluir nas suas veias. Teve tempo para ver o seu nome no Motorsports Hall of Fame of America, entrando em 1993, no International Motorsports Hall of Fame, no qual pertence desde o ano 2000, e no Automotive Hall of Fame, em 2009.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Youtube Motorsport Video: O sonho supersónico de Donald Campbell

Semana passada, falei-vos sobre a fascinante história de Donald Campbell e da sua obsessão de bater os recordes de velocidade, herdados do seu pai, Malcom Campbell. E de como ele a querer ser o mais rápido em terra e na água terminou abruptamente numa fria manhã em janeiro de 1967, a bordo do Bluebird K7.

O que também falei por alto é que depois de ele bater o seu recorde na água, ele queria regressar de novo a terra para conseguir um recorde a bordo de um carro a jato. O Bluebird Mach 1.1/CN8 seria um carro que bateria a velocidade do som e ele pensaria que estaria pronto para as suas primeiras tentativas em 1969 ou 1970, com tecnologia britânica, capaz de a colocar na vanguarda da técnica. 

O carro foi apresentado a 7 de julho de 1965 em Londres, e Campbell disse o seguinte na conferência de imprensa:

"... Em termos de velocidade, o meu próximo passo deve ser construir um carro Bluebird que possa atingir Mach 1,1. Os americanos já estão fazendo planos para tal veículo e seria trágico para a imagem mundial da tecnologia britânica se não competirmos neste grande concurso e vencermos. A nação cujas tecnologias são as primeiras a conquistar o recorde do 'mais rápido que o som' em terra será a nação cuja indústria será vista como [dando] um salto para os anos 70 ou 80. Podemos ter o carro na pista dentro de três anos.", afirmou.

Sobre o que seria o Bluebird Mach 1.1, eis um vídeo que encontrei no canal do Youtube "Scarf and Goggles", que trata de recordes de velocidade, e sobre um carro que poderia ter sido, mas acabou por não acontecer. E curiosamente, o Mach 1.1 só foi alcançado em 1997, quase 30 anos depois do planeado.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

A história mortal de Donald Campbell


(...)

Donald, nascido a 23 de março de 1921, já tinha experiência e o "bichinho" da velocidade, especialmente depois da guerra. Com a morte do seu pai, em 1948, esperou pelo ano seguinte para tentar a sua sorte com o barco do seu pai, o Bluebird K4. Mas não só não conseguiu, mas soube que Stanley Sayres melhorou o recorde para os 257 km/hora, para além das capacidades do seu barco. 

Na altura, Campbell seguia as tentativas de velocidade de John Cobb. Ambos se davam bem, porque ele tinha sido amigo do seu pai. Em 1952, ele tinha construído o "Crusader", o primeiro barco com um motor a jato. E enquanto ele reconstruia o "Bluebird", Cobb ia para o Lago Ness, na Escócia, para bater o recorde de velocidade sobre a água. Mas a 29 de setembro desse ano, durante uma nova tentativa, o barco de Cobb desequilibra-se sobre uma onda e desfaz-se, causando a morte imediata do piloto, que fora cuspido do seu barco no impacto. 

Ali, Campbell ficou a saber que aquele poderia ser o seu destino, e que o seu pai até foi um privilegiado por ter tido uma longa vida. 

(...)

Depois da água, regressou à terra, onde outra ideia se apossou dele: ter ambos os recordes. Outro carro Bluebird foi construído, com a ajuda da Dunlop e da BP, e com a ajuda de Sir Alfred Owen, que iria ser o dono da BRM, graças à sua firma, a Rubbery Owen. Batizado de CN7, tinha um turbina e cerca de 4450 cavalos, com a esperança de alcançar 450 a 500 milhas por hora, ou... 800 km/hora. 

Pronto na primavera de 1960, e equipa foi para o lago salgado de Bonneville, no estado americano do Utah, e a ideia inicial era de chegar aos 700 km/hora nesse ano, ficar com o recorde e depois regressar em 1962, para levar o carro ao limite, ultrapassando os 800 km/hora. Pelo meio, regressaria à água e melhoraria o recorde com o outro Bluebird, e depois, quem sabe, abandonaria a competição, porque já estava perto dos 40 anos e sabia que o futuro era o jato puro e a barreira do som.

Contudo, na sua sexta tentativa, a 360 milhas por hora - cerca de 579 km/hora - perdeu o controle do carro e despistou-se. Foi hospitalizado com fratura craniana e um tímpano perfurado, mas sobreviveu para contar a história. Tinha sofrido o acidente mais rápido em terra e iria contar a história.


(...)

Para 1966, e também para arranjar publicidade para o seu projeto para o carro-foguete, Campbell regressou à água com o seu Bluebird K7. O objetivo era chegar para os 480 km/hora, ou as 300 milhas por hora, se calhar, passar dos 500 km/hora. O lugar escolhido foi Conninston Water, no Lancashire inglês, e Campbell esperava resolver a questão antes do final do ano, quando lá chegou, em setembro. Contudo, problemas no motor o impediram de tentar ao longo do outono de 1966. 

O barco ficou pronto em dezembro, e nas primeiras tentativas, andou a rondar os 400 km/hora, pronto para bater o recorde. Mas por causa de problemas com o sistema de alimentação de combustível, Campbell não conseguia chegar à marca pretendida. Alguns dias no estaleiro para tentar resolver o problema, e tudo ficou pronto por alturas do Natal. Com isso, agora, ele esperava por um dia perfeito para tentar. E este só apareceu depois do Ano Novo, a 4 de janeiro. 

Na véspera, ele estava a jogar póquer com os amigos quando lhe saiu uma mão com a Rainha e o Ás de Espadas, precisamente as mesmas que Mary, a rainha da Escócia, jogava na véspera da sua decapitação, em 1587. Ao reparar na coincidência, Campbell disse que tinha um mau pressentimento e e acabou dizendo: "acho que acabarei sem cabeça, desta vez." (...)


Donald Campbell herdou a paixão pela velocidade e a obsessão pelos recordes do seu pai. Conquistador em terra e na água, por um tempo, foi o homem mais rápido do mundo em ambos os elementos, e quis alcançar os 1000 km/hora em terra, e provavelmente, aproximar-se da barreira do som. Era do tipo de pessoas que Bruce McLaren descreveu-os certo dia como aqueles que "medem a sua vida em realizações e não em anos."

Contudo, a 4 de janeiro de 1967, há 55 anos, em Conniston Water, Campbell tentou alcançar os 550 km/hora na superfície aquática, no seu Bluebird K7. Na sua passagem de regresso, o seu barco voltou-se e desintegrou-se no impacto, matando-o de imediato. Aos 45 anos, terminava ali o percurso do homem que odiava o verde e o número 13, não corria às sextas-feiras e não se separava de Mr. Whoppit, o seu ursinho de peluche. E é sobre ele que falo este mês no Nobres do Grid.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

No Nobres do Grid deste mês...


Começa a ser frequente as dinastias automobilísticas, quer nos Estados Unidos, quer na Europa. Pais, filhos e até netos já experimentam as sensações da velocidade, e este ano, como sabemos, tivemos em Max Verstappen o quarto filho de piloto de Formula 1 a ser campeão do mundo. E há muitos mais noutras categorias, como os Unsers ou os Earnhardts na América, ou os Nakajimas no Japão. Mas muito antes disso, no Reino Unido, uma família apanhou o bicho da velocidade e marcou o seu nome na história do automobilismo. E nem antes, nem depois, nenhuma família se dedicou aos recordes de velocidade. Falo dos Campbell, e o primeiro da dinastia, Malcom Campbell. (...)

(...) Trabalhando para a Sunbeam, em 1924, aos 39 anos, pede para que se faça num carro especial para bater o recorde de velocidade em terra. Com isso nasce o 350HP, que tem um motor V12 com esse número de cavalos. Pintado no azul que se tornara a sua cor da sorte, foi para a praia de Pendine Sands, no País de Gales, faz 235.22 km/hora, marcando o seu primeiro recorde mundial em terra.

No ano seguinte, pilota um Chrysler Speed Six e torna-se no primeiro piloto a fazer Brooklands a uma velocidade média de 160 km/hora - cem milhas por hora - e voltou ao seu 350HP para fazer 242,8 km/hora, o primeiro a fazer as 150 milhas por hora. O recorde aguentou-se por sete meses, até ser batido por Henry Segrave, no primeiro dos seus recordes mundiais. 

Sabendo que o carro tinha os seus limites, começou a construir outro. Projetado por ele e com um motor Napier, tornou-se no primeiro dos Bluebird. Tinha um motor W12 de 23,2 litros, que tinha 502 cavalos, e em fevereiro de 1927, em Pendine Sands, tentou a sua sorte no recorde de velocidade. Apesar de andar perto dos 320 por hora - 200 milhas por hora - no final das suas passagens, conseguiu 281.45 km/hora, suficiente para que o recorde de velocidade voltasse para as suas mãos.

Mas menos de um mês depois, Henry Segrave conseguiu bater a barreira das 200 milhas por hora. Campbell não queria ver os carros passar, e decidiu modificar o seu carro, rebatizando-o de "Bluebird III". Pediu um motor Supermarine S.5, com 900 cavalos, vindo da aeronáutica, e adaptou-o ao seu carro. Melhorando-o aerodinamicamente nas instalações da Vickers, com uma cauda para efeitos aerodinâmicos, onde foram colocados os radiadores. Quando o carro foi mostrado, um jornal francês comparou-o... a uma baleia. (...)


Há um século, o mundo começa a ficar pendurado com as tentativas de ser o piloto mais rápido à face da Terra, e no mês passado falei de Henry Segrave, um piloto britânico que bateu recordes na terra e no mar, antes de um acidente em 1930 o ter tirado a vida. Este mês falo de Malcom Campbell, o primeiro de uma família que teve a velocidade nos seus genes. Ao longo de uma década e meia, até ao inicio da II Guerra Mundial, Campbell bateu recordes na água e em terra, a bordo de carros pintados de azul, a sua cor favorita, dando o apelido de "Bluebird".

E é sobre ele e os seus feitos que escrevo este mês no site Nobres do Grid.

terça-feira, 23 de março de 2021

A imagem do dia


Se fosse vivo, Donald Campbell teria comemorado hoje o seu centenário. Campbell foi um exemplo bem precoce do filho de piloto, pois era descendente de Malcom Campbell, um dos grandes recordistas de velocidade de antes da II Guerra Mundial, e dos poucos desse tempo que teve uma morte natural, já que faleceu em 1948, aos 63 anos, com recordes estabelecidos em terra e na água, muitos deles com o seu Bluebird.

A Royal Air Firce homenageou-o hoje com a passagem de dois aviões Hawk por Coniston Water, o local onde, a 4 de janeiro de 1967, sofreu o seu acidente fatal quando tentava bater um recorde na água a bordo do seu Bluebird. 

Quando Donald começou as suas tentativas de velocidade, tinha uma fasquia bem alta para superar, e isso se tornou numa obsessão para toda a sua vida. Aliás, isso e as suas superstições foram as coisas que se tornaram obsessivas para ele: nunca se separou do seu ursinho de peluche, Mr. Whoppit, odiava o verde - em contraste, tosos os seus carros eram azuis, como eram os do seu pai - não corria com o 13 e nunca se metia em provas às sextas-feiras, porque acreditava que nada de bom acontecia nesse dia.

Começou a correr na água, com um barco veloz, com motor a jato, que chamou de Bluebird, e estava determinado a trazer o recorde de volta à Grã-Bretanha, sobretudo após a morte de John Cobb, numa tentativa de velocidade no Lago Ness, em 1952. Durou três anos, mas conseguiu 325,60 km/hora em Ullswater, no Lake District britânico. Foi o primeiro de oito recordes que iria bater até 1964, quatro dos quais em Coniston Water, também no Lake District.

Em novembro de 1966, Campbell regressou ao Lake District para bater novo recorde na água, depois de ter andado a bater recordes em terra na planície salgada do Lago Eyre, na Austrália, a bordo de um Bluebird que foi construído com a ajuda de Alfred Owen, um dos sonos da BRM. A ideia era de usar esse recorde de velocidade como publicidade para angariar dinheiro para construir o seu Bluebird 1.1, o carro a jato que pretendia bater o recorde de velocidade em terra, um último antes de se retirar. Já tinha 46 anos, o seu corpo sofria com o acidente que tinha tido em 1960 em Bonneville.

Ao longo de novembro e dezembro, Campbell sofreu com o tempo. Tinha de ser feito sem vento, e o inverno inglês não era bom. E quando o tempo era suficiente para uma tentativa, apesar de chegar aos 400 km/hora, problemas de motor e de injeção de combustível abortavam as suas tentativas. Só no final de dezembro que, depois de substituir a bomba de combustível é que ele aguardava por um bom dia para tentar a sua sorte.

Esse dia aconteceu a 4 de janeiro de 1967. E foi o último da vida de Donald Campbell. Na véspera, quando jogava cartas com os seus mecânicos, saiu-lhe o ás e a rainha de espadas, precisamente as mesmas que Mary, a Rainha da Escócia, tinha saído na véspera da sua execução. Notando a coincidência, ele afirmou que "I will get the chop" (vão cortar-me a cabeça, numa tradução aproximada) 

Cedo, ele levou o barco para o meio do lago e começou a sua tentativa às 8:45 da manhã. Acelerou até aos 475 km/hora, e depois passou dos 500 km/hora, acabando com uma média de 478,9 km/hora, superior ao recorde de então. O barco portava-se bem e o tempo mantinha-se estabilizado. 

Contudo, ele queria fazer a passagem de volta o mais rapidamente possível, sem reabastecer e sem esperar que as ondas no lago abrandassem. Apesar de não ser algo invulgar, acabou por ser um erro de consequências fatais. A meio da sua tentativa, acima dos 350 km/hora, passou por cima das ondas, a frente levantou-se e catapultou o barco contra a água, destruindo-o. Campbell teve morte imediata.

No final, a falta de reabastecimento - tornou o barco mais leve - o facto de ter passado os seus limites aerodinâmicos - poucos dias antes, atingiu um pato e danificou um dos estabilizadores - causou o seu final trágico. 

Pouca coisa foi recuperada da água, como o seu ursinho de peluche e o seu capacete. O resto, como o Bluebird e o seu corpo, ficou no fundo do lago, apenas foi recuperado em maio de 2001. Numa profecia autocumprida, nunca encontraram a sua cabeça, dando vazão à teoria que ele teve morte imediata, decapitado com o impacto do barco com a água. He got the chop.

O Bluebird foi reconstruído e agora está em exposição em Coniston Water, não muito longe do cemitério onde repousam os restos mortais de Campbell.