Há 25 anos, em 2001, Tommi Makinen triunfava no Rali de Portugal, com o seu Mitsubishi Lancer Evo WRC, batendo o Ford Focus WRC de Carlos Sainz Sr. por 8,6 segundos, numa das distâncias mais estreitas até então. E claro, depois de um "showdown" na especial de Ponte de Lima, após a ultrapassagem de Sainz na especial anterior.
O que alguns sabiam, quando o rali chegou ao fim, depois de 22 especiais, era que poderia ser o último em algum tempo. Desde há alguns anos, especialmente depois de 1998, quando morreu o seu diretor e fundador, César Torres, que o rali estava em perigo, porque havia algum "lobby" para colocar no calendário do WRC o rali da Alemanha, uma prova em asfalto.
E para além do "lobby" para tirar Portugal para ajudar a Alemanha - afinal de contas, um dos mercados mais poderosos da Europa e do Mundo, que nunca tinha tido um rali no WRC - outro motivo ajudou para o desfecho: o tempo. O final de inverno de 2001 foi dos mais chuvosos até então. Semanas e semanas onde não se viu um raio de sol, em certas partes do país, e para piorar as coisas, menos de uma semana antes, a 4 de março, uma ponte centenária tinha caído na localidade de Entre os Rios, no preciso momento em que passava um autocarro de excursão, matando 59 pessoas, num dos piores acidentes rodoviários da Europa até então.
O rali tinha o seu centro nevrálgico em Matosinhos, mas se no primeiro dia, o tempo ajudou um pouco, nos dias seguintes, parecia que havia uma conspiração meteorológica: nevoeiro, chuva, muita água, lama, mesmo muita lama. As classificativas rapidamente ficaram destruídas pela passagem dos carros. Pouco mais de 25 por cento dos pilotos participantes chegariam ao final. Apesar de tudo, foi um rali competitivo entre Makinen e Sainz Sr, onde nenhum deles perdeu de vista um do outro, ao ponto de, na última especial, o piloto finlandês ficou à espera no final para ver o que o espanhol da Ford fazia, se tinha conseguido ou não passá-lo, é dos momentos mais icónicos da história do WRC.
Mas de resto, foi um inferno aquático. Os reconhecimentos, para as marcas, foram um pesadelo, e para os privados pior. Muito pior. A Hyundai, por exemplo, era a única equipa que usava carros de tração a duas rodas nos reconhecimentos e Kenneth Eriksson recordou o calvário, anos depois: “Em quase todos os troços ficámos presos. Tentar conduzir na lama tornou-se impossível, era muito complicado concentrarmo-nos em fazer notas de ritmo adequadas.”
Na sexta-feira do rali, dia 9 de março, os três primeiros troços desse dia, Vizo, Fafe/Lameirinha e Vieira/Cabeceiras, deveriam ter sido todos repetidos, mas apenas o Vizo teve segunda passagem, já que os restantes dois troços foram cancelados, por motivos de segurança. A razão? Nuvens muito baixas, que impediam a movimentação de equipamentos de segurança - uns juravam que tinha sido uma ambulância presa, outros, o helicóptero não poderia levantar com uma cobertura tão baixa.
E os pilotos - bem como os navegadores - ficaram impressionados com o que estava a acontecer. “O Safari com chuva é um verdadeiro passeio comparado com este Rali de Portugal”, disse na altura Nicky Grist, co-piloto de Colin McRae na Ford. Até os carros da organização sofriam nas especias, ficando presos. “Não há muito mais a dizer quando um carro da organização fica atolado. Isso significa que não havia mesmo condições de segurança”, disse Richard Burns, então piloto da Subaru.
No final, e numa altura em que o WRC tinha 14 provas no calendário e queriam "chutar" um rali para dar lugar à Alemanha, o escolhido foi um dos originais - estava no calendário desde 1973, no primeiro ano da competição. Foram aproveitadas as falhas, nomeadamente as questões de segurança - curiosamente, nada tinha a ver com os espectadores, bem mais comportados que nos tempos "selvagens" dos anos 80 do século anterior - e o rali caiu do calendário.
O rali acabaria por regressar em 2007, mas a condição para o seu regresso era de que tinha de ser realizado no Algarve. As autoridades locais ofereceram bom apoio comercial, e era uma área em que o tráfego e a quantidade de espetadores era menos problemática. Contudo, os espectadores queriam que o rali regressasse para o Norte, pois para eles, era onde batia o "coração" dos ralis. O regresso só aconteceu em 2014, 13 anos depois deste março muito chuvoso.
E nos nossos dias de 2026, o rali de Portugal, apesar de percorrer no Norte e Centro do país, e acontece a meio de maio, em vez de ser no meio de março, continua a ser bem popular entre pilotos e espectadores, e voltou a ter o prestigio que tinha antes. Quanto à Alemanha, o rali que substituiu, a partir de 2002, apesar de uma paisagem de vinhedos e de classificativas como a Panzerplatte... já não acontece desde 2019.






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