segunda-feira, 19 de outubro de 2026

A imagem do dia


Já há algum tempo que pretendo escrever sobre este assunto, mas as oportunidades não tem sido muitas, confesso. Acho até que esta sem sequer deveria ser a melhor altura, porque queria que fosse uma reflexão, não escrever no momento, a quente. E mesmo que escreva agora, ainda acho que há algo que não foi totalmente explicado, e algumas das explicações são mais desculpas que outra coisa. 

Como é público, desde há três semanas que, inesperadamente, soubemos que o rali de Portugal foi excluído do calendário de 2027. O rali estava no calendário inicial, e havia um contrato até à edição de 2028, com a organização a afirmar que o centro seria transferido para Viseu, na edição de 2027. 

No novo calendário, mostrado alguns dias mais tarde, verificou-se que... até ganharam um rali em relação a 2026. O rali na América é novo, há o regresso de um rali no Reino Unido, com o rali da Escócia, e o de Itália saiu da Sardenha para Roma, onde será, em principio, um rali de asfalto. Provas que inovaram no último dia, como os ralis da Estónia e da Finlândia, ficaram no calendário. E claro, temos ralis em lugares como o Safari, que no final desta edição, recebeu a noticia de que não teria mais ajuda financeira do Estado, tendo de se virar para financiadores privados.

Aliás, quase todos os ralis parecem apresentar os seus problemas: o rali da Suécia, o único disputado em neve, em fevereiro, tem um défice de 1,5 milhões de euros por parte da entidade organizadora, e está sob auditoria forense, e recentemente, o organizador do rali da Estónia, Urmo Aarva, confessou que ficaram perto de serem excluídos para 2027. E a organização do rali da Croácia já disse que 2027 poderá ser o seu último ano, se a organização não receber mais apoio do Estado, através do ministro do Desporto e do Turismo...

Então, o que aconteceu? Há quem fale que as falhas de segurança da edição deste ano, como a entrada do reboque da GNR em plena especial quando esta decorria, foram o pretexto, mas acho que um dos meus suspeitos é a Cosmobilis, a nova organização que ficou com a gestão do WRC a partir de 2027. A Cosmobilis, que tem Eric Boullier como um dos seus dirigentes, disse que queria "variar" nos lugares, ser menos europeia e mais global. É justo: o WRC de 2026 teve nove ralis na Europa, dos 14 originalmente previstos, e dos cinco que não eram europeus, dois estavam na América do Sul, um em África, um na Arábia e outro no Extremo Oriente.

O WRC conseguiu a América do Norte e deseja ir para a China, mas as suas tentativas tem sido frustradas. E agora a Arábia Saudita, antes um "cash cow", tornou-se num problema, quando todas as provas que acolhia estão a ser canceladas ou a serem feitas noutro local por causa dos problemas no Médio Oriente, quer sendo a vitima colateral da guerra entre o Irão e os Estados Unidos, quer agora, com a guerra entre eles e os Houthis xiitas no Iémen, apoiados pelo Irão, e que já deram origem a ataques a aeroportos e refinarias em plena Arábia Saudita. E com o choque petrolífero subsequente, bem como a relutância das companhias de seguros em apoiar provas nesse país, fazem com que todos fujam desse país "como o Diabo da Cruz".

Mas mesmo assim, vão para lá em 2027. Duvido que a guerra acabe, entretanto. 

Não ficaria admirado se a Cosmobilis tenha outras ideias. Pode querer a Alemanha e a França no calendário - no caso francês, já tem Monte Carlo, mas se um segundo rali é bom para atrair alguma marca francesa, a mesma coisa do lado alemão... - pode querer fazer um calendário à sua maneira. Mas não tenho ouvido nada de muito especial desses lados, não nos últimos tempos. Sim, potencialmente seriam dois ralis de asfalto num calendário cheio de ralis de terra, mas por agora, não se vê nada de especial.

Também tem outra coisa: a Cosmobilis é de constituição recente. E o currículo de Boullier deixa muito a desejar. Esteve na Renault e na McLaren, e não foram passagens de sucesso. Acho que a ideia é mais de fazer alguma coisa bem, mas o seu estilo de liderança trouxe mais dissabores. Ou seja, nos sítios onde passou, ninguém tem saudades dele. 

Para além disso, a ACP, o Automóvel Clube de Portugal, entidade que toma conta do rali de Portugal, e cujo presidente é Carlos Barbosa, nunca conseguiu avançar com uma explicação razoável sobre esta exclusão. O Estado, aparentemente, não faltou aos seus compromissos financeiros, e o retorno é muito grande, sempre apoiado em relatórios independentes; a organização estava disposta a fazer as alterações recomendadas, pediu desculpa aos incidentes que aconteceram na altura; os pilotos, apesar de se queixarem da exaustão e da exigência das etapas, sempre consideraram o rali como um daqueles que querem sempre competir, a par de Monte Carlo, Suécia e Finlândia. 

Então, porque está fora para 2027? Ou foi politico, ou foi alguma exigência de última hora da Cosmobilis, ou da FIA, do qual o ACP negou, afirmando que ia além do contrato assinado anteriormente. Claro, é especulação, mas quando se fala que estão a negociar para o regresso, em 2028, fica claro que o problema não foi estrutural. Tem mais cara que entraram atores novos, que tem outras ideias, e andam a falar com todos os organizadores no sentido de "o jogo é novo, estas são as nossas exigências, todos os vossos contratos assinados anteriormente não valem nada, volta tudo à estaca zero." Só assim se explica porque neste momento temos tantos ralis na corda bamba, por exemplo. 

Ah, já agora, o rali de Portugal de 2027 foi pura e simplesmente cancelado. Nem tentaram procurar uma alternativa para ser uma prova do Europeu de ralis, por exemplo, ou ser um rali do Campeonato de Portugal, o CPR.  

Vamos a ver se haverá rali de Portugal em 2028. Eventualmente, sim. Agora resta saber à custa de qual rali. E já agora, que tipo de exigências é que teve de fazer para regressar. Não fiquem admirados se, por exemplo, virar um rali de asfalto, ou misto. O rali espanhol, que antes era na Catalunha, e em terra, agora é nas Canárias, e é em asfalto...

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