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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Francois Cevért e a vidente


"A morte está prevista em todos os nossos contratos."


Albert Francois Cevért Goldenberg, 1944-1973.


Um ano após a sua morte, em 1974, é publicada uma biografia do piloto cujo título tinha a ver com a frase acima referida: "Contrato com a Morte". Nesse livro, está a história que conto a seguir, e provavelmente muitos de vocês sabem. Ela é contada por uma namorada de Francois de longa data: Anne Van Malderen, tratada carinhosamente por 'Nanou'. Bonita e extrovertida, conheceu Cevert em 1964, na estância balnear de St.Tropez, quando ele tinha 20 anos de idade. Nessa altura, tinha 25 anos e era casada, o que complicou um pouco as coisas de inicio, mas logo depois, Nanou e Francois formaram um forte laço que duraria o resto da sua vida. Mas quando ambos se conheceram, ela sabia que isto iria acontecer.


“Em 1959, fui com a minha mãe visitar com uma vidente que lhe tinha sido recomendada. Essa mulher vivia numa casa simples, nada em sua forma ou decoração fazia crer que havia um elo com o ‘outro mundo’. Ela não lia cartas, nem tinha bola de cristal. O seu método era simplesmente olhar para você durante um longo período de tempo ou então estudava uma fotografia, quando alguém lhe trazia uma. E então ela concentrava-se, num silêncio total.


Nessa altura tinha 20 anos, e tinha somente ido ali para acompanhar a minha mãe. Naqueles dias eu era completamente céptica em relação a esse tipo de previsões sobre um possível futuro. Subitamente, a vidente reparou em mim e fixou-me com os seus olhos. "Preciso falar consigo", ela disse. Surpresa, segui-a até o quarto.


"O seu casamento não vai durar. Você irá encontrar um jovem que deixará marcas profundas na sua vida. Você vai ser profundamente feliz... posso ver os olhos azuis dele... posso ver o mar... vocês vão se encontrar perto do mar".
Tinha acabado de me casar, então isso deixou pensativa por algum tempo. Com o tempo, acabei esquecendo a visita. Cinco anos mais tarde, em 1964, conheci François Cevert em St.Tropez, perto do mar.


Dois anos mais tarde, quando François decidiu tentar o Shell Scholarship (competição cujo vencedor teria um volante na Formula 3), senti necessidade de voltar à casa da vidente para saber o que o destino havia reservado para nós dois. Quando cheguei, não disse uma palavra sobre ele. Apenas lhe entreguei uma fotografia. Ela permaneceu em silêncio por aproximadamente uma hora. E nada disse.


- "Você já veio aqui antes", disse, para logo a seguir afirmar: "Você já o encontrou! Que estranho, a foto dele está toda embaralhada nesta máquina estranha - tem rodas, mas não corpo - o que poderia ser?"

- "É um carro de corridas", disse. "Quer ser piloto".

- "Ele vai fazer um tipo de teste, no qual vencerá facilmente. Vejo uma brilhante carreira à sua frente..." Ela parou, olhou para mim e disse: "Você vai ser muito feliz, mas não vai conseguir segurá-lo, pois o sucesso dele se meterá entre vocês".

Outro silêncio, e ela continua:

- "Preciso lhe dizer uma última coisa... Este jovem não viverá para comemorar os seus 30 anos".

Havia um calendário na parede. Até o dia da minha morte jamais esquecerei do dia em que lá fui: 29 de Junho de 1966.


Quando mais tarde encontrei François, confesso que foi com um sorriso amarelo. Logo a seguir contei: "Fui a uma vidente. Ela disse que você vai vencer o Shell Scholarship". Isso lhe deu segurança. Ele estava ansioso, pois só decidimos fazer a inscrição na escola de pilotagem em Magny-Cours e ele já tinha mais que certeza que estava preparado para o teste.

Depois, afirmei-lhe o seguinte:

- "Ela também disse que sua carreira seria brilhante, mas que acabará por nos separar".

- "Separar-nos? Essa sua vidente é louca. Seja como for, esse tipo de coisas não passam de conversa da treta. Vou vê-la pessoalmente e aposto contigo como vai prever um futuro completamente diferente do teu".

Cerca de dois meses mais tarde, ele foi vê-la. Quando voltou, perguntou: "Você ligou para ela?"

-"Ligar para ela para quê?", respondi.

-"É que o que ela previu para mim foi exactamente aquilo que tu me disseste", afirmou.

De repente fiquei com medo. "Isso não significa nada, ela provavelmente te reconheceu. Eu mostrei-lhe uma foto sua..."

- "Ela também te disse que eu não chegaria aos 30?"

- "François, isso é treta! Essas velhinhas falam pelos cotovelos, como pode alguém prever o futuro?"

- "Então ela disse isso para você também?"

E então olhou para mim e sorriu: "Que importa? Até lá, já terei sido campeão do mundo. Desaparecer no auge da fama... que morte gloriosa!". Ele tomou-me nos seus braços e beijou.”


O resto da história é conhecido de todos nós: chegado à Formula 1 em 1970, após a retirada súbita de Johnny Servoz-Gavin, François Cevert correu na Tyrrell durante as três temporadas seguintes, onde venceu por uma vez, o GP dos Estados Unidos de 1971. A 6 de Outubro de 1973, durante os treinos para o GP dos EUA, o carro de Cevért despistou-se contra um guard-rail, tendo morte imediata. Era o último GP que faria antes de comemorar o seu 30º aniversário natalicio.

Algum tempo após a morte de Cévert, Nanou decidiu, após algumas discussões com a família de François, revisitar a vidente, nessa altura já era uma mulher idosa. Novamente, entregou a foto dele, desta vez de quando era criança, para que não pudesse reconhecê-lo. A vidente olhou para a foto, fechou os olhos e imergiu em profundo silêncio. Quando abre os olhos, olha para Nanou e diz: "Está morto".