quinta-feira, 8 de outubro de 2026

A imagem do dia



Não é comum, mas estas coisas acontecem. 

Há muito tempo, por razões práticas, uso os transportes públicos na minha cidade. Quem viva numa cidade como a minha, onde tem uma paragem de autocarro a 80 metros da minha casa, pague dez euros para fazer as viagens que quiser, das seis e meia da manhã até à 1:30 do dia seguinte, apenas se queixando de ter uma vez por hora, eu acho que até é um sortudo. 

Como já decidi que, quando regressar a ter um carro, será elétrico, penso sempre que isto poupa dores de cabeça para estacionar o carro no centro da cidade - quase inexistente e caro - e, desde que saiba do horário na minha cabeça, chegarei sempre a tempo de apanhar e regressar tranquilamente a casa.

Pois bem, na semana passada, uma terça-feira, esperei por mais de uma hora por autocarro que sabia estar atrasado. Não me estressei, porque para as minhas bandas tinha, pelo menos, mais duas linhas a passar perto de mim. Era uma questão de "fundo de rua". Uma rua com quase dois quilómetros de comprimento, já agora, do qual eu vivo, mais ou menos, a meio.

Soube depois quando cheguei a casa e abri este meu portátil de onde escrevo isto: uma pequena noticia, acompanhada de uma das fotos que coloquei aqui, mostrava um autocarro a arder. Conhecia aquele autocarro, conhecia quem o guiava, e conhecia onde tinha sido. 

Aquele autocarro já acusava a idade, era movido a gasóleo, avariava-se. Os seus bancos eram forrados a vermelho, e o sinal de "stop" não ligava, mas o motorista sabia onde parar, porque no seu lugar, ele sabia que os passageiros carregavam no interruptor.

Em contraste, o motorista, seu Herculano, era das pessoas mais simpáticas que conheci. Já tem idade, já devia estar reformado, mas é sempre amigável, e sempre que nos encontramos, trocamos uns dedos de conversa e quando saio na paragem do costume, despedimo-nos e dizemos até amanhã. Ou quando calha à sexta-feira, desejamos um bom fim de semana. E não é só comigo: sempre que cruza na rua com alguém que conhece, saúda-o. Perdi a conta das vezes que me apanhou desprevenido, quando ia a pé, rua abaixo, especialmente ao domingo, e o autocarro passava.  

Uma vez, num verão passado, apanhei-o no comboio, com a sua mulher. Eu ia á praia, e ele também, mas mais abaixo na linha. Conversamos mais um bocado, naquele comboio apinhado de gente que ia apanhar sol, no meio do verão, e no final, só tinha mais coisas boas para falar dele. 

Quando o autocarro pegou fogo, naquela tarde de terça-feira, fiquei aliviado por saber que ninguém ficou ferido, só houve danos materiais no autocarro, que ficou irrecuperável (aqui entre nós, foi uma "morte" misericordiosa), e havia danos na fachada da casa onde, por acaso, o autocarro parou. Mas o importante é que todos estavam bem. 

Todos tinham uma história para contar aos netos. Foi isso que contei ao seu Herculano quando voltei a ver, no dia seguinte, noutro autocarro, semelhante a aquele que ardeu.

É uma história, que aconteceu â tarde, na minha cidade.

Sem comentários: