Mostrar mensagens com a etiqueta De Beaufort. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta De Beaufort. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A foto do dia (II)

Karel Pieter Antoni Jan Hubertus (Carel) Godin de Beaufort. Longo nome, hein? Esta aristocrata holandês foi provavelmente um dos últimos amadores da Formula 1. Homem fiel à Porsche, foi ele a alma da Ecurie Maasbergen, que andava nas pistas com um Porsche laranja, digno da casa de Oranje, a casa real holandesa. Das 28 vezes em que andou na categoria máxima do automobilismo (e conseguiu quatro pontos), em apenas duas vezes andou com outros carros. Da primeira vez, em 1959, foi com um Maserati 250F. Da segunda vez, foi com um Cooper T51.

A foto que meto aqui trata-se da mais famosa das suas estorietas, que aconteceu em 1959, em Avus. A correr num Porsche numa das corridas de suporte do GP da Alemanha desse ano. Têm um pouco de cómico e trágico, pois ele foi bafejado com a sorte quando o seu carro saiu de pista no temivel "banking", mas ele caiu de pé, ou seja, não capotou. Não querendo acreditar na sorte que teve, Beaufort simplesmente ligou o carro de novo e continuou na parte de baixo, regressando à pista! Os comissários decidiram aplicar a bandeira preta e desclassificá-lo, mas depois de se convencerem de que ele não era um fantasma!

No dia seguinte, Beaufort comemorou a sua sorte sentando-se no banking com as suas sapatilhas Converse calçadas. A foto deu polémica, pois se ele comemorava a sua finta contra a morte, isto acontecia no dia seguinte à morte de outro piloto, quase no mesmo local, o francês Jean Behra

Se estivesse vivo, Carel de Beaufort faria hoje, 10 de abril, 81 anos. Mas ele não se levava muito a sério. Tanto que ele estava por vezes acima do peso (e chegou a pedir ajuda à lenda do judo holandês Anton Geesink para emagrecer), e por vezes corria descalço no seu modelo 718. Um desses exemplos aconteceu na sua corrida fatal, em Nurburgring, onde chegou a fazer umas voltas... com uma cabeleira dos Beatles! Mas há mais "estorietas" onde ele era protagonista, e a sua propensão para brincadeiras era lendária. 

Uma delas, contada pelo jornalista holandês Rob Widenhoff, afirma que em Rouen, palco do GP de França de 1962, ele encontrou com Beaufort no "lobby" de um hotel local, aliviado por falar em holandês com alguém nesse fim de semana. O jornalista tinha aparecido por lá num enorme Chevrolet, e Beaufort pediu a ele se não podia dar-lhe boleia até ao local onde o seu carro estava a ser reparado pela equipa oficial da Porsche. 

Chegados lá, rebocaram o carro, em troca de uma bela grade de cerveja holandesa, e na volta, iam calmamente a caminho do circuito, quando viram um agente da Gendemarie. Beaufort virou-se para ele e disse "Acelera, não temos nada a ver com essa gente!", ao mesmo tempo que colocava o seu pé em cima no de Widenhoff, que estava sobre o acelerador. Eviraram atropelar o "gendarme" por muito pouco, mas compensou: na corrida, vencida por Dan Gurney, noutro Porsche, Beaufort foi sexto, conseguindo o seu segundo ponto da sua carreira.

No ano seguinte, outra estória noutro circuito francês, em Reims. Durante minutos, nada se sabia da sua presença, temendo que se tivesse despistado e dado cabo do seu carro. Na realidade, estava a passear pela pista com uma bela "madmoiselle" ao seu lado, mostrando a pista e os seus arredores, a uma velocidade de passeio. Claro, os organizadores ficaram zangados...

O fim foi agonizante. Projetado para fora do seu Porsche, sofreu um traumatismo craniano e agonizou por dois dias antes de morrer, num hospital de Colonia. O seu acidente foram duas grandes ironias. primeiro, porque aconteceu em Bergwerk, numa das partes mais sinuosas do circuito, e segundo, De Beaufort tinha a fama de ser um piloto cauteloso. Aliás, o seu apelido no meio era "Veilige Careltje", ou seja, "pequeno e seguro Carel"... 

No seu funeral, o seu caixão passeou por cima de um... Porsche, e entre os que carregavam o seu féretro estavam o Barão Huscke von Hanstein, Graham Hill, Ben Pon e Bob Anderson, entre outros. Na sua tumba, uma frase em francês: "Vertu est un Beaufort". A virtude está em Beaufort.

domingo, 2 de agosto de 2009

GP Memória - Alemanha 1964

Depois da acção em Brands Hatch, a Formula 1 chegava ao mítico circuito alemão de Nurburgring com a novidade que muitos esperavam com alguma expectativa: a estreia da Honda na Formula 1. Um chassis construido pela fábrica e pilotado pelo americano Ronnie Bucknum estava pronto, mas cedo se verificou que era demasiado lento para os Lotus, BRM, Brabham e Ferrari que dominavam o pelotão. Bucknum foi o último dos 22 pilotos a qualificar-se, um minuto atrás do "poleman". Mas apesar desse mau começo, a Honda tinha vindo para ficar.

A BRP era a grande ausência desta corrida, mas em compensação estava o velho Porsche 718 do conde holandês Carel Godin de Beaufort. Uma personagem divertida, decidiu fazer, só por gozo, a qualificação no mítico Nurburgring com... uma cabeleira a imitar os Beatles. Mas no Sábado, já estava mais a sério quando tentou a sua sorte com o velho Porsche cor de laranja da Ecurie Maasbergen, as cores nacionais. Na Bergwerk, perdeu o controle do seu carro e despistou-se, batendo numa árvore. Levado para o hospital com graves ferimentos na cabeça, no dia da corrida lutava pela vida.


Na qualificação, o melhor foi o Ferrari de John Surtees, que demonstrava que naquele ano, era um verdadeiro candidato a desafiar Jim Clark e Graham Hill na luta pelo título. Surtees tinha batido Clark, o americano Dan Gurney e o italiano Lorenzo Bandini, no segundo Ferrari, que partilhavam a primeira fila num estranho esquema de 4-3-4 que os organizadores tinham arranjado, após uma primeira experiência cinco anos antes. Na segunda fila estavam o BRM de Hill, Jack Brabham no seu próprio carro, e o Cooper de Bruce McLaren. Na terceira fila estava o segundo Cooper do americano Phil Hill, o Lotus BRM privado de Chris Amon e o Brabham-BRM de Jo Siffert.


Sob um dia de sol, pouco usual naquela região, máquinas e pilotos partiram para o GP da Alemanha. O primeiro lider é o Ferrari de Bandini, seguido por Clark, Surtees, Gurney e Hill, mas pouco depois, Clark passa para a frente. Pensava-se que seria o piloto da Lotus o grande dominador da corrida, mas o motor Climax falha na segunda passagem pela meta, e Surtees passa para a frente. Clark aguentou até á volta sete, altura em que desistiu, sem motor.


Nessa altura, a luta era entre Surtees, Hill e Gurney, mas a partir da décima volta, o Brabham do piloto americano começa a falhar e cede várias posições. Irá acabar a corrida na décima posição, a uma volta do vencedor. Depois, Hill abranda o ritmo e deixa escapar Surtees para que ele pudesse ganhar a corrida. Depois do inglês da BRM, Lorenzo Bandini completou o pódio. O suiço Jo Siffert, no seu Brabham privado, o veterano francês Maurice Trintrignant (47 anos!) e o sul-africano Tony Maggs completaram os lugares pontuáveis. Quanto a Ronnie Bucknum e o seu Honda, a sua prova tinha acabado na volta onze, vítima de um pião. Mas para a honda, era apenas o começo de uma longa caminhada...


No dia seguinte, noticias vindas de Colonia ditariam o pior: o holandês Carel Godin de Beaufort não resistira aos ferimentos e morria aos 30 anos de idade. Era o fim esperado de um "gentleman driver" com carisma, conhecido pelo seu datado Porsche laranja.