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domingo, 11 de janeiro de 2026

A imagem do dia




No passado dia 9 de janeiro, quando se soube da morte de Hans Hermann, coloquei imagens dele a sair ileso de um acidente com o seu carro. E dei uma pequena indicação de quando e onde foi: em 1959, na Alemanha. Mas não dei os pormenores. Agora creio que é a altura de contar a história desta cambalhota, digamos assim, porque, claro, merece ser contada. 

Em 1959, o GP da Alemanha aconteceu no (muito) veloz circuito de AVUS, em Berlim, a única vez onde correram ali. A pista era basicamente correr na "autobahn", com uma curva em relevo, com um ângulo a rondar os 43 graus. Os espectadores tinham um nome para aquilo: o muro da Morte. Encorajador, hein?

Não foi um grande fim de semana. Apenas 16 carros foram inscritos -uma das corridas menos participadas de sempre - e no fim de semana, o carro de Jean Behra despistou-se numa corrida de apoio, resultando na morte do piloto francês, então com 38 anos.

Hans Hermann não era o único alemão inscrito. Wolfgang von Trips também lá estava, num Porsche, mas a marca retirou o seu carro depois do acidente mortal de Behra. Hermann estava num BRM, mas não era oficial - os carros oficiais estavam a ser pilotados pelo sueco Jo Bonnier e o americano Harry Schell. Ele estava inscrito pela BRP, British Racing Partnership, uma equipa privada, fundada por Alfred Moss, pai de Stirling Moss, e por Ken Gregory, o seu empresário, com o objetivo de arranjar carros britânicos para Moss Jr. E nesse ano, tinham um BRM P25, e Moss guiou em duas corridas. Em Reims, foi desqualificado, mas em Aintree, palco do GP britânico, Moss foi segundo. Em ambas as corridas, ficou com a volta mais rápida. 

Em Avus, Moss foi guiar num Cooper da Rob Walker Racing, enquanto o BRM da BRP ficou nas mãos de Hermann, que tinha corrido em Aintree num Cooper-Maserati da Scuderia Centro Sud. Adaptou-se o melhor que pode, conseguindo o 11º tempo. 

A corrida aconteceu em duas mangas, de 30 voltas cada - a única vez que uma corrida de Formula 1 teve duas mangas. A razão tinha a ver com o desgaste dos pneus numa corrida veloz e apenas com curvas à esquerda. Os Ferrari eram os grandes favoritos e confirmaram-se: Tony Brooks ganhou as duas mangas, e foi declarado vencedor, com Dan Gurney a ser segundo - o seu primeiro pódio na Formula 1 - e Phil Hill a ser terceiro, numa das poucas triplas da história da Ferrari.

Nove carros chegaram ao final na primeira manga, com Brooks a ser melhor que Gurney e Phil Hill, com o quarto a ser Bruce McLaren, na frente do BRM de Harry Schell. Hermann foi oitavo, a uma volta do vencedor. 

Mais do mesmo estava a acontecer na segunda manga, quando na quinta volta, Hermann perde o controlo do seu BRM. Ele atinge os fardos de palha que costumavam estar nas bermas das pistas, e o carro começou a capotar. Ele, sem cinto de segurança, foi cuspido do carro, mas não sofreu ferimentos de maior, enquanto assistia ao seu carro a ser desfeito, à medida que tocava no chão para tentar abrandar.

Os espectadores ficaram espantados com o que viam, especialmente quando o piloto tinha se safado com um enorme susto. E quando souberam depois que era um dos seus compatriotas, começaram a chamá-lo de "Hans Im Gluck", o nome de um conto do século XIV sobre um homem que troca coisas que lhe parecia darem sorte e riqueza, mas tem sempre azar, do qual não liga alguma, afirmando que prefere estar vivo e feliz, mas pobre, que rico, mas morto.

E de uma certa maneira, Hermann viveu mais 66 anos depois daquela tarde onde assistiu ao seu próprio acidente e viveu para contar a história.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

A foto do dia (II)

Karel Pieter Antoni Jan Hubertus (Carel) Godin de Beaufort. Longo nome, hein? Esta aristocrata holandês foi provavelmente um dos últimos amadores da Formula 1. Homem fiel à Porsche, foi ele a alma da Ecurie Maasbergen, que andava nas pistas com um Porsche laranja, digno da casa de Oranje, a casa real holandesa. Das 28 vezes em que andou na categoria máxima do automobilismo (e conseguiu quatro pontos), em apenas duas vezes andou com outros carros. Da primeira vez, em 1959, foi com um Maserati 250F. Da segunda vez, foi com um Cooper T51.

A foto que meto aqui trata-se da mais famosa das suas estorietas, que aconteceu em 1959, em Avus. A correr num Porsche numa das corridas de suporte do GP da Alemanha desse ano. Têm um pouco de cómico e trágico, pois ele foi bafejado com a sorte quando o seu carro saiu de pista no temivel "banking", mas ele caiu de pé, ou seja, não capotou. Não querendo acreditar na sorte que teve, Beaufort simplesmente ligou o carro de novo e continuou na parte de baixo, regressando à pista! Os comissários decidiram aplicar a bandeira preta e desclassificá-lo, mas depois de se convencerem de que ele não era um fantasma!

No dia seguinte, Beaufort comemorou a sua sorte sentando-se no banking com as suas sapatilhas Converse calçadas. A foto deu polémica, pois se ele comemorava a sua finta contra a morte, isto acontecia no dia seguinte à morte de outro piloto, quase no mesmo local, o francês Jean Behra

Se estivesse vivo, Carel de Beaufort faria hoje, 10 de abril, 81 anos. Mas ele não se levava muito a sério. Tanto que ele estava por vezes acima do peso (e chegou a pedir ajuda à lenda do judo holandês Anton Geesink para emagrecer), e por vezes corria descalço no seu modelo 718. Um desses exemplos aconteceu na sua corrida fatal, em Nurburgring, onde chegou a fazer umas voltas... com uma cabeleira dos Beatles! Mas há mais "estorietas" onde ele era protagonista, e a sua propensão para brincadeiras era lendária. 

Uma delas, contada pelo jornalista holandês Rob Widenhoff, afirma que em Rouen, palco do GP de França de 1962, ele encontrou com Beaufort no "lobby" de um hotel local, aliviado por falar em holandês com alguém nesse fim de semana. O jornalista tinha aparecido por lá num enorme Chevrolet, e Beaufort pediu a ele se não podia dar-lhe boleia até ao local onde o seu carro estava a ser reparado pela equipa oficial da Porsche. 

Chegados lá, rebocaram o carro, em troca de uma bela grade de cerveja holandesa, e na volta, iam calmamente a caminho do circuito, quando viram um agente da Gendemarie. Beaufort virou-se para ele e disse "Acelera, não temos nada a ver com essa gente!", ao mesmo tempo que colocava o seu pé em cima no de Widenhoff, que estava sobre o acelerador. Eviraram atropelar o "gendarme" por muito pouco, mas compensou: na corrida, vencida por Dan Gurney, noutro Porsche, Beaufort foi sexto, conseguindo o seu segundo ponto da sua carreira.

No ano seguinte, outra estória noutro circuito francês, em Reims. Durante minutos, nada se sabia da sua presença, temendo que se tivesse despistado e dado cabo do seu carro. Na realidade, estava a passear pela pista com uma bela "madmoiselle" ao seu lado, mostrando a pista e os seus arredores, a uma velocidade de passeio. Claro, os organizadores ficaram zangados...

O fim foi agonizante. Projetado para fora do seu Porsche, sofreu um traumatismo craniano e agonizou por dois dias antes de morrer, num hospital de Colonia. O seu acidente foram duas grandes ironias. primeiro, porque aconteceu em Bergwerk, numa das partes mais sinuosas do circuito, e segundo, De Beaufort tinha a fama de ser um piloto cauteloso. Aliás, o seu apelido no meio era "Veilige Careltje", ou seja, "pequeno e seguro Carel"... 

No seu funeral, o seu caixão passeou por cima de um... Porsche, e entre os que carregavam o seu féretro estavam o Barão Huscke von Hanstein, Graham Hill, Ben Pon e Bob Anderson, entre outros. Na sua tumba, uma frase em francês: "Vertu est un Beaufort". A virtude está em Beaufort.

domingo, 2 de agosto de 2009

GP Memória: Alemanha 1959

Os acontecimentos do ano anterior, que resultaram na morte do inglês Peter Collins, fizeram com que o Automóvel clube alemão tenha decidido transferir o palco do GP da Alemanha para o circuito de AVUS, em Berlim Ocidental. Apesar da divisão da cidade em dois (mas o Muro ainda não tinha sido erguido), o circuito tinha dimensão suficiente (8300 metros) para ser viável, pelos padrões da altura...

A Ferrari, que tinha estado ausente em Aintree, quinze dias antes, estava agora em força no circuito de Berlim, com os americanos Phil Hill e Dan Gurney, e os ingleses Tony Brooks e Cliff Allison. Ausente desta equipa estava o francês Jean Behra, que tinha sido despedido depois do incidente nas boxes com o director Luca Tavoni, no GP de França. Assim sendo, inscreveu-se no GP alemão a bordo de um RSK Porsche de sua autoria. Na véspera da corrida, Behra decidiu também participar num evento de suporte, num mesmo Porsche 718. No meio da corrida, perdeu o controlo do seu carro no "banking", caiu para fora da pista e teve morte imediata. Tinha 38 anos.

A Cooper tinha Jack Brabham, Masten Gregory e Bruce McLaren na sua equipa oficial, com Stirling Moss e Maurice Trintrignant na Rob Walker Racing e Ian Burgess na Scuderia Centro Sud, enquanto que a BRM tinha três carros inscritos, para Jo Bonnier, Harry Schell e o alemão Hans Hermann. A Lotus tinha Graham Hill e Innes Ireland e a Porsche tinha a inscrição privada de Wolfgang Von Trips, que após a morte de Behra, retirou a sua inscrição.

O facto do circuito ter duas longas rectas favorecia os motores mais potentes, e logo, não foi grande surpresa saber que os Ferrari dominariam os treinos, devido aso seus motores de 12 cilindros. Tony Brooks foi o mais rápido, seguido de Stirlng Moss no seu Cooper-Climax, Dan Gurney no segundo Ferrari, e Jack Brabham, no segundo Cooper. Na segunda fila estavam o Cooper de Masten Gregory, o Ferrari de Phil Hill, e o BRM de Jo Bonnier. Depois vinha o segundo BRM de Harry Schell, o Cooper de Bruce McLaren e o Lotus de Graham Hill.

Os organizadores decidiram que a corrida seria disputada em duas baterias de 30 voltas cada uma, como forma de poupar os pneus ao "banking", que era feito de tijolos. Na partida para a primeira corrida, Brooks parte na frente, seguido por Moss. Mas ainda na primeira volta, o britânico da Cooper desiste com a caixa de velocidades partida. Na volta seguinte, o americano Gregory passa para a frente no seu Cooper, mas esta liderança dura pouco, pois o inglês volta ao comando. Pouco depois, Dan Gurney ultrapassa Masten Gregory, e começa uma luta americana entre os dois, favoravel ao piloto da Ferrari, quando Gregory desiste com problemas de motor, na volta 23.

No final da primeira bateria, Brooks era o vencedor, seguido por Gurney, Hill e McLaren. Essa era a ordem de saída para a segunda bateria, que se disputaria pouco tempo depois.

Nessa segunda corrida, McLaren parte melhor, mas pouco tempo depois, a maior potência dos motores Ferrari coloca Brooks na frente, seguido por Phil Hill, Jo Bonnier e Dan Gurney. McLaren teria problemas de embraiagem e desistira pouco tempo depois. A segunda metade da corrida foi essencialmente uma competição entre Tony Brooks e Dan Gurney pela vitória. Bonnier não podia conter a força dos Ferrari e eles ocuparam todos os lugares do pódio, numa inédita tripla.

Por essa altura tinha acontecido o susto do dia, protagonizado pelo alemão Hans Hermann. Na volta 36, o piloto da BRM sofre uma falha de travões na Curva Sul e despista-se a alta velocidade. Bate nos fardos de palha e entra numa série de piruetas, projectando o piloto para o solo. Incrivelmente, Hermann coloca-se de pé e assiste impávido ao resto do acidente. Um verdadeiro milagre naquele fim de semana...

No final, com a tripla da Ferrari, o Cooper de Maurice Trintrignant e o BRM de Jo Bonnier ficaram com os restantes lugares pontuáveis. Quanto à experiência AVUS, digamos que a pista não mais voltou a ser usada na Formula 1, e somente onze anos depois é que o Grande Prémio da Alemanha é que decorreu noutro sitio que não o "Inferno Verde" de Nurgurgring Nordschleife...


sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

A minha imagem do dia

Ainda na secção dos acidentes. Se atrás contei-vos uma tragédia, agora conto-vos um milagre. Pessoalmente, não conheço Herr Hermann, mas certamente, quando olhou para o BRM a desfazer-se à sua frente (e foi parar para fora da pista, destruindo dois carros, já vi essa foto), deve ter pensado que acabou de assistir a um milagre.


E digo bem: um milagre. Pois nesses dias, guiar um carro sem cinto de segurança, num circuito a alta velocidade, sem barreiras, qualquer acidente era "a morte do artista", e algumas horas antes, o francês Jean Behra morria, vitima de um acidente numa corrida de Turismos, ao volante de um Porsche.


Já agora: o acidente foi no Circuito de AVUS, em Berlim, em 1959, na primeira vez em que o GP da Alemanha saiu do "Inferno Verde" de Nurburgring para tentar outras paragens. A próxima vez passariam-se 11 anos, quando os alemães descobriram Hockenheim. Mas só abandonariam de vez aquele majestoso circuito de 22 km em 1977, um ano depois do acidente quanse mortal de Niki Lauda. Sim senhor, naquele tempo o sexo era seguro e conduzir era perigoso...