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terça-feira, 8 de julho de 2014

Os Pioneiros - Capitulo 33, uma filosofia automobilistica

(continuação do capitulo anterior)


QUANDO O AUTOMOBILISMO INFLUENCIA UM MOVIMENTO FILOSÓFICO


Em 1909, já se tinham passado quinze anos desde a realização da primeira corrida de sempre, e mais de vinte tinham acontecido desde o aparecimento do primeiro automóvel funcional. Em paralelo, o desenvolvimento da aviação fazia com que se estabelecessem desafios em relação à altitude e à distância, e também cumprisse o velho sonho do homem de voar acima das nuvens. Ambas as realizações, neste inicio do século XX, foram as mais recentes vanguardas que a industrialização tinha provocado, capturando a imaginação das pessoas e provocando uma lenta evolução das mentalidades.

Era já certo que por essa altura, as pessoas já tinham aceitado que a "carruagem sem cavalos" e o aparelho "mais pesado do que o ar" tinham chegado para ficar e iriam moldar o resto do século que aí vinha. E ambos, aliados ao desenvolvimento do desporto em geral (ciclismo e futebol em particular) e o renascimento dos Jogos Olímpicos, cuja primeira edição tinha acontecido em 1896, em Atenas, faziam com que se começasse a elaborar uma corrente de pensamento, uma filosofia que captasse o espirito da época, que ficou conhecida como "Le Belle Époque".

Assim sendo, uma primeira proposta surgiu a 20 de fevereiro de 1909, quando o jornal francês "Le Figaro" publicava nas suas páginas um texto vindo de Itália, de um editor, jornalista e escritor de 33 anos de Milão, de seu nome Filippo Tomaso Marinetti. Tendo como título "Manifesto Futurista", ali se propagava de forma provocatória para o seu tempo algumas propostas não só para a arte, mas também para todos os campos da vida. No Manifesto, Marinetti propunha uma clara ruptura com o passado e abraçasse inteiramente o presente:

1 - Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito da energia e destemor. 

2 - A coragem, audácia, e revolta serão elementos essenciais da nossa poesia. 

3 - A literatura exaltou a imobilidade muito pensativo, êxtase e sono. Temos a intenção de exaltar a ação agressiva, uma insónia febril, o ritmo da corrida, o salto mortal, o soco e tapa. 

4 - Afirmamos que a magnificência do mundo foi enriquecida por uma nova beleza; a beleza da velocidade. Um carro de corrida cuja capota é adornada com grandes tubos como serpentes com respiração explosiva ... um carro que ruge, que parece correr na metralha é mais bonito do que a Vitória de Samotrácia. 

5 - Queremos celebrar o homem na roda, o eixo ideal de que atravessa a terra, atirou-a, bem como, em sua órbita. 

6 - O poeta deve esgotar a si mesmo com ardor, esplendor, e generosidade, para aumentar o fervor entusiástico dos elementos primordiais. 

7 - Não há mais beleza, exceto na luta. Nenhum trabalho sem um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um ataque violento em forças desconhecidas, para reduzir e serem prostradas perante o homem. 

8 - Estamos no promontório extremo dos séculos! ... Por que devemos olhar para trás, se queremos arrombar as portas misteriosas do impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Nós já vivemos no absoluto, porque nós criamos eterna velocidade onipresente. 

9 - Queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo - o militarismo, o patriotismo, o gesto destrutivo dos que trazem a liberdade, belas idéias vale a pena morrer, e o escarnecer da mulher. 

10 - Queremos destruir os museus, bibliotecas, academias de todo tipo, e luta contra o moralismo, feminismo, toda covardia oportunista e utilitária.

11 - Nós cantaremos as grandes multidões excitadas pelo trabalho, pelo prazer, e pelo tumulto cantar das marés multicoloridas, polifônicos da revolução nas capitais modernas; cantar do vibrante fervor noturno de arsenais e estaleiros em chamas com violentas luas elétricas; as estações ferroviárias glutões devorando serpentes fumadores; as fábricas penduradas nas nuvens pelos fios trançados de suas fumaças; como ginastas gigantes pontes que cruzam os rios, piscando ao sol com um brilho de facas; vapores aventureiros que farejam o horizonte, e amplas locomotivas, empinando sobre os trilhos, como cavalos enorme de aço freados por tubulações, e o voo de deslizamento de aviões cujos propulsores tagarelam no vento como faixas e parecem aplaudir como um público entusiasmado.

É da Itália que lançamos ao mundo que nosso manifesto de violência avassaladora e incendiária com quem mesclar o futuro hoje porque queremos libertar esta terra de sua gangrena fedorenta de professores, arqueólogos e antiquários. Já há muito tempo a Itália foi um mercado para os negociantes de segunda mão. Queremos libertá-la de muitos museus que cobrem todos os cemitérios.

A proposta era radical, revolucionária. Apesar de não ser explicito, havia ali todo um programa politico nacionalista total. A cultura da violência está presente, afirmando até serem favoráveis à guerra, uma guerra que já em 1909, estava nas mentes de muita gente como uma quase inevitabilidade, devido às tensões nacionalistas do qual o automobilismo ajudava a elevar.

Cedo, o apelo futurista teve os seus seguidores. Os pintores e escultores são os primeiros a aderir, como Umberto Boccioni, Carlo Carrá, Giacomo Balla, Gino Severini, em Itália, e a partir de 1910-11, surgem as primeiras pinturas referentes ao manifesto. A velocidade passa a ser um elemento central nessas pinturas, especialmente o automóvel. Um desses exemplos é a pintura de 1913 de Luigi Russolo, "Dinamismo de um Automóvel", vista no parágrafo acima.

Boccioni será outro importante personagem no futurismo. Para além de ser pintor, é também escultor, e tentará fazer nas suas obras a ideia de velocidade e aerodinamismo, sendo o melhor exemplo a escultura de 1912, "Formas Únicas de Continuidade no Espaço", que hoje em dia pode ser vistas nas moedas italianas de vinte cêntimos. A ideia de Boccioni - principalmente nas suas esculturas, é a de que não só mostraria às pessoas a ideia de uma energia constante, como também daria a ideia do controlo do Homem sobre a Natureza, do qual a aviação era o melhor exemplo, já que os aparelhos desafiavam muitas vezes a gravidade do ar. 

Outros, fora de Itália, foram influenciados pela filosofia e pintura futurista, como os russos Vladimir Mayalovsky, Natalia Goncharova e Igor Severenianyn; o francês Marcel Duchamp e os portugueses Almada Negreiros e Amadeo de Souza Cardozo. Neste curto periodo de tempo, até 1914-15, o Futurismo cria um impacto dinâmico na arte e na literatura europeia, que será percursor de outros movimentos.

Quando ao automobilismo, este é um elemento essencial nesse manifesto, do qual o ponto quatro explicita isso. Para Marinetti, o automóvel é o simbolo dessa beleza da velocidade, e o automobilismo era uma forma superior, em paralelo com o ciclismo, e ambos eram relacionados com as ideias de superação, resistência e progresso, numa altura em que nas provas automobilísticas era frequente andarem a mais de cem quilómetros por hora. E os vários artistas não deixaram passar isso em claro: Balla, Russolo e até Souza-Cardoso colocaram o automóvel como tema central nas suas pinturas. Mesmo o próprio Marinetti não deixava passar isso em claro, quando em 1918 fez uma colagem com as palavras "record", "velocidade" e mais interessantemente, "pole", de pole-position, o primeiro lugar da grelha de partida de um evento automóvel.

Contudo, a filosofia futurista é um produto do seu tempo. A sua temporada mais intensiva irá acontecer até ao eclodir da I Guerra Mundial e a Revolução Soviética de 1917, onde a admiração pela violência e o incentivo à guerra como "única higiene do mundo" têm as suas consequências: Boccioni é mobilizado e morre em 1916, vítima de uma queda do cavalo, enquanto que na Rússia, os futuristas são absorvidos pela Revolução Bolchevique de 1917, enquanto que outros têm um destino mais trágico: Souza-Cardoso será uma das vitimas da Gripe Espanhola de 1918-19.

Apesar do futurismo continuar nas décadas seguintes, sobrevivendo aos cismas e às associações politicas (Marinetti e outros abraçarão o Fascismo nos anos 20), a temporada compreendida entre 1909 e 1915 vai ser a mais fértil e mais marcante.

(continua no próximo capitulo)  

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Extra-Campeonato: O pálido ponto azul

Danilo Albergaria é brasileiro, professor de História e, tal como eu e mais alguns de nós, tem um blog. O nome dele é interessante: www.palidopontobranco.blogspot.com. Nesse blogue, coloca certas questões filosóficas sobre o sentido da vida e mais algumas coisas, e há uns dias atrás descobri a razão pelo qual deu aquele nome: trata-se de um artigo escrito pelo astrónomo americano Carl Sagan (1934-1996), criador e apresentador do programa "Cosmos", e de livros como "Contacto" e “Os Dragões do Éden”.

Quando a Voyager 2 passou por Saturno, Sagan pediu à NASA para que tirasse uma fotografia da Terra vista desse planeta. Era um pequeno ponto branco, que mal se distinguia dos outros corpos celestes. Vendo isso como um sinal inequívoco da nossa pequenez, escreveu:

“Olhem de novo para o ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas económicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, “superastros”, “líderes supremos”, todos os santos e pecadores da história de nossa espécie, ali - num grão de poeira suspenso num raio de sol.

A Terra é um palco muito pequeno numa imensa arena cósmica. Pensem nos rios de sangue derramados por todos os generais e imperadores para que, na glória do triunfo, pudessem ser os senhores momentâneos de uma fracção desse ponto. Pensem nas crueldades infinitas cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel contra os habitantes mal distinguíveis de algum outro canto, nos seus frequentes conflitos, na sua ânsia de recíproca destruição, nos seus ódios ardentes.


Nossas atitudes, nossa pretensa importância, a ilusão de que temos urna posição privilegiada no Universo, tudo é posto em dúvida por esse ponto de luz pálida. O nosso planeta é um pontinho solitário na grande escuridão cósmica circundante. Na nossa obscuridade, no meio de toda essa imensidão, não há nenhum indício de que, de algum outro mundo, virá socorro que nos salve de nós mesmos.


A Terra é, até agora, o único mundo conhecido que abriga a vida. Não há nenhum outro lugar, ao menos em futuro próximo, para onde nossa espécie possa migrar. Visitar, sim. Goste-se ou não, neste momento a Terra é o nosso posto.


Tem-se dito que a astronomia é uma experiência que forma o carácter e ensina a humildade. Talvez não exista melhor comprovação da loucura das vaidades humanas do que esta distante imagem de nosso mundo minúsculo. Para mim, ela sublinha a responsabilidade de nos relacionarmos mais bondosamente uns com os outros e de preservarmos e amarmos o pálido ponto azul, o único lar que conhecemos.”


Portanto, meu amigo ou amiga, pense nisto: no dia em que quiser fazer a sua falcatruazinha, como poluir as águas, deitar o lixo no chão, enganar a sua mulher (ou homem) com a sua melhor amiga (ou amigo), dizer mal dos políticos, bater ou humilhar alguém só por ser diferente (estrangeiro, homossexual, deficiente) ou mandar o Pinto da Costa (presidente do F.C. Porto) para aquele sitio, leia este texto. Talvez assim ganhe a consciência de que não somos nada, na nossa pequenez perante a imensidão do nosso Universo. Pode ser que asim tenha um assomo e humildade, e começe para os outros que passam à sua volta numa outra perspectiva. Talvez assim possamos respeitar as diferenças dos outros, pois até prova em contrário, estamos todos no mesmo barco azul, tão belo e tão frágil.