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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

A imagem do dia

Hoje em dia, a "Cannonball Run" ou a "Gumball 3000" é uma corrida quase sem regras, feitas por jovem viciados em velocidade, que tentam chegar de um ponto A a um ponto B (quase) sem regras, em carros muito potentes. Contudo, em 1971, quando surgiu, foi para protestar. Um protesto contra os limites de velocidade na estrada.

E porque falo disto? Ora, porque o nosso homenageado desta semana esteve envolvido: Dan Gurney, falecido este domingo aos 86 anos de idade, na sua casa de Newport Beach, na California.

Em 1971, Gurney tem 40 anos, e já tinha pendurado o capacete, começando a tratar da sua All American Racers, e tinha como piloto Swede Savage, que era dos mais promissores nos circuotos americanos, especialmente na USAC. Por essa altura, cruzou-se com Brock Yates, jornalista da Car & Driver, que fazia uma campanha contra uma lei que queria impor limites nas auto-estradas de 55 milhas por hora, quase 100 km/hora. Num dos seus artigos, Yates acreditava que “bons motoristas em bons automóveis poderiam empregar o sistema de rodovias interestaduais (as Interstates) dos Estados Unidos da mesma forma que os alemães usam suas Autobahnen”, e que “viagens de carro em alta velocidade em segurança são possíveis”.

Yates achou que uma corrida costa a costa, sem roteiro (e sem limites de velocidade) seria o ideal. Houve algumas dezenas de inscrições, mas muitos deles foram canceladas, e no final, apenas sete permaneceram. Yates participou num Ferrari 365 Daytona azul, com Gurney como co-piloto. Nem era o carro que iria usar: tinha sido inscrito inicialmente pelo ator Robert Redford, e o carro tinha sido providenciado por Kirk White, dono de uma concessionária de carros de luxo na California. 

Yates batizou-a de "Cannonball Run" em homenagem a Erwin “Cannonball” Baker (1882-1960) piloto de motos e automóveis que em 1933, atravessou de costa a costa num Graham-Paige Model 57 em 53 horas e meia, um recorde que se manteve por quatro décadas.

Curiosamente, Gurney nem era a primeira escolha: Yates pediu a Phil Hill que participasse, mas ele não aceitou. E ele chegou a desistir da participação, voltando com a palavra atrás nas vésperas da corrida, graças ao seu sogro, que estava a morrer e lhe pediu para participar, como uma espécie de último desejo.

Dos sete participantes, o mais temido era um tripla de pilotos representando "Os Pilotos Polacos da América", que guiavam uma carrinha Chevrolet Sportvan. Eles eram Oscar Kovaleski, Brad Niemcek e Tony Adamowicz, e iam numa carrinha com um depósito extra de 1139 litros e uma caixa de velocidades construida para provas como... as 24 Horas de Le Mans.

A corrida começou a 15 de novembro de 1971, e no final, Gurney e Yates demoraram 35 horas e 54 minutos a fazer o percurso, a uma média de 130 km/h. E pelo caminho, tiveram uma multa de 90 dólares por andarem a 217 km/hora num sitio onde o limite era de 70 milhas por hora (112 km/hora). O segundo classificado, a carrinha polaco-americana, chegou 53 minutos depois... e não foi parada pela policia. Mas o recorde de "Cannonball" foi batido.

No final, chamaram a atenção das pessoas, mas a lei passou e continua em vigor. Yates organizou mais quatro "Cannonball Runs" e escreveu o argumento para o filme de Hollywood, feito por Hal Needham e protagonizado por Burt Raynolds, uma das comédias mais lucrativas dos anos 80, com uma parada de estrelas, desde Dean Martin até Frank Sinatra.

Yates, que depois escreveu um livro sobre Enzo Ferrari que Michael Mann o vai adaptar para filme este ano, e um rebelde por natureza, morreu em 2016, aos 82 anos de idade, devido a complicações decorrentes da doença de Alzheimer. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

The End: Brock Yates (1933-2016)

Os anos 70 e 80, em termos de automóveis e automobilismo nos Estados Unidos, dificilmente podem ser escritos sem a colaboração de Brock Yates. Jornalista de oficio, comentou sobe a NASCAR e escreveu livros sobre a industria automóvel e foi a inspiração por trás de dois filmes de culto na America: "Smokey and th Bandit" e o "The Cannonball Run", ambos com Burt Reynolds como ator principal. Yates morreu ontem aos 82 anos, depois de doze doente com Alzheimer.

Nascido a 21 de outubro de 1933, em Buffalo, New York, Yates era filho de um escritor, Raymond Yates. Escreveu o seu primeiro artigo aos 16 anos, e depois de se graduar no Herbert College, em 1951, foi para a Marinha. No regresso, voltou a escrever, desta vez para a "Car and Driver", em 1966, onde escreveu criticamente sobre a industria automóvel americana e de como é que estava a ser passado pelos seus concorrentes, especialmente os japoneses.

Em 1970, Yates soube que as autoridades iriam colocar limites de velocidade nas estradas. Sentindo que isso era uma violação da liberdade das pessoas, e ao mesmo tempo que descobria os feitos de Erwin "Cannonball" Baker, um piloto de motos e automóveis que desde 1914, até 1941, fez diversas travessias costa-a-costa, o mais veloz de todos em 53,5 horas, pouco mais do que dois dias. Assim sendo, em 1971 decidiu fazer uma corrida, o "Cannonball Baker Sea-To-Shining-Sea Memorial Trophy Dash", uma corrida de costa a costa. Pequeno detalhe: a corrida era ilegal, não sancionada por nenhuma entidade automobilística.

Yates e Steve Smith, o seu colega na Car and Driver, conseguiram juntar alguns dos pilotos mais ilustres da sua época nessa corrida não-sancionada, como Tony Adamowicz ou Dan Gurney. No final, Gurney, num Ferrari Daytona, foi o vencedor, com Yates a seu lado. Outras corridas se realizaram em 1972, 1975 e 1979, e a fama dessas corridas foi tal que virou um filme, com a ajuda de Yates e de um duplo de Hollywood que tinha virado realizador, Hal Needham.

Em 1979, ambos tinham trabalhado juntos num filme, a segunda versão de "Smokey and the Bandit", mas Yates pensou em fazer do "Cannonball Run" um filme. Escreveu um argumento, com Steve McQueen em mente, mas nesta altura, ele já estava doente com o cancro no qual haveria de morrer, e o papel foi para Burt Reynolds. O filme, uma comédia com uma constelação de estrelas, foi um sucesso de bilheteira, e acabou por ter mais dois filmes. Anos depois, em 1984, decidiu fazer o "One Lap of America", de modo legal, e que acontece até aos dias de hoje, percorrendo 4800 quilómetros em cerca de uma semana.

Até há uma década, Yates apareceu em vários programas na NASCAR e na IndyCar, como reporter e depois comentador, e escreveu diversos livros sobre automobilismo um deles sobre as 500 Milhas de Indianápolis, e outra sobre Enzo Ferrari, do qual Michael Mann pretende fazer um filme, que tinha inicialmente Christian Bale como ator principal, mas ele acabou por abandonar o projeto no inicio deste ano. Ars longa, vita brevis, Brock.