terça-feira, 20 de novembro de 2007

Bolides memoráveis - Lotus 88 (1981)

Foi o último grande toque de génio de Colin Chapman. Foi também, a par do McLaren MP4/1, o primeiro carro a ser feito de fibra de carbono. Mas também foi um carro maldito, pois este nunca correu em termos competitivos, pois a FISA, no meio da guerra entre FISA e FOCA, em 1980-82, baniu-o. E muitos acreditam que foi o começo do fim da vida de Colin Chapman, a braços com problemas como as vendas do seu carro para a América do Norte, e o fracassado projecto DeLorean, que o levaram até à sia precoce morte em 16 de Dezembro de 1982, aos 54 anos.


Em 1981, a FISA resolve banir as saias móveis, por achar que elas são um dispositivo aerodinâmico, e como tal, essas tinham sido banidas 12 anos antes. Sem essa vantagem, as equipas tinham que encontrar alternativas. A Lotus estava a desenvolver o seu modelo 86, em 1980, quando Champman descobriu, em testes de pista, que se endirecesse as molas e as isolasse do restante conjunto de chassis, este seria mais eficaz. Assim nasce o modelo Lotus 88.


Esse conceito inédito de chassis duplo foi descrito desta maneira por Colin Chapman: "O primeiro chassis (o T86) era uma estrutura do tipo escada de aço e fibra de carbono no qual a carroçaria, o sistema de refrigeração e demais elementos mecânicos eram montados, e que estava suspensa com molas e amortecedores separados. O movimento do chassis principal era assim controlado para manter as variações aerodinâmicas ao mínimo. O piloto, os tanques de gasolina e todas as demais peças que devem estar isoladas do piso são montadas no segundo chassis, construido em fibra de carbono, e com alvéolos - o kevlar. Este é suspenso nas rodas para obter a melhor aderência mecânica, e por isso, tem uma suspensão muito macia para ser confortável.


No fundo, é o mesmo conceito dos modernos camiões: o chassis tem uma suspensão muito riha para aguentar as pesadas cargas, e o condutor está isolado na sua cabine com a própria suspensão macia."


O grande obstáculo que Colin Chapman tinha era de convencer a FISA de que estava a seguir os regulamentos de então. Ora, o conceito puxava os limites da legalidade, e Champman tinha que convencer quer a FISA, quer as restantes equipas de que o carro era legal. Então, pediu a Gerard Crombac para que elaborasse um dossier de impensa que convencesse Jean-Marie Balestre da validade do projecto. Só que "Jabby" era o presidente da Comissão Técnica da FFSA e membro da Comissão Técnica da FISA. E a sua assinatura no "dossier" deixaria passar a ideia de que Balestre "aprovou o projecto", o que não era verdade. E isso enfureceu-o. E em vez de ter um aliado contra Bernie Ecclestone (dono da Brabham e patrão da FOCA), que queria ver o projecto chumbado, pois o seu projectista Gordon Murray tinha resolvido o problema, instalando uma suspensão pneumática no seu Brabham BT49. E começaram as dores de cabeça para Chapman...


Em Long Beach, palco da primeira prova do Mundial, o Lotus 88 estava presente, e foi declarado legal. Contudo, as equipas apresentaram protestos, e pouco depois, os organizadores colocaram uma bandeira preta no carro de Elio de Angelis. Sob pressão das equipas, que ameaçavam retirar-se, e da FISA, os comissários decidiram ilegalizar o Lotus 88. Chapman apelou e o carro foi aceite. Isso enfureceu Jean-Marie Balestre, que ameaçou tomar medidas caso mais alguma organização tomasse as mesmas medidas.


Na etapa seguinte, em Jacarépaguá, as coisas ficaram mais feias. Depois de avanços, recuos, ameaças e subornos, os comissários decidiram ilegalizar o carro. E após nova cena, em Buenos Aires, onde um furibundo Chapman decidiu nem assistir à corrida em protesto (perferiu assistir ao lançamento do Space Shuttle Columbia), e ter levado com uma multa de 100 mil dólares por ter insultado da FISA num comunicado de protesto (que acabou por não pagar), o chassis 88 foi temporariamente abandonado. Em protesto, acabou por boicotar o GP de San Marino, no circuito de Imola, a primeira vez desde 1958 que um carro da sua marca não participava num GP.


Alguns meses mais tarde, em Brands Hatch, palco do GP da Grã-Bretanha, Chapman volta à carga: apresenta o Lotus 88B (modificado após ter mudado a posição dos radiadores, entre outros), e o RAC autoriza a participação do carro. Depois de uns treinos livres em que o carro até fez tempos normais (Elio de Angelis foi nono), Ligier, Alfa Romeo e Ferrari apresentaram protestos, que resultaram na sua exclusão por parte do representante da FIA. Isto porque, dias antes, na reunião da Comissão Executiva da FISA, o regulamento foi modificado no sentido de que qualquer decisão da entidade federativa tem poder sobre qualquer decisão dos organizadores de um qualquer Grande Prémio.

E assim acabou a saga do Lotus 88. Uma batalha inglória pela sua participação que desencadeou uma batalha politica que acabou com um golpe genial de Colin Chapman, e de uma certa forma, terminou também com uma certa imaginação nos desenhos de chassis de Formula 1. E mal se sabia que era o "canto do cisne" para Colin Chapman. Mas nem tudo no Lotus 88 foi desperdiçado: algumas das soluções aerodinâmicas do Lotus 88 deram origem no Lotus 91, de 1982, o último chassis que Colin desenhou e viu correr ainda em vida.

2 comentários:

João Carlos Viana disse...

Um dos motivos por que as equipes não terem aceitado o Lotus 88 era que ela estavam receosas de que a Lotus repetisse 1978 e as equipes teriam que gastar milhões para modificar seus carros e novamente terem que imitar Colin Chapman para ter um carro competitivo.

Se Bellof estivesse vivo hoje, estaria completando 50 anos. Tá lá no blog.

Abraços amigo!

Bruno Ricardo Padilha disse...

O que eram, exatamente, as saias deslizantes?