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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Como os qataris querem comprar o mundo

Imaginem os meus amigos brasileiros uma terra com o tamanho de metade do estado do Espirito Santo, e que têm petróleo a jorrar do seu solo e do seu mar. E com isso, concorre a todos os eventos desportivos para que todos os possam olhar para eles como se fosse o centro do mundo, enquanto que pelo meio, compra todo o talento que possa encontrar. E entre outras coisas, monta museus, constroi prédios enormes e ganha dinheiro em fazer e equipar o seu canal de televisão planetário, capaz de rivalizar com a BBC e a CNN.

Não puxem mais pelas cabeças, essa fantasia existe. Chama-se Catar (ou Qatar, se preferirem). Uma rápida pesquisa na Wikipédia demonstra que este país, independente desde 1971, têm 1,8 milhões de habitantes, dos quais 270 mil são... naturais desse sitio. É verdade: ha mais expatriados do que naturais dos estado. O estilo de vida é elevadíssimo, e em média, as pessoas ganham um salário de 8500 euros, com o desemprego a ver virtualmente inexistente. O segredo de tanto dinheiro? Nem tanto o petróleo, mas ter as maiores reservas de gás do mundo.

Mas porquê trago o país do Nasser Al-Attiyah à baila? Porque depois de conseguir tudo (mundiais de atletismo e de futebol), está a caminho de conseguir aquilo que lhe falta: a Formula 1. Alegadamente, há uma oferta de 72 milhões de euros (sim, 72 milhões!) para acolher a categoria em 2017. Provavelmente não será para ser uma corrida qualquer no calendário, mas sim para ser ou a corrida inicial, ou a final desse ano. Ainda há obstáculos pela frente até que sejam aceites, e o maior dos quais são os vizinhos. É que aparentemente, o Bahrein têm clausulas nos seus contratos que impedem de eles tenham a Formula 1 no vizinho açambarcador, apesar de há cinco anos, eles darem 60 milhões de euros para abrirem o calendário.

Como se sabe, há um circuito por lá, o de Losail, que acolhe todos os anos a jornada de abertura do Moto GP. Não é um circuito memorável e só acolhe cerca de 20 mil pessoas, e ainda por cima é corrido à noite. A acontecer, teria de ser como nos seus vizinhos: uma corrida a acontecer no "lusco-fusco", como em Abu Dhabi, ou à noite, como é Singapura (ou como foi o Bahrein no ano passado, para comemorar o décimo aniversário da sua inclusão no calendário), porque se for à tarde, teria de ser no inicio da primavera, porque no verão, com 50 graus de temperatura média, só para suicidas.

Mas o problema é que os cataris (ou qataris) estão dispostos a tudo para conseguir. Se a história de como conseguiram o Mundial de futebol de 2022 é absolutamente nebulosa (e um dos fatores para a atual descredibilização da FIFA), no mês passado, a maneira como arranjaram os jogadores para a sua seleção de andebol raiou o escândalo. Para o Mundial (do qual foram organizadores), aproveitaram as regras mais flexíveis da organização que rege o andebol mundial... e naturalizaram todos os jogadores, a troco de muito dinheiro, aproveitando o fato desses jogadores não aparecerem nas suas seleções há anos. 

E assim, alguns espanhóis e sérvios trocaram de nacionalidade e levaram a seleção, do vigésimo lugar no último mundial, a uma final com a França, do qual perderem por uma diferença de três golos. E se tivessem conseguido, cada jogador iria receber... cinco milhões de dólares. Para não falar dos oitenta fãs que os qataris contrataram - com tudo pago, claro - à Espanha para os apoiar em todas as partidas.

Houve protestos - Bahrein e Emirados Árabes Unidos boicotaram o mundial - e já houve avisos de outras federações para que não tentem a mesma gracinha. O receio mais óbvio e o do futebol, dado que o Qatar não têm uma equipa à altura e nunca foi a um Mundial até agora...

Mas voltando ao automobilismo, de facto, a ideia de termos a Formula 1 por aquelas bandas é uma espécie de "cereja no topo do bolo" do qual sempre me espantei por que razão não ter aparecido mais cedo. Agora já se sabe o porquê.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Extra-Campeonato II: Algumas impressões sobre esta seleção de sub-20


De sábado para domingo, fiquei até às cinco da manhã para ver futebol. Não era um jogo qualquer, era uma final de um Mundial de futebol da categoria sub-20, totalmente falada em português. Portugal vs Brasil. A final foi bem disputada, muito equilibrada (ao contrário de alguns "comentadores" brasucas que julgavam que ganhariam de goleada. Perderam uma oportunidade para estarem calados...) e foi a prolongamento. No final, venceu o Brasil, aproveitando o cansaço dos jogadores portugueses. Mas o contrário poderia ter acontecido e não teria sido injusto. Estou feliz pela trajetória destes sub-20, mas não sinto o orgulho bacoco que já li em alguns lados, porque pelo que vi do jogo, senti que tinhamos o pássaro na mão e deixamos voar.

Mas hoje eu quebro o silêncio sobre futebol para falar sobre o tratamento que eles têm agora e o que tinham antes de começarem esta trajetória, há quase mês e meio. Sendo um leitor diário de jornais deportivos, digo-vos isto: é como se fosse da noite para o dia. No inicio de julho, nenhuma televisão filmava os treinos desta seleção no Jamor e fazia matérias nos seus telejornais. Nem para os canais de noticias existentes... agora, quando chegarem a solo português, terão não só milhares de pessoas a aplaudirem-os no aeroporto, como também terão os canais de noticias a fazerem diretos atrás de diretos, depois de terem aberto telejornais com os seus feitos futebolisticos. Especialmente depois do jogo da meia-final.

Eis um exemplo: orgãos de comunicação social como o jornal "A Bola" seguiram esta equipa nacional desde a concentração - digo isto porque o jornalista que o acompanhou é meu amigo dos tempos da universidade - e em termos de televisão, a Eurosport acompanhou este mundial desde o primeiro jogo. A RTP, que deveria nos dar serviço público de televisão, decidiu acompanhar esta seleção... a partir dos oitavos de final. E passaram do oito ao oitenta: ontem, no jogo da final, tinham dois enviados-especiais, fizeram três diretos na hora do Telejornal e uma emissão especial que começou... duas horas e meia antes do jogo.

Bem dizia o comentador do Eurosport que "não apanhamos o comboio a meio". Se isto não é oportunismo, então não sei o que é.

De uma certa forma, é a mentalidade que existe, nos dois lados do Atlântico. Aqui há um respeito pela seleção, quem quer que seja, no Brasil, nem tanto, por causa daquela mentalidade de "o segundo classificado é o primeiro dos últimos". Leio frequentemente comentários de amigos meus em Terras de Vera Cruz que os chamam - não interessa o escalão - de "Selecinha" ou "SeleNike", que curiosamente é a mesma marca que veste a seleção portuguesa. Podemos ser agora vice-campeões do mundo de sub-20, mas não passa pela nossa cabeça chamamos a essa gente de "SeleNike"...

Mas por outro lado, podemos ver que os brasileiros aproveitam muito melhor os seus talentos do que nós. Eles fazem isso para os exportar para a Europa, que graças á famigerada "lei Bosman", abriu as comportas para que o talento puro e duro vindo da América do Sul possa permanecer nos clubes europeus, sem quaisquer restrições. São baratos, estão à mão e já deram provas, ao contrário dos portugueses ou outros europeus. Daí que no nosso caso, a quase esmagadora maioria dos nossos Sub-20 são suplentes nos seus clubes, emprestados na II Divisão ou até "exilados" no estrangeiro. O Danilo, aquele "bisonte" central desta seleção, o Benfica deixou escapar para o Parma, e provavelmente quando voltar a jogar num clube português, será por um clube rival. Quando acontecer - sim, tenho a certeza que vai acontecer - , vou chamar a esses responsáveis de "idiotas" até dizer chega.

Mas enfim, sejamos honestos: neste mês e meio, um pais inteiro descobriu uma equipa. Agora chamam-lhes "geração coragem", especialmente por causa do espirito de grupo e pelos feitos incriveis, especialmente o fato de terem chegado à final sem sofrer qualquer golo. No inicio de julho, só os especialistas, os que seguem atentamente o futebol é que sabiam quem era o Mika, o Danilo, o Sérgio Oliveira e o Nelson Oliveira, e pensavam que o Caetano era o pai, e não o filho, e julgavam que o Nuno Reis era um dos DJ's da Antena 3. Agora, descobrimos esta gente toda e a garantia de que a atual geração tem substitutos à altura. Desde que os clubes os acarinhem e não os exilem para o APOEL de Chipre...

Espero e desejo que a partir de agora, os clubes nacionais comecem a aproveitar os talentos dentro dos seus clubes, dando oportunidades para jogar no plantel principal e não os vão buscar à Colômbia, Argentina ou Brasil. Eu sei que é uma utopia, porque os "burros velhos não aprendem linguas novas", mas às vezes vale a pena sonhar.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Extra-Campeonato: Crise, qual Crise?

O Inverno de 1978-79 na Grã-Bretanha estava a ser muito dificil. O desemprego estava em niveis altos, o governo trabalhista de James Callaghan estava a ser acossado por todos os lados, mas mesmo assim, ele dizia que nada se passava, mesmo com greves de todos os sectores. O lixo estava nas ruas, e até os coveiros recusavam a enterrar os mortos, decidindo entrar em greve. O título que coloco neste post foi usado por um dos tablóides, o "The Sun", num exemplo irónico do estado das coisas nessa Grã-Bretanha pré-Thatcher.

Só que ontem, ao ouvir essa frase da boca de Sepp Blatter, eu o oiço não no sentido de ironia, mas sim no sentido de alienação. Aquela alienação de um carreirista que viveu toda a sua vida para a FIFA, e que julga que sem ele, todo o edificio se vai abaixo. Acredito que sim, que a FIFA se tornou numa Coreia do Norte futebolistica, onde durante muitos anos um exército de "yes-men" obedeceu as directivas de um Comité Executivo que inebriado pelo poder e pela quantidade cada vez crescente de dinheiro, começou a agir de forma impune e de escolher os mundiais pelo tamanho da mala que o comité organizador consiga trazer.

Contudo, as coisas andam rápido. Sepp Blatter quer ser reeleito o mais depressa possivel e esconder a crise debaixo do tapete, como sempre faz, e deixar cair alguns bodes expiatórios como fez no passado. Só que aparentemente, as coisas movem-se rápido: a federação inglesa de futebol decidiu ontem apelar ao adiamento das eleições, que vão acontecer por estes dias em Zurique. Algumas federações já disseram que apoiariam a decisão, como a escocesa. "Os eventos dos últimos dois dias tornaram qualquer eleição impraticável. A integridade e reputação do jogo é suprema e a Federação Escocesa de Futebol pede à FIFA que reconsidere sua intenção e pede aos restantes membros das federações que considerem as implicações à imagem do jogo a longo prazo", declarou o chefe-executivo da entidade escocesa de futebol, Stewart Regan, em comunicado.

Contudo, um desfecho positivo é complicado, pois precisariam de 3/4 da aprovação dos presentes, e tal coisa em dois dias parece ser impossivel num espaço de tempo tão curto.

Para complicar as coisas, alguns dos grandes patrocinadores já mostraram preocupação com a maneira como isto está a ser lidado. Coca-Cola, VISA, Adidas e Emirates são alguns desses grandes patrocinadores que demonstram preocupação, e provavelmente nem veriam com maus olhos a pretensão da federação britânica. "A situação atual não é boa para o desporto e pedimos à FIFA que tome todas as medidas necessárias para resolver as questões que foram levantadas", disse a muiltinacional dos cartões de crédito em comunicado.

Isto vai ter pano para mangas, é certo. E em tempos onde a mudança parece ser a tendência, parece que Blatter terá de usar imenso do seu poder para colocar tudo de novo no seu lugar, pois quando as pessoas que lhe dão dinheiro mostram estar no minimo preocupados, é mau sinal. E se continuar a não dar ouvidos, a FIFA estará sob ameaça de descredibilização, para falar no minimo.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Extra-Campeonato: o escândalo de corrupção da FIFA, em câmara lenta

O grande assunto do momento são as noticias sobre o escândalo de subornos na FIFA, e a corrida à presidência do organismo, do qual Sepp Blatter está agora a tentar ficar lá por mais um mandato, agora com a concorrência do qatari Mohammed Bin Hamman, o presidente da confederação asiática de futebol. O passado fim de semana foi marcado por crescentes noticias sobre casos de corrupção no seio do Comité Executivo, que afetam principalmente um homem: o tobaguenho Jack Warner, um dos vice-presidentes da FIFA e o todo poderoso chefe da CONCACAF, o organismo continental da América do Norte, Central e Caraíbas.

Vou ser honesto: não é nada que me surpreenda. Aliás, tenho a certeza que isto vem na sequência do processo de atribuição das candidaturas ao Mundial de 2018 e 2022, que no final do ano passado, foram atribuidas à Russia e mais surpredendentemente, ao Qatar. Ambas as candidaturas bateram outras como a Inglaterra, a candidatura conjunta entre Portugal e Espanha e Austrália, entre outros. Na altura em que essas candidaturas foram atribuidas, suspeitei fortemente - tal como muita gente - que essas escolhas foram feitas mais por causa dos camiões de dólares que trouxeram do que propriamente outros critérios, sejam dos estádios, sejam de outras instalações. O Qatar nega que comprou a candidatura, mas toda a gente suspeita disso, e provavelmente com muita razão.

Durante estes dois dias, enquanto o escândalo explodia em câmara lenta, via um documentário muito bom da BBC, emitido no progama "Panorama", um dos melhores que há na televisão. Nele, expunha-se que se qualquer candidatura quisesse ganhar a organização do mundial, tinha de pagar um preço. Um preço bem grande, na ordem dos milhões. Jack Warner era dos mais "sujos", e já tinha um passado bem manchado, desde a atribuição de bilhetes no Mundial de 2006, do qual recebeu uma comissão bem choruda, até agora ao caso destes últimos mundiais, do qual pediu alguns milhões de dólares para aquilo que chamou de "o seu legado".

No programa, outros nomes eram falados como fazendo parte neste esquema: o paraguaio Nicholas Leoz, o camaronês Issa Hayatou, presidente da CAF, a confederação africana de futebol, e o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, entre outros. E o programa falava de escândalos mais antigos, com o da agora falida ISL, uma empresa com direitos televisivos, que pagou luvas a muita gente, desde João Havelange, o então presidente da FIFA, - e ex-sogro de Ricardo Teixeira - até a Sepp Blatter, passando obviamente pelos nomes acima referidos.

Entretanto, os membros da falhada candidatura britânica depuseram ao longo destes meses numa comissão de inquérito do parlamento britânico, onde explicaram algumas das falcatruas que souberam ao longo do processo, e que disseram que a decisão da não atribuição do Mundial de 2018 à Inglaterra foi mais politica do que técnica. É que o escândalo dos dois membros do Comité Executivo da FIFA afastados devido a terem aceites subornos, um taitiano e um nigeriano, denunciados pelo jornal Sunday Times e pela BBC, fizeram encolerizar a FIFA, que assim aplicou tal castigo. Mas parece que ao retardador, esse feitiço poderá ter virado contra o feiticeiro. E que agora, Warner, caído em desgraça, decidiu vingar-se, usando aquela expressão clássica: "se eu cair, vou-vos arrastar comigo".

Confesso que não sei como isto vai acabar, mas os eventos dos últimos dias só me deram certezas sobre uma organização como a FIFA: é corrupta, cheia de carreiristas que subiram na vida à custa da troca de favores. Pertencendo a uma elite e ganhando poder de decisão no futebol, ao longo dos anos elaboraram uma teia de amizades onde fizeram grandes negócios que beneficiaram imensamente o futebol, expandindo para lugares inimagináveis, mas cujo preço a pagar, embora pouco em termos de valor, poderá ter dado cabo da reputação deste organismo.

E agora, se as suspeitas eram grandes, podemos dizer com toda a certeza que este processo de atribuição do Mundial foi dos mais sujos de sempre. Bin Hamman decidiu retirar a sua candidatura, mas isto a procissão está no adro. E as consequências são ainda inimagináveis.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Extra-Campeonato: ainda sobre as escolhas de ontem...

Ontem à tarde andava a dizer jocosamente que, depois da FIFA ter escolhido o Qatar para o Mundial de 2022, bem poderiam escolher Timor Leste para o Mundial de 2030 ou de 2034, porque tem todos os critérios que a FIFA verdadeiramente quer: é pequeno, é rico em petróleo e tem tudo por fazer, incluindo a sua equipa principal, que está no lugar 202 do "ranking" mundial e que este ano perdeu todos os jogos que realizou... por goleada. A última foi contra a Indonésia, a antiga ocupante, por 6-0.

Gozos à parte (e como é óbvio, nada tenho contra Timor, até pelo contrário), neste dia seguinte às polémicas escolhas da FIFA para 2018 e 2022, cada vez mais me convenço de que foram as melhores escolhas que o dinheiro poderia comprar. E que a decisão de eliminar a candidatura britânica à primeira volta foi a forma da FIFA penalizar a BBC, mais concretamente o prestigiado programa de televisão "Panorama", sobre as suas investigações sobre o mundo nada transparente do Comité Executivo da FIFA, que a apresentou quase como se fosse uma "Familglia" da Máfia siciliana e que Joseph Blatter seria um "capo de tutti cappi". Parece que tinham razão, e provavelmente podem ter comprado uma guerra...

Contudo, se no final até se aceita a vitória russa, devido à tradição que tem no futebol e à ideia de expansão do futebol mundial, desde os tempos de João Havelange - do qual Blatter é um digno sucessor dessa politica - o facto de ver Qatar como sede do Mundial de 2022 é definitivamente controversa. Pela sua dimensão, pela sua população, pela pouca tradição do futebol qatari, é unânime o coro de criticas à sua escolha e ao facto de a FIFA ter mandado os relatórios técnicos para o espaço e preferido um camião de petrodólares. Esta tarde, o Alexandre Massi, no seu blog, deu dez excelentes razões porque a escolha de Qatar é no minimo, incompatível.

"1) Falta de transparência - o investimento dos árabes na campanha não foi revelado.

2) Naturalizações - Fábio César Montezine, revelado no São Paulo, é um dos vários jogadores naturalizados da seleção do Qatar. Para não fazer feio em 2022, a federação local deve intensificar a procura por novos talentos. A tarefa não deve ser das mais difíceis, pois não são poucos os atletas que têm o sonho de disputar uma Copa do Mundo.

3) Legado - o Qatar tem 2 milhões de habitantes. Destes, 1,7 mi são estrangeiros. O legado, portanto, ficará para os executivos que trabalham no país.


4) Saúde dos atletas - Entre junho e julho, período em que a Copa é disputada, a temperatura no país chega a 50 graus celsius. A saúde dos atletas e dos turistas será colocada em risco, como a própria FIFA já alertou.


5) Treinamentos - Como os atletas treinarão durante a Copa? A tendência é que eles façam apenas um treino leve, à noite. Com poucos sessões de treinamento, os técnicos terão que quebrar a cabeça para dar entrosamento aos times e para deixá-los 100% fisicamente. Sendo assim, a qualidade do espetáculo ficará comprometida.

6) Mundial indoor - Ainda por causa do calor, essa Copa não deverá ter muita gente na rua. A confraternização entre os povos, tão pregada pela entidade máxima do futebol, deve acontecer apenas em hotéis e escritórios, todos climatizados.

7) Aglomeração - O Mundial será realizado em um raio de 60 quilômetros. Pode haver superlotação nos transportes e aglomeração humana nos estabelecimentos.

8) Seleções longe do Qatar - Se os estádios forem climatizados, não há necessidade de se adaptar ao calor e, consequentemente, dee se hospedar no Qatar. As seleções podem muito bem permanecer na Europa (na Turquia, por exemplo) e pegar um voo para Doha na véspera dos jogos.

9) Concentração máxima - Se forem obrigados a se hospedar no Qatar, a concentração será praticamente uma prisão de segurança máxima. Jogadores e comissão técnica não vão querer sair do quarto do hotel e enfrentar o calor. Os profissionais ficarão entediados e o trabalho da imprensa, prejudicado.

10) Acordos comerciais - O Qatar possui algumas leis rígidas, entre elas, a de consumo de cerveja em locais públicos. A Budweiser é uma das patrocinadoras da FIFA e terá prejuízo com a Copa no país."

Creio que doze anos sejam tempo suficiente para que as autoridades qataris nos convençam que os nossos receios estejam errados. São obrigados a isso, porque fora da peninsula arábica, ninguém acredita como é que a FIFA escolheu um pais de quase 12 mil quilómetros quadrados para acolher 32 selecções e provavelmente mais de dois milhões de adeptos. Será que a FIFA decidiu seguir os critérios de Bernie Ecclestone e quer transformar o futebol numa actividade elitista, em nome da "expansão do futebol"?

E já agora, uma pergunta para rematar: o que aconteceria caso Israel classificasse para o Mundial qatari? Seria aceite pela organização? Parte-se do principio que sim, apesar do governo local não reconhecer o estado israelita, mas a pergunta é pertinente.

O facto é que depois das escolhas de ontem tiveram consequências. A imprensa inglesa de hoje simplesmente demole a FIFA nos seus editoriais e muitos em Zurique começavam a murmurar entre dentes a palavra "reforma"... e doze anos são também tempo suficiente para algumas dezenas de "Panoramas" dedicados à FIFA e ao seu comité executivo, não?

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Extra-Campeonato: Os melhores Mundiais que o dinheiro conseguiu comprar!

Os anúncios aconteceram agora mesmo, portanto isto pode estar a ser escrito a quente. A mim, ganhasse quem quer que fosse, não me aqueceria nem arrefeceria, caso os favoritos fossem as nações mais "óbvias", mas o facto da FIFA ter escolhido a Rússia para o Mundial de 2018 e o Qatar para o de 2022 merece atenção para o tipo de pessoas que estão à frente do organismo máximo do futebol, e os critérios que devem ter usado para escolher localizações tão... exóticas.

Para começar, vou um pouco atrás no tempo: Quando João Havelange decidiu concorrer para o cargo de presidente da FIFA, em 1974, aproveitou bem a expansão da FIFA às novas nações que tinham surgido nos últimos 15 anos para prometer que caso fosse eleito, iria transformar o futebol num desporto verdadeiramente mundial. E quando chegou ao poder, cumpriu: o futebol conheceu uma expansão memorável, saindo do eixo euro-sul americano para se tornar num desporto verdadeiramente mundial. Em 1994, acontecia o primeiro mundial nos Estados Unidos, o primeiro fora desse eixo e o primeiro num país onde o futebol não era o primeiro desporto. Aliás, em 1994, os Estados Unidos não tinham uma Liga de futebol organizada, pois a MLS (Major League Soccer) só arrancou em 1996...

Com o tempo, a expansão foi maior. Coreia e Japão, em 2002 e a Africa do Sul, em 2010 foram as mais recentes escolhas do organismo máximo do futebol mundial, e mesmo a estrutura dos mundiais foi totalmente modificada. Agora são 32 as selecções que entram na fase final do Campeonato do Mundo, contra as 16 que participavam no já distante ano de 1974, boa parte delas europeias, com Africa, Asia e Oceania a disputarem, por vezes, para uma vaga. Agora, Africa tem cinco vagas e a Asia tem quatro, e estão mais ou menos em pé de igualdade com a América do Sul e Europa.

Agora, para o presente: Joseph Blatter é a continuidade das politicas de João Havelange. Foi seu vice-presidente na parte final do mandado do brasileiro e pretende ficar por lá tanto tempo como ele, tentando implementar a mesma agenda, ou seja, expandir o futebol pelos quatro cantos do mundo. E a escolha de localizações "exóticas" para os Mundiais de 2018 e 2022 tem de ser visto nesse campo.

Mas... ninguém acredita muito nisso, principalmente depois de sabermos dos escândalos das últimas semanas em relação a certos membros do Comitê Executivo da FIFA, que disseram perante câmaras escondidas da BBC o preço do seu voto. A FIFA pode ter agido rapidamente e suspenso essas pessoas, e abriu um inquérito que encerrou rapidamente, para dizer que nada de anormal foi descoberto. Claro, agora toda a gente vai questionar a independência e a idoneidade desse comité, bem como o inquérito em si.

Se formos ver a tendência da FIFA desde o final da década de 80, é sempre de expansão: Estados Unidos, Coreia e Japão, Africa do Sul, Brasil, Russia, Qatar... tirando o clássico brasileiro, diremos que são países ricos ou em expansão, e tirando a Rússia - que é a herdeira da União Soviética - sem qualquer tradição no futebol. Até o caso qatari ganha raias de escândalo. Afinal de contas, falamos de um país com uma superfície de... 11.437 quilómetros quadrados, um décimo da superfície do Uruguai, o pais mais pequeno que já acolheu o Mundial, no já distante ano de 1930. Como irão caber 32 selecções num pais tão pequeno e que em Junho tem uma média de temperatura de 45 graus Celsius?

Por muito que a FIFA jure a pés juntos que a Russia e o Qatar sejam os melhores, dá a impressão que foram compradas ao melhor preço. Que a sua politica de expansão, "a bem do futebol mundial" não foi mais do que uma corrida para saber quem ganha mais. Perferem que os paises gastem imenso dinheiro, em orçamentos que inevitavelmente irão derrapar duas ou três vezes mais do que o esperado, e que garantem a qualificação a selecções que vão para lá fazer figura de "corpo presente". A não ser que a federação do Qatar já tenha uma parte do seu orçamento destinado a "nacionalizar" os futebolistas ganeses, nigerianos, brasileiros ou outros nos sub-18 e sub-20 para poderem jogar esses Mundiais... o que o dinheiro não fará, hein?

Claro, muitos vão falar em "mau perder" e de "arrogância de primeiro mundo", blá, blá, blá, mas... pouca gente compreende a razão pelo qual a FIFA fez tais escolhas. Com elas, afirmou que não quer ser conservadora nem poupada, mas com as revelações das últimas semanas, demonstrou que não é uma organização de fiar. Para mim não me admiraria, porque falamos de uma organização avessa à mudança, não é?

E claro, contam que toda a gente esqueça disto nos dias seguintes... pode ser que aconteça, pelo menos até que uma Wikileaks quaisquer nos mostre os bastidores destas escolhas.