Mostrar mensagens com a etiqueta I. Scheckter. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta I. Scheckter. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

A história do campeonato sul-africano de Formula 1 (última parte)

(continuação do capitulo anterior)


A CAMINHO DO SEU FINAL


Em 1974, tornava-se evidente que os custos começavam a subir e cada vez menos pilotos e equipas eram capazes de conseguir os carros que queriam para uma competição local como aquela. Num pelotão onde metade dos carros não eram de Formula 1, começava-se a pensar na utilidade desses carros quando haviam alternativas mais baratas, quer na Formula 2, quer na Formula 5000, uma competição que existia desde o inicio da década, onde os motores eram derivados dos Ford e Chevrolet americanos, e que tinha sucesso um pouco por todo o mundo, desde os Estados Unidos até à Austrália.

Apesar do dominio na competição, Charlton e a Scribante decidiram trocar de carro em 1974 para um McLaren M23, enquanto que a Gunston alinhava com dois Lotus 72E para Ian Scheckter e Paddy Driver. Eddie Keizan continuava com o Tyrrell 004, enquanto que John Love tinha por fim pendurado o capacete para se dedicar a dirigir a equipa Gunston.

A temporada foi praticamente um duelo entre Charlton e Scheckter, Gunston contra Scribante. Charlton começou bem, vencendo as cinco primeiras corridas do ano, vencendo depois em Kyalami, no Rand Winter Trophy, enquanto que na segunda parte, Scheckter foi o melhor, vencendo as quatro últimas provas de seguida, depois de ter vencido no Natal Winter Trophy. Mas Charlton foi mais regular e venceu o campeonato com 76 pontos, mais nove do que o irmão mais velho de Jody Scheckter, que por esta altura já brilhava nas pistas mundiais com um Tyrrell 007.

Em 1975, o pelotão estava cada vez mais pequeno, e os custos cada vez maiores. Sem estrangeiros a competir no campeonato, e com um calendário exclusivamente sul-africano (naquela temporada não foram mais à Rodésia), a "corrida aos carros" continuava, com Scheckter a comprar um Tyrrell 007, que tinha pertencido ao seu irmão, enquanto que Charlton mantinha o McLaren M23.

Como em 74, o duelo voltou a ser Scheckter contra Charlton, dividindo as vitórias entre si. E as coisas foram ainda mais apertadas, pois o primeiro desistiu na prova inicial, em Killarney, e no Natal Spring Trophy, enquanto que Charlton fora desclassificado em Goldfields, devido a irregularidades quando fazia a troca de pneus nas boxes. Na véspera da corrida final, o Rand Spring Trophy, em Kyalami, e aproveitando a desistência de Scheckter no Natal Spring Trophy, Charlton liderava com 48 pontos, contra os 47 de Scheckter, e eles sabiam que quem acabasse na frente, ganharia.

A 4 de outubro, em Kyalami, oito pilotos alinhavam para aquele que viria a ser a última corrida da história da Formula 1 sul africana. Para além de Schrckter e Charlton, estavam também Guy Tumner, Tony Martin, Roy Klomfass, Len Booysen, Noddy Limberis e André Vervey. Eddie Keizan acabou por não participar na corrida.

No final foi um duelo entre ambos, mas Scheckter puxou pelo seu Tyrrell e no final das 32 voltas à pista, acabou como vencedor e tornou-se campeão nacional, batendo Charlton no seu jogo. Guy Tumner ficou com o lugar mais baixo do pódio, na corrida que fez descer o pano de uma era no automobilismo sul-africano.


E DEPOIS DISTO TUDO?


Em 1976, a federação sul-africana decidiu que o campeonato continuaria a ser disputado com carros da Formula Atlantic, mais baratos do que os Formula 1. Isso foi demais para a United Tobbacco, que decidiu retirar o apoio às equipas que sustentava, a Gunston e a Lextington. Para Charlton, que estava perto dos 40 anos, achou que era altura de novos horizontes, quer na Endurance, quer nos Turismos, continuando a correr até 1990.

Sem Charlton, Ian Scheckter dominou, vencendo nas quatro temporadas seguintes com chassis March, onde pelo meio iria fazer uma temporada na Formula 1, em 1977 pela March, que já estava no seu estretor. Como seria de esperar, não houve resultados relevantes. Voltou a vencer em 1983 e 84, quando a Gunston regressou ao automobilismo, e esses campeonatos continuaram até 1986, quando Wayne Taylor foi o vencedor num Ralt-Mazda de Formula Atlantic.

Quanto ao irmão, sem passar por ali, teve uma carreira ilustre. Vice-campeão do mundo em 1977 pela Wolf, foi campeão dois anos mais tarde, pela Ferrari, antes de se retirar no ano seguinte, aos 30 anos de idade. Não mais viveu permanentemente na África do Sul, tendo decidido viver primeiro nos Estados Unidos, onde teve um negócio bem sucedido na industria do armamento, e depois na Grã-Bretanha, onde tem um negócio de agricultura biológica.

John Love ainda andou nos anos 80 com a sua própria equipa nos Turismos sul-africanos, antes de se reformar e gerir um concessionário da Jaguar em Bulawayo, no Zimbabwe. Acabaria por morrer em 2005, aos 80 anos, vitima de um cancro, três anos antes do seu compatriota Sam Tingle, aos 87 anos, na Cidade do Cabo. Dave Charlton morreria em fevereiro de 2013, também vitima de cancro, aos 76 anos.

Hoje em dia, desde Scheckter, não houve mais qualquer piloto sul-africano na Formula 1, apesar da corrida sul-africana ter ficado no calendário até meados da década de 80, num tempo em que se desafiava abertamente o boicote desportivo ao regime do apartheid. Somente em 1985, depois de uma forte pressão internacional, é que a Formula 1 saiu dali, regressando apenas em 1992, quando esse regime acabou por cair. Contudo, desde 1994 que a Formula 1 não visita o país.

Em jeito de conclusão, a história de um campeonato nacional de Formula 1 parece ser algo estranho nos dias de hoje, dada a elitização da competição e o facto destes carros serem muito caros para o bolso médio, mas quem segue a história do automobilismo, sabe que houve um tempo em que ter um carro destes era bem mais barato do que na atualidade, e com as equipas a construirem vários chassis para venda, era possível uma história destas.

sábado, 19 de dezembro de 2015

A história do campeonato sul-africano de Formula 1 (Parte 3)

(continuação do capitulo anterior)


O PRIMEIRO PATROCINADOR DA FORMULA 1


No primeiro de janeiro de 1968, foi abolida a lei que obrigava as equipas a pintarem os seus carros de acordo com as cores dos seus países. Ou seja, os britânicos não eram mais obrigados a andar de verde, os franceses de azul, os italiano de vermelho ou os americanos de branco com faixas azuis. E isso fez com que os carros pudessem ser pintados de acordo com os seus patrocinadores.

A lenda conta-se que o primeiro a fazer isso foi Colin Chapman, que contactou a Imperial Tobacco sobre se não queriam ter o seu produto nos Lotus de Jim Clark e Graham Hill, logo em janeiro, quando estivessem a correr na Tasman Series. A troco de 60 mil libras para a Formula 1 e a Formula 2, e porque Geoffrey Kent, o presidente da Imperial Tobacco, achou "patriótico patrocinar uma equipa de Formula 1", Chapman ficou creditado como o percursor dos patrocínios na categoria máxima do automobilismo.

Na realidade, não foi bem assim. Na passagem do ano de 1967 para 1968, os pilotos estavam em paragens sul-africanas para correrem na primeira prova do ano, em Kyalami, e entre os Brabham e Lotus verdes, os Ferrari vermelhos e os Matra azuis, havia uns estranhos carros laranjas e castanhos. Eram os carros de John Love, Sam Tingle e Basil van Rooyen, pintados com as cores do seu patrocinador, os cigarros Gunston. Love alinhava num Brabham, Tingle no seu LDS e van Rooyen no Cooper T79 que quase tinha levado Love à vitória no ano anterior. 

Não era um patrocinador novo, pois estava com Love desde 1962, mas nunca pode usar as suas cores nos chassis dos carros que ele arranjou ao longo desses anos. Contudo, com o fim do regulamento que restringia a decoração dos carros às cores nacionais, eles decidiram aproveitar logo no primeiro dia.

Contudo, em termos de corrida, isso de pouco lhes valeu, pois Love não conseguiu mais do que o nono lugar, e o único a chegar ao fim, sendo o melhor dos locais numa corrida marcada pela 25ª e última vitória de Jim Clark na sua carreira, quatro meses antes do seu acidente mortal, em Hockenheim.

Em termos de campeonato nacional, alguns pilotos aproveitaram a proximidade do GP para correrem na primeira prova do ano, em Killarney. Jean-Pierre Beltoise levou o seu Matra à corrida e foi o vencedor, na frente de Jackie Pretorious e Sam Tingle, enquanto que Dave Charlton e John Love desistiram. Mas depois, Love venceu as três provas seguintes, o Rand Autumn Trophy, o Coronation 100 e o Republic Day Trophy, com Pretorious o unico a acompanhá-lo. Basil van Rooyen ven eu no Natal Winter Trophy, numa altura em que Love já tinha um Lotus 49, para vencer em East London e no Rand Winter Trophy, em Kyalami. Jackie Pretorious e Dave Charlton venceram nas duas corridas seguintes, mas Love voltava a ser campeão, com um avanço de 14 pontos sobre a concorrência mais próxima.


A PASSAGEM DO TESTEMUNHO


Parecia que por esta altura não haveria rival para o piloto rodesiano a não ser um seu compatriota, Sam Tingle, este um pouco mais velho do que ele (em 1968 tinha 47 anos!), mas no horizonte já espreitava um piloto com talento, mas sem uma máquina à altura, pois parecia que a Gunston tinha dinheiro mais do que suficiente para conseguir as máquinas mais desejadas da competição. A grande rival da Gunston era a Scuderia Scribante, uma equipa feita no inicio da década por Neville Lederle, para os seus carros, mas que depois foi gerido por Alex Blignaut, que tinha sido piloto em 1963, sem resultados de relevo. Em 1966 passou para o dirigismo, quando Lederle abandonou o automobilismo, mudando o nome para Scuderia Scribante e recrutando Dave Charlton para ser seu piloto.

Nascido a 27 de outubro de 1936 em Brotton, no Yorkshire inglês, Charlton veio para a África do Sul aos dez anos de idade. Cedo abandonou a escola e envolveu-se no automobilismo, primeiro na mecânica, e depois começando a competir, logo em 1960, aos 24 anos, num Austin Healey, vencendo a sua primeira prova, em East London. Contudo, só se virou para o campeonato em 1965, com um Lotus 20 da Ecurie Tomahawk, não conseguindo qualificar-se para a corrida.

No ano seguinte, porém, foi para a Scuderia Scribante, onde ficaria o resto da sua carreira, tornando-se no grande rival de John Love. Venceu três corridas em 1966 (Khumalo, Lourenço Marques e Kyalami), acabando no terceiro lugar do campeonato, e no ano seguinte, duas em Kyalami (Rand Autumn Trophy e o Rand Spring Trophy), sempre num Brabham BT11, acabando de novo no terceiro lugar, atrás de Love e Tingle. Em 1968, a bordo de um Lola-Chevrolet, apenas venceu o Rand Spring Trophy, em Kyalami.

Em 1969, a fasquia ficou bem elevada. A Gunston tinha comprado um Lotus 49 para Love, e ele dominou a competição, enquanto que Charlton apenas conseguiu uma vitória em Khumalo, com o seu Lola. Sabendo que as coisas teriam de se mudar, se queriam quebrar o dominio de Love, teriam de ficar a par em termos de máquina, senão superá-lo. Assim sendo, também arranjaram a máquina do momento, um Lotus 49 ex-de fábrica.

A temporada de 1970 parecia que iria ser como as outras, pois Love vencera na prova de abertura, a 10 de janeiro, na Cape South Trophy, em Killarney. Charlton tinha desistido, mas na Highveld 100, a 31 de janeiro, em Kyalami, Charlton vencia, com Love em segundo, e o mesmo resultado se repetiria na Coronation 100, em Pietmaritzburg. Mas a 6 de junho, quando regressaram a Kyalami, para o South African Republic Festival Trophy, Charlton foi segundo, numa corrida ganha por Pieter de Klerk, mas o seu rival Love tinha sido apenas o sexto.

Apesar desta vantagem, parecia que tudo voltaria à estaca zero quando desistiu na Bulawayo 100, em terras rodesianas, pois o vencedor tinha sido Love. Mas a partir dali, Charlton venceu as cinco provas seguintes, terminando o campeonato como vencedor, com 69 pontos contra os 37 de Love. Pela primeira vez desde 1964, havia um campeão diferente, e Charlton, doze anos mais novo do que Love, era o símbolo do futuro.

(continua amanhã)