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segunda-feira, 9 de março de 2026

As imagens do dia






Depois da tragédia da Lagoa Azul, no primeiro dia do Rali de Portugal de 1986, e do boicote dos pilotos de fábrica, a prova continuou, porque a FISA quis. Aliás, depois de ter acabado, Jean-Marie Balestre escreveu uma carta para a organização do rali, então liderada por César Torres, a elogiar a sua atitude e não cair na tentação de o cancelar por inteiro. E claro, a prova iria contar para o campeonato, quisessem ou não os pilotos e as equipas de fábrica.

Contudo, um rali só com privados, boa parte deles locais, causou impacto no publico. Não foi só o acidente, que acabou por matar três pessoas, mas sem gente como Markku Alen, Timo Salonen, Walter Rohrl, Stig Blomqvist ou Hannu Mikkola, entre outros, as pessoas não tinham motivo para ir ao Confurco, nos arredores de Fafe, para ver os carros saltarem. E o rali ficou reduzido a uma disputa entre pilotos locais. Sem Joaquim Santos, que se acidentara no primeiro dia, restou a outros para fazerem as mais de 40 especiais desse rali que tinham pela frente, depois da primeira parte na Serra de Sintra. 

Depois de quatro dias duros, o vencedor acabou por ser Joaquim Moutinho, no seu Renault 5 Turbo, que bateu o Lancia 037 de Carlos Bica. No lugar mais baixo do pódio, apareceu o italiano Giovanni del Zoppo, num Fiat Uno Turbo de Grupo A inscrito pelo Jolly Club, mostrando que apesar de tudo, houve estrangeiros que continuaram a competir neste rali, embora a grande maioria fossem privados. 

Moutinho acabou a entrar na história do WRC como o primeiro e único português a ganhar um rali. Mas o próprio Moutinho, que acabaria por morrer em 2019, aos 67 anos, afirmou tempos depois que a sua vitória foi mais um "chegar em primeiro", porque pura e simplesmente foi acelerar e conseguir poupar a máquina, porque o rali era, nesses tempos, bem duro, e as especiais, com as suas estradas de terra, também. 

Em suma, o resto do rali foi sem história. Mas a escassez de pessoas e os eventos do primeiro dia tinham feito os seus estragos. E agora que sabemos o final desta história, era apenas o anuncio de que coisas piores estavam para vir...  

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

A imagem do dia




Faz esta sexta-feira cinco anos que Joaquim Moutinho deixou-nos, e como há uns dias, o meu texto sobre o Rali do Algarve de 1984 teve sucesso nas redes por aqui, acho que mais um texto sobre ele não fax mal algum. Mas tenho de falar de uma coisa: o rali de Portugal de 1986. E um pouco sobre o panorama português da altura. Em suma, é uma continuação de eventos passados.

Depois de Joaquim Moutinho ter sido impedido de ganhar o campeonato de 1984 - depois se viu que nada tinha a ver com manobras da concorrência, apenas uma aposta ilegal - os alertas estavam dados na Diabolique: o carro estava desatualizado. Não só hawia uma equipa oficial como até alguns privados, como António Rodrigues, tinha arranjado um carro melhor, um Lancia 037 e mostrado performance. 

Curiosidade à parte: o 037 tinha sido adquirido para andar no campeonato de Montanha de 1984, mas como andava bem nos ralis em asfalto, ele usou-o no rali de Portugal. Inscrito no Jolly Club, no final da primeira etapa acabou na... quarta posição, andando mais rápido que alguns carros oficiais. Contudo, sem peças sobressalentes, decidiu abandonar no inicio da segunda etapa.

Mas a Diabolique era fiel à Ford, e esta se arrastava com o seu Grupo B, então em desenvolvimento. E em 1985, eles sofreram, e Moutinho conseguiu, por fim, o seu título nacional. E claro, foi o melhor português no rali de Portugal, o "outro troféu" que naqueles tempos os pilotos locais almejavam. Mas no final de 1985, a Ford, por fim, tinha o seu carro: o RS200. O primeiro Grupo B real que os ralis portugueses iriam ver na estrada. 

A temporada começou com uma desistência no Sopete, na Póvoa de Varzim, com um problema na caixa de velocidades. E no inicio de março, era o rali de Portugal. Na lista de inscritos, Moutinho era o 14, Santos o 15, e Carlos Bica - que mais tarde iria ganhar quatro campeonatos de ralis seguidos - era o 18, num Lancia 037.

A manhã do primeiro dia tinha três passagens triplas na Serra de Sintra: Lagoa Azul, Penina e Serra de Sintra. Os carros de fábrica ficavam com os dez primeiros lugares, com Moutinho a ser melhor, na 11ª posição, mas enquanto os carros de fábrica iam para a especial seguinte, Joaquim Santos tinha a sua chance de acelerar nas estreitas estradas de Sintra no seu novo Ford. Mas estava cheio de espectadores (as três especiais em Sintra poderiam atrair até meio milhão de pessoas!), que estavam perigosamente perto dos carros que passavam a mais de 120 km/hora, e quando Santos tentava desviar de um espectador, perdeu o controlo e entrou dentro de um grupo de espectadores. Três acabaram por morrer - uma mãe e a sua criança de 11 anos, mais um adolescente de 18 anos - e 33 feridos. 

Os pilotos de fábrica, quando souberam do acidente, sabiam que era demais. Sabiam que era um perigo desde há anos, piorando com as edições mais recentes, e um acidente sério era uma questão de tempo. No final dessa especial, rumaram para o Hotel Estoril-Sol, centro do rali, reuniram-se e decidiram pelo boicote. O anuncio à imprensa foi feito por Henri Toivonen.

O rali prosseguiu, com os pilotos privados. Sem Joaquim Santos, Joaquim Moutinho tratou de controlar o avanço para Carlos Bica e rumou até ao final. Mas, traumatizados pelos eventos na Serra de Sintra, muito menos gente acompanhou aquilo que era um rali com quase nenhuns carros de Grupo B. No final, Moutinho entrava na história por ser o primeiro (e até agora, único) português a ganhar uma prova oficial do WRC. Um triunfo amputado, sem dúvida.

Ainda a curar as feridas, prosseguiu o duelo. Santos ganhou na Figueira da Foz, a primeira prova ganha por um Grupo B, Rota do Sol, Alto Tâmega e Algarve, mas Moutinho também ganhou quatro ralis e oi mais regular, sendo campeão. Apesar do seu carro pegar fogo nos Açores, depois de um capotanço, e dele sobrar a estrutura e pouco mais... mas ao contrário de Toivonen, na Córsega, ele saiu sem ferimentos. 

No final da temporada, com o bicampeonato, Moutinho decidiu pendurar o capacete. Fica a homenagem a um dos melhores pilotos do seu tempo e os duelos que deu a um dos dominadores de um tempo nos ralis nacionais.        

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

As imagens do dia




Há 40 anos, quem assistia ao campeonato nacional de ralis tinha de responder a esta pergunta: apoiavas o Joaquim Santos ou o Joaquim Moutinho? E a coisa era tal que, no rali final do campeonato de 1984, alguém decidiu colocar um tronco de árvore para resolver as coisas à sua maneira. Se quisermos, é a história de um fanático que queria que o seu piloto ganhasse. E claro, eles foram inocentes neste caso... se ouvirmos uma parte da história. 

Poderemos contar esta história a partir de 1980, quando Miguel Oliveira, um médico do Porto, decide criar uma equipa, a Diabolique. E para espalhar o nome, decidiu criar... um perfume. Sim, um perfume. O que interessa é que a coisa resultou, de uma certa maneira, e ele contratou um piloto promissor, de Penafiel, chamado Joaquim Santos. Com um Ford Escort 1800 de Grupo 4, eles se tornaram na melhor equipa de ralis em Portugal, ganhado títulos em 1982 e 1983, e sendo o melhor piloto local no rali de Portugal. 

Nessa altura, a Renault Portuguesa decidiu apostar nos ralis, e adquiriu um Renault 5 Turbo2, um híbrido entre o Grupo 4 e o Grupo B, porque tinha duas rodas motrizes. Para o lugar de piloto, contratou Joaquim Moutinho, e conseguiu colocar Joaquim Santos em sentido, fazendo com que o campeonato de 1984 fosse um bem forte, a "batalha dos Joaquins", contra um terceiro piloto, António Rodrigues, que tinha conseguido alinha com um Lancia 037, outro duas rodas motrizes, ao ponto de, quando chegaram ao último rali da temporada, no Algarve, Moutinho tinha conseguido o ceptro sobre Santos.

Mas no rali em si... a história é outra. Existente desde 1972, sempre em terra e com fama de ser duro para os carros, tinha entrado na história por, em 1980, ter sido o rali de estreia no Audi Quattro, e por estar no calendário do campeonato europeu de ralis, este ter sido ganho por estrangeiros. E não era excepção em 1984, mas com menos estrangeiros. Mas no campeonato nacional... estava ao rubro. 

No final daquele rali, um Joaquim seria campeão.

Em 1984, os ralis não eram o que são hoje: três dias, 30 especiais, com o total de 224,58 quilómetros em troços cronometrados! Duro, bem duro.

Moutinho foi logo para a frente, e começou a abrir uma vantagem para Joaquim Santos, e parecia que as coisas estavam controladas. Mas na segunda passagem pela Perna da Negra, Moutinho sofre dois furos e cai na geral, deixando Joaquim Santos na liderança.

Anos depois, em maio de 2016, Moutinho contou numa entrevista à revista do ACP (Automóvel Clube de Portugal) que tinha sido sabotado... por duas vezes! 

"A primeira [sabotagem] durante a primeira etapa, a umas três classificativas do seu final. Uma geringonça obrigou-nos a passar por um determinado sitio, quase por fora da estreita classificativa, onde terão sido colocados pregos. Resultado: de comandante da prova, passamos para sétimo ou oitavo lugar. Assim ficou determinado o nosso lugar na ordem de partida para o dia seguinte, para a segunda etapa. As condições que enfrentamos foram do pior. Ainda assim, chegamos ao final da segunda etapa em terceiro da geral. Precisávamos de ficar na frente do Carlos Bica [que participava num Ford Escort RS], o que seria uma formalidade durante a terceira etapa."

A terceira etapa tinha passagens duplas por Senhora do Verde, Monchique, Bordeira, Castelejo e Aljezur - Romeiras. Na 27ª especial, a três do final, Moutinho tinha o segundo lugar na mão - e o campeonato - quando uma barra de erro com espigões apareceu na saída de uma curva, sem que ele tivesse chance de o evitar, furando os quatro pneus, tirando todas as chances de terminar a prova. E quem o tenha feito, provavelmente levou o segredo para a cova. 

Moutinho ainda afirmava, amargurado, anos depois, que tinha sido a concorrência a fazer isso: "uma diabólica mente ordenou uma diabólica sabotagem, com sucesso". 

Para quem assiste aos ralis em Portugal, hoje em dia, fica espantado em saber que estas coisas aconteceram num passado distante, mas falamos de um tempo onde a cada rali de Portugal, centenas de milhares de pessoas iam assistir a carros muito rápidos a passar a menos de meio metro deles. E no tempo dos Grupo B! 

Hoje em dia, ambos os pilotos já morreram - Joaquim Moutinho, em novembro de 2019, Joaquim Santos em março de 2024 - e um dos carros que deu espetáculo nas estradas nacionais e ganhou um rali de Portugal - a infame edição de 1986 - também não existe mais, pois ardeu nos Açores, em agosto de 1986. Contudo, sempre é de bom tom recordar um episódio que marca os ralis nacionais pela infâmia.   

domingo, 24 de novembro de 2019

A imagem do dia

Na minha homenagem que fiz ontem ao Joaquim Moutinho, bi-campeão nacional de ralis em 1985 e 86, único vencedor português numa prova do WRC, morto na sexta-feira aos 67 anos, deixei de lado um capítulo da sua curta, mas fulgurante carreira nos ralis nacionais, a bordo do mítico Renault 5 Maxi Turbo - a matricula NG-81-41 entrou no imaginário nacional de uma geração. Esse episódio aconteceu no Rali do Algarve de 1984, que como agora, era a prova de encerramento do Nacional de ralis. E é um episódio que entra na história pelos piores motivos.

Naquele ano, como já tinha dito ontem, Moutinho, apoiado pela Renault Portuguesa, entrou de rompante no panorama nacional de ralis, contra Joaquim Santos e o seu Ford Escort RS, inscrito pela Diabolique, a equipa montada pelo Miguel Oliveira, seu navegador. E aquela temporada tinha sido a de um verdadeiro duelo entre os "Joaquins" que empolgava os fãs e fazia vender jornais.

E tudo iria ser resolvido no Rali Algarve. Aí, o duelo Ford vs Renault era forte, pois era um vencia, ora outro respondia com o melhor tempo na classificativa seguinte. Contudo, na zona de Monchique, alguém - nunca se soube quem - colocou uma barra de ferro com dentes pontiagudos, no intuito de fazer colocar Moutinho fora da estrada. Quando o Renault passou, todos os quatro pneus furaram e ele não teve outro remédio senão abandonar, entregando o título para Santos. Ninguém acredita que tenha sido um ato da concorrência, mas todos aceitam a ideia de que foi um acto de vandalismo puro e duro. Anos depois, Moutinho ainda ficava perturbado com esse acto, que considerava como "nojento".

Mas depois de ter mostrado o que tinha a mostrar, Moutinho estava imparável nos dois anos seguintes, vencendo ambos os campeonatos, e forçando a concorrência a ir arranjar um Grupo B, o Ford RS200, cujas consequências foram os que soubemos na Lagoa Azul... e deu a Moutinho a sua vitória mais amarga da sua carreira.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

A imagem do dia (III)

A meio dos anos 80, nos ralis em Portugal, apoiavas um Joaquim. O problema era no apelido. Se fosse um Ford Escort, era o Santos, apoiado pela estrutura da Diabolique. Se fosse um Renault 5 Turbo, o apelido era o Moutinho. Ambos eram velozes, e tinham sempre boas máquinas onde poderiam mostrar os seus talentos. 

Em 1985, Joaquim Moutinho tinha uma extensa carreira atrás de si. Tinha começado em 1972 no Rali Académico, com 20 anos de idade, estado na velocidade, guiando o Porsche de Grupo 5 na Velocidade e um Opel Commodore GS/E de Grupo 1. Era um piloto de velocidade, de circuitos, até que em 1983, faz o Rali da Madeira num Renault 5 Turbo. Quem lá estava era Patrick Landon, um homem da Renault Sport, que o convidou para fazer ralis integrado na Renault Portuguesa. Um carro oficial, verdade, mas ele considerava um bólide difícil de alinhar. 

O desafio era bom demais e ele aceitou. Navegado por Edgar Fortes, o seu primeiro rali foi o Rali Sopete, em 1984, acabou a vencer e a partir dali, foram quinze vitórias em provas de ralis, sendo que o mais famoso dos quais foi em 1986, no tristemente célebre rali de Portugal. O primeiro - e até agora único - piloto português a vencer uma prova do WRC. Mas ele mesmo disse que, dadas as circunstâncias, não teve o mesmo gosto dos outros triunfos.

E pelo meio, dois títulos nacionais, graças quer à velocidade de ponta do piloto, quer ao carro, um dos melhores e não sendo um "grupo B puro". Aliás, o primeiro Grupo B puro foi o Ford RS200 de Joaquim Santos, que ironicamente, foi o protagonista do tristemente célebre acidente da Lagoa Azul.

O Renault 5 Turbo não teve um final feliz. No Rali dos Açores de 1986, o carro teve um problema e viu-se consumido pelas chamas. No final desse dia, o piloto decidiu abandonar os ralis, pois tinha cumprido o seu dever.

Joaquim Moutinho morreu hoje, aos 67 anos. Estava doente há algum tempo. Assim fecha uma era nos ralis neste retângulo à beira-mar plantado, uma em que coincidiu a minha infância. Ars lunga, vita brevis.

terça-feira, 8 de março de 2016

A imagem do dia

Faz hoje precisamente 30 anos que um piloto português alcançou a sua única vitória no WRC. E as circunstâncias dessa vitória são bastante conhecidas. Joaquim Moutinho foi o grande beneficiário de um rali de Portugal considerado com um dos mais agitados de sempre.

Dois dias antes, o seu grande rival, Joaquim Santos, perdera o controlo do seu Ford RS200, matando três pessoas, na Lagoa Azul, no culminar de um tempo onde os carros eram cada vez mais velozes e os espectadores eram cada vez mais numerosos. Só na Serra de Sintra, onde as classificativas eram feitas, em norma estavam entre 300 e 500 mil pessoas, grande parte delas vindas de Lisboa, para assistir ao espectáculo.

Com o acidente, os pilotos de fábrica tomaram a radical decisão de boicotar o resto do rali, mesmo contra as recomendações da FIA, deixando o resto do rali para os carros de Grupo A, e os melhores portugueses. Santos e Moutinho tinham uma rivalidade que existia desde meados de 1983, com o primeiro, num Ford, e o segundo, num Renault 5 Maxi Turbo como vemos na foto. Santos tinha sido campeão em 1983 e 1984, este último depois de uma decisão controversa no rali do Algarve, onde sabotaram o Renault de Moutinho, colocando troncos pelo caminho, para furar os pneus. Moutinho venceu em 1985, apenas porque o Ford Escort 1800 de Santos já dava sinal da idade, e sofria porque a Ford não tinha feito um carro de Grupo B quando deveria ter feito.

No final, foi um passeio de Moutinho, pois o segundo classificado, o seu compatriota Carlos Bica, ia num Lancia 037, e ambos tinham dado distância ao Fiat Uno de Giovanni del Zoppo, num carro de Grupo A. Moutinho iria correr por mais algumas temporadas, vencendo o campeonato de 1986, mas depois retirou-se, dando lugar aos quatro títulos de Bica, a bordo dos Lancia Delta.

E o carro que vêm já não existe: ardeu durante o Rali dos Açores desse ano. 

sábado, 5 de março de 2011

Os vinte e cinco anos da tragédia da Lagoa Azul

Já passaram 25 anos, mas as pessoas da minha geração reconhecem que isto foi um separar das águas em relação ao comportamento dos espetadores no rali de Portugal. Foi também um dos “princípios do fim” dos carros do Grupo B, que com os seus chassis tubulares e feitas de fibra de plástico (carros bolha) e motores Turbo, eram cada vez mais velozes e cada vez mais difíceis de controlar. Para poder explicar o que aconteceu naquela quarta feira, 5 de março de 1986, tenho de ir um pouco atrás e tentar explicar a aqueles que não costumam ver ralis ou que ainda não eram nascidos aquilo que se vivia nessa altura do Mundial de Ralis.

Primeiro que tudo, o Rali de Portugal é um dos poucos que fazem parte do calendário inicial do Mundial, que começou em 1973. Sendo um dos poucos eventos que colocava este pais no calendário do desporto motorizado, atraia multidões por onde passava, ao longo do pais. Desde a sua partida, em Lisboa, até a Fafe, no norte do país, passando por zonas como Arganil, Figueiró dos Vinhos e Viseu, no centro do país, centenas de milhares de pessoas assistiam nas bermas da estrada a passagem de carros velozes como o Lancia 037, o Peugeot 205 Turbo ou o Audi Quattro.

Contudo, o comportamento dos espetadores muitas vezes deixava a desejar. Temerários ou simplesmente estúpidos, milhares de jovens arriscavam a vida e somente se desviavam dos carros no último momento, colocando sempre os pilotos com o coração nas mãos e manter a concentração em níveis muito elevados, pois para além de tentarem evitar as bermas, tinham também de evitar os espetadores.

Uma pequena história desse tempo: um grupo de rapazes tinha apostado quem era capaz de tocar em um dos carros que passavam na subida à Lagoa Azul. Quando passou o Audi Quattro de Hannu Mikkola, com os seus 600 cavalos a voar baixinho, um dos apostadores resolveu mesmo tentar tocar no carro! Conclusão: Mikkola seguiu para o fim da classificativa e o “espertalhão” para o hospital de Cascais, com a mão partida.

Em 1986, estava-se em plena era dos “grupo B”, carros ultra-potentes com motores Turbo e com uma relação peso/potência desequilibrado: havia carros com cerca de 500 quilos e potências superiores a 800 cavalos. Contudo, a escolha de carros era rica e vasta: Para além da Audi, Peugeot e Lancia, estavam também a MG, com o seu Austin Metro Turbo, e a Ford com o RS200 Turbo, e a Renault, com o seu modelo 5 Turbo, entre outros. Essa combinação começava a ser explosiva e os pilotos começavam crescentemente a queixar-se de que não conseguiam controlar esses carros. Conta-se a lenda que quando a Lancia colocou o seu piloto Henri Toivonen a dar algumas voltas ao Circuito do Estoril, o seu melhor tempo teria dado um lugar na terceira fila da grelha de partida do Grande Prémio de Formula 1…

A primeira etapa do rali era feita na zona da Serra de Sintra, nos arredores de Lisboa. O conjunto de classificativas, feitas na zona da Lagoa Azul, atraiam uma larga população, que quer ver os velozes carros a passar sobre as estradas asfaltadas da zona. Segundo a policia, naquele ano estariam cerca de meio milhão de pessoas, e estes tinham muita dificuldade em controlar essa multidão. Nesse dia 5 de Março, a primeira etapa consistiam em duas passagens pela Serra de Sintra, de manhã e de tarde, e numa estrada muito estreita, a multidão acumulava-se nas bermas, numa posição perigosa. O primeiro aviso tinha sido dado quando o finlandês Timo Salonen, campeão do mundo em título, tocou com o seu Peugeot 205 um espetador no inicio da primeira classificativa.

Nas primeiras três classificativas, as coisas estavam ao rubro. Henri Toivonen, Massimo Biasion e Markku Alen, pela Lancia, lutavam pelo comando, contra o Audi de Walter Rohrl e os Peugeot de Timo Salonen e Juha Kankunnen, os Austin de Tony Pond e Malcom Wilson e os Ford de Stig Blomqvist e Kally Grundel, e os pilotos locais tentavam acompanhar os oficiais: Joaquim Moutinho, no seu Renault 5 Turbo e Joaquim Santos, num Ford RS200.

Na primeira classificativa, Joaquim Santos andava a adaptar-se ao Ford RS200, recém adquirido à fábrica e que serviria para o campeonato nacional de ralis, competindo contra Moutinho e Carlos Bica, os seus rivais mais diretos. E foi nessa altura de adaptação que a tragédia aconteceu. A meio da primeira especial, Santos perde o controlo do seu carro - uns falam por tentar evitar dois espectadores, outros falam que passou por uma zona húmida e perdeu aderência – e embate de frente contra um grupo de espectadores. Trina e três pessoas ficaram feridas, e duas pessoas, uma mulher e o seu filho de nove anos, acabaram por morrer. A prova foi interrompida nesse local, mas a organização decidiu prosseguir o rali até ao final da manhã, pois quando aconteceu, os pilotos da frente já estavam na terceira especial.

Quando foram informados do sucedido, os pilotos reagiram: iriam boicotar a prova, com efeito imediato. Reunidos no Hotel Estoril-Sol, decidiram pelo abandono voluntário, em gesto de protesto pela impotência da organização em assegurar as condições mínimas de segurança.

O comunicado oficial foi lido à imprensa por Henri Toivonen, vencedor do Rali de Montecarlo algumas semanas antes.

"As razões pelas quais os pilotos abaixo assinados não desejam prosseguir o Rali de Portugal são as seguintes:

1 – Como uma forma de respeito pelas famílias dos mortos e dos feridos;

2 – Trata-se de uma situação muito especial aqui em Portugal: sentimos que é impossível para nós garantir a segurança dos espectadores;

3 – O acidente no primeiro troço cronometrado foi causado por um piloto que tentou evitar espectadores que estavam na estrada. Não se ficou a dever ao tipo de carro nem à sua velocidade;

4 – Esperamos que o nosso desporto possa beneficiar futuramente com esta decisão."

O diretor de prova, César Torres, aceitou as razões invocadas pelos pilotos, mas decidiu que a prova deveria prosseguir na mesma, mesmo sem os pilotos de fábrica. Os troços de Sintra foram anulados, e o rali prosseguiu um pouco mais a norte, no Gradil. E essencialmente a prova continuou com os pilotos locais a dominarem os acontecimentos. E o vencedor acabou por ser Joaquim Moutinho, que com o Renault 5 Turbo, tornou-se no primeiro – e único até agora – piloto português a ganhar uma prova do mundial de Ralis. Mas os acontecimentos da Serra de Sintra tiveram impato: as classificativas tinham muito menos espetadores.

Apesar dos pilotos terem dito que se retiravam de prova por motivos de segurança, já se notava que estes carros começavam a ser demasiado perigosos para serem controlados. Dali a 58 dias, a 2 de Maio desse ano, na Córsega, Henri Toivonen iria pagar com a vida esse descontrolo das máquinas do Grupo B, e seria também a machadada final destes carros. Jean-Marie Balestre, o presidente da FISA reagiu de imediato ao desastre e declarou de imediato a abolição destes carros na temporada de 1987.

O Rali de Portugal prosseguiu nos anos seguintes, com a organização a impor a segurança em primeiro lugar, pois estava em jogo a sua continuação no calendário do Mundial de ralis. Ele ficou sem problemas até 2001, e não houve mais problemas com o controlo das multidões. Essa era tinha passado. Hoje em dia, o Rali de Portugal continua a estar no campeonato do Mundo, depois de um hiato de cinco anos e respetivo regresso em 2007. Mas agora o rali disputa-se num cenário totalmente novo: o Alentejo e o Algarve substituram as míticas classificativas do Norte e Centro, e pilotos como Sebastien Löeb, Mikko Hirvonen ou Petter Solberg nunca tiveram a ocasião de andar por uma Serra de Sintra onde há vinte e cinco anos, um certo rali de Portugal acabou mal, vítima da sua velocidade e sucesso.