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quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

A imagem do dia



A morte, como sabem, é uma coisa definitiva. Então, com o tabaco a colaborar, ainda mais. E claro, o automobilismo é uma profissão de risco. Aliás, se lerem os bilhetes para as corridas no Reino Unido, está sempre a seguinte frase: "Motorsport is Dangerous".

Mas durante mais de três décadas, entre 1972 até ao inicio deste século, as tabaqueiras, que deram cabo de milhões de pulmões um pouco por todo o mundo, colocaram os lucros da sua atiwidade no automobilismo. Phillip Morris, com a Marlboro, Imperial Tobacco, com a John Plater Special, e R.J. Reynolds, dona da Camel, foram as principais, com outras mais secundarias, como a British American Tobacco, com a Lucky Strike, e a francesa SEITA, que tinha as marcas Gitanes e Gauloises, plasmaram os chassis de inumeros carros de diferentes marcas. E muitos deles criaram fantásticos desenhos, que ficaram na memória de muita gente.

Mas em 1994, a Formula 1 poderia ter visto uma marca de cigarros... invulgar.   

Tudo aconteceu com a Pacific, uma das recém-chegadas à Formula 1, a par da Simtek. Se esta última tinha a cadeia de televisão musical MTV, no caso da Pacific, não tinha nenhum patrocínio importante. Até que surgiu a Death Cigarretes. Sim, leram bem: Cigarros Morte! Apropriado a aquilo que o tabaco pode causar a longo prazo.  

Fundada na Grã-Bretanha em 1991 por BJ Cunningham como Enlightened Tobacco Company, ele investiu as suas poupanças desde logo decidiu fazer uma campanha publicitária satírica, tendo como alvo os jovens. Com uma caveira e ossos cruzados, como no Jolly Roger, a banderia pirata, a marca era vendida nos Estados Unidos, Noruega e Finlândia, e também era vendida através do Luxemburgo, para evitar as taxas britânicas.

No inicio de 1994, Keith Wiggins, dono da Pacific, conseguiu um acordo com Cunningham para colocar autocolantes da Death nos seus carros, provavelmente transformando o bólido num carro preto com a caveira e ossos. O anuncio foi feito na semana do regresso da Formula 1 à Europa, e cedo todos souberam que os carros de Paul Belmondo e Bertrand Gachot iriam ter uma publicidade... invulgar. Os autocolantes chegaram a Imola no Sábado do Grande Prémio e iriam colá-los, porque o negócio iria ser lucrativo, poderia ajudar bastante nas contas da equipa.

Contudo, os eventos do GP de San Marino fizeram com que o negócio fosse abaixo. 

Algo interessante aconteceu enquanto esta matéria estava a ser feita: uma outra versão acabou por aparecer. Numa das redes sociais, nos comentários, colocou-se a história de alguém com conhecimento do assunto que na semana em que a Pacific iria assinar o tal contrato dom a Death, alguns membros foram a Budapeste e começaram a ficar crescentemente desconfiados da natureza do negócio. Acabaram por não assinar porque ficaram convencidos que aquilo pertencia - alegadamente - à máfia húngara. 

Para piorar as coisas, a companhia perdia cerca de um milhão de libras por ano, e publicitar no Reino Unido era cada vez mais complicado, por causa das leis que o governo estava a colocar para restringir a publicidade ao tabaco, apesar da... invulgaridade. Para piorar as coisas, alguns anos depois, tinham sido processados por uma firma de bebidas chamada... Black Death. Foi o suficiente para que em 1999, a companhia declarasse falência e os cigarros saíssem de circulação.     

E claro, agora conhecemos outra frase importante: "smoking causes cancer". Fumar Mata. E há 30 anos, andamos perto de ter tudo... de forma literal. 

sexta-feira, 21 de abril de 2023

Youtube Formula 1 Vídeo: Os patrocinadores "obscuros" da formula 1

Os patrocinadores existem desde sempre no automobilismo, e desde 1968, podem ser qualquer um que não sejam fornecedores de pneus, lubrificantes ou gasolineiras. E desde esse tempo que a Formula 1, um desporto que foi sempre caro, sempre foi também mediático e um autêntico magneto para todo o tipo de pessoas que gostam de dar nas vistas e gostam de gastar o dinheiro deles... mas muitas das vezes, dos outros. 

E ao longo do tempo - e deste lugar, também - se falou de charlatães, esquemas de pirâmide, contagens regressivas para... nada e canais de televisão que não transmitiram corridas porque o patrocinador... era moralmente diabólico (apesar de ser legítimo! Não é, BBC?) Assim sendo, o Nolan Sykes, do Donut Media, decidiu fazer este vídeo sobre os patrocinadores que pululam nas equipas de 2023, e algumas das quais são descendentes das tabaqueiras do passado. Como as firmas de criptomoedas, por exemplo. 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

A imagem do dia


Logo no dia de Ano Novo de 1968, quem observasse as boxes do GP da África do Sul, em Kyalami, repararia num Brabham pintado de cores muito estranhas. O carro, pilotado pelo rodesiano John Love, estava pintado de laranja e castanho, uma cor nada habitual e mais parecido com uma das marcas de tabaco mais conhecidas na região, a Gunston. 

E não era um equívoco: era mesmo um patrocinador, que não uma marca de pneus, de automóvel ou gasolineira. É que desde aquele dia, os carros deixavam de ser pintados com as cores nacionais, podendo pintar no que quiserem, abrindo caminho a carros patrocinados. Até ali, os carros tinham as cores nacionais: vermelho para os italianos, azuis para os franceses, brancos - ou cinzas - para os alemães, laranja para os neerlandeses, verde para os britânicos. Alguns colocavam faixas nos carros - a Lotus tinha uma faixa amarela, a Brabham uma dourada - e pouco mais. 

Mas a queda desse regulamento mudou tudo, e o primeiro a utilizar foi uma marca de tabaco. E de um lugar pouco comum.

Nos anos 60, existiam campeonatos locais de Formula 1, e a mais conhecida era o sul-africano, a par da Tasman Series, onde os pilotos aproveitavam o verão no hemisfério sul, para correr em pistas australianas e neozelandesas. Mas se gente como Jim Clark, Jack Brabham, Bruce McLaren ou Chris Amon iam correr para lugares como Longford, Ardmore, Calder Park ou Pukehoke, nas paragens sul-africanas apareciam os locais como Basil van Rooyen, Dave Charlton ou Jackie Pretorious, acompanhados pelos rodesianos John Love e Sam Tingle. Poucos além dos locais corriam por lá, mesmo por uma ou duas corridas. Mas o panorama era ativo, e bem patrocinado. A Team Guston era a melhor.

Naquela corrida de 1968, Love e Tingle alinharam na corrida com chassis diferentes: o primeiro com um Brabham BT20, de 1966 e usado quer por Brabham, quer por Dennis Hulme, o segundo com um LDS, um chassis local. Partindo de 17º na grelha, Love acabou cinco voltas atrás do vencedor, no nono posto. Tingle, 22º e último, acabou na volta 35 com sobreaquecimento no seu motor Repco.

Esta primeira vez é tão discreta, tão localizada e tão pouco conhecida que muitos estão convencidos que o primeiro carro com patrocínios são os Lotus, com a Gold Leaf. Mas o acordo foi só assinado algumas semanas depois, com os carros a serem pintados na Austrália, quando competiam na Tasman Series. E um acordo bem generoso, para os padrões na altura. Mas isso fica para outra ocasião. 

Contudo, independentemente de quem foi o primeiro, naquela ocasião, a Formula 1 tinha mudado para sempre.  

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

A bolha rebentou?


Desde que a Formula 1 passou a aceitar os patrocínios, em 1968, e a Lotus conseguiu a sua "sorte grande", com o apoio da Imperial Tobacco - 100 mil libras era um valor bem grande nesse ano! - a Formula 1 nunca deixou de precisar de dinheiro de outros lados para manter as suas equipas a flutuar perante os custos que sempre acrescentaram e alimentaram a competitividade. 

O tabaco foi, durante mais de 20 anos, o sangue que fez alimentar essas equipas. A Marlboro, através de gente como John Hogan, financiou equipas e pilotos, como a McLaren, Ferrari, Alfa Romeo e outras mais pequenas. Ela e a John Player Special, faziam parte da Imperial Tobacco, com esta última a apoiar a Lotus até 1986, quando trocou com a R.J. Reynolds, que tinha a marca Camel, que depois apoiou Tyrrell e Williams até 1993. E também a Rothmans, que depois de uma passagem fugaz pela March, apoiou a Williams de 1994 e 1997.

E nem se fala de outras marcas: a Embassy, para a Hill, ou o apoio crónico da Gitanes, a marca francesa que colou os seus adesivos na Ligier até à entrada da Lei Evian, em 1993, que proibiu a publicidade ao tabaco em eventos desportivos. No virar do século, as tabaqueiras "renderam-se" e foram embora, agora regressando com publicidades subliminares, como "Mission Winnow" que está na Ferrari, por exemplo.


Mas depois do tabaco, outras marcas, de outras áreas, apareceram, tentando preencher o vazio. Bancos, operadoras telefónicas, marcas de bebidas, financiadoras, todas tentaram a sua sorte, mas nunca ficaram por muito tempo. Agora, nestes tempos, surgiram as criptomoedas, fenómeno que apareceu no final da primeira década do século XXI, depois da crise de 2008, com o surgimento do Bitcoin, e depois de outras criptomoedas, como a Etherium e outras, que surgiram como cogumelos, mas dos quais tudo que é finança dita "séria" considera um "esquema Ponzi", mas mais elaborado.

Um pequeno parêntesis histórico: Ponzi era o nome de um charlatão italo-americano de Boston que, 80 anos antes de Bernie Madoff, enganou imensa gente com o seu esquema piramidal que caiu com estrondo em 1925, e do qual foi preso por muito tempo. 

Mas, charlatanice ou não, milhares de pessoas com capacidade para apostar nas cripromoedas enriqueceram com elas, e por causa do síndroma FOMO (Fear of Missing Out, em português, Medo de ficar de Fora), elas tiveram uma subida dramática. E bem ricas, as firmas criadas com essa febre das criptomoedas apostaram forte e feio na Formula 1. Falei sobre elas e os acordos bem gordos, no passado mês de fevereiro. Ainda por cima, em dois dias seguidos, pois no segundo, referi os 150 milhões que a Red Bull recebeu este ano, com o contrato que fez com a Bybit e a Tezos. 


E para terem uma ideia, o GP de Miami e a própria Formula 1 tem a crypto.com como patrocinadora. E apostaram pesado, cerca de 50 milhões de dólares... por ano. 

Então, porque falo agora das criptomoedas, menos de um ano depois? É porque a bolha pode ter rebentado.

Desde há umas semanas que os órgãos noticiosos financeiros falam da queda do preço das criptomoedas, ao ponto da crypto.com estar a rever os seus acordos de patrocínio. Para terem uma ideia, tinham feito um acordo com a Champions League no valor de... 495 milhões de euros para as cinco temporadas de validade desse contrato. Agora, esse acordo foi revisto, e eles receberão menos dinheiro nos anos seguintes, simplesmente porque não tem capacidade de receber nos valores que tinham atualmente. 

E esta terça-feira, a Binance comprou a FTX com desconto, por causa de uma "crise de liquidez", depois desta ter tido um saque - retirada de dinheiro - na ordem dos seis mil milhões de dólares - ou euros, que neste momento estão paralelos em termos de cotação. 

E o que tem a ver com a Formula 1? A FTX é uma parceira da Mercedes desde 2019, e teve de rever o seu acordo às pressas, incorporando a nova parceira. E se calhar, com contrato revisto. E se a um foi isso, imaginemos os outros, dependentes de uma "commodity" que é... virtual. E do qual a velha finança não tem confiança alguma.  Existirão cenas dos próximos capítulos, é certo e sabido.


Claro, a Formula 1 sobrevive a tudo isto. Agora com o teto orçamental implementado e as finanças escrutinadas fortemente, para evitar abusos - lembremos da Red Bull, que ultrapassou em pouco mais de cinco por cento e como consequência, foi penalizado com menos tempo no túnel de vento em 2023 - as equipas terão de procurar mais longe para terem os seus orçamentos mais equilibrados. E se calhar, quando o mercado estiver mais estabilizado, eles poderão regressar em força. 

Mas até lá, se calhar, os tempos de prosperidade podem ter acabado.    

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

A(s) image(ns) do dia






Isto surgiu porque nessas redes sociais tão loucas como intrigantes, alguém me perguntou que patrocinador a Arrows usou no GP de Itália de 1983 - e apenas nessa corrida. Uma rápida pesquisa no Google providencia-nos a resposta: o patrocinador (foto 1, com Surer ao volante) é um fabricante de rebuçados. E fiquei espantado: uma equipa de Formula 1 a ser patrocinada pelo equivalente italiano dos rebuçados Dr. Bayard (em Portugal)?  

E depois, comecei a ver as outras fotos da Arrows naquela temporada. Sabia de algumas histórias: que Thierry Boutsen pagou meio milhão de dólares para ter um lugar na equipa. De um dos patrocinadores ser uma revista de automobilismo (foto 4, em Silverstone) - imaginam, amigos brasileiros, a equipa ser patrocinada pela Quatro Rodas? 

Mas foi assim que, há quase 40 anos, a equipa sobreviveu: alugar o espaço corrida a corrida, e um lugar ao preço mais alto. Aliás, bem vistas as coisas, eles tiveram quatro pilotos nessa temporada: começaram com Chico Serra (foto 5, em Paul Ricard, no GP de França), pelo meio entrou Alan Jones (foto 3, na Race of Champions, em Brands Hatch) e a partir de Spa-Francochamps, foi Boutsen que ficou com o lugar até ao final do ano (na foto 2, também em Brands Hatch, mas para o GP da Europa). Aliás, o simpático piloto belga lá esteve até ao final de 1986, altura em que se transferiu para a Benetton. 

No final, a Arrows conseguiu quatro pontos, todos com Surer, e o seu melhor resultado foi um quinto lugar em Long Beach, na frente do Theodore de Johnny Ceccoto, um dos poucos pilotos que andou em duas e quatro rodas, que deu o primeiro ponto da história à Venezuela. O A6 ainda correu no início de 1984, dando mais três pontos nas mãos de Thierry Boutsen, antes de terem os motores BMW Turbo. Mas aí, já tinham patrocinadores mais sólidos que lhes permitiram andar mais desafogados numa categoria onde os custos aumentavam a um ritmo que poucos conseguiam acompanhar.  

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

A imagem do dia


Há mais de 50 anos que a Formula 1 aceita patrocinadores para além das gasolineiras e fornecedoras de pneus. Mas se nos primeiros tempos, os principais financiadores eram marcas de tabaco. Philip Morris (Marlboro), R.J. Reynolds (Camel), Imperial Tobacco (Gold Leaf e John Player Special), Benson & Hedges, Embassy, Gitanes e diversos outros, dominavam as carenagens das equipas desde os anos 70 até ao inicio deste século, quando foram obrigados a irem embora por causa das leis ati-tabágicas que foram implementadas um pouco por todo o mundo.

Contudo, hoje em dia, parece que estão a aparecer um conjunto de patrocinadores que parecem a andar em paralelo com as tabaqueiras. São as firas de criptomoedas, que apareceram nos últimos 12 anos, desde a crise mundial de 2008, e o surgimento da Bitcoin. FTX, Crypto.com, socios.com, Binance, entre outros, patrocinam, em maior ou menor grau, equipas de Formula 1. A Tezos patrocina Red Bull e McLaren, e a crypto.com até é um dos patrocinadores principais da Formula 1.

E sendo as criptomoedas ainda serem algo duvidoso em termos de credibilidade - um BTC poderá custar mais de 45 mil dólares - os outros servem para fazer trocas por moedas mais reais como o dólar e o euro, entre outros. Logo, quem se mete nisto é para ganhar dinheiro... dependendo do bom dia de determinada moeda. E com milhões a investirem por causa do famoso FOMO (Fear of Missing Out), o que se deve saber é que toda esta gente... não existia há mais de uma década. É a industria de crescimento mais veloz no mundo, sem sinal de bolhas a rebentar nos próximos tempos.

É o sinal dos tempos. Graças a bancos de dados, que mineram "virtualmente" um pouco por todo o mundo, consumindo crescentes quantidades de energia, pois há milhões que pretendem enriquecer através desta forma. E com esta gente a ganhar milhares de milhões de dinheiro real, e com as equipas a baterem a porta, pedindo um pedaço desses lucros para se manterem competitivo. Ainda não chegamos ao ponto do que havia nos anos 70 e 80, quando gente como John Hogan, o homem da Marlboro, sustentava carreiras desde James Hunt a Mika Hakkinen, desde os seus tempos iniciais até chegarem à categoria máxima do automobilismo.

Poderá chegar o dia em que haja alguém que calce os sapatos de Hogan e vá buscar talentos, como faz hoje a Red Bull, e os sustente até chegar à Formula 1 e se consolidarem. Mas até lá, até que este parte da economia valha o que valha - provavelmente, com a entrada das versões eletrónicas das moedas reais, e que mudarão a maneira como faremos os pagamentos. E se calhar, dará algum sentido a este tipo de moedas, para além de ser bens especulativos.