domingo, 1 de novembro de 2026

O piloto do dia: Andrea Kimi Antonelli


A Itália é um dos países indispensáveis, sempre que se escreve sobre a história do automóvel, e do automobilismo. Turim acolhe a Fiat, Milão, a Alfa Romeo, Modena, a Maserati, Maranello, a Ferrari, Sant'Agata Bolognese, a Lamborghini, e assim por diante. 

E nomes de pilotos são muitos. Comecese por Vicenzo Lancia, que antes de fundar a marca com o seu nome, foi o primeiro piloto de relevo na história do automobilismo italiano, Tazio Nuvolari é considerado como o melhor de sempre - Ferdinand Porsche apelidou-o como "o melhor piloto do passado, presente e futuro" - e Antonio Ascari foi um dos melhores pilotos do seu tempo, campeão do mundo pela Alfa Romeo em 1924, e pai de Alberto Ascari, campeão do mundo de Formula 1 em 1952 e 53, pela Ferrari. E um pouco antes, Giuseppe "Nino" Farina, sobrinho de Sergio "Pinin" Farina, fundador da casa de design automobilístico Pininfarina, o primeiro campeão do mundo de Formula 1, em 1950.

Contudo, depois dos bicampeonato de Ascari, a Itália não mais ganhou títulos. Mais de 70 anos sem ganhar nada, apesar de terem aparecido pilotos de primeira linha como Luigi Musso, Lorenzo Bandini, Vittorio Brambilla, Riccardo Patrese e Giancarlo Fisichella, entre outros, que venceram corridas na Formula 1, mas nunca o título. 

Mas a 25 de outubro de 2026, em Austin, essa seca acabou. 70 anos depois da Mercedes ter tido Piero Taruffi, a marca de Estugarda acolheu um jovem piloto de Bolonha, talentoso desde que entrou em monolugares e foi treinado para este dia, graças a uma aposta pessoal de Toto Wolff, que viu ali o próximo Lewis Hamilton. E aos 20 anos e dois de idade, bateu um recorde com 15 anos, que pertencia ao alemão Sebastian Vettel, com capacidade de bater mais recordes de precocidade, e arriscar a ser um dos melhores pilotos de sua geração.

E hoje falo do campeão do mundo de 2026: Andrea Kimi Antonelli. 


Nascido a 25 de agosto de 2006, em Bolonha, ele é o filho mais novo de Marco Antonelli e de Verónica Pomaro. Marco Antonelli foi um piloto que se especializou nos GT's e agora é o dono da AKM Motorsport, que corre em competições como o International GT Open, Lamborghini Super Trofeo, Porsche SuperCup e a Formula 4 italiana.

O nome "Kimi" foi dado pelo seu pai, porque ele era, aparentemente, fã de Kimi Raikkonen, mas recentemente, o autor desse nome poderá ter sido um ex-piloto de Formula 1, Enrico Bertaggia, que sugeriu o nome depois do pai lhe ter pedido nomes estrangeiros depois do Andrea inicial, e que não tem nada a ver com o piloto finlandês.

Cedo se meteu no automobilismo, por causa do pai... que o preferia vê-lo no futebol. Cresceu a ver os videos de Ayrton Senna no Youtube - recentemente, soube-se que era consumidor ávidos dos videos feitos pelo finlandês Antti Kalhola - e aos oito anos, no verão de 2014, estava num campo de verão do Automóvel Club d'Itália, foi recrutado pelo filho de Giancarlo Minardi e o colocou numa equipa de karting. Primeiro, no Trofeo Itália, de 60cc, depois, a partir de 2016, com a Tony Kart, onde conseguiu alguns pódios em corridas na Coppa Itália e no Trofeo delle Industrie, e na WSK Super Master Series em 2017. Todos estes resultados forma suficientes para que, no inicio de 2018, aos doze anos, já era piloto da Academia da Mercedes.

Em 2018, já sendo piloto da Mercedes, Antonelli juntou-se à Energy Corse e, nesse ano, conquistou a WSK Champions Cup, a South Garda Winter Cup e a ROK Cup International Final nas categorias "mini", além de ter sido vice-campeão do Campeonato Italiano, batido apenas pelo neerlandês Martinius Stenshorne. Na temporada de 2019, agora piloto da Rosberg Racing Academy, Antonelli avançou para a categoria OK-Junior, a principal categoria internacional de karting para pilotos com menos de 15 anos, e ali, conquistou nada mais, nada menos, que seis títulos internacionais: a South Garda Winter Cup, a WSK Super Master Series, a WSK Euro Series, a WSK Open Cup e a WSK Final Cup, além do seu primeiro campeonato italiano de karting. 

Nesse mesmo ano, disputou pela primeira vez os campeonatos Europeu e Mundial da CIK-FIA; no Europeu, terminou como vice-campeão, atrás de Marcus Amand, depois de vencer a etapa final em Le Mans, enquanto no Mundial conquistou o quinto lugar. Terminou o seu percurso no karting júnior nos Estados Unidos, onde foi vice-campeão da categoria KA100 Junior nos SKUSA SuperNationals, atrás de Brent Crews, e conquistou ambos os títulos da categoria júnior na SKUSA Winter Series, mantendo um aproveitamento perfeito.

Em 2020, Antonelli começa a dominar nas classes seniores do karting. Correndo pela equipa Kart Republic, acabou por conquistar o terceiro lugar na South Garda Winter Cup e o vice-campeonato — atrás de Nikita Bedrin — na WSK Super Master Series. Para além disso, venceu a WSK Euro Series e o Campeonato Italiano. Em setembro de 2020, duas semanas depois de fazer 14 anos, tornou-se o mais jovem campeão europeu da categoria sénior da história, mas ns final do campeonato do mundo, em Portimão, as coisas correram mal: debaixo de chuva, Antonelli embateu no kart da belga Maya Weug, que estava parado na pista, e sofreu fraturas na tíbia esquerda e no metatarso. Apesar do seu final, por causa do seu desempenho geral nessa temporada, Antonelli foi eleito "Rookie of the Year" (Novato do Ano) pela Comissão Internacional de Karting (CIK-FIA).

No ano seguinte, passou para a categoria KZ, e apesar de ainda lidar com as dores das fraturas sofridas no ano anterior, especialmente quando premia o pedal do travão, continuava com os bons resultados. Apesar de ter terminado apenas no décimo quinto lugar na final do campeonato do mundo da classe KZ, conquistou a pole position para as mangas de qualificação. 

No meio disto, Antonelli defendeu com sucesso o seu título no Campeonato Europeu da categoria OK, dominando a temporada com cinco vitórias em oito etapas, e terminou como vice-campeão — atrás de Rafael Câmara — na WSK Champions Cup e na WSK Super Master Series. No final de 2021, o portal Vroomkart avaliou que o percurso de Antonelli no karting "já prenunciava a clássica história de um campeão".


Ainda em 2021, Antonelli contou os dias até fazer o seu 15º aniversário. Porquê? Porque a partir desse momento, poderia competir em monolugares. E foi logo para a Prema, na Formula 4 italiana. Tempos antes, em março, enquanto recuperava da sua fratura na perna, andou a testar alguns carros de Fórmula 4 com a equipa do seu pai, a AKM Motorsport, em Vallelunga. Antonelli participou depois num período de avaliação de cinco dias da Ferrari Driver Academy em Fiorano, para o qual foi nomeado pelo Automobile Club d'Italia (ACI).

Na estreia em monolugares, no Red Bull Ring, terminou em nono lugar — sendo o rookie mais bem posicionado — e somou quatro pontos ao longo do fim de semana. Antonelli voltou a pontuar na etapa seguinte, em Mugello, antes de ter uma prestação de destaque no evento final, em Monza. Terminou em segundo lugar na primeira corrida, após uma disputa que durou toda a prova contra o futuro campeão da categoria, o britânico Oliver Bearman, e conquistou pódios nas duas corridas que faltavam. 

Antonelli terminou em décimo lugar na classificação geral, com 54 pontos — tendo disputado três das sete etapas — e em quarto lugar no campeonato de estreantes, com quatro vitórias na categoria.


Para 2022, manteve-se na Prema, na sua primeira temporada completa da Formula 4 italiana... e acabou campeão. Mas antes, competiu no campeonato de Formula 4 dos Emirados Árabes Unidos, onde correu oito corridas, com duas vitórias e cinco pódios, acabando na oitava posição.

No campeonato italiano, a principal, Antonelli dominou: 13 vitórias, quinze pódios, 14 pole-positions, 15 voltas mais rápidas, e o campeonato, com 362 pontos. Em paralelo com a competição italiana, Antonelli também fez a Formula 4 alemã, acabando como campeão, com nove vitórias e 12 pódios, e 313 pontos no total.

No final, do ano, Antonelli representou a Itália no FIA Motorsport Games, em Paul Ricard, acabando em primeiro na categoria Formula 4, com a pole-position e a volta mais rápida. E num fim de semana... onde, devido a um acidente na qualificação, teve o pulso fraturado.

O palmarés de Antonelli na Formula 4 é impressionante, com 26 vitórias, 24 pole positions e 37 pódios em 57 participações, tornando-se o segundo piloto mais bem-sucedido na história da categoria.O jornalista Roger Gascoigne, do site Formula Scout, afirmou que Antonelli estava "num patamar à parte", ao mesmo tempo que ele recebia os principais prémios atribuídos pela ACI e pela Autosprint.

Dominada a Formula 4, em 2023, Antonelli decide seguir a Prema, e foi para o Formula Regional, uma categoria de Formula 3, ao lado do espanhol Lorenzo Fluxá e do brasileiro Rafael Câmara. apesar de ele afirmar que "tinha falta de experiência", jornalistas como o britânico Marcus Simmons, da Autosport, comparava a expectativa em torno da sua campanha às estreias na categoria de Ayrton Senna, Mika Häkkinen e Max Verstappen, enquanto em Itália, outro jornalista, Salvo Sardina, descrevia no jornal "La Gazzetta dello Sport", como um "predestinato" (literalmente, "predestinado").

A sua temporada no FRECA começou com um segundo lugar em Ímola, feito que repetiu em ambas as provas em Barcelona. Um problema na seleção de mudanças impediu a sua primeira vitória em Hungaroring; posteriormente, conquistou a vitória na segunda corrida em Spa-Francorchamps, uma etapa que ficou marcada pelo acidente fatal do piloto neerlandês Dilano van 't Hoff.

Vitórias posteriores em Mugello, Le Castelet, Monza e Zandvoort, para além de onze pódios, quatro pole-positions e cinco voltas mais rápidas, acabou como campeão, com 300 pontos. 


A ascensão vertiginosa de Antonelli continuou em 2024, quando foi para a Formula 2, continuando pela Prema, ao lado do britânico Oliver Bearman. Já nessa altura tinham surgido os rumores sobre se iria para a Formula 1 em 2025, mas ele tinha dito antes que "não queria criar expectativas". E tinha razão: o começo foi complicado, só conseguindo a sua primeira vitória na primeira corrida de Silverstone. A segunda vitória foi na Feature Race, no Hungaroring, e até ao final do ano, apenas conseguiu um terceiro lugar em Baku como melhor resultado, acabando a temporada em sexto, com 113 pontos, e duas voltas mais rápidas.

Nessa altura, toda a gente falava que iria ser piloto de Formula 1, em substituição de Lewis Hamilton, que iria para a Ferrari. Ele foi confirmado no final de 2024, mas na realidade, ele já testava em carros de Formula 1 desde abril, num W12, no Red Bull Ring. Antonelli realizou testes privados adicionais com o W13 em Ímola, Silverstone, Barcelona-Catalunha e Spa-Francorchamps, e depois de uma nova regra que voltou a permitir aos pilotos obter a Superlicença da FIA a partir dos 17 anos, surgiram rumores de que Antonelli iria substituir Logan Sargeant na Williams, ainda em 2024. A Mercedes negou a possibilidade.

No final desse ano, fez duas participações nos treinos livres em Monza e Cidade do México, e na pista italiana, até bateu depois de um despiste na Parabólica. Rebatendo as criticas, Toto Wolff comparou-o a... Tazio Nuvolari. 

No inicio de 2025, Antonelli foi confirmado como piloto titular, ao lado de George Russell, num acordo anual. Tornando-se no primeiro italiano na Formula 1 desde Antonio Giovinazzi, em 2021, e o primeiro "rookie" na Mercedes desde 1954, com Karl Kling. E aos 18 anos e 203 dias de idade, ele era o terceiro piloto mais jovem de sempre, apenas batido pelo canadiano Lance Stroll e pelo neerlandês Max Verstappen, que tinha-se estreado com 17 anos e 166 dias. E o número que escolhe é o 12, que Ayrton Senna usou nos seus tempos da Lotus, entre 1985 e 87, e no seu primeiro ano na McLaren, em 1988.

A sua estreia, em Melbourne, e debaixo de chuva, fez uma corrida inteligente, onde de 16º na grelha, acabou em quarto, sendo o segundo piloto mais jovem a pontuar, batido apenas por Max Verstappen, quando foi sétimo com 17 anos e 180 dias, no GP da Malásia de 2015. Duas corridas depois, no Japão, acabou em sexto, e ali, conseguia a sua primeira volta mais rápida da sua carreira, e tronava-se no mais jovem de sempre a conseguir uma volta mais rápida, aos 18 anos e 255 dias. 

O seu primeiro pódio demoraria um pouco mais, e foi no Canadá, quando termina em terceiro lugar, tornando-se no terceiro mais jovem de sempre, aos 18 anos e 294 dias, batido apenas por Lance Stroll e Max Verstappen. Voltas mais rápidas em Spa-Francochamps e Austin abrilhantaram um pouco a sua temporada antes de conseguir um segundo lugar em Interlagos, seguido de um terceiro lugar em Las Vegas. No final, três pódios e três voltas mais rápidas foram o culminar de uma temporada onde acabou em sétimo, com 150 pontos, a maior pontuação de sempre para um estreante.

Para 2026, Antonelli fica na Mercedes, que por esta altura de mudança de regulamentos, era considerada a favorita. Mas se falassem em título, todos apontavam para George Russell, com Antonelli, eventualmente, a conseguir algumas vitórias durante a temporada e lutar pelo vice-campeonato. 


Mas realidade mostrou outra coisa. Se em Melbourne, Antonelli ajudou Russell a fazer uma dobradinha da Mercedes, no GP da China, em Xangai, ele conseguiu a sua primeira pole-position da sua carreira, sendo o mais jovem de sempre a alcançar, aos 19 anos e 202 dias, dois anos mais novo que Sebastian Vettel, o recordista anterior. Mais tarde, na corrida, aguentou os Ferrari de Hamilton e Leclerc, e tornou-se no primeiro italiano a ganhar desde Giancarlo Fisichella, em 2006, na Malásia.

O que não se sabia é que seria o primeiro de cinco vitórias seguidas: Xangai, Suzuka, Miami, Montreal e Monaco - o primeiro italiano a ganhar no Principado desde Jarno Trulli, em 2004. Pelo meio, conseguiu ainda mais quatro pole-positions e quatro voltas mais rápidas. Desistências em Barcelona e Silverstone, aliado a um terceiro lugar no Red Bull Ring, foi uma espécie de pausa, antes de ir para uma sequência de cinco pódios seguidos, incluindo vitórias em Spa-Francochamps, Monza - o primeiro italiano a ganhar em 60 anos, desde Ludovico Scarfiotti, em 1966 - e Madring, em Espanha. 

No final, Antonelli conseguiu 340 pontos, oito vitórias, 14 pódios, seis pole-positions e sete voltas mais rápidas, para ser, em Austin, no primeiro campeão do mundo italiano desde 1953. Uma vida, em muitos aspectos. 


E provavelmente, não parará por ali: para começar, faltam quatro corridas para o final de 2026.

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