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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Mais polémica sobre o campeonato feminino

Para quem não sabe, houve eleições na FIA - eu sei, parecendo que não, é uma instituição e não uma empresa - e Jean Todt decidiu continuar a ser presidente, talvez para o resto da sua vida (tem 72 anos), e nomeou vários vice-presidentes para um pouco espalhar o seu poder na instituição. Uma das comissões é a das Mulheres no Automobilismo e ele nomeou para lá uma pessoa que se afirma como piloto, a espanhola Carmen Jordá. A sua carreira é mais do que conhecida, e os seus resultados fazem com que a Milka Duno seja considerada como piloto. Claro, ela está orgulhosa pela sua nomeação, mas houve quem reagisse a essa nomeação. Foi outra piloto, a britânica Pippa Mann.

Mann - que anda na IndyCar e venceu corridas na Indy Lights - reagiu à sua nomeação na sua conta pessoal do Twitter afirmando o seguinte: 

"Querida FIA, se as noticias que ouvi forem as corretas, e vocês nomearam um piloto sem resultados de relevo, que não acredita que compitamos como iguais neste desporto, como representante das mulheres no automobilismo, então estou incrivelmente desapontada. Sinceramente, uma corredora da #Indy500 e uma vencedora na #IndyLights".

Como é sabido, Mann disse esta semana que estava contra a ideia de um campeonato feminino de automobilismo, afirmando que seria uma maneira de perpetuar a segregação entre homens e mulheres, quando a FIA deveria apoiar eram as mulheres que pretendem subir a escada das competições de acesso, mas que não tem condições para tal.

Não negando a Jordá em si, creio que existe uma grande quantidade de mulheres que fizeram resultados bem melhores do que ela. Não vou dizer que conseguiu o seu lugar na Formula 1, como piloto de testes da Lotus, porque era bonitinha e precisavam de uma modelo para posar com um fato e capacete de competição, mas de uma certa forma, apenas deu razão a Bernie Ecclestone quando gosta de afirmar que as mulheres não passam de acessórios. E claro, isso é insultuoso para todos os que acreditam na igualdade e que as mulheres deveriam ter uma chance neste meio.

Contudo, O que se passa neste momento é mais ou menos público: há rumores de um campeonato feminino, do qual querem erguer por volta do final desta década. Há um nome envolvido - outro espanhol, Felix Portero - mas também se ouve que nos bastidores anda Bernie Ecclestone. Mesmo retirado da Formula 1, mesmo ter vendido todas as suas ações, mesmo multimilionário e com quase 90 anos, parece que ele tem o vicio do automobilismo no seu sangue. E de controlar tudo, de uma certa forma. Ainda tem lucidez suficiente para amaldiçoar a Liberty Media, pois ainda tem os seus papagaios para dizer o que pensa, de forma politicamente incorreta, sobre a Formula 1 atual, e se tiver a chance de minar todo o processo, ele fará isso.

Contudo, rumores são rumores, e historicamente, é sabido que ele também nunca gostou muito da FIA. Logo, se é uma jogada para provar o seu ponto de vista sobre mulheres ao volante, então pode-se dizer que é uma jogada muito estranha. Será que ainda tem fome de poder? Ou quererá provar algo?

Uma coisa e certa: Carmen Jordá não é a mulher indicada para estas coisas. Mais parece alguém que gosta dos bastidores e vestiu um fato e fez algumas corridas para poder dizer aos quatro cantos que andou em carros de competição. Se for assim, então, é qualquer um. E claro, o receio que que isto não ajudará a causa feminina é bem real.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Como estragar a causa feminina no automobilismo

Até parece que estamos no espírito da época, mas não. No dia de Carnaval, o site brasileiro Grande Prêmio fala hoje de um desabafo do piloto dinamarquês Marco Sorensen, em que refere que foi dispensado das suas funções de piloto de testes - e simulador - na Lotus, em detrimento da espanhola Carmen Jordá. Sorensen, que andava na World Series by Renault, deu uma entrevista ao jornal local "Exstra Bladet" onde referiu o seguinte:

“Ela [Carmen Jordá] era 12 segundos mais lenta do que eu no simulador”, revelou. “Ainda assim, ela ficou com o prémio. Nos últimos dois anos, passei pelo menos 60 dias no simulador, que é mais ou menos o mesmo de Kevin [Magnussen] na McLaren”, comparou. “Então me senti violado ao ponto de, por fim, isso se tornou demais e eu tive de parar”, justificou.

Não fico surpreso com as afirmações do Sorensen, o que me choca é saber que ela, sendo extraordinariamente lenta, é recompensada, em vez de ser o contrário. Doze segundos é chocante, esperava que fosse metade, pelo menos, mas parece que ali, mais parece uma amadora que veste uma fantasia de Carnaval. É demasiado chocante para ser verdadeiro.

Sabia que Jordá nunca tinha feito nada de relevante. Lembro-me que em 2011, a GP3 teve três mulheres na grelha: a italiana Vicky Piria, a britânica Alice Powell e Jordá. Powell era a que tinha maior potencial, e chegou a pontuar na última corrida do ano com um oitavo lugar. Mas Jordá - que nessa temporada estava na Ocean Racing - era constantemente a última classificada, mais lenta do que as outras mulheres do pelotão. E nem era mais bonita do que elas - pessoalmente, Piria era mais bonita.

Mas vendo estas diferenças, faz com que mulheres-piloto como Danica Patrick serem campeãs do mundo e dignificam outras como... Milka Duno.

Esta decisão, em vez de avançar na causa das mulheres no automobilismo, só vai atrasar. Até parece que é propositado, de as eliminar, as ridicularizar, de dizer que na Formula 1 e em boa parte do automobilismo, não servem muito mais do ser "bibelots" de uma classe dirigente que acha que este é um mundo de homens e deverá continuar a sê-lo. As ciências exatas ainda são, em muitas universidades, um curso masculino, onde aos poucos, as mulheres estão a conseguir uma quota cada vez maior, mas não são a maioria, como já acontece nos cursos de humanidades.

Temos muitas mulheres piloto que mostram que correr no meio dos homens é possivel. Danica Patrick ou Simona de Silvestro são duas delas, e são respeitadas por isso. A primeira já venceu na IndyCar e tenta a sua sorte na dificil NASCAR, e conquista aos poucos a respeitabilidade que pretende ter. Já Simona faz a mesma coisa na IndyCar e agora tenta a mesma coisa na Formula E, embora os resultados não sejam fantásticos. E nas categorias de acesso, aparecem garotas como a holandesa Beitske Visser, que está na Formula Renault 3.5 na sua terceira época seguida, mostrando alguns bons resultados.

Mas para a Formula 1, temo que a ideia de voltarmos a ver uma mulher a guiar no meio dos homens tenha sido adiada por mais uma geração.

No ano passado ainda tinhamos Susie Wolff, terceira piloto da Williams, e com a tarefa de ser piloto de testes da marca. Wolff - ex-Stoddart - teve uma carreira digna no automobilismo, especialmente no DTM, e quando teve a chance de andar num Williams, em alguns fins de semana de Grande Prémio, em 2014 e 2015, até teve uma prestação digna, sem deslumbrar. Contudo, no final do ano passado, anunciou que iria abandonar a sua função na Williams e o automobilismo em geral. Assim, para 2016, ficamos com esta... piloto.

E agora vamos fazer esta pergunta: será que temos de criar uma categoria só para elas? Eu nunca gostei da solução, pois acharia que as colocasse num "gueto", com carros "adequados" a elas. E para piorar as coisas, não há interesse em termos de "marketing" para ter uma competição com vinte mulheres, competindo uma contra outra. Aliás, bem vistas as coisas, hoje em dia, onde arranjariam vinte mulheres-piloto para correr numa categoria dessas?

As meninas, como os meninos, gostam de ter ídolos com que seguir. Se tivermos uma mulher automobilista, teriamos as garotas a tentar a sua sorte atrás do volante até ao topo, ajudados pelos pais ou patrocinadores. Mas sem isso, elas rapidamente mudam-se para outras áreas e perde-se o talento. Ultimamente têm aparecido garotas no karting, que se batem de igual para igual com os rapazes, mas são uma minoria tão grande que quando dão o salto para os monolugares, não conseguem resultados e saem. 

Todos estes factores desencorajam até os defensores da causa feminina no automobilismo. Quando vemos que uma mulher despudoradamente lenta nas categorias de acesso tem uma recompensa como esta, causa revolta entre os que querem ter uma chance e não conseguem. E claro, passa a mensagem errada: tenham uma carinha bonita, não andem muito depressa e pode ser que ganhem o lugar na Formula 1. Isso também é machismo. Aliás, é a melhor demonstração de que as pessoas que estão à sua volta são machistas, porque metem ali uma pessoa que noutras circunstâncias, há muito que estaria a fazer outra coisa na vida.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Quem colocaríamos numa competição feminina? (Parte 3)

Nestas últimas semanas onde se discutiu sobre a condição das mulheres no automobilismo, mais concretamente na Formula 1, chegamos à conclusão de que elas são poucas e a sua qualidade é baixa. Ou se preferirem, nenhuma delas consegue ser boa a suficiente para se conseguir destacar entre os homens. E da minha avaliação pessoal, apenas duas ou três conseguem estar a par deles e por vezes superá-los. A suiça Simona de Silvestro e a americana Danica Patrick são duas pilotos, e ambas andam nos Estados Unidos a provar isso, e há potencial de crescimento em outras pilotos como a inglesa Alice Powell e a holandesa Beitske Visser. Aliás, esta última andou na academia de pilotos da Red Bull, em 2013.

Mas a parte chata é que mulheres piloto são uma gota num oceano, e encontrar talento no meio delas é mais raro do que encontrar metais preciosos. E precisamente quarenta anos depois de Lella Lombardi ter pontuado pela primeira - e única vez - na história da Formula 1, resta ver o que falta para que mais mulheres "dêm o salto" e mostrem que valem e pena competir entre eles, ou será que a ideia de uma competição só para elas, segregada e separada dos homens, é a solução ideal. Durante este tempo, descobri algumas matérias sobre este tema, como a que o Renan do Couto escreveu para o site Grande Prémio, ou então, outra matéria, esta da CNN americana, sobre o mesmo tema.  

É verdade que não há mulheres a entrar numa grelha de Formula 1 desde 1976 - com a mesma Lella Lombardi - e não há tentativas desde Giovana Amati, em 1992, mas falamos de tempos onde era bem fácil guiar um carro de Formula 1. Mesmo sem ter muito talento, um bom patrocinador seria mais do que suficiente para que um piloto tivesse acesso a uma boa máquina. A March, por exemplo, era uma equipa que fazia os seus chassis e os vendia ao melhor preço. E os pilotos mais talentosos ficavam na equipa oficial, como Vittorio Brambilla, que graças à firma de utensílios mecânicos Beta, tinha o seu lugar garantido. E no caso de Lombardi, a firma de cafés Lavazza fazia o truque.

Mas essa parte dos patrocínios não é justificativa para nada, como sabem. A discussão ganhou maior enfoque graças aos anúncios de pilotos como Susie Wolff e Carmen Jordá como pilotos de testes e de "desenvolvimento" em equipas como Williams e Lotus. Aliás, quando se colocou a chance de Valtteri Bottas não correr na Malásia, a marca de Grove apressou-se a desmentir a chance, afirmando que Wolff era apenas piloto de testes e não terceiro piloto da marca. E isso foi dito por... Claire Williams. Não só a filha do tio Frank, mas agora, em conjunto com Monisha Kalternborn, uma das poucas mulheres em cargos dirigentes na categoria máxima do automobilismo. 

E curiosamente, em termos de campeonato feminino, ambas de colocaram em lados opostos da bancada: Wolff era notoriamente contra, enquanto que Jordá era a favor.

"Definitivamente, não é a maneira certa de agir. Primeiro de tudo, não sei onde você vai encontrar um grid cheio de pilotas que sejam boas o bastante. Em segundo lugar, corri toda minha carreira no automobilismo como uma competidora normal. Por que eu me interessaria por uma corrida onde eu esteja competindo apenas contra outras mulheres?", começa por perguntar.

Wolff (ex-Stoddart) afirma nessa reportagem do Grande Prêmio que o grande problema têm a ver com a preparação das pilotos: "Sempre vejo as meninas nas categorias menores e tento ajudá-las. Elas precisam de uma preparação melhor. O nível é alto, e sei que posso ser um exemplo também" começa por afirmar. “É claro que não tenho tanto tempo para acompanhar o quanto gostaria, por causa do meu próprio trabalho. Mas eu sei exatamente onde estão e o que estão a passar. Eu leio todos os e-mails e todas as mensagens que eu recebo – e são muitas –, eu respondo a todas. Eu tento passar um pouco da minha trajetória, da minha experiência, contar os erros que eu cometi. E um dos grandes problemas – e que afeta a todos neste desporto – é a questão do patrocínio também”, concluiu.

E entre os que defendem o tal campeonato feminino, Carmen Jordá aponta o exemplo de outros campeonatos para justificar tal coisa. "Por que no tênis ou noutros desportos, por que no futebol, você tem campeonatos separados e não no automobilismo?" questiona numa entrevista à CNN. "Nem todo mundo olha para aqui dessa forma, você sabe? Naturalmente, um homem é mais forte que uma mulher, então, obviamente, se nós estamos a competir contra eles, nós não estamos aqui para vencer corridas", concluiu.

A questão dos patrocínios é um problema transversal, de facto. E ainda por cima numa modalidade onde a fasquia está muito alta, como é a Formula 1, onde metade dos pilotos chega lá através de uma mala bem recheada de dinheiro - basta pensar nos 50 milhões que Pastor Maldonado traz para a Lotus ou os 40 milhões de euros que Felipe Nasr e Marcus Ericsson levaram para a Sauber - imaginem como seria uma mulher a atrair patrocinios para a sua carreira. Daí muitas vezes elas venderem a sua imagem para eles. E se não forem bonitas, então...

Nesse campo, há casos de sucesso. À Danica Patrick nunca faltará publicidade, e os americanos vendem muito bem uma coisa dessas. E ela é agora uma dos nomes mais reconhecíveis da NASCAR, neste momento. Nesse campo, dinheiro ou mediatismo não faltarão. Mas para o resto, as coisas são bem mais complicadas. E foi a falta de patrocínios que impediu Simona de Silvestro tentar a sua sorte na Sauber.

Mas voltando atrás na questão sobre um campeonato separado ou apoiar as mulheres nas categorias de base, também há outro problema premente: a cultura automobilística. E aí, elas estão claramente em minoria, como conta a Bia Figueiredo, que agora está na Stock Car brasileira. 

“Culturalmente, as mulheres não gostam de velocidade. E não sei explicar a razão. O número de meninos é bem maior. Muitas vezes as meninas até gostam, mas não tem o apoio necessário e a aprovação da família. E isso precisa ser incentivado. Precisamos mostrar que há uma igualdade, mostrar que não é um esporte só de homens. E nada melhor do que dar a resposta na pista.”, começou por dizer na entrevista ao site Grande Prêmio.

“A Susie está lá na Formula 1, mas ela ainda é piloto de testes e tudo mais. Mas seria altamente interessante ter uma garota competitiva lá também, sendo a Formula 1 a categoria top do mundo. A Simona, que eu acho que é super capaz, esteve perto, mas não deu certo. Chega lá, também, não tem ninguém que apoie e que ajude. Acho que há meninas, sim, no esporte, mas elas precisam ser preparadas, com trabalho sério, para que elas consigam chegar ao nível de desempenho que a Formula 1 exige, para competir em igualdade de condições”, acrescentou.

Apesar das questões pertinentes, algumas dessas respostas têm resposta fácil. Muitas não aceitariam porque acham que é uma forma de descriminação, e mesmo a existir uma competição separada, há outra coisa do qual não está resolvida: a questão da igualdade. Um grande exemplo é o ténis, que luta há muito tempo para que as organizações dos torneios comecem a providenciar "prize moneys" iguais aos dos homens, algo que ainda não acontece. Em muitos casos, incluindo nos "Grand Slams" a vencedora de um torneio ganha menos vinte por cento, em média, do que o vencedor do torneio masculino.

E neste século XXI, as mulheres tem mais consciência de que querem lutar por maior igualdade. “Criar um campeonato só para mulheres seria diferenciar as mulheres dos homens”, opinou a espanhola Maria Herrera, piloto de Moto3. “Acho que essa mudança baixaria o nível da competição”.

Então e uma terceira via, como por exemplo, quotas? Como sabem, não há muito tempo, Bernie Ecclestone andou a chatear as equipas para que colocassem mais um carro na grelha para colmatar a sua falta, após a saída de cena da Caterham e os problemas da Marussia, agora Manor. Elas, como é óbvio, rechaçaram a ideia devido aos custos de colocar mais um carro na grelha. Eric Boullier falou até que colocar mais um carro, acompanhado da respectiva equipa técnica, representaria um investimento de 15 milhões de euros.

Mas reavivar a ideia, colocando mulheres piloto no lugar? Com dez equipas, e aquela lista do qual viram anteriormente, servia perfeitamente, pois existem mulheres suficientes para tal. Seria interessante ver Simona na Mercedes, Danica na Ferrari ou Beitske na Toro Rosso, para não falar de Carmen e Susie. Mas há um grande problema: pelo menos no curto prazo, as chances de elas pontuarem seriam bem pequenas. Não se pode dizer que não aconteceria, mas seriam escassas as chances de ver uma mulher no pódio. E para piorar as coisas, não faltariam críticos que afirmariam que as mulheres estariam a tirar a chance de evolução de jovens pilotos, bem como teriam mais chances de triunfar que um jovem rapaz vindo das categorias de base.

Assim sendo, mesmo a chance de uma quota feminina na categoria máxima do automobilismo teria os seus contras. E nem todas as mulheres seriam magnetos publicitários garantidos. Teriam de ter excelentes equipas nesse sentido.

Mas depois, pensando bem, indo atrás na história, não há muito tempo tinhamos a mesma discussão sobre pilotos africanos ou negros no automobilismo. Não os encontrávamos, ou eram bem raros, e durante algum tempo, teriamos de ir à IndyCar para os encontrar, em exemplos como Willy T. Ribbs. Mas um dia surgiu Lewis Hamilton e a discussão acabou. E como isso aconteceu? Simples: ele teve toda uma equipa a apoiá-lo.

E se calhar, é esse o segredo: trabalhar, preparar um piloto para o longo prazo. A carreira de Lewis foi apoiada desde o inicio por Ron Dennis e pela McLaren, que o colocou nas melhores equipas nas categorias de acesso, que o preparou para as exigências do automobilismo, desde o karting, teve bons conselheiros como o pai, Anthony, e quando chegou, arrasou: quase foi campeão na estreia, sendo o melhor "rookie" de sempre da história da Formula 1, batendo até um recorde que pertencia a outra lenda do automobilismo: o escocês Jackie Stewart.

Outros pilotos como Hamilton estão a caminho, como o britânico Jann Mardenborough, que é apoiado pela Nissan, depois de ter sido descoberto pela GT Academy, está na GP3, ou então o angolano Luis Sá Silva, que no ano passado esteve na GP3 pela Carlin. Mas as mulheres-piloto têm de olhar para o exemplo de Hamilton como algo que pode ser replicado, e de uma certa forma, é isso que as mulheres identificam como um aspecto que tem de ser melhorado. Isto, para que as pessoas não digam que a solução seja discriminar ou criar uma categoria à parte, onde homens e mulheres compitam separadamente.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Quem colocaríamos numa competição feminina? (Parte 2)

(continuação do capitulo anterior) 

6 - Katherine Legge

Aos 34 anos de idade (nascida a 12 de julho de 1980), a última vez que ela foi vista foi na Formula E, onde correu um o carro da Amlin Aguri nas duas primeiras provas do ano, sem resultados de relevo. Mas a sua carreira já é grande, começando no ano 2000, na formula Ford, onde foi pole-position numa corrida. Em 2005, estava nos Estados Unidos, onde correu no campeonato Atlantic, vencendo três corridas e acabando na terceira posição. Pelo meio, fez um teste num Minardi de Formula 1, andou num carro da A1GP, antes de em 2006 andar na ChampCar por duas temporadas, primeiro pela PKV, e depois pela Dale Coyne, onde conseguiu dois sextos lugares como melhor resultado.

Entre 2008 e 2010, foi para o DTM, correndo num Audi e não conseguindo qualquer ponto, ao que logo a seguir, em 2012, foi para a IndyCar, pela Dragon Racing, conseguindo como melhor resultado um nono posto em Fontana, a última prova do ano. Teve uma participação em 2013 nas 500 Milhas de Indianápolis, antes de ir para a United SportsCar Series, guiando o carro da DeltaWing, onde continua nesta temporada.

7 - Vittoria Piria

Filha de pai inglês e mãe italiana, "Vicky", de 21 anos (nascida a 11 de novembro de 1993, em Milão), depois de cinco temporadas no karting, passou em 2009 para os monolugares, onde correu na Formula 2000 Light. No ano seguinte, passou para a Formula Abarth, sem conseguir pontuar, o que fez com que ficasse mais uma temporada na categoria, onde conseguiu nove pontos e o 15º posto final.

Em 2012, passou para a GP3 Series, correndo pela Addax, mas não foi mais longe do que um 12º posto no Mónaco, logo, não conseguindo pontuar. No ano seguinte, esteve na espanhola Euro Formula 3 Open, onde foi décima classificada, antes de ir em 2014 para os Estados Unidos, onde correu quatro provas na Pro Mazda Series.   

8 - Tatiana Calderon

Colombiana, com 22 anos de idade (nasceu a 10 de março de 1993), a carreira de Calderon nos monolugares começou em Star Mazda americana em 2010, terminando no décimo posto, e no ano seguinte, chegou ao sexto lugar, depois de conseguir dois pódios. Em 2012, passou para a Euro Formula 3 Open espanhola, onde ao serviço da equipa de Emilio de Villota, onde foi nona classificada no campeonato. 

Em 2013, foi para a Formula 3 europeia, ao serviço da Duble R Racing, sem conseguir pontuar, mas continuou no ano seguinte, desta vez na Jo Zeller Racing, onde conseguiu 29 pontos e o 15º lugar na geral. Em 2015, continuará na Formula 3 europeia, agora ao serviço da Carlin.  


9 - Beitske Visser


Aos vinte anos de idade (nasceu a 10 de março de 1995), já têm quatro temporadas de monolugares, e com algumas vitórias nas mãos. Agora vai a caminho da sua segunda temporada na World Series by Renault, ao serviço da espanhola AV Formula, Visser já fez parte do programa de jovens pilotos da Red Bull, em 2013, depois de ter vencido duas corridas na Formula ADAC Masters, na Alemanha. 

A sua temporada de estreia na WSR, em 2014, também pela AV Formula, foi modesta, mas conseguiu pontuar por duas vezes, uma delas um quinto lugar em Jerez e terceiro entre os "rookies", que permitiu subir ao pódio. Para além disso, correu em duas provas da GP3, pela Hilmer Motorsport, sem conseguir pontuar.

10 - Pippa Mann

Aos 31 anos de idade (nasceu a 13 de agosto de 1983), Mann vai este ano correr nas 500 Milhas de Indianápolis a bordo de um carro da Dale Coyne. Mas a sua carreira no monolugares começou em 2003, na Formula Renault britânica. Até 2006, não conseguiu resultados de relevo, embora nesse ano tenha sido 19ª no campeonato, com 89 pontos.

No ano seguinte, foi para a World Series by Renault, onde conseguiu um ponto pela Cram Competition, e no ano seguinte, pela P1 Motorsport, foi melhor, com um sétimo lugar numa das rondas de Nurburgring, obtendo cinco pontos. 

Em 2009, passou para a IndyLights americana, onde no ano seguinte conseguiu uma vitória e três pole-positions, terminando a temporada no quinto lugar da classificação geral. Uma dessas poles foi em Indianápolis, tornando-se na primeira mulher a consegui-lo.

Assim sendo, em 2011, passou para a IndyCar, com participações esporádicas, especialmente nas 500 Milhas de Indianápolis, sendo que nos dois últimos anos foram ao serviço da Dale Coyne. Pelo meio, em 2012, correu na Auto GP, pela Campos Racing, onde conseguiu cinco pontos, todos em Sonoma.

11 - Bia Figueiredo

A piloto brasileira de 30 anos (nascida a 18 de março de 1985), anda atualmente pela Stock Car brasileira, depois de quatro temporadas na IndyCar, com resultados algo modestos. Ela conseguiu um 11º lugar em Toronto, em 2011, pela Dreyer & Reinbold Racing, e a sua última passagem data de 2013, quando fez sete corridas com a Dale Coyne.

Mas antes disso, começou a sua carreira em monolugares na Formula Renault brasileira, onde foi terceira classificada em 2005, conseguindo três vitórias e três pole-positions, passando depois para a Formula 3 Sul-Americana, onde foi quinta classificada. Em 2008, andou pela IndyLights, acabando no terceiro lugar, após uma vitória e cinco pódios. No ano seguinte, venceu mais uma corrida, mas conseguiu mais um pódio, terminando no oitavo lugar.

12 - Samin Gomez Briceño

Piloto venezuelana de 23 anos (nascida a 4 de fevereiro de 1992), Samin Gomez tenta agora voltar à GP3, depois de ter lá andado na temporada de 2013 pela Jenzer Motorsport, sem conseguir qualquer ponto. Mas a sua participação nos monolugares começou em 2008, na Asian Formula Renault Challenge, onde em 2009 foi nona classificada, e em 2010, foi terceira, depois de ter conseguido duas pole-positions e três idas ao pódio.

Em 2011 passou para a Formula Abarth italiana, onde no ano seguinte, pela Jenzer Motorsport, foi sétima classificada, depois de conseguir dois pódios na série europeia, e uma volta mais rápida na série italiana, onde também terminou na sétima posição. Depois da GP3, foi para a AutoGP, onde correu em quatro provas, com um nono lugar como melhor resultado.

13 - Sabine Schmitz

A partir da numero treze, fica complicado encontrar pilotos que tenham uma carreira consistente no automobilismo, provando que esta é uma modalidade bem complicada para elas. Mas há algumas semanas surgiu a noticia de que a alemã Sabine Schmitz iria correr num Chevrolet da Munnich na etapa alemã do WTCC, sendo a primeira mulher a participar nesta competição.

Mas o que faz ela aqui nesta lista é que é uma das pessoas que conhece melhor o Nordschleife. Apesar de já ter 45 anos de idade (nasceu a 14 de maio de 1969), começou a correr em Turismos, tendo vencido as 24 Horas de Nurburgring em 1996 e 1997, ambos num BMW M3. e em 2008, num BMW Z4, foi terceira classificada.

Mas pelo meio, entrou em vários programas de televisão, quer na Alemanha, quer no resto do mundo. Em 2004 e 2005, fez participações no programa Top Gear, onde tentou andar abaixo dos dez minutos no Nordschleife numa carrinha Ford Transit. Dois anos depois, entrou num desafio entre a Alemanha e a Grã-Bretanha, no circuito de Zolder, no mesmo programa.

Para além disso, já teve - e conduzia - uma companhia de táxis que providencia voltas ao Nordschleife. Segundo as suas próprias contas, deve ter dado mais de vinte mil voltas no circuito ao longo da sua carreira.

(continua)

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Quem colocaríamos numa competição feminina? (Parte 1)

As noticias sobre as mais recentes asneiradas de Bernie Ecclestone, nomeadamente a de uma Formula 1 feminina, deram a volta ao mundo e deram azo às habituais opiniões, muitas delas afirmando que é um disparate completo. Não porque elas sejam capazes de guiar, mas porque elas querem competir de igual modo com os homens.

Mas nada nos impede de fazermos este exercício de uma competição automobilística exclusivamente feminina, onde haja vinte pilotos um pouco por todo o mundo que compitam em máquinas de 800 cavalos e que tentem a sua sorte para serem campeãs do mundo num campeonato com dezasseis provas espalhadas um pouco pelo planeta. Vinte mulheres-piloto deverão haver algures no planeta, com carreiras mais ou menos estabelecidas em várias competições. E provavelmente umas seriam bem melhores do que outras.

Assim sendo, comecei a fazer uma seleção de vinte possíveis pilotos numa hipotética série feminina, com algumas escolhas óbvias e outras... nem tanto. Mas depois de uma pesquisa com base em critérios como os da atualidade (ou seja, se correram em monolugares na temporada anterior) ou então a novidade, (à partida, teria de excluir os que começavam nesta temporada nos monolugares) cheguei à conclusão que, mesmo de forma rebuscada, não consigo encontrar mulheres-piloto que chegue para garantir uma competição que tenha qualidade suficiente para garantir a atenção dos homens e que as respeitem o suficiente para que elas sejam levadas a sério.


1 - Susie Wolff

A escocesa, terceira piloto da Williams, e nascida a 6 de dezembro de 1982 (têm 32 anos) começou a sua carreira como Susie Stoddart, em 2001, na Formula Renault britânica. Ali, conseguiu seis pódios, acabando a temporada de 2004 no quinto lugar do campeonato.

Em 2005, passou para a Formula 3 britânica, mas correu apenas em duas corridas devido a uma lesão no tornozelo, que o impediu de fazer toda uma temporada. Em 2006, passou para a DTM alemã, onde correu pela Mercedes até 2012, conseguindo como melhor resultado dois sétimos lugares em 2010, ficando no 13º lugar da geral. A partir de 2012, altura em que já era Susie Wolff - tinha-se casado com o austriaco Christian "Toto" Wolff - tornou-se piloto de testes da Williams, tendo em 2014 andado em algumas sessões de treinos livres, sendo a primeira mulher em 22 anos a fazer isso. 

2 - Simona de Silvestro

Aos 26 anos de idade (nascida a 1 de setembro de 1988) Simona de Silvestro está de volta em 2015 à IndyCar com um programa parcial, pela Andretti Autosport, depois de no ano passado ter tentado a sua sorte na Sauber, como piloto de testes, e esperando que conseguisse dinheiro para correr como piloto efectiva. Não conseguiu e voltou à America e a um sitio onde já foi feliz.

Começando nos monolugares em 2005, na Formula Renault Itália, atravessou o oceano no ano seguinte, aterrando na formula BMW USA, onde foi quarta classificada, para depois fazer três temporadas na Formula Atlantic, terminando em terceiro lugar na temporada de 2009, conquistando cinco corridas. Em 2010, está na IndyCar, primeiro pela HVM Racing, para depois passar em 2013 para KV technology, onde conseguiu um segundo lugar em Houston, o seu melhor resultado de sempre na categoria. Em 2015, na Andretti já conseguiu um quarto lugar em Nova Orleães, a segunda prova do campeonato.   

3 - Danica Patrick

Aos 33 anos de idade (nascida a 25 de março de 1982), a americana tenta a sua sorte numa competição dificil como é a NASCAR, depois de sete temporadas na IndyCar, onde venceu por uma vez e conseguiu alguns resultados honrosos. Mas a sua carreira começou bem antes, no virar do século... e na Formula Ford britânica.

Depois de experiências positivas por lá (foi segunda classificada no Formula Ford Festival de 2000), regressou aos Estados Unidos em 2002, onde foi terceira classificada na Formula Atlantic, em 2004. No ano seguinte, ruma à IndyCar pela Rahal, onde consegue um honroso quarto lugar nas 500 Milhas de Indianápolis. Em 2007, passa para a Andretti Green Racing, onde consegue três pódios nessa temporada, e a sua primeira - e única - vitória em 2008, quando ganha na oval de Motegi, no Japão.

Em 2009, consegue a sua melhor posição de sempre na IndyCar, ao ser quinta classificada, mesmo conseguindo apenas um pódio, um terceiro lugar nas 500 Milhas de Indianápolis, o melhor de sempre para uma mulher. Os bons resultados são conseguidos especialmente nas ovais, já que ela não se dá bem em circuitos de rua...

Em 2012, passa para a NASCAR Sprint Cup. onde é a primeira mulher a conseguir a pole-position nas 500 Milhas de Daytona, uma prova que termina na oitava posição. Neste ano corre na Stewart-Haas, Para além disso, têm um nono lugar em 2009, nas 24 Horas de Daytona. 

4 - Michela Cerruti

A piloto italiana de 28 anos (nascida a 18 de fevereiro de 1987) já têm experiência nos monolugares, embora tenha começado tarde. Filha de um corredor local, Aldo Cerruti, começou a competir depois de ter feito um curso de condução defensiva oferecido pelo seu pai. Em 2008 estava nos Turismos, com um Alfa Romeo 147, para dois anos mais tarde, corresse na Superstars Series, a bordo de um Mercedes preparado por Romeo Ferraris, onde venceu uma corrida em Monza, em 2011. Cerruti acabou essa temporada no nono lugar, com 59 pontos, antes de passar para a Auto GP, em 2013, onde após uma temporada intermitente, em 2014, pela Super Nova, venceu uma corrida em Imola e acabou no sexto lugar, com 103 pontos.

Pelo meio, fez algumas corridas na Formula 3 europeia, sem resultados de relevo, antes de no final de 2014 ser escolhida para competir pela Trulli na temporada inaugural da Formula E. Contudo, Cerruti não conseguiu resultados de relevo e após quatro corridas, abandonou a equipa.

5 - Alice Powell

Mais nova do que as quatro pilotos anteriores - Nasceu a 22 de janeiro de 1993, em Oxford - Powell já têm um curriculo de respeito. Começou nos monolugares em 2009, aos 16 anos, na Formula Renault, onde em 2010 foi campeã na categoria BARC. Passando para a GP3, em 2012, conseguiu ser a primeira mulher a pontuar, com um oitavo lugar na última corrida dessa temporada. Em 2013, andou pela Formula 3 Cup, onde foi vice-campeã, e em 2014, regressou à Formula Renault Asiática, onde venceu quatro corridas e acabou por ser campeã.

(continua amanhã)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Igualdade e meritocracia

A discussão sobre as mulheres no automobilismo continua a decorrer por estes dias. E ao mesmo tempo que se comenta sobre mais uma ideia de Bernie Ecclestone, surgiu ontem a noticia de que o organização da Endurance, a WEC, irá banir as "grid girls" até ao final do ano. Uma medida que se elogia, dado que afastaria o estigma do machismo do automobilismo e convidaria mais mulheres a aparecer por lá.

Na conta oficial do Twitter, a organização do Mundial da Endurance comunicou da seguinte forma:

"As garagens, bancadas, tendas de hospitalidade e salas de media do Mundial WEC estão cheias de belas mulheres, sempre muito apreciadas por todos e não apenas antes das partidas. Temos muitas mais mulheres bonitas que trabalham com a WEC do que apenas aquelas que seguram os painéis numéricos. Nós acreditamos que os carros são as belezas e o espirito de Le Mans ecoa em tudo que fazemos" concluiu.

A decisão colocou a Formula 1 um pouco mais para trás e um pouco mais "fora de órbita" em termos de acompanhamento dos tempos, mas creio que essa decisão ainda não foi pensada a sério, quando ainda se discute a história das mulheres. No meio disto tudo, já apareceu Michele Mouton, agora a presidente da comissão que promove a integração das mulheres no desporto, a criticar fortemente a ideia de Ecclestone. 

"Estou irritada e muito desapontada por Ecclestone estar talvez a pensar nas mulheres só para o espectáculo", disse a ex-piloto francesa, vice-campeã do mundo em 1982 e vencedora de quatro ralis. "Mais, pela minha experiência como piloto, acredito verdadeiramente que as mulheres querem competir a um nivel igualitário relativamente aos homens. Elas têm provado ao longo de décadas que é possivel, mesmo que tenham sido poucas. Esta igualdade de condições permite um indicador realista das prestações e iniciativa desportista a ser a melhor do mundo, independentemente do género", concluiu.

Mouton têm razão no que diz. A sua carreira, mais ao serviço da Audi, conseguiu ser melhor do que pilotos como Walter Rohrl, Stig Blomqvist, Ari Vatanen, Markku Alen ou Hannu Mikkola, entre outros, e conquistou o respeito dos seis colegas, mesmo que tenham engolido as vitórias dela em lugares como Sanremo, o Rali de Portugal e o Rali do Brasil, ambos em 1982. E num passado não muito distante, a Formula 1 teve pilotos como Lella Lombardi, a unica que pontuou numa corrida de Formula 1. Nem que tenha sido meio ponto numa das corridas mais infames da história do automobilismo, o GP de Espanha de 1975.

Mas se discute o lugar da mulher no automobilismo e torná-la menos sexista, também se discute a ideia de "quotas". Ao ler um artigo hoje no jornal português "A Bola", a ideia surgiu no último parágrafo do artigo. Honestamente, sou contra. E dois motivos vêm-me à cabeça: descer o nível dos pilotos e dar lugares a alguém que não merece, ou seja, promover a mediocridade. 

A IndyCar teve sempre mulheres, que correram contra homens porque acharam que mereciam - ou porque precisavam do dinheiro que elas tinham - e nunca reservou uma quota para elas. E se houve pilotos medíocres, como Milka Duno, também teve excelentes mulheres-piloto, que mereceram o respeito dos homens, como Danica Patrick e Simona de Silvestro. E Sarah Fisher, que também foi piloto, agora é manager da sua própria equipa, a Fisher Hartmann Racing, que este ano se fundiu com a Ed Carpenter Racing.

Arranjar uma quota feminina para o automobilismo é a mesma coisa que a ideia de Ecclestone de termos uma "Formula 1 feminina". Faz mais mal do que bem e só eternizaria o preconceito dos homens em relação ao sexo feminino, para além da promoção da mediocridade. Para quê ter uma piloto que seria uma chicane móvel? É por isso que prefiro mais a ideia meritocrática de uma piloto se degladiar contra os homens e os bater, para ganhar o respeito deles.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Um velho problema numa nova perspectiva

Adoraria passar os dias a não escrever sobre a Carmen Jordá, mas quando uma amiga minha, a Bethânia Pereira, me manda o artigo da Autoweek sobre a piloto catalã, escrito por Mike Larsson, acho que vale a pena explanar mais um bocado sobre este assunto, e porque não, sobre as mulheres-piloto em geral. E porque é que não falamos dela em termos sexistas.

Eis algumas frases que são relevantes nesse artigo, e a primeira é logo arrasadora: "Carmen Jordá não devia estar perto de um Formula 1".

A seguir:

"Então, por que é que ela está tendo a chance de se juntar a Lotus como motorista de desenvolvimento? Como pode um motorista ser uma backmarker na GP3, ignorar completamente GP2 e entrar em um local com uma equipe de F1?

Simples: dinheiro.

Embora não tenha sido anunciado oficialmente, é uma crença generalizada de que Jorda está trazendo uma soma de dinheiro bem robusta para Lotus."

Toda a gente já topou que as criticas a ela não tem a ver o facto de ter peito, mas sim pelos seus resultados desportivos. Em três temporadas na GP3, teve zero pontos e foi sempre a última classificada nas grelhas de partida e nos resultados finais. Vocês leram ontem as reações dos pilotos que correram com ela e eles não têm nada a ver com a sua condição, mas som com os seus resultados desportivos. Dali, não há nada sexista, apenas um desabafo de que eles se sentem injustiçados por não terem uma chance como ela teve de andar num carro de Formula 1, o sonho de toda esta gente.

Aliás, posso dizer que na curta história da GP3, já houve quatro mulheres a passar por ali: Jordá, a italiana Victoria (Vicky) Piria, a holandesa Beitske Visser (na foto) e a britânica Alice Powell. Das quatro presentes, uma já conseguiu pontos: foi Powell, com um oitavo lugar na última corrida de 2012. Todas as outras ainda não conseguiram, embora Visser, que só andou duas corridas na categoria, já conseguiu pontos na World Series by Renault, e até foi um resultado melhor do que Powell, um quinto lugar. E em termos de palmarés, conseguiu vitórias na Formula ADAC Masters, na Alemanha.

Contudo, nem Visser, nem Powell são bonitas e não têm muito dinheiro. E esse é o problema. É que se forem ver os sítios de Jordá e Piria, parecem mais sítios de modelos que por acaso, têm jeito para a condução. Até me admira ainda não terem posado para a Playboy ou algo parecido. Mas já houve outros exemplos noutros lados, como a piloto ucraniana de ralis, Inessa Tuschkanova.

Mas existe sexismo nestas criticas todas, e o jornalista aponta isso pelos exemplos das mais consagradas como a Danica Patrick, que neste momento namora com outro piloto da NASCAR.

"Quando o negócio da Jordá com a Lotus foi anunciada na quarta-feira, a piloto foi publicamente ridicularizada por seus colegas e muitos fãs.

Há um viés perceptível para as mulheres no automobilismo. Os poucos que fizeram isso a um nível de notoriedade são fortemente escrutinados em cada turno.

Danica Patrick não pode ficar de mãos dadas com o seu namorado (o piloto da NASCAR Ricky Stenhouse Jr.) sem quaisquer comentários sobre como isso afetará a série. 

Patrick foi uma vez citada pelo chefe da Formula 1, Bernie Ecclestone: 'As mulheres devem estar vestidos de branco, como todos os outros aparelhos domésticos.' Acham que ele diria algo igualmente degradante para Marcus Ericsson?

Honestamente, se Jorda fosse um homem, a maioria dos fãs de Formula 1 iriam olhar para o negócio da Lotus com uma leve irritação. 'Outro piloto com dinheiro num lugar que não merece.' Mas quando é uma mulher bonita que recebe o trabalho, as pessoas perdem a cabeça.

Tem que ser frustrante para pilotos como Alexander Rossi, Connor Daly e uma série de outros pilotos competitivos. Esses caras estão perdendo lugares, porque eles não têm o dinheiro e vêm esses lugares irem para os pilotos menos talentosos, mas com bolsos mais profundos.

Mas isso faz parte da Fórmula 1, e sempre foi."

Francamente, não gosto da famosa frase de Bernie Ecclestone, quando compara as mulheres a acessórios domésticos, mas pelas atitudes delas, parece que o anão têm razão. É certo que tem de se atrair atenção para conseguir mais publicidade possível para prosseguir as suas carreiras, mas creio que elas precisam de ser respeitadas pelos seus resultados do que ver se têm um bom par de marmelos ou se o rabo delas consegue entrar nos apertados "cockpits" de um Formula 1. 

Adoraria ver uma piloto talentosa como a Simona de Silvestro a ter uma chance como piloto numa equipa de Formula 1 mediana, mas depois de ver que não conseguiu atrair dinheiro para ajudar a Sauber, e os seus testes eram bancados pelo patrocinador, não creio que tao cedo não verei uma piloto a andar de igual para igual com os rapazes. E esqueçam a Susie Wolff, que está onde está porque é ela a guardiã da parte que o seu marido comprou quando andava por ali, antes de ir para a Mercedes. Poderemos ver numa sexta de manhã, mas não é muito mais do que isso.

Mas se querem ver mulheres a competirem de igual para igual, temos de ir à IndyCar ou à Formula E, onde estão a britânica Katherine Legge e a italiana Michela Cerruti, que tentam um ar da sua graça contra boa parte dos pilotos que têm experiência de Formula 1. E até agora pagam esse preço, pois nenhuma delas pontuou ou conseguiu uma posição relevante quer na grelha de partida, quer na corrida.

Mas voltando ao artigo, os desabafos pelo "enorme feito" de Jordá colocaram a nu, mais uma vez, o que é a Formula 1 atual: uma categoria sobrevalorizada e com gastos excessivos e cujos dirigentes e equipas vivem há demasiado tempo acima das suas possibilidades. É certo que pilotos pagantes houve sempre ao longo da história, mas eram sempre uma minoria e que iam sempre para as equipas mais necessitadas de dinheiro, e normalmente faziam o papel de "chicanes ambulantes". 

Claro que há excepções: Thierry Boutsen colocou 750 mil dólares na Arrows para começar a sua carreira, em 1983, e conseguiu uma carreira digna de onze temporadas, na Benetton, Williams, Ligier e Jordan, para não falar dos empréstimos que Niki Lauda fez para pagar o seu lugar na March e na BRM, em 1972 e 1973, antes de chegar à Ferrari.

Contudo, nos tempos que correm, quando vemos uma equipa média como a Lotus pedir os serviços de uma garota que sabe guiar, já achamos que começa a ser demais. E nem é tento pelo sexismo: é por um velho problema visto noutra perspectiva. 

E quanto à chance de ver uma mulher a competir, com os poucos lugares existentes, isto pode ter criado o paradoxo de que nunca a oportunidade esteve tão distante como agora. 

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Qual é a importância das mulheres no paddock da Formula 1?

Estava a ver um post enviado para mim quando pensei no seguinte: ao longo dos meus quase quatro anos da existência do blog, nunca falei das "grid girls", nem nunca coloquei uma unica foto delas. Das mulheres e namoradas de pilotos, talvez as meninas da McLaren, a Nicole Scherzinger e a Jessica Michibata, mais por causa do seu mediatismo. Mas só o facto de ter de esperar quase quatro anos para dedicar um post só para elas revela a importância que elas tem no mundo da Formula 1, apesar de estarem por toda a parte: nenhuma.

Eu devo ser tão "petrolhead" que sou daqueles que digo que se elas desparecessem de um momento para o outro, não sentiria falta nenhuma, de tão irrelevantes que são. Aliás, até têm momentos que me causa alguma irritação, quando estão ali a fazer "guarda de honra" aos pilotos a caminho do pódio. Tão visiveis, no entanto tão inuteis... em suma, é um sinal da Formula 1 construida por Bernie Ecclestone: as mulheres são um objecto decorativo. Um pouco machista, hein? Mas também, passa uma mensagem errada sobre as mulheres na categoria máxima do automobilismo. Tão errada que por alturas do GP do Brasil, houve uma polémica afirmando que algumas das "grid girls" poderiam ser "garotas de programa", e isso deu brado...

Sim, mais do que caras bonitas, tem cérebros. E muitas delas são mais do que assessoras de imprensa de algum piloto/equipa/fornecedor. Também há engenheiras e mecânicas. Poucas, mas existem.

E depois há a questão principal: as mulheres piloto. Nos últimos anos elas tem aparecido, e há casos de sucesso como Danica Patrick, que já venceu na Indy. Aliás, neste momento existem quatro mulheres a correr nessa categoria, com o fluxo mediático conhecido. Elas ainda estão longe da Formula 1, mas acho que é uma questão de talento e oportunidade, ou seja, não é um "se" mas sim "quando". Quando virmos, por exemplo, uma Simona de Silvestro, uma piloto suiça de 22 anos que foi terceira classificada na Formula Atlantic de 2009 e que não fez feio na sua temporada de estreia, perguntamo-nos como seria se ela certo dia seguisse para a categoria máxima do automobilismo. Seria tratada como piloto ou só a veriam como "objecto de marketing"?

O automobilismo é machista? É. Noventa e sete por cento dos pilotos são homens? Sim. Muitos estão ali para verem as meninas com vestidos minimos, algumas das quais de gosto duvidoso? É verdade. Mas por mim, passo. Porque acho que esta visão do automobilismo faz mais mal do que bem, por muito belo que seja, tenho de admitir...