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quinta-feira, 2 de maio de 2024

A imagem do dia




Ao longo destes dias, andei a ler muita coisa quer de Ayrton Senna, quer de Roland Ratzenberger. Os seres humanos, que tinham mais coincidências que julgamos. Não só no ano do seu nascimento, como o facto de terem morrido com 24 horas de diferença. Ao olhar para ambos, tinham imensas coisas em comum. Eram idolatrados no Japão, sentiam-se felizes e acarinhados por lá. Tinham o automobilismo nas suas veias, não seriam felizes noutras profissões, para eles, a Formula 1 era o pináculo. O seu motivo de existência.

Não é por acaso que o epitáfio do piloto austríaco, enterrado em Salzburgo, na Áustria, consiste na seguinte frase: "viveu para o seu sonho". Mas também descobri mais umas coisa em comum dos dois: eles salvaram outros seus colegas. E ambos eram mulherengos. 

Um jornalista italiano, Giorgio Terruzzi, escreveu um livro, "L’Ultima Notte di Ayrton Senna", onde fala, entre outras coisas, que Senna era um homem de contrastes. Lia passagens da Bíblia para encontrar conforto, era tímido e se isolava para se refletir, mas poderá ter dormido com 300 mulheres e era ultracompetitivo, implacável com os seus adversários na pista - Alain Prost, Nigel Mansell e Martin Brundle que o digam.

E se acham que era único, desenganem-se: Ratzenberger tinha uma agenda de contactos no Japão... e não eram de patrocinadores! Deitou-a fora quando se casou no final de 1992, num relacionamento que durou... menos de três meses. Quando voltou a estar solteiro, afirmou ter pena de ter perdido essa agenda. Contudo, regressou logo aos velhos hábitos. Humphrey Corbett, um dos engenheiros da Simtek, contou num dos documentários feitos sobre o austríaco que ele aproveitou bem as benesses da MTV, a patrocinadora principal: dormiu com um dos seus membros. Há quem jure até aos dias de hoje que foi a apresentadora, Davina McCall, que hoje em dia é apresentadora do Big Brother britânico, e afirmou o dia seguinte que "a pista estava num pouco húmida", numa espécie de relatório codificado...   

Contudo, ambos poderão ter salvo um piloto, pelo menos. Se o caso de Senna é bem conhecido, com ele a sair do carro e salwar Eric Comas nos treinos para o GP de Bélgica de 1992, quando o piloto francês, na altura na Ligier, bateu forte na parte rápida do circuito de Spa-Francochamps, e o brasileiro, o primeiro a chegar, desligou o motor e segurou a cabeça até que chegassem os primeiros socorros, já no caso do austríaco, foi um pouco mais obscuro.

A coisa aconteceu numa sessão de testes da Formula 3000, em Suzuka, quando o escocês Anthony Reid bateu forte na 130R. O impacto foi tal que o capacete foi arrancado e os comissários nem se mexeram muito, julgando que tinha morrido. Ratzenberger e o brasileiro Paulo Carasci chegaram ao local e pararam os seus carros para o tirar do seu e fazerem os primeiros socorros até serem socorridos pelos profissionais e levarem para o hospital, onde fez uma recuperação completa. 

As últimas horas de Senna foram as de um homem dividido entre a vontade ou não de correr e a conversa sobre o reavivar da GPDA, a Grand Prix Drivers Association, adormecida desde 1982. Falou de manhã, no "warm up" com Alain Prost, agora comentador na TF1 francesa, em que afirmou que "tenho saudades tuas", algo que, de uma certa forma, poderia afirmar porque, por um lado, não era mais ameaça, mas por outro, ele se tinha alimentado da rivalidade com o francês para se elevar ao patamar onde estava. 

Mas falou com ele, Niki Lauda, Michael Schumacher e Gerhard Berger para falar sobre a pressão dos pneus, que baixava por alturas em que o Safety Car entrava em pista. Senna, no final, afirmou que a conversa iria prosseguir no Mónaco para criar um caderno de encargos para entregar na FIA para identificar as partes perigosas nos carros e circuitos, e melhorá-las. Acabou por não acontecer. 

E minutos antes da corrida começar, disse a seguinte frase: “A Fórmula 1 não voltará a ser a mesma depois deste fim de semana.” Arrepiante, não é?

Quando o acidente aconteceu, e nesses primeiros minutos, enquanto estava a ser socorrido, um carro arrancou esbaforido na pista, sem saber que a prova tinha sido interrompida. As suas reações rápidas evitaram que ele atropelasse comissários de pista e causasse outra catástrofe, para além daquela. Era o Larrousse de Comas, o piloto que tinha sido salvo por Senna ano e meio antes. Quando viu quem era, saiu do carro e tentou ajudar os paramédicos, que lhe disseram ser inútil. 

Entristecido com o que se tinha passado, foi para as boxes de carro. A seu lado, o capacete ensanguentado de Senna. Ele soube no momento que tinha morrido. Decidiu não participar na corrida, e no final da temporada, abandonou a Formula 1.    

Já passaram 30 anos sobe este dia. Muito se escreveu, especulou sobre ambos - Senna, em particular. Os brasileiros sentem uma certa orfandade, não escapando muito ao sentimento de "vira-lata", ou seja, quando estão em baixo, sentem-se na lama, mas quando são os melhores, sentem-se o povo escolhido e o Céu é apenas o limite. Em termos sociológicos, é um povo que precisa de heróis para se guiar. Mas esquece que eles são humanos, de carne e osso. E como viram, morrem. E mesmo mortos, o povo os faz santos.

Francamente, não gosto de santos. Nisso, sou muito ateu. Mas o que admiro em Senna e Ratzenberger é que são de uma espécie rara, que escolhem o que fazem, são muito talentosos, e sobretudo, foram humanos. E é isso que me causa admiração. Não os seus estatutos de "mártires do automobilismo", que muitos decidiram tomar. Mas nisso, faço parte de uma minoria.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Youtube Formula 1 Vídeo: A "corrida do século"

Roland Rat contra Roland Rat. Estranho, não é? Mas a coincidência entre um boneco animado e um piloto de corridas era demasiado bom para deixar passar despercebido, e em 1985, existia um desenho animado onde um rato era capaz da animar os garotos no canal de televisão TV-am. A personagem apareceu dois anos antes, em 1983, e tornou-se num sucesso. 

Quando nesse ano surgiu um austríaco com uma coincidência de nomes, Roland Ratzenberger, o que se tornou numa piada de "paddock" transformou-se rapidamente num desafio, que acabou em Silverstone, numa corrida entre as personagens. Ratzenberger, que ao mesmo tempo tinha um excelente sentido de humor, também tinha olho para a oportunidade de dar nas vistas, aceitou o desafio. 

Os carros? Roland, o boneco roedor, tinha um Ford Anglia rosa, enquanto Roland, o piloto, tinha o seu Formula Ford. 

Curiosamente, o desafio vai para o ar no último episódio de Roland Rat na TV-am. Em setembro, começou, mas na BBC, e Roland, o piloto, aproveitou a exposição - tinha o seu nome em letras carregadas no seu carro - para ser segundo classificado na Formula Ford Festival em 1985, em Brands Hatch, acabando por ganhar no ano seguinte.  

terça-feira, 30 de abril de 2024

Youtube Formula 1 Video: Roland Ratzenberger (última parte)

Chegou ao fim o documentário sobre Roland Ratzenberger, o austríaco que morreu aos 33 anos, no sábado do GP de San Marino de 1994, a bordo do seu Simtek. E esta quarta parte, fala-se sobre o seu tempo - curto, muito curto - na Formula 1, e de como ele, aos poucos se adaptava a um novo meio. Depois de uma não-qualificação em Interlagos (o seu carro esteve a ser montado por boa parte do fim de semana e não teve muito tempo para fazer uma marca), e de ter levado o carro até ao fim em Aida, em Imola, o objetivo era ir mais além de uma mera qualificação: era o de subir na grelha. 

Contudo... como todos sabem, não teve tempo.  

segunda-feira, 29 de abril de 2024

A imagem do dia (II)




Parece ser alguém com confiança para encarar mais um Grande Premio, não é?

A primeira foto é do jornalista checo Tomas Hyan, e foi tirada na quinta-feira, 28 de abril, no paddock de Imola. Roland Ratzenberger está a caminho do seu terceiro Grande Prémio, determinado em mostrar que merece um lugar ao sol. O seu polo púrpura, representando a Simtek, saindo do Porsche 911 descapotável, vindo do Mónaco, mostra também que está a vestir a camisola da equipa, mais que o simbolismo dessa peça de roupa.

As outras duas, mais conhecidas, são do fotógrafo francês Paul-Henri Cahier.

Ratzenberger vivia o seu sonho. Ao procurar por contactos, encontrou Barbara Behlau, uma empresária que vivia no Mónaco, e a convenceu a ser o seu representante, encontrando patrocínios para si e para a equipa. Behlau meteu algum do seu próprio bolso - é ela a "Barbara" nos flancos do Simtek - e vendeu quase todos os seus bens para ter um lugar na equipa. Conseguiu o dinheiro suficiente para cinco Grandes Prémios, que alargou para seis quando ele não se qualificou para o GP do Brasil, por causa de um problema causado pela equipa. 

Behlau disse-lhe que as suas performances - e também um pouco o seu charme/carisma - foram suficientes para chamar a atenção de um potencial patrocinador, que daria o suficiente para alargar a sua presença em mais algumas corridas, quem sabe, toda a temporada. Muitos afirmam que foi isso que o pressionou a fazer melhor que tinha feito nas corridas anteriores, onde estava numa situação de "empate": a não-qualificação de Interlagos, com a qualificação de Aida. O que queria em Imola era ficar o mais perto possível do seu companheiro de equipa, David Brabham, e claro, ficar mais "desafogado" em termos de diferença em relação aos Pacific, a sua ameaça imediata. 

Curiosamente, Ratzenberger estava a dar boleia a outro piloto: J.J. Letho, que em Imola regressava ao seu Benetton depois de duas corridas de ausência, por causa de um acidente nos treinos de pré-temporada em Silverstone. O finlandês iria saber até que ponto ele estaria recuperado, perante um carro que estava nas bocas do mundo pelas suas performances... que levantavam suspeitas. 

Se há pressão na sua expressão, deverá ser causada por ele mesmo. Queria destacar-se, ir aos limites. E quando se vai ao limite, estás propenso ao erro.    

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Youtube Formula 1 Video: Roland Ratzenberger (Parte 3)

Hoje é dia de apresentar a terceira parte do documentário sobre Roland Ratzenberger. Aqui, o foco neste episódio tem a ver com a sua passagem pelo Japão, onde correu pela Toyota na Endurance local, ao ponto de ter uma vitória na sua classe nas 24 Horas de Le Mans. E também o seu tempo na Formula 3000 local, onde correu contra gente como Heinz-Harald Frentzen, Mika Salo, Mauro Martini, Marco Apicella e outros, onde se tornou um piloto conhecido localmente.

E no meio do documentário, nas conversas, a obsessão pela Formula 1: um negócio que tinha de fazer, nem que fosse para acalmar a sua consciência.  

terça-feira, 16 de abril de 2024

A(s) image(ns) do dia



A Formula 1 estava na sua segunda corrida do ano, e... era uma estreia. Basicamente, o realizar do sonho de uma pessoa que desenhou o circuito. Chamado de Ti-Aida, na realidade, a pista se situa em Okayama, um lugar entre Kobe e Hiroshima, na parte sul da ilha de Honshu, a principal do arquipélago japonês. Ou seja, mais a sul de Suzuka, que fica na região de Kyoto.

Em meados da década de 80, Hajime Tanaka tinha enriquecido com o desenho de campos de golfe um pouco por todo o Japão. Aproveitando o "boom" da economia nipónica, decidiu comprar um terreno no interior da província de Okayama e em 1990, inaugurou aquilo que chamou de Ti-Aida, essencialmente, para os ricos trazerem as suas máquinas. Já agora, "Ti" significa "Tanaka International".

Com o passar dos anos, abriu a pista para competições nacionais e internacionais, e logo, tentou convencer a Formula 1 em receber uma segunda corrida no Japão. Nesses anos de fartura, alguns circuitos foram feitos com esse objetivo, um deles, Autopolis, situado no Kyushu, no sul. Mas a bolha explodiu e em 1994, a Japão estava em plena crise económica. Contudo, Tanaka persistiu no sonho de receber... e conseguiu, ter a Formula 1 no seu quintal.

No calendário, a corrida iria ser a segunda do ano, e claro, a primeira vez que a Formula 1 iria correr na primavera no Japão - a próxima ocasião só iria acontecer em... 2024 - e as pessoas pensavam que ali, Ayrton Senna poderá reagir a um Michael Schumacher que tinha ganho inesperadamente - para imensos - no Brasil. Mas existia um obstáculo: ninguém tinha corrido em Aida! 

Bem, existia uma excepção: Roland Ratzenberger.

O piloto da Simtek não tinha qualificado em Interlagos, por causa de problemas no carro - aparentemente, Nick Wirth deu-lhe uma corrida extra para compensar pela não-qualificação - e sabia que ali, tinha de mostrar o que valia. Afinal de contas, entre 1991 e 1993, tinha andado nas pistas japonesas, primeiro na Formula 3000, depois na Endurance local, pela Toyota, e sabia umas coisas dessa pista, que era pequena, travada e lenta.

A Ferrari tinha um problema: Jean Alesi tinha tido em acidente em Mugello, lesionara-se nas costas e iria ficar de fora por algumas corridas. No seu lugar foi chamado Nicola Larini, seu piloto de testes, mas com experiência de Formula 1 na Coloni e Osella. E na Jordan, Eddie Irvine tinha sido suspenso por ter provocado a carambola que envolveu o Benetton de Jos Verstappen, o McLaren de Martin Brundle - que quase arrancou a cabeça dele! - e o Ligier de Eric Bernard. No seu lugar entraria Aguri Suzuki.

Os Simtek eram mais lentos que os carros que estavam imediatamente na sua frente - os Lotus de Johnny Herbert e Pedro Lamy - mas se David Brabham até era competitivo, já Roland... nem por isso. Não marcou tempo na sexta-feira, e estava aflito quando foi para a pista no sábado, para marcar um tempo melhor que os Pacific, outra equipa estreante, e que tinha um chassis pior que os da Simtek. Tinha de conseguir um tempo abaixo de 1.16,9 para se qualificar, e já era distante de 1.14,9 que conseguira o seu companheiro de equipa.

Foi para a pista, aplicou-se... e conseguiu. 1.16,536 foi o tempo que conseguiu para ser o 26º e último na grelha, cerca de 1,7 segundos  mais lento que Brabham, mas o suficiente para participar, pela primeira ocasião, numa corrida de Formula 1. Era o seu primeiro grande feito. 

O segundo era correr... e terminar. E conseguiu: cinco voltas atrás do vencedor, na 11ª posição, parece ser lento, mas por exemplo, estava na mesma volta que os Ligier de Olivier Panis e Eric Bernard, que tinham... motores Renault! Em suma, parecia que ele vivia o seu sonho e tinha alcançado um primeiro objetivo na vida. 

Ainda era para receber na Formula 1 em abril do ano seguinte, mas em janeiro, três meses antes, um forte terramoto na área de Kobe, causou estragos na região - um desmoronamento de terras bloqueou a principal via de acesso ao circuito - e a corrida acabou por acontecer no outono. Até foi um mal que aconteceu por bem, porque foi ali que Michael Schumacher comemorou o seu segundo título mundial.  

Mas os feitos do Ratzemberger aconteceram há precisamente 30 anos.          

segunda-feira, 15 de abril de 2024

Youtube Formula 1 Video: Roland Ratzenberger (Parte 2)

No segundo vídeo do documentário sobre a vida e carreira de Roland Ratzenberger, fala-se sobre os seus esforços de ir para a Grã-Bretanha para correr, primeiro, na Formula Ford, depois, na Formula 3 e Formula 3000, com passagens pelo DTM e as 24 Horas de Le Mans, até ao final da década de 80. 

E no final, algumas das duas decisões para a década seguinte, como por exemplo, a sua ida para o Japão, aparentemente, para correr pela Toyota na Endurance.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Youtube Formula 1 Vídeo: Roland Ratzenberger (Parte 1)

Saiu nesta segunda-feira a primeira parte do documentário sobre Roland Ratzenberger, o piloto que morreu no sábado do GP de San Marino de 1994. A produção demorou cerca de uma década, e aqui, fala das suas origens no automobilismo, a sua fome e sede de vencer. 

Entre os que falam por aqui está o campeão do DTM, Manuel Reuter, e Franz Tost, o antigo diretor da Toro Rosso e um dos que acompanhou nos seus primeiros tempos de automobilismo, na Áustria.  

sábado, 30 de março de 2024

Youtube Formula 1 Video: O documentário sobre Ratzenberger

Daqui a um mês passarão 30 anos sobre a morte de Roland Ratzenberger, piloto austríaco da Simtek que morreu no sábado do GP de San Marino, um dia antes de Ayrton Senna. Sabia-se desde há algum tempo que estava a ser feito um documentário sobre o piloto austríaco, a sua carreira e o seu final na pista de Imola, e esta semana mostrou-se o trailer.

O documentário será mostrado em abril, algures no Youtube.    

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

A imagem do dia


Na foto, David Brabham corre no único Simtek presente no GP do Mónaco. Em cima, o tributo ao seu companheiro de equipa, Roland Ratzenberger, morto na etapa anterior, em Imola.  

Se em alguma altura alguém escrever algo sobre a curta e trágica história da Simtek, há personagens que merecem ser referidos, para além de Brabham e Ratzenberger, entre outros. E nesse curto período, entre 1994 e 1995, para além de Nick Wirth, a figura de Barbara Behlau merece ser contada. E a sua história apareceu por estes dias no muito interessante site de origem neerlandesa chamado unracedf1.com. É que ela não foi só a manager de malogrado piloto austríaco, ajudando-o na sua carreira. A certa altura, chegou a ser dona de um terço da sua equipa e a que mais acreditou nela até ao momento em que faliu, após o GP do Mónaco. 

Não é por nada que o título usado é "a salvadora da Simtek". E a história merece ser contada.

Filha de uma neerlandesa e de um monegasco, nasceu nessa cidade em 1944, e cresceu por ali. Fascinada por desportos, mais concretamente a Formula 1, fundou uma agência de relações públicas na década de 80 chamada "Agence Barbara M.C", de Monte Carlo, a cidade onde trabalhava. Não era só desporto onde trabalhava, também tinha alguns artistas de cinema e televisão - Cannes não é longe dali. Cruzou-se com Ratzenberger no início da década de 90, pois ambos moravam na cidade, e ela decidiu agenciá-lo. Com o sucesso dele no Japão, na Formula 3000, bem como as suas participações na Endurance, quando ele conseguiu o lugar na Formula 1, pagou do seu próprio bolso os 500 mil dólares suficientes para correr nas cinco primeiras corridas: Brasil, Japão, San Marino, Mónaco e Espanha. E até lá, tentaria arranjar dinheiro para mais.

A história é conhecida: apesar da não-qualificação no Brasil, terminou em Aida, no Japão, e tinha um lugar na grelha em Imola, quando teve o seu acidente mortal no Sábado. Por esta altura, parecia que poderia arranjar mais patrocinadores para que ele ficasse por mais algumas corridas, pelo menos existiam conversas nesse sentido. 

A equipa continuou, em honra a ele, e o seu envolvimento tornou-se maior, num verdadeiro espírito de "equipa de garagem". Behlau chegou a ter 30 por cento da equipa, procurando por dinheiro para o manter a flutuar. Ao longo de 1994, tiveram mais pilotos como Andrea MonterminiJean-Marc Gounon, Domenico "Mimo" Schiartarella e Taki Inoue.

Em 1995, tinham três pilotos no alinhamento: Jos Verstappen, Mimo Schiartarella e outro japonês, Hideki Noda. O neerlandês foi um empréstimo da Benetton, onde tinha corrido por 10 corridas na temporada anterior, enquanto os outros dois iriam partilhar o lugar. Contudo, em janeiro de 1995, há um terramoto de Kobe, no centro do Japão, e as finanças sofrem um abalo, porque os patrocinadores são de lá e são afetados pelos estragos. Behlau e outros tem de arranjar rapidamente dinheiro, porque sem ele, não acabariam a temporada. 

Apesar de um bom chassis, e alguns resultados interessantes na Argentina, no Mónaco, não havia nem dinheiro, nem patrocinadores. Após essa corrida, e apesar da procura incessante, decidiram encerrar as suas participações após a corrida monegasca. Os bens foram vendidos em leilão.

De Bahlau, sabe-se dela em 1997, quando ajuda a arranjar patrocinadores para a Tyrrell, e lá ficou até ao ano seguinte, quando Ken Tyrrell vende a equipa à British American Tobacco para ela virar BAR. Depois, foi para a Arrows, onde ajuda a arranjar patrocinadores para Verstappen, no ano 2000. Acabaria por morrer em 2006, aos 62 anos, em Monte Carlo. Como o autor do artigo que li dizia, algo mais do que uma nota de rodapé na Formula 1, especialmente por causa do espírito de luta de Ratzenberger, que mostrou a Formula 1 como mais do que um desporto. 

sábado, 22 de fevereiro de 2020

A imagem do dia

"O piloto em cada prova vive a emoção do último minuto de vida. Sua fama é merecida, não impora se é o primeiro ou o último. Todos têm um coração pulsando e uma pessoa esperando por eles. O manto da morte é igual para todos."

Isso foi o que escreveu José Mojica Marins no seu primeiro texto para o jornal Noticias Populares, em março de 1994. Porque escreveria uma coisa dessas sobre algo do qual pouco ou nada tinha a ver? Mera curiosidade? Excêntricidade pura? O que importa é que no fim de semana do GP do Brasil de 1994, Mojica Marins esteve no paddock e... deu nas vistas. E há uma década, escrevi sobre essa presença aqui no blog.  E muitos fora do Brasil não sabem quem ele era, mas se disser que era o verdadeiro nome do "Zé do Caixão", realizador e ator de filmes de terror nos anos 50 e 60, provavelmente farão a associação. Zé do Caixão desafiou nos seus filmes a moral e os bons costumes, um autêntico rebelde numa altura em que sê-lo era um verdadeiro perigo.

Mojica Marins, morto esta quinta-feira aos 83 anos, em São Paulo, marcou uma era no cinema brasileiro, e a sua personagem, um agente funerário amoral, que gostava de citar Friederich Nietszche e desprezava a igreja, deixou impacto nas mentes das pessoas em, pelo menos, duas gerações de cinéfilos no Brasil, ao ponto de três dos seus filmes terem sido eleito entre os cem mais marcantes do cinema brasileiro. 

E no paddock de Interlagos... foi ele mesmo. Primeiro, "assustou" Rubens Barrichello, quando o quis ver. E segundo, quando tentou a sua sorte com Ayrton Senna... Paulo Maluf, então perfeito de São Paulo, impediu-o de ver!

Assim, ele apareceu na boxe da novata Simtek, onde ele simpatiza com a equipa porque os carros estão pintados de... violeta. E tira uma foto em frente do chassis de Roland Ratzenberger. Na legenda da foto, escreve-se o seguinte:

"O Zé do Caixão deu a maior força para Simtek, a pior equipe da Fórmula-1. Nosso enviado especial exorcizou a carroça da equipe e encheu de poder os pilotos Roland Ratzenberger e David Brabham com a força das trevas. O pessoal da Simtek adorou o Zé. Os carros da equipe são pretos e roxos, as cores preferidas do Zé, e ele acha que a Simtek pode surpreender. 'Eu tirei todas as forças negativas do carro e, com essas cores, eles têm boas chances.'"

Cómico... se não fosse trágico. Primeiro, o austríaco não se qualificou para essa prova. E 34 dias depois, ele morreu nos treinos do infame GP de San Marino, quando o seu carro se despistou a mais de 350 km/hora na curva Villeneuve, causando a primeira morte num fim de semana automobilístico desde o GP do Canadá de 1982.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Recordar o passado vale a pena

Este espaço já têm onze anos de existência, e ao longo deste tempo, as redes sociais explodiram. Existem coisas que estão a funcionar em plano que eram ainda infantes quando isto começou, em fevereiro de 2007. E digo isto porque andei a fazer algo interessante ao longo destes dias: recuperar posts do passado para colocar em algumas das páginas nos quais sou editor.

Esta semana coloquei uma série de posts escritos em 2009 sobre o fim de semana de Imola. Um trabalho longo e complicado, do qual apliquei-me, dei o meu melhor na altura. Foi um grande trabalho, mas valeu a pena. Foi muito visto na altura, e agora, nove anos depois, fez esse exercício... quase por acaso.

Uns dias antes, estava a ver alguém a ver o post que escrevi sobre Roland Ratzenberger, que escrevi em 2007, a sua biografia. Estavam poucos visitantes, mas os suficientes para aparecer entre o "top cinco" na hora. Quase de repente, de forma instintiva, peguei nisso e meti nas páginas dos quais sou administrador. Foi um sucesso. Passou a ser dosa mais vistos, tive mais de 1300 visitantes. E dali, passei a colocar os posts sobre Imola, que escrevi em 2009, quando foram os 15 anos do acidente. Outro sucesso. Mas desse periodo, o último que escrevi foi um pequeno post de Rudolph Ratzenberger, o pai de Roland, a bordo do Porsche 911 que foi do seu filho, dando voltas no Red Bull Ring, em 2017. 

A matéria encontrei por acaso, no Twitter, no site da Petrolicious. Peguei em algumas das fotos, dei-lhes crédito, fiz um link para o artigo original e falei do que sabia sobre a sua relação complicada, da vontade de vencer do filho e o desejo do seu pai que tivesse um trabalho "normal". Roland seguiu os seus sonhos e acabou por ser respeitado, quer no Japão, quer depois na Europa. E o pai entendeu isso, tanto que se entenderam antes de ele morrer. E as fotos dele, segurando o capacete, naquela tranquilidade dignificada, com uma ponta de orgulho ao saber que o seu filho não foi esquecido, comoveu-me. E estatisticamente, foi a única coisa que escrevi sobre esse fim de semana. E rendeu-me 2300 visitas.

Ao todo, só seis posts me deram quase dez mil visitas neste blog. Cinco reciclagens e uma nova. Não sou eu a reviver o passado, é apenas uma forma de pegar no arquivo sobre coisas que as pessoas gostam de recordar. E vale a pena. Vou voltar a fazer o mesmo durante a semana, pelo menos até à altura do Gilles Villeneuve. Depois, chega, para não cansar. É apenas uma experiência.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

A imagem do dia

A imagem descobri numa matéria escrita no ano passado no site Petrolicious. A matéria em si fala sobre o Porsche 911 descapotável que pertenceu a Roland Ratzenberger e tinha como passageiro Rudolf Ratzenberger, o pai de Roland. Agarrado ao seu capacete, tem uma pose digna, com uma mistura de orgulho e tristeza pelo seu filho, o que foi e o que fez na sua vida. Viveu para um sonho, é o que está escrito na sua campa, em Salzburgo.

Rudolf não queria que Roland fosse piloto. Não achava que fosse uma profissão digna desse nome e ambos não falaram um com o outro por muitos anos. A reconciliação aconteceu em 1991, quando ele venceu os 1000 quilómetros de Suzuka, e nos meses antes da morte do filho. Quando o viram no seu Simtek e ele a falar com orgulho naquilo que tinha alcançado. De uma certa forma, ele entendeu o porquê da sua teimosia, do seu foco.

Minha melhor lembrança de Roland é de 1991”, diz Rudolf Ratzenberger, “ele ligou para casa depois de vencer os 1000 quilómetros de Suzuka. Eu nunca o ouvi tão feliz e orgulhoso. Essa vitória levou-o a se tornar enormemente popular no Japão. Eu aprecio essa memória".

E fez amigos no meio, o que é raro nos dias de hoje. Um deles foi Mika Salo, que correu com ele no Japão, e dizia que juntava o que podia, apesar de ganhar muito bem na Toyota: meio milhão de marcos por ano, o que era muito dinheiro na altura. 

Para Roland, as corridas eram um trabalho”, começou por dizer o ex-piloto finlandês. “Ele adorava, achava que era o melhor trabalho do mundo e queria ser o melhor nisso, mas também era o que o fazia viver. Ele levou isso muito a sério. Eu nunca o vi gastar um centavo. Ele faria tudo por você e o ajudaria onde quer que ele pudesse, mas ele não compraria o jantar para você. Eu até dei a ele minhas roupas velhas, que ele usaria alegremente. Ele estava economizando todo o dinheiro para comprar uma casa em Salzburgo.

A grande excepção? O Porsche. Hoje em dia, pertence a Harald Manzl, outro amigo pessoal de Ratzenberger.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

A visão de Newey sobre Imola

Adrian Newey é um dos maiores projetistas do seu tempo. Desenhou carros icónicos na Formula 1 que vão desde o Williams FW14, de 1991, até ao McLaren MP4-12, de 1998, passando pelos Red Bull campeões do mundo, entre 2010 e 2013. Agora algo retirado da competição, mas ainda a desenhar os carros da equipa de Milton Keynes, Newey decidiu publicar um livro sobre as suas criações. De seu nome "How To Build a Car", fala sobre todas as suas criações desde meados dos anos 80, tendo começado em 1981 com a Fittipaldi.

Contudo, o mais interessante é ele dar as suas visões sobre o acidente que matou Ayrton Senna em 1994, e sobre a sua criação, o FW16. Ali ele fala das suas responsabilidades sobre o acidente, de que não acredita que foi uma falha da suspensão a causa dela, e critica o julgamento, afirmando que o procurador encarregado do caso estava mais em busca de prestigio pessoal do que estar à procura das verdadeiras causas dos acidentes daquele fim de semana.

Primeiro que tudo, descreve os arranjos feitos na coluna da suspensão - a pedido do próprio Senna - como "duas más peças de engenharia" do qual "ele e Patrick Head foram responsáveis". Conta que depois do acidente, fizeram testes e apesar de alguns sinais de fadiga, não eram susceptíveis de quebra.

Contudo, assume as suas responsabilidades: "Independentemente da coluna da direção ter causado o acidente, era uma péssima peça de design do qual nunca deveria ter entrado dentro daquele carro."

Para ele, a sua responsabilidade no mau design do FW16 tem mais a ver com o aerodinamismo do carro, que ficou estragado com a alteração dos regulamentos, que aboliram coisas como a suspensão ativa, e que tornaram aquele carro nervoso.

"O que eu sinto a maior culpa, porém, não é a possibilidade de que a falha da coluna de direção possa ter causado o acidente - porque eu não acho que foi assim - mas o fato de eu ter estragado a aerodinâmica do carro. Eu estraguei na transição da suspensão ativa [em 1993] de volta ao passivo e projetei um carro aerodinamicamente instável, no qual Ayrton tentava fazer coisas que o carro não era capaz de fazer".

"Se ele teve ou não um furo, ele ter tomado linha mais rápida num asfalto ondulado, num carro que era aerodinamicamente instável, teria tornado o carro difícil de controlar, mesmo para [um piloto como] ele".

Newey criticou ainda o procurador encarregado do caso, Maurizio Passarini, afirmando que ele fez mais por glória pessoal do que para esclarecer o caso. "O fato de que, no caso de [Roland] Ratzenberger, este foi tão facilmente varrido debaixo do tapete deixou-me desconfiado de que a principal motivação de Passarini poderia ter sido a glória e notoriedade pessoais".

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Youtube Formula 1 Classic: Um testemunho de Imola 1994

Por estes dias, no Youtube, esta filmagem está a causar sensação. E a razão está bem à vista: são as filmagens de alguém que estava na tribuna principal em Imola, durante o GP de San Marino de 1994, um dos mais negros fins de semana da história da Formula 1. Thomas Gronvold, norueguês, tinha 21 anos quando foi a Itália com o seu pai Alf, para visitar a fábrica da Ferrari e claro, ver o Grande Prémio. Só captou filmagens de sábado e domingo, mas são mais do que suficientes para ter uma ideia desse fim de semana que ficou na mente de toda uma geração.

Numa entrevista ao site italiano "Passione a 300 a l'ora", Gronvold contou o que foi esse fim de semana:

"Eu tinha 21 anos, e eu viajei com meu pai Alf para assistir a corrida e apoiar a Ferrari. Infelizmente Jean Alesi não corria por causa de um acidente de testes em Mugello, algum tempo antes. No verão, voltei para a Itália, para um curso de condução de carros da Ferrari, chamado de "Pilota Ferrari".

Dirigimos de Ski, uma cidade ao sul de Oslo, na Noruega, até Riccione, onde ficamos por toda a semana. Tínhamos amigos por lá, e em San Marino, que nós fomos visitar durante esses dias, e por isso não participamos nos treinos de sexta-feira, onde Barrichello sofreu o seu acidente.

No sábado houve o acidente fatal de Ratzenberger: não tivemos nenhuma informação sobre a pista e descobrimos o que tinha acontecido apenas quando voltamos ao nosso alojamento. No domingo, fomos cedo na pista para tirar proveito do dia. Lembro-me que um dia antes estávamos sentados no mesmo lugar onde alguns espectadores ficaram feridos pelos destroços do acidente da partida entre o J.J. Lehto e o Pedro Lamy. Nós olhamos e dissemos que tivemos muita sorte de não estarmos sentados no mesmo lugar.

Durante a corrida, houve muito pouca informação, tanto sobre as condições de Senna, quando ao geral. Quando chegou a noite, ao nosso hotel, descobrimos a verdade. Pedimos como estava Senna e a resposta foi curta: 'morto'. Nós nos sentimos exaustos [fisica e mentalmente] e nem fomos jantar naquela noite.

Foi um fim de semana horrível: ao mesmo tempo, no entanto, eu sinto que fiz parte, ainda que pequena, de um evento histórico do qual nunca vou esquecer".

Gronvold recebeu muitas mensagens, uma das quais marcou-lhe na memória:

"Depois de publicar o vídeo eu recebi um email de um amigo da família Ratzenberger, que tem me perguntado sobre os eventos. Não há muitas imagens de Roland desse fim de semana. Nós nos sentamos no Skype e eu dei-lhes os que tinha na minha posse. A família dele realmente gostou do fato de que tinha novas imagens nunca antes vistas".

sábado, 4 de julho de 2015

A foto do dia

Nunca podemos esquecer que hoje seria o dia de aniversário de Roland Ratzenberger. E hoje seriam 55, os anos que teria cumprido.

Onde quer que estejas, feliz aniversário. E cumpriste o teu sonho, não te preocupes.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

A foto do dia (II)

"Er lebte fur sein traum". Viveu para o seu sonho. É o que está escrito no seu túmulo, em Salzburgo. Se eu quiser ser politicamente incorreto, direi que um verdadeiro fã de automobilismo é aquele que se lembra de Roland Ratzenberger no fim de semana de Imola. Para minha felicidade, os meus amigos petrolheads não se esquecem do veloz e versátil piloto austríaco, morto faz hoje 21 anos.

Toda a gente conhece a história dele: lutou para chegar até lá, vendeu tudo o que tinha para conseguir o suficiente para cinco corridas. Não se qualificou na primeira, mas conseguiu um lugar na grelha na segunda corrida, no Japão, onde chegou até ao fim, a cinco voltas do vencedor. E tinha conseguido tempo para se qualificar na terceira, antes do seu acidente fatal.

Muitos tendem a esquecer dele, mas todas as mortes do automobilismo, e em especial na Formula 1, não são de primeira ou de segunda categoria. Se lembramos de Jim Clark, Ayrton Senna ou de Gilles Villeneuve, também temos de lembrar de Roger Williamson, Helmut Koinigg ou de Riccardo Paletti. Nestas coisas, a morte coloca-os em igualdade, independentemente da fama e da experiência.

Todos os anos lembramos deles, mas tendemos a esquecer que o automobilismo é ainda um desporto perigoso. No passado fim de semana, dois pilotos de rampas perderam a vida em acidentes diferentes, um deles na Austria natal de Ratzenberger, para não falar dos eventos de outubro passado, em Suzuka, com o carro de Jules Bianchi. A velha ceifeira nunca andará longe dos paddocks, por muitos que a queremos afugentar.

A foto do dia

É raro, bem raro existirem fotos de Ayrton Senna e Roland Ratzenberger naquele maldito fim de semana de Imola. Em agosto do ano passado, coloquei por aqui uma foto dos dois carros juntos em Imola, dizendo que antes disso, só tinha visto uma foto. Pois bem, hoje descobri mais esta foto daquele fim de semana, cortesia do sitio Contos da F1. Desconheço se foi na sexta ou no sábado, mas o sitio onde foi tirada situa-se ao pé da Piratella, entre a Tosa e Acqua Minerale. Apesar de estarem distantes um do outro, dá para ver que é o carro do Ratzenberger e não do David Brabham.

Por muitos anos que se passam, não se consegue esquecer desse fim de semana.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A foto do dia

Daquele maldito fim de semana de Imola, só tinha conhecimento de uma foto de Ayrton Senna e de Roland Ratzenberger juntos. Até hoje, quando encontrei no Twitter da Classic Formula 1 esta foto de ambos lado a lado, na reta da meta. 

Não sei se isto foi tirado na sexta ou no sábado, mas esta foto é incrível, por tudo o que aconteceu nesse fim de semana.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

O automobilismo continua a ser perigoso

Vinte anos depois da última morte na Formula 1, queria assinalar este dia de outra forma, fugindo às convenções que uma efeméride destas, num numero redondo como este, acarreta. Não foi fácil, mas ontem comecei a pensar sobre as coisas que já vi no automobilismo nesses anos todos. E uma das conclusões que cheguei é que as pessoas querem acreditar que depois de Ayrton Senna e Roland Ratzenberger, o grande legado do automobilismo é que este ficou mais seguro. A minha resposta a isso é... sim e não. Sim, é verdade que as coisas ficaram bem mais seguras, no sentido em que os pilotos têm hoje em dia muito mais hipóteses de sobrevivência. Mas tende-se a esquecer que nestes vinte anos que passaram, muitos foram os pilotos que pagaram o preço mais alto pelo seu amor à modalidade.

Desde que comecei este espaço, já lá vão uns sete anos, já lamentei as mortes violentas de alguns pilotos. Henry Surtees, Dan Wheldon, Allan Simonsen, Sean Edwards... e antes disso, recordo-me de outros como Dale Earnhardt, Paul Dana, Jerry Krosnoff, Scott Brayton, Gonzalo Rodriguez e Greg Moore. Bem vistas as coisas, como boa parte de nós vê a Formula 1 como o representante máximo do automobilismo, olhamos pouco para as outras categorias. E não temos em conta de que o automobilismo continua a ser perigoso, apesar dos avanços em termos de segurança e nos materiais usados para a construção dos chassis e dos sistemas de segurança.

Nestes vinte anos, creio que construímos um mito. O "mito da invulnerabilidade", aquele mito onde acreditamos - ou queremos acreditar - de que reduzimos o risco de morte para zero. Digo isto por causa das reações de surpresa quando acontecem acidentes graves na Formula 1. Sei que há exemplos que contrariam isso, como por exemplo o espetacular acidente de Robert Kubica no GP do Canadá de 2007, mas lembro-me das reações de choque quando Felipe Massa levou com aquela mola na cabeça, nos treinos do GP da Hungria de 2009. Por vezes acho que as pessoas, quando ouvem mortes no automobilismo noutros lados que não na Formula 1, devem dizer algo como "ah, foi noutro lado e não na Formula 1, pois eles fizeram tudo direito para evitar tragédias destas".

Confesso que tenho dificuldades em acreditar nisso. A FIA, apesar de fazer imensos testes em prol da segurança dos pilotos nos seus habitáculos - e avançou muito em termos de crash-tests, por exemplo - não creio que cubra todos os aspectos. Quero acreditar que sim, que se faz um trabalho bem feito nesse campo. Mas quando me lembro das circunstâncias do acidente fatal do Henry Surtees, em Brands Hatch, durante uma corrida de Formula 2 (levou com um pneu na cabeça de outro carro), pergunto-me por vezes se na realidade, ainda existe aquela ínfima parte de azar do qual um dia, a Formula 1 voltará a ser assombrada.

No meio disto tudo, voltei a lembrar os eventos de outubro de 2011, onde em uma semana, perdemos Dan Wheldon e Marco Simoncelli. Tal como aconteceu no passado com Roger Williamson, Gilles Villeneuve, Roland Ratzenberger e Ayrton Senna, na Formula 1, foram acidentes vistos em direto perante milhões de pessoas, em acidentes considerados horríveis. Em ambos os casos, as corridas foram canceladas de imediato. E fico a pensar que... se fosse na Formula 1, tal não aconteceria. E a razão era simples: porque o promotor não deixaria. E esse promotor, como sabem, chama-se Bernie Ecclestone.

Eccelstone é daqueles da velha guarda, que têm na mente aquela ideia de que "o espectáculo têm de continuar", e é capaz de agarrar-se a isso, mesmo indo contra a opinião pública, com os melhores exemplos aquilo que fez quando a Formula 1 vai a lugares duvidosos como o Bahrein, ou quando ia no passado na África do Sul, quando este vivia o regime segregacionista do "apartheid". Estando no meio desde há mais de 40 anos, o artificio que usou em Imola em relação a ambos os acidentes, de que os pilotos morreram no hospital, quando todos concordam que - pelo menos no caso de Ratzenberger - tiveram morte imediata na pista, para evitar que as autoridades intervissem, sendo obrigado a cancelar o Grande Prémio. E sei que muitos suspiram quando gostariam que essa corrida tivesse sido logo cancelada naquele sábado à tarde.

Nestes vinte anos, assistimos a um alto desenvolvimento da tecnologia para a resistência dos carros aos duros impactos e ao aumento da segurança nos carros e nos circuitos. Os anos 60 e 70 já lá vão, e desejamos que nunca mais voltem. Mas quero acreditar que a FIA fez um bom trabalho para que os carros sejam estupendamente seguros, que o risco de morte do piloto seja "zero", e que o trabalho nesse sentido por parte da entidade máxima do automobilismo é contínuo. Contudo, confesso que a ideia de que nunca mais veremos um acidente fatal na Formula 1 é mais um desejo do que uma realidade, porque, sejamos honestos... não existe o "risco zero".