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segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Considerações sobre Elon Musk

Acho que toda a gente sabe muito bem sobre a minha crença nos carros elétricos, de como num futuro próximo, têm o potencial de revolucionar a maneira como iremos andar de carro, bem como outras coisas complementares, como a condução autónoma e até o automobilismo. Mas até agora falei muito pouco sobre a pessoa que, em muitos aspectos, está a impulsionar isto tudo, que é Elon Musk, o multimilionário americano de origem sul-africana.

Como é sabido, este sábado, a Tesla e a Security and Exchanges Comission (SEC) chegaram a um acordo entre eles para que Musk fosse afastado como dirigente da Tesla por três anos e pagasse uma multa de de milhões de dolares - ele e a Tesla pagariam esse valor cada um. A razão tinha sido por causa dos "tweets" que ele mandou em julho sobre a possibilidade de fazer a sua companhia privada, caso as ações chegassem ao valor de 420 dólares, e teria um financiador para essa operação. Na realidade, não tinha qualquer financiador, não avisou a SEC - que controla os operadores da Bolsa de Nova Iorque, a Dow Jones e a NASDAQ - e a operação foi cancelada. A SEC chegou à conclusão que Musk mentiu e processou-o.

O acordo foi anunciado na madrugada de sábado para domingo e está ainda pendente de saber se o tribunal de Manhattan irá aceitá-lo ou não. Ou seja, está pendente. E claro, caso isto for para a frente, Musk terá um mês para sair voluntariamente do seu cargo. Contudo, o acordo não o impede de ser o CEO da Tesla, nem o impede de sair da empresa ou de ser acionista. Nem o impede de ser o CEO das suas outras empresas, como a SpaceX, a Boring Company ou a SolarCity, a empresa que está a fabricar painéis solares do tamanho das nossas telhas.

Contudo, li muita gente a felicitar este resultado, afirmando coisas do género "finalmente, começa a cair a máscara" e "o vendedor da banha da cobra foi desmascarado", como se fosse o principio do fim de alguma grande conspiração que se calhar só existe na cabeça deles, vá-se lá saber. É preciso que se diga que, como existem imensos apoiantes de Musk e que ele dá a cara por uma revolução nos transportes - para dizer o mínimo - existem também muitos a afirmar que ele não passa de um charlatão, muitas dessas afirmações baseados apenas em... meras irritações, digamos assim. 

Aos 47 anos de idade - nasceu a 28 de junho de 1971 - Musk fez imensa coisa. Um "nerd" que sofreu "bullying" quando crescia na África do Sul na fase final do "apartheid", aproveitou a nacionalidade canadiana da mãe para emigrar para o Canadá, e depois para os Estados Unidos no inicio dos anos 90, para estudar informática. Foi um dos fundadores da PayPal, que o fez milionário, e depois com esse dinheiro, se meteu noutras aventuras. Não fundou a Tesla, apenas a financiou nos seus primeiros tempos - foi formada em 2003 - para depois o adquirir por completo, um ano depois de fundar a SpaceX, que lançou o seu primeiro foguetão em 2007 e revolucionou a maneira como estes são lançados, recuperados e reutilizados, tudo isto com o objetivo de ir à Lua e a Marte nos próximos vinte anos. A sua fortuna pessoal anda na casa dos vinte mil milhões de dólares, foi casado por três vezes - duas com a mesma mulher - e teve seis filhos, um deles morreu de sindroma de morte súbita quando tinha dez semanas de vida.

Contudo, neste último ano, vê-se que Musk está numa espécie de "burnout". Quer estar em todo o lado ao mesmo tempo, fazer tudo ao mesmo tempo. Ele andou dias a fio na fábrica de Fremont por causa dos detalhes e dos problemas na linha de montagem do Model 3, dormindo muito pouco - provavelmente, nada - tem o problema dos "short stocks" - em linguagem financeira, pessoas que vão à imprensa falar mal de determinada empresa para fazer baixar o valor das ações para depois poder vender com lucro - e no meio de setembro, foi ao podcast do comediante Joe Rogan para falar de vários assuntos, mas o que ficou na memória foi ele ter fumado um charro de "cannabis" durante a entrevista. A droga é legal na Califórnia, é certo, mas o sururu foi grande um pouco por todo o lado. 

E nem falo de outras coisas que disse e causaram irritação. Não gosta muito dos transportes públicos como são agora, é critico da inteligência artificial, acha que os robôs deveriam pagar taxas - a mesma coisa defendeu Bill Gates - que as pesquisas sobre o hidrogénio "são um disparate". E este verão fez acusações a um dos mergulhadores envolvidos no resgate dos doze rapazes de uma gruta na Tailândia, que disse repetidamente na sua conta do Twitter que ele era um pedófilo, resultando num subsequente processo por difamação. Pouco depois, frustrado em relação ao seu tratamento nos órgãos de comunicação social, disse ter a intenção de fazer um site de noticias que batizou de "Pravda", o jornal oficial do Partido Comunista da União Soviética. Já agora, Pravda em russo significa "verdade"...

Musk é genial, é certo. Sabe vender muito bem o seu peixe. De uma certa forma, se quisermos continuar com esta metáfora, direi que tem a mais revolucionária peixaria do mundo, e os seus métodos de captura são inéditos. Mas ele é ao mesmo tempo o dono da loja de peixe, o capitão do navio, o piloto e o pescador. Fazer várias tarefas ao mesmo tempo cansa qualquer um. E tenho a sensação que ele não delega competências. Quer ser Deus, estar por toda a parte, e até agora, tem sido bem sucedido. Mas parece que luta contra tudo e todos, e a uma certa altura, ele vai se cansar e vai quebrar. E já disse coisas muito, muito polémicas. E claro, se há imensos que se converteram, há os que querem vê-lo arder, atacando a ele e atacando o que anda a fazer.

É óbvio que aquilo que faz não é "banha da cobra". A tecnologia está a ser provada como sendo viável, tem vantagens sobre os motores de combustão e os motores tem muito mais eficiência energética do que, por exemplo, os motores de hidrogénio. E é ele que está a impulsionar uma nova corrida ao espaço - há a Blue Origin, do Jeff Bezos, o dono da Amazon, mas é muito mais discreto que Musk - e tudo isto implica o investimento de muitos milhões de dólares, o trabalho de dezenas de milhares de engenheiros, operários e programadores, e tudo isto para algo próximo de uma revolução nos transportes. São os factos, não se pode negá-los. Sem ele a impulsioná-los, se calhar tudo isto ficaria no domínio da fição cientifica por mais uma ou duas gerações, como estamos agora no campo da ida à Lua e a Marte, por exemplo.

Contudo, acho que Musk expôs-se demais. Agora, tudo o que faz, tudo que escreve no seu Twitter pessoal, é alvo de imenso escrutínio. Tal como o presidente dos Estados Unidos, outro que se expõe em demasia na rede social de 280 caracteres, se escorregar na banana, aparecerá amanhã nos jornais, televisões e redes sociais. Haverá os que o odeiam, e os que o reverenciam. Francamente, o meu conselho seria o de se recolher e descansar um pouco. As coisas vão chegar lá com naturalidade, o mecanismo já está a rolar e é irreversível - os Tesla serão os carros mais vendidos nos Estados Unidos até ao final da década, as baterias terão um alcance de 600 ou 700 quilómetros, e terão cada vez menos metais raros; os foguetões chegarão à Lua e Marte, teremos um meio de transporte que levará pessoas a uma velocidade estonteante e que poderão revolucionar os transportes públicos. 

E se os americanos não estão para aí virados, os chineses estão. Andam a ouvi-lo atentamente nos últimos anos, e pela quantidade de marcas de automóveis que têm e andam a construir carros elétricos no seu país, como a Nio, e mesmo comprando firmas que estavam em dificuldades ou falidas, como a Faraday Future e a Fisker, injetando dinheiro e ressuscitando-as. Aliás, vai ser na China que a Tesla construirá a sua próxima fábrica. E os chineses, como sabem, querem ser a próxima potencia económica mundial, e levam tudo isto muito a sério... 

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

A imagem do dia



Esta terça-feira, seis de fevereiro de 2018, fez-se história. Pela primeira vez em meio século, um foguetão com energia equivalente ao Saturno V, levantou do Cabo Canaveral e colocou-se no espaço. Mas para celebrar este dia, fez-se algo mais interessante: um Tesla Roadster vermelho cereja, com o boneco de um astronauta a bordo e no painel de controlo, a frase "Don't Panic!" (Não Entrem em Pânico!), frase retirada do livro "The Hitchiker Guide To The Galaxy", de Douglas Adams.

Assisti ao lançamento ao vivo, e colocando de lado os gritos histéricos das pessoas que assistiram a tudo na sala de controlo da Space X, Elon Musk marcou imensos pontos na psique das pessoas. Algumas das aspirações para voltarmos ao espaço foram concretizadas, e o Falcon Heavy, que não é mais do que a junção de três Falcon 9, com 27 foguetões ao todo, tornou-se num foguetão viável. E mais: tudo correu na perfeição: os dois foguetões auxiliares voltaram à Terra. são e salvos.

E quanto ao carro? Agora vai rumo a Marte, colocar-se numa órbita que irá durar... a eternidade, se deixarem. É um símbolo, de uma certa forma. Todos andam a ver as imagens colocadas em direto do carro, a observar que a Terra é redonda (ao contrário de alguns que andam aí a defender o contrário...) e que, a partir daqui, a chance de voltarmos a explorar o espaço volta a acontecer. É um mundo que volta a abrir, uma revolução muitas vezes anunciada, e que agora irá acontecer.

sábado, 23 de dezembro de 2017

A(s) image(ns) do dia




Já tinha ouvido falar disto há uns dias, mas parece que é real: Elon Musk o homem que anda a querer mudar o mundo, quer com a Tesla, e com a Space X e também com a SolarCity, que fabrica baterias para armazenar energia. Pois bem, decidiu fazer algo totalmente diferente para o lançamento do seu foguetão Falcon Heavy, que deverá acontecer algures no inicio de 2018: lançar... o seu próprio Tesla Raodster. A da primeira geração, evidentemente, porque a segunda só deverá chegar em 2020.

Se de inicio, o pessoal pensava que era uma ideia disparatada, pois bem... tornou-se real. Especialmente quando Musk partilhou na sua conta no Instagram a foto do carro na carga do foguetão que vai estar em órbita, provavelmente para o resto da eternidade.

É de loucos, mas Musk quer mostrar ao mundo que é capaz. Incluindo ser caprichoso. E a razão porque faz isto explica-o desta forma:

"Os vôos de teste em foguetes novos geralmente contêm simuladores de massa na forma de blocos de cimento ou aço. Isso pareceu extremamente chato. Claro, qualquer coisa chata é terrível, especialmente nas empresas, então decidimos enviar algo incomum, algo que faça reagir. [Assim sendo], a carga útil será um Tesla Roadster original, com Space Oddity como banda sonora, numa órbita elíptica de Marte [com a duração de] mil milhões de anos", explicou Musk na sua conta de Instagram.

Detalhe interessante: o Falcon Heavy vai ter um dos mais poderosos propulsores da história do Espaço, algo que não se vê desde os tempos do Saturvo V, há meio século. E dentro em breve, este carro sairá deste planeta, provavelmente para sempre.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Youtube Atmosferic Challenge: o homem que bateu Felix Baumgartner

Até hoje, pouca gente fora do mundo dos negócios ou da tecnologia tinha ouvido falar de Alan Eustace. Engenheiro informático de profissão, de 57 anos de idade, este executivo da companhia que faz os motores de busca que nos ajudam todos os dias, decidiu ir de balão até ao topo do mundo. Literalmente, aos limites da atmosfera. E pelo meio, bateu a barreira do som e bateu o recorde de salto que pertencia a Felix Baumgartner.

E fez de uma maneira bem mais leve do que a tentativa patrocinada pela Red Bull: dispensou a câmara, colocou um fato pressurizado, amarrou-se a um balão enchido com 35.000 metros cúbicos de hélio e após duas horas de ascensão ele soltou-se, a uma altura de 41,5 quilómetros caindo a uma velocidade estratosférica durante 15 minutos até alcançar o solo, abrindo o paraquedas e aterrando em segurança.

Tudo foi preparado durante três anos, e debaixo de muito secretismo. E aparentemente resultou, porque todos foram apanhados de surpresa. "Foi incrível", disse ele, em declarações para o New York Times. "Foi lindo. Você podia ver a escuridão do espaço e você pode ver as camadas da atmosfera, o que eu nunca tinha visto antes."

E de facto, foi um feito espantoso.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Extra-Campeonato: Space Oddity no Espaço

Este deve ser o video do momento: o astronauta canadiano Chris Hadfield, que está na Estação Espacial Internacional, vai-se embora na próxima madrugada para regressar à Terra, mas antes de se ir embora, e no meio de todas as tarefas, decidiu fazer algo diferente: ser o primeiro ser no Espaço a gravar uma musica e respectivo videoclip.

E Hadfield escolheu a musica apropriada para a ocasião: "Space Oddity", de um David Bowie nos tempos de Ziggy Stardust, 40 anos depois de ter sido gravado. Bowie já respondeu, dizendo "Hello, Space Boy" (Olá, rapaz do Espaço) 

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Youtube Space Acheivement: O primeiro vôo implusionado para o Espaço

Passando de um desastre para um feito. Aos poucos, a Virgin Galactic está a construir o seu projeto de colocar um foguete para o espaço, num vôo suborbital, com o objetivo de impulusionar o turismo suborbital. O projeto já é antigo e pensa-se que os vôos comecem a acontecer já no ano que vêm, amas apenas após cerca de 50 a 100 vôos de teste. 

No passado dia 29, sob o deserto do Novo México, aconteceu o primeiro vôo implusionado do SpaceShipTwo, onde em pouco tempo, eles passaram a velocidade do som, sem problemas. E parece que a a cada dia que passa, estamos mais próximos de ver aparelhos civis no Espaço, o que já não é sem tempo.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Neil Armstrong e a Formula 1

Que Neil Armstrong, morto este sábado aos 82 anos, foi um herói para todos nós, isso é claro. De uma certa forma, é o melhor exemplo de um "nerd" bem sucedido, pois somente um entendido em engenharia é que poderia compreender e manobrar uma máquina tão frágil como o Módulo de Comando, que colocou a ele e a Edwin "Buzz" Aldrin na Lua, naquele já distante 20 de julho de 1969. O feito da Missão Apollo deve ser um dos - senão o mais bem conseguido - feito de engenharia do século XX.

Contudo, desconhecia o tamanho do impacto de Neil Armstrong, especialmente numa engenharia do qual nunca colocou os pés: no automobilismo, especialmente na Formula 1. Claro, colocar um homem no Espaço e noutro corpo celestial não tem nada a ver com a ciência de "conseguir leveza e  depois acrescentar velocidade", nas palavras de Colin Chapman. Mas tem um principio em comum: o de superar obstáculos que aparentemente parecem ser impossiveis. E muitos do que hoje em dia trabalham no automobilismo começaram a interessar-se pela engenharia devido à missão Apollo. Como Ron Dennis, que em 1969 tinha 22 anos e era um aprendiz de mecânico na Brabham, e que fez um tributo ao astronauta americano:

Fiquei triste por saber da morte de Neil Armstrong, o primeiro homem a chegar à Lua", começou por dizer Dennis, de 64 anos. "O feito de Armstrong e os seus colegas continua a ser o maior triunfo de engenharia que o mundo viu, contra todas as probabilidades. Foi - e continua a ser - inspirador para toda uma geração. É um feito que me inspirou. Em 1969, quando Armstrong disse as icónicas palavras 'um pequeno passo para o Homem, um grande salto para a Humanidade', tinha 22 anos e trabalhava como técnico na industria automobilistica. Armstrong mostrou-me, tal como muitos outros, de que à nossa maneira, temos de nos 'atrever a tentar' - e esse atrever a tentar que permanece um mantra na McLaren até aos nossos dias.", concluiu.

De uma certa forma, todos os que trabalham nas engenharias foram inspirados pelo programa Apollo e pela corrida espacial dos anos 60 e 70, entre americanos e soviéticos. E mesmo que nem todos os engenheiros formados tenham ido parar à industria aeroespacial, muitos acabaram na industria automotiva, também competitiva e também de ponta, com objectivos e feitos que à partida eram classificados como "impossiveis".

Este tributo de Ron Dennis é de facto dos mais inesperados. Mas vindo de quem vêm, não me surpreende.

sábado, 25 de agosto de 2012

The End: Neil Armstrong (1930-2012)

Qualquer pessoa que faz algo pela primeira vez, que realiza um sonho da Humanidade, torna-se automaticamente o nosso herói. Mesmo que depois faça coisas infames, ou depois se torne numa pessoa reclusiva, como foi o caso de Neil Armstrong. O primeiro homem a pisar a superfície de outro corpo celestial, no já distante ano de 1969, mais concretamente a 20 de julho, morreu esta noite aos 82 anos. Estava doente há algum tempo, tendo sido operado no inicio do mês para um "bypass" coronário.

Neil Alden Armstrong nasceu a 5 de agosto de 1930 num sitio chamado Wapakoneta, no estado do Ohio. Apaixonado pela aviação, voou na Guerra da Coreia e depois se tornou piloto de testes,  nomeadamente o X-15, o primeiro avião a passar a atmosfera. Em 1958, é criada a NASA, como reação ao lançamento do primeiro foguetão para o Espaço por parte dos soviéticos, o Sputnik. Curiosamente, Armstrong não foi um dos sete primeiros astronautas escolhidos para o programa Mercury e Gemini, retratados anos depois por Tom Wolf no livro "The Right Stuff", que depois virou filme: Alan Shepard, John Glen, Scott Carpenter, Walter Schirra, Gus Grissom, Gordon Cooper e Deke Slayton. Destes, apenas Glen - fez agora 91 anos - e Carpenter estão atualmente vivos. 

Entrou no programa na segunda leva, em 1962. A sua primeira missão foi o Gemini 8, em 1966, e aos poucos participou no passo seguinte, que foi a missão Apollo, que consistia em colocar um ser humano noutro corpo celestial, a Lua. Logo em 1967 soube que iria comandar a missão Apollo 11, desconhecendo-se ainda se esse seria a tal que pousaria na Lua.

Nessa altura, houve um episódio que marcou a sua aptidão para a liderança: em 1966, durante os testes de ensaio para a aterragem e descolagem do módulo lunar, houve uma avaria a poucos metros do solo. Armstrong, na sua calma, tentou controlar o módulo até quase ao último momento, antes de se ejectar, deixando o módulo estatelar-se e explodir no solo. Isso foi um dos motivos pelo qual ele foi escolhido para ser o comandante de missão: pela sua calma e sangue frio.

Em abril de 1969, a NASA anunciou a Apollo 11 e o resto do mundo ficou a saber que aquela iria ser a tripulação que iria fazer a primeira aterragem na Lua: Neil Arnstrong, o comandante, "Buzz" Aldrin, o piloto, e Michael Collins, que ficaria no Módulo de Comando e iria orbitar à volta da Lua. Tudo iria começar dali a três meses, a 16 de julho e se tudo corresse bem, iriam pousar no dia 20.

Para a história, tudo correu bem, mas quando se ouve da boca dos astronautas, parece que foi mais um milagre. Quando se ouve que Armstrong esteve a menos de dez segundos de ficar sem gasolina no momento da aterragem do "Eagle" na Lua, antes de poder dizer "A Águia alunou". Aliás, a resposta a essa frase foi: "Rapazes, algum do pessoal aqui em Houston já começava a ficar azul de tanto suster a respiração". Para terem uma ideia de que até que ponto estiveram perto do desastre.

O resto é história. Ninguém se esquecerá das palavras dele: "Um pequeno passo para o Homem, um salto de gigante para a Humanidade". Aliás, será sempre recordado por essa frase, e pelo facto de ter feito sonhar gerações inteiras. Afinal de contas, ele é o homem que realizou um dos mais velhos sonhos da Humanidade: pisar outro corpo celestial.

Mas o que ele não esperava era a reação que isso iria causar. Multidões estavam à espera deles quando chegaram à Terra. Tiveram um acolhimento de heróis, algo do qual não estavam muito preparados para isso. Foram recebidos um pouco por todo o mundo durante 45 dias, deram milhares de autógrafos, numa tourneé digna das grandes estrelas "rock". Isso foi demais para o calmo e timido Armstrong. De facto, podia ser calmo e frio em situação de limite, mas era tímido e reclusivo no dia-a-dia. Reformou-se da NASA em 1971 e tornou-se professor de Engenharia Aeroespacial na Universidade de Cincinati, na sua Ohio natal durante oito anos.

Anos depois, voltou a estar na ribalta quando fez parte da comissão de inquérito para o desastre do Challenger, em 1986, liderada pelo antigo secretário de estado William P. Rogers sobre os motivos do desastre, ocorrido a 28 de janeiro daquele ano. Ele, Rogers, Chuck Yeager (o primeiro homem a passar a barreira do som e nunca foi astronauta), Sally Ride, que em 1983 se tinha tornado na primeira mulher astronauta (e que morreu no mês passado, aos 61 anos) e o professor Richard Feynman descobriram que o Challenger explodiu devido às deficiências no sistema de foguetões que propulsionava o vaivém especial, algo que tinha havido avisos, logo, poderia ter sido evitado.

Depois disso, desapareceu de cena. Não dava autógrafos desde 1994, as suas aparições eram raras e as suas declarações também. Aparecia sempre que a NASA comemorava qualquer aniversário da Apollo 11, como foi em 2009, quando chegaram aos 40 anos da alunagem. E no ano seguinte, quando o Space Shuttle se retirou de vez depois de quase 30 anos de bons serviços, criticou a administração Obama pelo facto da NASA não ter quaisquer objetivos para alcançar nos próximos anos ou décadas, como o regresso à Lua ou a ida a Marte. 

Agora, aos 82 anos de idade, partiu definitivamente para as estrelas, provavelmente para provavelmente o lugar onde queria estar. O homem foi-se, fica a humanidade. Ars lunga, vita brevis

terça-feira, 12 de abril de 2011

Youtube Space Classic: A primeira órbita



Uma data como esta não podia deixar de ser assinalada um pouco por todo o mundo. Há anos que todo o 12 de abril é a "Noite do Yuri" onde astrónomos e entusiastas do Espaço um pouco por todo o mundo comemoram o dia do primeiro homem que viajou para fora da Terra, numa órbita de 108 minutos.

Mas também neste ano de 2011, o realizador britânico Christopher Riley decidiu fazer um documentário narrando o vôo de Gagarin. Assim sendo, pediu ao astrounauta italiano Paolo Nespoli, da Agência Espacial Europeia, para que filmasse a Terra vista do Espaço - neste caso, na International Space Station - recriando o vôo de Yuri Gagarin, recorrendo também aos registos sonoros do cosmonauta russo. O resultado final é "First Orbit" (Primeira Órbita, numa tradução livre) e o filme foi disponiblizado para ser visto no Youtube. E podem ver também o site, www.firstorbit.org.

Portanto, tragam as pipocas e a Coca Cola e venham recordar este dia unico na História da Humanidade.

Extra-Campeonato: os 50 anos de Yuri Gagarin, o primeiro homem no Espaço

Era baixote, mas tinha um sorriso cativante. Sobre ele, Serguei Korolev, o homem que tomava conta do programa espacial soviético, dizia que "tinha um sorriso que fazia acender a Guerra Fria". Provavelmente deve ser um dos homens que o mundo respeita, e é um dos marcos da corrida espacial, a par do Sputnik, que é admirado por todos. E hoje faz 50 anos que o homem foi para o Espaço. Esse primeiro homem era russo e chamava-se Yuri Gagarin.

Na era da Guerra Fria e da corrida espacial entre americanos e russos, estes últimos tinham conseguido antecipar em Outubro de 1957 quando lançaram o satélite "Sputnik", o primeiro objeto artificial a pairar no Espaço. Os soviéticos tinham um programa altamente secreto, liderado por Serguei Korolev, um homem que passara a vida a desenhar foguetes e a desenvolver o sistema de misseis da União Soviética, e o lançamento tinha sido tão inesperado que chocara o resto do mundo e desencadeou uma reacção que daria origem à corrida espacial entre eles e os Estados Unidos.

Com o passar dos anos, os americanos queriam bater os russos no passo seguinte, que era colocar um homem no Espaço. Por essa altura, em 1959, era uma questão de honra e os primeiros astronautas americanos, os sete do Projeto Mercury (Gus Grissom, Alan Shepard, John Glenn, Gordon Cooper, Walter Scirra, Scott Carpenter e Deke Slayton) tinham sido apresentados pela imprensa com toda a pompa e circunstância. No lado russo era o contrário, nada se sabia, dado o extremo secretismo do programa. Korolev, por exemplo, só seria revelado ao mundo no dia da sua morte, em 1966.

Por essa altura, os soviéticos tinham o programa Vostok (Oriente ou Leste em russo) e tinham selecionado vinte cosmonautas, todos entre os 23 e os 30 anos, e que não podiam medir mais do que 1,75 metros e pesar mais do que 72 quilos. Gagarin, quando foi selecionado, tinha 25 anos. No ano seguinte, Korolev selecionou seis para um programa mais avançado de treino no sentido de os preparar para o vôo da missão Vostok 1, e dois deles eram Yuri Gararin e Vladimir Titov. Mas ao longo de 1960, todos estavam convencidos de que o primeiro seria Gagrin, devido aos testes feitos por eles e pela sua maneira de estar entre os seus companheiros.

Enquanto que os cosmonautas eram treinados, o foguetão era experimentado. sete lançamentos foram feitos, dois quais três foram um sucesso e dois acabaram em explosões. Mas o pior desses incidentes não foi um lançamento: aconteceu a 24 de outubro de 1960, quando um foguetão R-16 carregado de combustivel explodiu durante uma operação de reabastecimento, em Baikonour, causando a morte de 165 pessoas, incluindo Nitrofan Nedelin, o chefe do departamento estratégico de misseis do Exército Vermelho. Apesar do incidente nada a ter a ver com o programa espacial, isso tinha causado atrasos no programa e elevara os riscos de algo correr mal quando fosse a vez de lançar o cosmonauta.

No inicio de 1961, Korlolev escolheu os seus dois primeiros cosmonautas: Yuri Gagarin e Gherman Titov. Ambos seriam lançados para o espaço nesse ano, o primeiro dos quais a 12 de abril, e ambos trabalhariam em dupla, com um a substituir o outro em caso de doença ou lesão. Nesse 12 de abril, acordaram às 5 e meia da manhã, tomaram o pequeno almoço, entraram nos seus fatos espaciais e foram transportados para o lugar do lançamento. Pelas sete e dez da manhã, Gagarin entrou no seu Vostok 1 e esperou mais duas horas até à hora do lançamento, conversando com o chefe da missão e com Korolev.

Entretanto, houve um atraso de uma hora, quando se verificou que a porta não tinha ficado devidamente selada. Apesar de tudo, Gararin estava calmo: a sua pulsação média era de 64 batimentos por minuto.

O lançamento estava marcado para as 9:07 locais, menos três horas pelo horário mediano de Greenwich. Quando aconteceu, nos sete minutos a seguir, com os propulsores a puxarem o foguetão para o espaço, tudo estava a correr como planeado. "... o vôo está a correr bem. Estou a ver a Terra. A visibilidade é muito boa... consigo ver quase tudo. Há um certa claridade acima da capa de nuvens. Vou continuar o voo, está tudo a funcionar bem." Foi assim até chegar à altitude de orbita, onde permaneceu por lá durante uma hora. Depois os sistemas começaram a funcionar automáticamente os seus mecanismos para a descida, e esta aconteceu na zona de Saratov, no centro da Russia.

Quando este caiu em terra, pois tinha se ejetado da capsula Vostok devido a um problema técnico, a cena tinha sido observada por um agricultor e a sua filha, que ficaram assustados por tal figura. Gagarin disse depois: "Quando me viram com o fato laranja e o paraquedas, e comecei a andar, fugiram com medo. Então disse-lhes: 'não tenham medo, sou soviético como vocês, que veio do espaço e precisa de um telefone para falar com Moscovo!'" Tinha voado durante 108 minutos e a partir daquele dia, o seu nome entraria nos livros de História.

Como é óbvio, os soviéticos anunciaram logo naquele dia o sucesso da operação, e elevaram Gagarin ao estatuto de herói. Podia ser uma mera operação de propaganda, para mostrar que os soviéticos é que estavam na vanguarda da tecnologia, mas todos queriam e adoravam ver Gagarin, cujo sorriso era contagiante. Mas ele não voaria mais para o Espaço, pois o Politburo soviético achava que Gagarin era demasiado precioso para que se arriscasse a uma nova missão espacial. Era a maldição dos primeiros...

Contudo, Gagarin foi promovido a Coronel, tornou-se instrutor na Academia Espacial e deputado no Soviete Supremo. Pilotava frequentemente um aparelho Mig-15, pois queria ter licença de vôo para fazer parte da instrução dos futuros cosmonautas. Mas a 27 de Março de 1968, quase sete anos depois do seu primeiro vôo espacial, Gagarin e o seu instrutor, Vladimir Seryogin, morrem num acidente de aviação. As causas do acidente foram alvo de especulação durante anos a fio, dando palco a varias teorias de conspiração, mas nos anos 90, quando o regime soviético terminou, descobriu-se que houve três investigações paralelas: a oficial, a do Politburo e da KGB.

E todas elas chegaram, à sua maneira, à mesma conclusão: um Sukhoi Su-15 voava demasiado perto do Mig-15 quando bateu a barreira do som, e o impacto desse "boom" sónico fez vibrar o avião de forma perigosa, levando-o a perder o controlo e a cair. Para além disso, um erro feito pelo controlador de vôo da zona, relativo às condições meteorológicas da altura - tempo coberto a partir dos 2000 metros de altura - levaram ao desastre. Gagarin foi cremado e teve um funeral de estado, com as suas cinzas colocadas no muro do Kremlin, não muito longe de Serguei Korolev, que tinha morrido dois anos antes.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Extra-Campeonato: O vôo fatal do Challenger, vinte e cinco anos depois

Deveria ter sido um vôo normal de sete dias a começar nesse dia 28 de janeiro e a terminar a 3 de fevereiro no mesmo lugar onde começou: o Kennedy Space Center. Tão normal que a unica cadeia de TV que iria transmitir o lançamento em direto era a CNN, então uma jovem cadeia de noticias por cabo. O vôo, denominado oficialmente de STS-51-L, era o primeiro desse ano e o décimo da história do "Challenger" e tinha dois satélites a bordo, um deles serviria para observar mais de perto o Cometa Halley, que andava nas imediações do sistema Solar por esses dias.

Esse vôo STS-51-L tinha outra particularidade: entre os seus sete tripulantes, levava uma civil. Era a primeira vez na história da NASA que isso acontecia. Era uma professora, de seu nome Christa McAuliffe, e tinha sido escolhida, entre mais de onze mil candidatos, para dar uma aula que estaria marcada para o dia 1º de Fevereiro. Os outros seis astronautas eram uma interessante mistura: dos sete, dois eram mulheres, e dos cinco homens, um era de origem asiática, Ellison Onizuka, e outro era afro-americano, Ron McNair.

O vôo deveria ter acontecido no dia 22 de Janeiro, mas tinha sido adiado por alguns dias, primeiro devido ao atraso do vôo anterior, e depois devido a vários pequenos problemas e o mau tempo num dos sitios de emergência que a NASA tem, em Dakar. Para piorar as coisas, nesse meio de janeiro, as temperaturas estavam mais baixas do que o habitual, com os técnicos da NASA a descobrir que a plataforma tinha gelo em algumas partes, incluindo o depósito de combustivel. E nessa manhã de 28 de Janeiro, a temperatura estava incrivelmente baixa para um estado como a Florida, pois o boletim meteorológico previa um grau negativo.

Isso tinha causado preocupações nos engenheiros da Morton Thiokol, a firma que tinha fabricados os foguetes de propulsão do Space Shuttle. Um deles, Roger Boisjoly, manifestara sérias preocupações em relação à resistência dos anéis externos de borracha, que devido ao seu constante uso e à exposição continuada aos elementos, poderia apresentar um desgaste permaturo, causando uma fuga potencialmente fatal para a nave e para a tripulação. Os engenheiros apresentaram essas preocupações à direção da empresa na véspera da partida, mas após uma reunião prolongada e contactos com o comando de Houston, decidiram que o vôo deveria prosseguir como planeado. Esse foi o erro fatal.

Na manhã de 28 de janeiro, a equipa de terra esteve a limpar parte do gelo acumulado na plataforma, mas isso era tanto que o vôo teve de ser adiado por uma hora, para as onze horas e 38 minutos, hora local (16:38 GMT). No momento em que o vaivem descolou na sua plataforma, a nave e os seus tripulantes só tinham mais 73 segundos de vida, e quem estivesse mais atento, teria visto fumo negro vindo de um dos foguetes, precisamente no tal lugar em que os cientistas da Morton Thiokol temiam: as juntas de borracha. À medida que ganhava altutude, o combustivel queimado desgastava esse parte do foguetão, a 2800 graus Celsius, fazendo com que os gases saissem também daí. Como era perto da saida principal, somente um olho treinado é que poderia ver que algo de mal se passava.

Para piorar as coisas, 37 segundos depois da descolagem, o vaivem começou a ser atingido por ventos laterais, chamados técnicamente na aviação por "windshear". A nave sofreu esses ventos fortes durante 27 segundos fez alargar o buraco que já havia na zona das juntas de borracha, precipitando o desastre, pois quando deixou de as sentir, ao segundo 64, faltavam apenas nove segundos para o desastre.

Quando aconteceu, o foguete desprendeu-se da sua estrutura e embateu no depósito de combustivel liquido, fazendo-o explodir uma enorme bola de fogo. A nave estava a 17.500 metros de altitude e as acelerações bruscas ao qual ele foi sujeito, da ordem dos 20 G's, fez com que o vaivem se desintegrasse com a explosão. Contudo, ao contrário do que se pensa, nem todos os astronautas morreram com a explosão. A NASA acredita que pelo menos três deles deverão ter recuperado brevemente a consciência e depois quando analisaram os restos da cabine, descobriram que alguns botões foram usados pelo o piloto Mike Smith, quando tentou retomar a energia eletrica da nave, julgando ela estar inteira na explosão. O que quer que tenha acontecido, na melhor das hipóteses, mesma que a cabine tivesse mantido a integridade após a explosão, o seu impacto na água, cerca de 330 G's, não daria hipóteses de sobrevivência a qualquer um dos sete membros da tripulação.

Ainda me lembro bem desse dia. O desastre tinha acontecido a meio da tarde, e quem contou a noticia foi o meu pai, que tinha acabado de chegar do trabalho. Apesar de ele ter dito mal o nome do vaivem, eu, mesmo com os meus nove anos de idade, tinha já consciência da gravidade da situação. Numa era sem Internet, e num país onde se vivia ainda a era do canal unico, só vi as imagens à hora do jantar, mais de duas horas depois de ouvir pela primeira vez.

Foi um choque para a América e para o mundo. O presidente Ronald Reagan, que iria nessa noite dirigir-se à nação no tradicional discurso do Estado da União, adiou-o por uma semana e perferiu fazer um discurso televisivo nessa noite. Nos dias seguintes, enquanto a nação honrava e entrerrava os seus mortos, a imprensa criticava a falta de cooperação da NASA com eles, o que levava a especulações algo infundadas. Poucas semanas depois, o Congresso estableceu uum inquérito, que teve o nome do seu presidente, William Rogers, antigo Secretário de Estado no governo de Richard Nixon. Entre os seus membros, nomes conhecidos como Neil Armstrong, o primeiro homem na Lua, Sally Ride, a primeira astronauta americana, Chuck Yeager, o primeiro homem a bater a barreira do som, Richard Fenyman, Prémio Nobel da Fisica em 1965 e Joe Sutter, engenheiro que desenhou o Boeing 747.

Mal a Comissão começou a trabalhar, descobriu que aquilo era um acidente à espera de acontecer, pois as falhas das juntas de borracha tinham sido detetadas em 1977, nove anos antes do desastre. E à medida que a Comissão fazia as suas investigações, Richard Fenyman, já famoso pelas suas abordagens fora do vulgar, descobriu à sua maneira que as chefias da NASA e os seus engenheiros sofriam de uma falta de comunicação entre eles que era quase de um nivel extremo. Um desses exemplos foi quando perguntou o grau de fracasso numas missão. As chefias falavam numa hipótese em cem mil, algo que Fenyman achou essa hipótese "irrealista ao ponto da fantasia", pois significaria que um desstre só ocorreria se o Space Shuttle descolasse todos os dias durante 274 anos seguidos. Quando fez as mesmas perguntas aos engenheiros, estes deram um numero mais realista: um em cada cem.

A comissão ficou chocada com os problemas técnicos e o funcionamento dentro da NASA, especialmente uma agência governamental onde a burocracia e a politica tinham substituido a tecnologia, e no relatório, recomendaram que os procedimentos de comunicação entre a administração e os engenheiros fosse melhorada, que as naves fossem reforçadas nos pontos mais vulneráveis, como nas juntas de borracha dos foguetes e que os lançamentos não fossem feitos a temperaturas tão baixas. Além disso, recomendou-se que a NASA suspendesse os lançamentos durante algum tempo. Num dos apêndices do relatório final, Richard Fenyman escreveu o seguinte:

"Aparentemente existiram enormes diferenças de opinião acerca da falha de um veículo com a consequente perde de vidas humanas. As estimativas variavam grandemente de um para cem para um em cada cem mil. As figuras mais baixas vinham dos engenheiros, as mais altas da direção da agência. Quais são as causas de tamanha discrepância nos números? Partindo do principio que um em cada cem mil significaria o lançamento diário de um vaivem espacial durante trezentos anos sem qualquer falha. Pergunta-se 'Qual é a razão desta magnifica fé na engenharia?' Aparentemente, para efeitos de concumo interno e externo, a direção da NASA exagerou na fiabilidade do seu produto ao ponto da fantasia".

Em jeito de conclusão, Fenyman escreveu: "Para que a tecnologia seja bem sucedida, a realidade tem de estar à frente das relações públicas, pois a Natureza não perdoa enganos".

O programa espacial americano ficou suspenso durante 32 meses, até ao dia 29 de setembro de 1988, quando o vaivem Discovery foi lançado para o espaço. Os procedimento foram mais rigidos e houve uma melhor comunicação, e tudo correu normalmente por mais dezassete anos, até a 1 de Fevereiro de 2003, quando o Columbia se desintegrou na reentrada na atmosfera, após um buraco feito na asa esquerda no momento da descolagem, quando uma das protecções de espuma se desprendeu do depósito de combustivel.

Quanto ao programa do Space Shuttle, está agora a chegar ao seu final de vida. Apesar de ter ainda sido construdo mais uma nave, batizada de "Endeavour", as naves, boa parte delas planeadas e construidas nos anos 70, estavam a ficar datadas e precisavam de uma nova geração de naves. Assim sendo, neste Verão acontecerá o último dos vôos, encerrando um capitulo da história espacial e da NASA.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Extra-Campeonato: Challenger, 24 anos depois



Surgiu esta semana no jornal inglês The Guardian. Este video destaca-se pela sua raridade, pois é a primeira vez que é visto, 24 anos depois do acidente.


A 28 de Janeiro de 1986, Jack Moss, que vivia a sua retirada no Estado da Florida, colocava a sua câmara de video no jardim para filmar a partida do "space shuttle" Challenger (ou ônibus espacial, como diz no Brasil). Moss filmou a descolagem e o momento da explosão do vaivém, primeiro intrigado e depois com dúvidas, perguntando ao vizinho se aquilo que estava a ver á sua frente significava problemas, ao que respondeu que ia ver a televisão para saber de alguma novidade.


Depois daquilo, Moss guardou a cassete na cave da sua casa até à altura da sua morte, em Dezembro de 2009. O seu filho viu as cassetes e divulgou o seu conteúdo no Youtube.

Lembro-me bem desse dia. O desastre tinha acontecido a meio da tarde, e quem contou a noticia foi o meu pai, que tinha acabado de chegar do trabalho. Apesar de ele ter dito mal o nome do vaivem, eu, mesmo com os meus nove anos de idade, tinha já consciência da gravidade da situação. Numa era sem Internet, e num país onde se vivia ainda a era do canal unico, só vi as imagens à hora do jantar, mais de duas horas depois da primeira noticia.


O resto da história soube depois: um lançamento adiado por alguns dias devido às baixas temperaturas que se faziam sentir na altura, o facto das borrachas que envolviam os foguetes de propulsão estarem desgastadas com o uso e com as constantes variações de temperatura, que resultaram numa fuga no momento da descolagem, que resultou num incêndio mesmo ao lado do depósito de combustivel de oxigénio liquido, uma autêntica bomba caso tivesse uma fonte de calor bem próximo. 73 segundos depois da descolagem, foi o que aconteceu...


Já agora, este foi o primeiro grande feito da CNN, pois era a unica cadeia de TV a transmitir a descolagem do Challenger em directo.

sábado, 8 de agosto de 2009

Uma volta de avião diferente



O pessoal do mítico programa de automóveis Top Gear decidiu assinalar os 40 anos da chegada do Homem à Lua com algo diferente, mas significativo: um dos seus apresentadores, James May, decidiu dar uma volta de avião. Mas não num avião qualquer, foi no famoso avião-espião U2, da Força Aérea Americana, que consegue voar a 21 mil metros de altitude, em plena estratosfera. Isso é o dobro do que voa um normal avião comercial, só para terem um exemplo.


Quando se vê a reportagem e a maneira como May descreve a vista que se têm, lembro-me do Pálido Ponto Azul, do Carl Sagan, e da maneira como nós olhamos para a Terra. Todos dizem que quem se vai para o Espaço e volta, torna-se numa pessoa diferente. Dar a volta ao mundo a cada 108 minutos, de facto, é muito para a nossa mente. E é uma experiência poderosa.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Extra-Campeonato: "Nós escolhemos ir à Lua"

"Escolhemos ir à Lua. Escolhemos ir à Lua e fazer as outras coisas nesta década, não porque são desafios fáceis de se fazer, mas porque são os mais difíceis (...) porque este é um desafio que estamos dispostos a aceitar, um que não estamos dispostos a adiar, e é um desafio que nós queremos vencer!" (...)


John F. Kennedy (1917-63), discursando em Houston e 12 de Setembro de 1962


Foi provavelmente o maior desafio da década para os americanos. Embalados pela corrida espacial, e pelo facto de terem perdido para os soviéticos algumas "primeiras vezes" como o lançamento espacial e o primeiro homem no Espaço (Yuri Gagarin), o então presidente John F. Kennedy decidiu que, para conseguir bater os soviéticos, teria de pensar em mandar um homem para a Lua até ao final da década. Reforçou o orçamento para a NASA, ordenou a construção do Centro Espacial de Houston e novas instalações no Cabo Canaveral, na Florida, para que fosse lançado um foguetão capaz de impulsionar uma força suficiente para colocar três homens em orbita e ir à Lua, colocar uma bandeira americana e voltar, sãos e salvos.

Kennedy não viveu para ver isto, mas isto foi considerado como um designio nacional, e um objectivo a alcançar. Essas esperanças e sonhos aconteceram a 21 de Julho de 1969, quando Neil Armstrong e Buzz Aldrin, no módulo Eagle, aterrou no Mar da Tranquilidade e afirmou as palavras imortais: "Um pequeno passo para o Homem, um grande pulo para a Humanidade".



Desde há algum tempo que se preparavam algumas coisas para comemorar o 40º aniversário da missão da Apollo 11, a nave que levou Buzz Aldrin, Neil Armstrong e Mike Collins para a lua, sendo que os dois primeiros entraram na história como sendo os primeiros terráqueos a pisar a superficie de outro corpo celestial (neste caso, a Lua, o satélite da Terra).

O mais original, e provavelmente o mais noticiado de todos é este, elaborado pela Biblioteca John F. Kennedy: uma recriação, em tempo real, da missão lunar. A partida foi hoje, pelas 14 horas de Lisboa, e agora a nave, já separada dos seus propulsores, está a caminho da Lua. O nome do site é a famosa frase de Kennedy: "We choose the Moon!". E podem segui-lo via Twitter, por exemplo. É uma forma de mostrar às gerações mais novas o que foi a aventura espacial e o que foi o capítulo mais importante da aventura espacial norte-americana.


Outra boa visão do que aconteceu há quarenta anos atrás é como isto foi acompanhado pelas cadeias americanas, em especial a CBS. O lendário "pivot" Walter Cronkite, um assumido entusiasta pela corrida espacial, relata não só aqui os procedimentos que a Apollo 11 tem de fazer para chegar à Lua, como também a partida do gigantesco e poderoso Saturno V. A não perder!

sábado, 25 de abril de 2009

Para o Espaço! E mais além...

A Brawn GP é, como sabem, patrocinada pelo Grupo Virgin, que colocou este fim de semana nos seus carros o logotipo da Virgin Galactic, a empresa que quer ser a primeira a proporcionar vôos espaciais de baixa altitude a clientes abastados, ao preço de 200 mil euros. E dois pilotos estão envolvidos nisso: Niki Lauda e Rubens Barrichello.



O piloto brasileiro já comprou o seu lugar num dos vôos da companhia, segundo afirma o seu presidente, Richard Branson. Quanto ao austriaco Lauda, actualmente com 60 anos, tri-campeão do Mundo em 1975, 77 e 84 e dono da Air Niki, uma companhia aérea de baixo custo, depois de ter fundado a Lauda Air no final dos anos 70, confessou que está a aprender a pilotar a nave que levará os turistas ao espaço. O austríaco admitiu que pilotar um Space Shuttle é mesmo o único sonho que ainda lhe resta concretizar: "Eu sempre quis isso mas parecia impossível de concretizar porque, basicamente, os americanos fazem-no. Quando vi este projecto fui o primeiro a bater à porta", confessou.



Os primeiros vôos espaciais estão previstos para meados de 2010.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Extra-Campeonato: Já lá vão 50 anos...

É verdade. Sempre tive a impressão que quando falávamos de Espaço, pensava que era o futuro. Naves Espaciais, tecnologia de ponta, Velocidade da Luz, "Star Trek", "Star Wars"... esse futuro começou com uma pequena esfera, com quatro antenas, e com um transmissor que emitia um pequeno sinal sonoro "bip, bip, bip..." Era o Sputnik, e hoje faz 50 anos que foi lançado para o espaço.

Havia séculos que o Homem sonhava com o Espaço. Lembram-se de Julio Verne, no seu livro "Da Terra à Lua"? Quando o escreveu, em 1865, mal ele sabia que pouco mais de 100 anos depois, Neil Armstrong e Edwin "Buzz" Aldrin estariam a passear no nosso satélite, afirmando aquelas palavras que ecoarão no tempo: "Um pequeno passo para o Homem, um grande salto para a Humanidade".


Das fantasias para a realidade foi um pequeno passo. Foi aí que aparecerem os pioneiros: Robert Goddard (1882-1945), cujas experiências com foguetes líquidos inspiraram um jovem alemão, de seu nome Werner von Braun (1912-1977), que colaborou com os nazis na construção do foguete V2, o primeiro míssil balístico da história. Aliás, quando os americanos capturaram Von Braun e o interrogavam, este, espantado, retorquiu: “Mas vocês têm um homem no vosso país que sabe tudo sobre foguetões. As ideias que nós usámos são todas dele. Chama-se Robert H. Goddard”.



No Verão de 1945, maericanos e russo queriam a mesma coisa: a tecnologia do foguetão V2. Se os americanos tinham a equipa principal, os russos tinham outro génio de foguetes: Serguei Korolev (1907-1966). Durante anos, ninguém no Ocidente soube quem ele era. Tinha sido uma decisão do Politburo soviético, em escondê-lo a ele e ao programa espacial soviético, pois estava intimamente ligado ao projecto dos misseis intercontinentais. Era a Guerra Fria a fazer das suas...

Korolev era um génio da astrofísica, mas isso, por alturas do regime de Joseph Stalin, seria visto como perigoso. Foi denunciado numa das purgas orquestradas por Stalin em 1938, e condenado a 10 anos num "Gulag", com acusações que se revelaram falsas. Durante a guerra, as suas contribuições não passaram despercebidas e o Excército Vermelho chamou-o para supervisionar o desmanche e transferência de foguetes da Alemanha para a União Soviética.



A exploração espacial não era uma surpresa. Aliás, era um dos objectivos do Ano Geofisico Internacional, em 1957/58, que para além de uma muito mediatizada operação de exploração à Antártida, também se previa o lançamento de um foguete espacial, com um ou vários satélites científicos, para o estudo da Terra. O então presidente americano Dwight Eisenhower tinha anunciado até o nome do foguetão: "Vanguard".


Foi Korolev que teve a ideia de lançar um satélite no espaço, e a ideia inicial era de o lançar em Setembro de 1957, data do centenário de outro grande cientista russo: Konstantin Tsiolkovsky (1857-1935). Mas foi difícil convencer o Soviete Supremo da utilidade de lançar um satélite científico, ou do efeito propagandístico que ela teria, caso lançassem antes dos americanos. Por causa disso, não ficou pronto a tempo. Então, Korolev decidiu lançar para o mês seguinte, data do 40º aniversário da Revolução de Outubro.



O Sputnik era uma esfera simples, de 83,5 quilos de peso, 58 centímetros de diâmetro, dois radiotransmissores e quatro antenas. A escolha do design fora do próprio Korolev: "A Terra é uma esfera e o primeiro satélite tem de ter também uma forma esférica", terá ele dito a um dos seus colaboradores mais próximos, Boris Chertok (n.1912). O foguetão que o transportava era um R-7, um míssil intercontinental adaptado para foguetão, e este foi lançado em Baikonour, no actual Cazaquistão.

A 4 de Outubro, pelas 22.25 horas, o foguete R-7 foi lançado, e a separação dos vários andares correu como previsto. Poucos minutos depois, o Sputnik (que significa "companheiro de viagem" em russo) começava a transmitir o seu característico "bip-bip". Em termos ciêntificos, a missão tinha terminado com sucesso, mas em termos politicos e propagandísticos, ainda mal começara...



O mundo ocidental ficou espantado. Enchiam-se primeiras páginas com o feito. Os governos ficavam preocupados, pois não esperavam tal manobra vinda da União Soviética. Estavam tão convencidos da superioridade tecnológica dos americanos, que isto foi visto como uma bofetada do "urso russo". O espanto foi tanto que até apanhou de surpresa os próprios russos: o Pravda do dia 5 anunciava o lançamento na primeira página, mas no fundo. No dia seguinte, depois de saberem do impacto que teve no Ocidente, os russos propagandeavam o feito, como mais uma prova da superioridade tecnológica do comunismo. Houve até quem declarasse alto e bom som que "o lançamento do Sputnik não era mais do que propaganda comunista". Isso aconteceu em Portugal e o senhor que disse isso chamava-se Varela Cid, um eminente professor na área da astrofisica. Isso foi tão gozado que por causa disso, os ingleses inventaram a expressão "Don't be Varela", para afirmar, por outras palavras: "não te armes em parvo".

Claro, isso mordeu o orgulho americano. O "bip-bip" do Sputnik, captado por radioamadores de todo o mundo, funcionou durante três semanas, até ao dia 26 desse mês. Mas na altura em que deixou de funcionar. Korolev estava a delinear o próximo passo: um ser vivo no espaço. Exactamente um mês depois, o Sputnik 2 era lançado, com uma cadela a bordo. Chamava-se Laika. Infelizmente, esse passeio espacial durou apenas poucas horas, pois ela morreiria, vítima da privação de oxigénio.


Os americanos só recuperaram um pouco do seu orgulho em Janeiro de 1958, com o Explorer 1, mas no mês anterior, o Vanguard, da Marinha norte-americana, tinha falhado redondamente perante o olhar do mundo ocidental e das risadas de Nikita Kruschov, que chegou a proclamar bem alto que "fabricavam mísseis como se fabricam salsichas". A reaildade não era bem assim, mas nessa altura, as pessoas andavam realmente assustadas...


Depois do Explorer 1, os americanos tomaram medidas: criaram a NASA, escolheram um grupo de sete astronautas para que fossem os primeiros a irem ao espaço (nesse aspecto, Korolev ganhou de novo: Iuri Gagarin (1934-1968) foi o primeiro ser humano a ir para o espaço a 12 de Abril de 1961). A corrida espacial estava lançada, e a década de 60 iria assistir à algo excitante, cujo culminar foi aquele 21 de Julho de 1969, quando Armstrong e Aldrin pisaram a superfície da Lua. Korolev não assistiu a isso: tinha morrido de ataque cardíaco em Janeiro de 1966. Foi então que os russos revelaram o seu verdadeiro nome, algo que até então estava no segredo dos Deuses. Antes disso, chamavam-no de "Engenheiro-Chefe".



Hoje em dia, com a competição a ser substituida pela cooperação, cujo maior simbolo é a Estação Espacial Internacional, assistimos a uma espécie de virar de página na história da exploração espacial. Outras potências, como a China, a India e o Japão, voltaram a estar interessadas na Lua. Os Estados Unidos estão a caminho de uma nova geração de foguetes espaciais (os vaivens vão se reformar em 2010) e a exploração privada começa a dar os seus primeiros passos. Pode ser que dentro de 20 ou 30 anos, estejamos a colocar o homem em Marte. Em cooperação ou competição, não se sabe, mas sendo eu um fã da exploração espacial, cá estarei para assistir aos novos feitos que esta Humanidade irá conseguir neste século XXI...

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Extra-Campeonato: 22 anos à espera de ir ao espaço

Desde o passado dia 8 que o vaivém espacial Endeavour está no espaço, com o objetivo principal de continuar a construir a Estação Espacial Internacional (EEI), levando neste caso mais um segmento do painel solar, o Integrated Truss Segment, uma nova viga para a estrutura centras da EEI, que tem como função refrigerar as linhas de força, além de servir como um separador entre dois módulos.

A missão é constituida por sete astrounautas, seis americanos e um canadiano. Uma das tripulantes é Barbara Morgan, de 55 anos, que estava à espera desta missão há 22 anos. E porquê? Porque fazia parte do programa "Um Professor no Espaço", cuja primeira pessoa a ir era Christa McAuliffe, que esta a bordo do vaivem espacial Challenger no dia 28 de Janeiro de 1986, quando explodiu passados 73 segundos de vôo. Barbara Morgan era a suplente...

No passado dia 7, o jornal português "Publico" colocou a história de Morgan e comparou-a ao actual estado da NASA, especialmente depois de um outro desestre, o do Columbia, a 1 de Fevereiro de 2003. A entrada do artigo é sintomática: "Chamam-lhe 'mamã da NASA'. A agência parece precisar de uma." Eis o artigo na integra.


"Naquela manhã de 28 de Janeiro de 1986, ela ficou em terra a ver elevar-se no céu o vaivém onde seguia a colega Christa McAuliffe, a primeira professora a ir ao espaço. Ao fim de 73 segundos, o inacreditável acontecia. O Challenger desintegrava-se. As imagens desse instante ficaram gravadas na memória colectiva: o fumo esbranquiçado com a forma de um V gigantesco, contra o azul do céu...


Christa McAuliffe, de 36 anos, era a vedeta dessa missão do Challenger. A agência espacial dos Estados Unidos ia levar para o espaço, pela primeira vez, um cidadão comum. McAuliffe era professora (ensinava Inglês e História) e planeava dar aulas em directo enquanto o Challenger orbitasse a Terra. Barbara Morgan, então com 34 anos, era a segunda escolha, a professora suplente, caso alguma coisa impedisse McAuliffe de ir para o espaço.


Tinham ambas sido seleccionadas em 1985, entre 11 mil candidatos que concorreram ao programa Professores no Espaço. Entre Setembro de 1985 e Janeiro de 1986, McAuliffe e Morgan treinaram com os seis tripulantes do Challenger, no Centro Espacial Johnson, em Houston, no Texas.


Mas nada impediu McAuliffe de ir para o espaço naquela manhã de 28 de Janeiro de 1986. Nenhum dos tripulantes sobreviveu. Era a primeira grande catástrofe da NASA, que deixaria Barbara Morgan e o programa Professores no Espaço durante muitos anos em terra, pois a agência acabou com os voos de civis.


Morgan não virou as costas perante a tragédia. Quando a NASA a convidou para ser embaixadora espacial da América com o título pomposo de "professora no espaço nomeada", ela aceitou. "Era uma decisão realmente importante para mim. Mas era fácil de tomar. Tínhamos miúdos de todo o país a ver o que faziam os adultos numa situação difícil", diz numa entrevista publicada no site da NASA. Assim, pouco tempo após um golpe tão rude na credibilidade da agência, fez-se à estrada. Entre Março e Julho de 1986, correu os Estados Unidos a dar palestras.


Um sonho por telefone


No Outono daquele ano, regressou à Escola Primária de McCall, no Idaho, onde dava aulas. Mas continuou sempre a colaborar com a Divisão de Educação da NASA, em palestras ou como consultora na área da educação.


Só que o bichinho que a fez candidatar-se a professora no espaço mantinha-se vivo, desde o dia em que ouviu falar desse programa. Um momento de que se recorda bem: "Eu e o meu marido estávamos sentados no sofá a ouvir as notícias, como fazíamos sempre. E apareceu o Presidente Reagan a dizer que iam enviar um professor para o espaço. Levantei-me e disse: "Uau!"", conta Barbara Morgan. O marido dela, o escritor Clay Morgan, ripostou: "Porquê um professor? Por que não um escritor?". É que ele adorava poder voar, diz a mulher.


No final dos anos 90, o programa Professores no Espaço sofreu uma reviravolta, dando lugar a um novo programa chamado Astronauta Educador. Um professor poderia agora tornar-se astronauta, tal como um cientista ou um piloto de aviões. Em 1998, Barbara Morgan foi então seleccionada para integrar o corpo de astronautas da NASA. Outro dia vivo na sua memória.


"De manhã, antes de ir para a escola, recebi um telefonema do nosso administrador [da NASA], Dan Goldin, e do director do Centro Espacial Johnson, George Abbey. Fui para a escola, como nos outros dias", conta a professora agora astronauta. "Queria que os meus colegas soubessem. Eles fazem parte disto tudo há muitos, muitos anos, e estávamos todos desejosos de que esse dia chegasse. Houve uma grande excitação na minha escola e por todo o país." Tal como ela, outros três professores pertencem agora ao corpo de astronautas da NASA.


Ao fim de dois anos de treino intenso, a professora transformou-se em astronauta de corpo inteiro e passou a desempenhar várias funções, em particular no controlo de missões espaciais, onde funcionava como elo de comunicação com as tripulações no espaço. Só que um astronauta tem sempre o sonho de ir lá acima. "Ao longo dos anos, sempre soube que um dia aconteceria", comentou a professora-astronauta, citada pela BBC Online. "Só não sabia quando."


Dar aulas em órbita


A notícia tão aguardada chegaria em Dezembro de 2002. "Estávamos todos de mãos dadas, à espera do anúncio das próximas tripulações. É muito divertido, independentemente das tripulações anunciadas." Disseram-lhe que voaria em 2003, depois da missão do vaivém Columbia. Mas, a 1 de Fevereiro de 2003, a NASA vivia a segunda tragédia. O Columbia explodia no regresso da missão, os sete tripulantes morriam. Nesse momento, Barbara Morgan estava na sala de controlo de missão e tudo voltou à sua memória, o Challenger, Christa McAuliffe...


Os críticos voltaram a acusar a NASA de pôr os astronautas em risco, sabendo, tanto no caso do Challenger como no do Columbia, que existiam, de facto, problemas de segurança. Mas se há uma palavra que descreve Barbara Morgan, é perseverança. Assim, aos 55 anos, chegou finalmente a vez de esta mãe de dois filhos adultos ser a vedeta da próxima missão da NASA. Por volta da próxima meia-noite (em Portugal), o vaivém Endeavour fará a primeira tentativa de descolagem, para uma missão de 11 a 14 dias destinada a continuar com a construção da Estação Espacial Internacional que, por exemplo, receberá estrutura de suporte de mais painéis solares. "Estou muito entusiasmada quanto ao voo, a ver a Terra do espaço pela primeira vez, a sentir a ausência de gravidade e a viver e trabalhar na Estação Espacial Internacional."



Ela vai ser a astronauta atrás dos braços robotizados do vaivém e da estação espacial, com os quais irá mover diversos equipamentos. "Vou ter a sorte de trabalhar com ambos os braços..."



Também dará aulas do espaço e terá à sua guarda milhares de sementes de manjericão, que, no regresso à Terra, serão distribuídas por escolas. Em estufas terrestres, os estudantes poderão comparar o crescimento das plantas viajadas com aquelas que nunca saíram do planeta. "Sei que as pessoas vão lembrar-se do Challenger, o que é uma coisa boa. Também vão pensar em todas as pessoas que têm trabalhado muito para continuar o trabalho de Christa", sublinha. "Os meus filhos e o meu marido estão preocupados com os riscos. Mas sabem que a exploração espacial é importante."



E a NASA espera polir uma imagem desgastada por duas catástrofes e, nos últimos tempos, por sucessivos escândalos. No início do ano, uma astronauta tentou matar uma rival amorosa, namorada de outro astronauta. Em Julho, foi revelado que já partiram para o espaço astronautas embriagados, que constituíam uma ameaça para a segurança do voo.


Depois de 21 anos à espera de chegar ao espaço, há agora quem chame a Barbara Morgan "mamã da NASA". Será a norte-americana mais velha a estrear-se no espaço (mais velho do que ela só mesmo o astronauta Karl Henize, que fez o baptismo espacial aos 58 anos, em 1985). Verdade se diga, com tudo o que se tem passado, a agência espacial dos Estados Unidos até parece precisar de uma figura materna.