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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Esta geração de pilotos deve ser educada

O GP de Valencia foi pródigo, como sempre, de lutas entre pilotos, do qual muitas vezes terminaram em acidente. Os dois mais conhecidos foram os de Jean-Eric Vergne com Heikki Kovalainen, e o da penultima volta da corrida, entre Pastor Maldonado e Lewis Hamilton, uma luta pelo terceiro posto que terminou em choque, com ambos os pilotos a perderem a "medalha de bronze" a favor do veteranissimo Michael Schumacher, que aos 43 anos, se tornou no piloto mais velho a subir ao pódio desde Jack Brabham, que foi segundo classificado no GP da Grã-Bretanha de 1970, corrida vencida pelo lotus de Jochen Rindt e onde Emerson Fittipaldi se estreou na categoria máxima do automobilismo.

A tarde de domingo foi mais prolongada do que o normal, porque os comissários de pista se dedicaram a ver o filme da corrida, de trás para a frente e parando várias vezes para ver todos os incidentes de corrida: entre Kovalainen e Vergne, os dois incidentes de Kamui Kobayashi com Bruno Senna e depois com Felipe Massa, e para finalizar, o incidente entre Maldonado e Hamilton. E todos eles acabaram com penalizações: Vergne paga uma multa de 25 mil euros e perde dez lugares para Silverstone, Kobayashi perde cinco lugares nas duas manobras "banzai" e Maldonado perderá também dez lugares na qualificação britânica, para além da penalização de vinte segundos pós-corrida, que o fizeram perder o décimo posto a favor do seu companheiro de equipa, o brasileiro Bruno Senna.

É ótimo termos lutas na pista? Claro. É ótimo vermos ultrapassagens, mas acho sempre que tem de ser feito em segurança e sem colocar outros em perigo. No caso do incidente Vergne/Kovalainen, creio que foi mais um incidente de corrida, e as multas e penalizações foram um pouco exageradas. O próprio piloto francês pediu desculpa ao finlandês via Twitter, dizendo que o erro foi dele e foi um daqueles do principiante que ele é. Claro, isso não evita as penalizações acima referidas.

No caso de Maldonado/Hamilton, acho que aquilo foi mais um abuso, embora ache que o britânico estava na trajetória certa. Mas com pneus totalmente gastos, não tinha muitas hipóteses. E Maldonado, acho eu, é vítima da sua própria impulsividade. Fico com a sensação que não tem paciência, não sabe esperar, ainda por cima sabendo que os pneus do britânico estavam em pior condição dos dele. E por causa disso, perdeu um pódio certo. Aí, direi que mereceu as penalizações, não porque tivesse sido culpado, mas para que pense o que perdeu por "deitar fora o cérebro". Deve aprender a ser mais paciente nas corridas, fale com o Alexander Wurz para que lhe ensine a usar o cérebro.

Isto tudo demonstra que esta geração de pilotos não foi educada a ultrapassar o seu adversário. Foram moldados para que não desistir de lutar pela posição, não impota como. E isso para mim é preocupante, pois estamos a falar da primeira geração que cresceu sem ver mortes na Formula 1. Toda a gente sabe disso desde o 1º de maio de 1994, mas essa geração está a chegar às pistas e julga que tudo isto é como na Playstation, e não é. Fiquei muito preocupado quando um um Twitter do piloto cipriota Tio Elinas, que nesta segunda corrida em Valencia, para chegar ao terceiro posto, não hesitou em colocar para fora o seu adversário, o italiano Kevin Ceccon. Para se justificar, citou Ayrton Senna após o GP do Japão de 1990, quando colocou Alain Prost fora de pista na primeira curva:

"Estamos a competir para vencer. E se não lutares por aquele nicho, aquele pedaço de pista, não és mais um piloto de corridas".

Para quem não sabe - ou já não se lembra - isso foi em resposta a uma pergunta feita por Jackie Stewart, o tricampeão do mundo escocês, numa entrevista na corrida seguinte, no GP da Australia. Ao lhe perguntar se a sua manobra na corrida anterior não era perigosa, colocando-os em risco de vida, Senna defendeu-se nessa altura - e de modo algo exaltado - da manobra na primeira curva por causa do então presidente da FISA, o francês Jean-Marie Balestre, lhe ter mexido no lugar da pole-position, uma subtileza para ajudar o seu arqui-rival Alain Prost. Mas aquele exemplo ficou na mente de muita gente, especialmente desta nova geração, que passou as manhãs e tardes de domingo na frente dos televisores. E muitos, como sabem, aprenderam a idolatrar Senna. 

Só que Senna provavelmente foi para o seu túmulo desconhecendo que tinha criado, com os seus exemplos, pequenos monstros. Quer queiramos, quer não, esta jovem geração foi educada a seguir os exemplos dos seus ídolos. E os que cresceram nos anos 90 têm dois nomes na cabeça: Senna e Schumacher. Não tem Alain Prost, não tem Damon Hill, não tem Mika Hakkinen. Os seus dois maiores expoentes são pilotos que decidiram que para vencer, tinham de ser bravos, tinha de valer tudo. Escuso de vos lembrar a manobra de Schumacher a Hill em Adelaide, em 1994... A frase que Elinas citou é o exemplo desta geração: vão dar tudo para passar e tudo para vencer. Colocar fora o adversário é um incidente de corrida, porque os carros são fortes, protegem-no do embate contra a parede ou do muro de pneus.

Acho que na minha ótica, estes pilotos não só deveriam ser educados a conduzir. Também deveriam ser educados a como comportar-se em pista. O automobilismo, que eu saiba, nunca deixou de ser perigoso e como a FIA gasta neste momento muitos milhões a prevenir a sinistralidade rodoviária, não seria de mau tom se colocasse algum dinheiro de parte para aducar os pilotos que tem e aí vêm.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O jardim zoológico da GP3

A GP3 é neste momento o degrau mais baixo da escada existente até á Formula 1 que acompanha os finais de semana da categoria máxima do automobilismo. Composta por dez equipas, com três carros cada, está a ser uma categoria cada vez mais heterogénea em termos de nacionalidades. E ainda com mais de metade do plantel por preencher, já começa a chamar a atenção com o anuncio, nesta sexta-feira, da contratação por parte da Trident, de uma mulher, a italiana Victória Piria, de 18 anos.

Victoria - ou Vicky para os amigos - filha de pai italiano e mãe inglesa, correu no ano passado na Formula Abarth Itália, uma das mais competitivas do pais, com alguns resultados interessantes, sendo o melhor um oitavo posto na última corrida do ano. Pelos resultados e pela beleza, mais parece ser uma "Giovana Amati, a geração seguinte" do que propriamente um talento capaz de rivalizar com Valtteri Bottas, o campeão de 2011 dessa mesma competição. Mas como não quero tirar conclusões precipitadas - se quiserem espreitar o site oficial dela, fiquem à vontade - posso dizer que o anuncio de Piria é o mais recente de uma série delas que, mesmo com apenas um terço do plantel conhecido, quase nos faz pensar que está a virar um jardim zoológico, tantas são as nacionalidades e as diferentes origens destes jovens pilotos.

Primeiro que tudo, a familia. Alex Brundle vai ser um dos pilotos da Carlin, e aos 22 anos, tem de demonstrar que a experiência que já acumulou na Formula 2 e e na Formula 3 britânica seja o suficiente para dar o salto para a GP2, caso contrário, fica mais pelo caminho e se dedica à Endurance, como o seu pai fez a uma determinada altura do campeonato, com bons resultados, diga-se. Mas não há só tradição familiar em Brundle Jr., pois tem também o alemão Daniel Abt, campeão em 2009 da Formula ADAC Masters, e participante na Formula 3 Euroseries em 2011, é filho de Christian Abt, piloto da DTM no inicio da década e patrão da preparadora com o mesmo nome. Daniel Abt é um dos dois pilotos da Lotus GP já confirmados, ao lado do finlandês Aaro Vaino.

Mas para além da menina e dos herdeiros, há as localizações exóticas. Se no ano passado tivemos o indonésio Rio Haryanto, que até venceu duas corridas em 2011, este ano temos confirmados até agora um piloto das Filipinas e outro do Chipre. Isso mesmo o que vocês leram: há pilotos nessa zona. O primeiro até tem um nome estranho: Marlon Stockinger. Tem 20 anos, é filho de um suiço e de uma filipina, mas é um repetente, pois correu no ano passado, sem conseguir pontuar. Já correu na Formula Renault britânica, com alguns bons resultados, batendo-se de igual para igual com jovens promessas como Lewis Williamson.

O segundo piloto de localização exótica chama-se Tio Ellinas, e vem do Chipre. E parece ser bom, pelos resultados que já teve na Grã-Bretanha. Foi quarto na Formula Ford em 2010, conseguindo bater Joshua Hill - sim, filho de Damon e neto de Graham - e em 2011, passou para a Formula Renault, acabando o ano como vice-campeão. Elinas correrá na Manor Racing, ao lado do russo Dimitry Suranovich e do brasileiro Fabiano Machado.

Ainda falta muito para que o quadro esteja completo, e muitos lugares continuam por preencher, mas a hipótese dos herdeiros, como as localizações exóticas de um automobilismo cada vez mais globalizado, estão de pé. Nada impede que os planos de Hill passem pela GP3, ou que Haryanto tente uma terceira temporada nesta categoria. Mas não verão por aí o austriaco Lucas Auer, sobrinho de Gerhard Berger, pois esse vai para a Formula 3 alemã, a correr pela Van Amersfoort Racing, ao lado de René Binder. Sim,  também é austriaco e também é familiar de piloto. Neste caso, é sobrinho de Hans Binder.

O jardim zoológico - ou se perferirem, as Nações Unidas sobre rodas - compõem-se. Veremos como ficará. E certamente deverá merecer novo post.