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domingo, 16 de março de 2025

A imagem do dia (II)





Se este dia, em 2025, é aquele onde a Formula 1 tem o seu começo oficial, há meio século, a 16 de março de 1975, já estava na sua terceira prova... e tinha a sua corrida extra-campeonato, com o Race of Champions, na pista britânica de Brands Hatch. E ali, num tempo incerto, acontecia uma das mais celebradas vitórias da altura. E até hoje, a única de um piloto do País de Gales. O seu nome era Tom Pryce.

Nascido Thomas Maldwyn Pryce em Ruthin, a 11 de junho de 1949, cedo começou a gostar de automobilismo. Saiu da escola aos 16 anos, aprendeu a ser mecânico de tratores, e aos 20 anos, ganhou uma competição - a última corrida foi à chuva, e ele dava-se muito bem nessa superfície - que deu como recompensa um Lola de Formula Ford, que valia 1500 libras. 

Em 1972, chega à Formula 3, e as coisas andaram tão bem que no ano seguinte, estava na Formula 2, onde seria piloto da Rondel, uma equipa fundada por... Ron Dennis. Os talentos dele eram tão bons que quando ele decidiu ir para a Formula 1, para 1974, queria Pryce para seu piloto. Mas com o primeiro choque petrolífero, o seu patrocinador, a francesa Motul, decidiu retirar o patrocínio e a aventura foi abortada. O chassis foi vendido a uma dupla, Tony Vlassopulos e Ken Grob, cujos iniciais deram o nome de Token. O piloto escolhido? Pryce!

Algumas semanas depois, os organizadores do GP do Mónaco recusaram a entrada de Pryce alegando "inexperiência ao volante". Para provar que estavam errados, Vlassopulos inscreveu-o na Formula 3, onde acabou por ganhar com 20,8 segundos de avanço, uma enormidade naquela competição.

Foi o suficiente para que a Shadow o contratar. Ainda órfã de Peter Revson, morto em março desse ano, o seu talento foi o bastante para começar a correr por eles a partir do GP dos Países Baixos, em Zandvoort. Um sexto lugar na Alemanha deu o seu primeiro ponto na carreira.

Nas corridas de 1975 que tinha corrido, não tinha mostrado nada de interessante, mesmo com o DN5 a ser estreado em Kyalami, para o GP da África do Sul, quase três semanas antes. Mas em Brands Hatch, ele se sentia "em casa". 

Houve controvérsia quando a organização aceitou carros de Formula 5000 para encher a grelha. Apareceram nove, dos quais quatro se qualificaram. Porque dos 26 inscritos, 21 entraram na corrida. Estava frio com... alguns flocos de neve na hora da corrida, que causou um atraso na partida. Pryce, o poleman, foi ultrapassado por Jacy Ickx, no seu Lotus, mas o asfalto estava ainda húmido e o galês, que tinha pneus para molhado, cedo apanhou os líderes, e ficou com o comando. No final, conseguiu um avanço de 30 segundos sobre o Surtees de John Watson e o Lotus de Ronnie Peterson.

Apesar de não ter sido uma corrida a contar para o campeonato, foi celebrado como se fosse. Era o primeiro grande resultado da equipa, apesar de já terem conseguido dois pódios até então. Pryce iria conseguir depois um pódio na Áustria, um terceiro posto... e também à chuva!    

O final de Pryce foi trágico: a 5 de março de 1977, quase dois anos depois deste triunfo, no GP da África do Sul, em Kyalami, o Shadow que conduzia atingiu um comissário de pista que a atravessava para socorrer... o Shadow de Renzo Xorzi. Pryce e o comissário tiveram morte imediata, mas o carro estava descontrolado e acabou algumas centenas de metros mais adiante, colidindo com o Ligier de Jacques Lafitte. Felizmente, o francês sobreviveu.

Hoje em dia, há um mural comemorativo da vida e feitos de Pryce na sua terra natal, erguido em 2009, no dia em teria feito 60 anos.    

sábado, 5 de março de 2022

A imagem do dia


Há 45 anos, Tom Pryce sofria uma morte horrível em Kyalami, quando o seu Shadow atropelou um fiscal de pista, Jensen Van Vuuren, quando ia socorrer outro carro. Ironicamente, era o outro Shadow, o do italiano Renzo Zorzi, cujo bólido começava a arder. 

A curta carreira de Pryce durou apenas três temporadas e três provas em 1977, e todas as corridas foram ao serviço da Shadow, excepto a primeira, ao serviço da Token. Irónicamente, Pryce entrou semanas depois de substituir Peter Revson, morto num acidente em testes... no circuito de Kyalami.

O único galês na Formula 1 teve dois pódios e uma pole-position, em Silverstone, no GP da Grã-Bretanha de 1975. Mas o seu grande momento na Formula 1 aconteceu noutro circuito britânico, em Brands Hatch, numa corrida... que não contou. A Race of Champions acontecia todos os anos, em março, desde 1965 - a última com carros de Formula 1 foi em 1983 - e nesse ano, foi a estreia do chassis DN5. Normalmente, os carros de Formula 1 corriam com os de Formula 5000, menos potentes, mas por vezes surpreendiam, como em 1973, quando Peter Gethin triunfou com um Chevron de Formula 5000.

Pryce fez a pole, e o dia da corrida, 16 de março, aconteceu debaixo de mau tempo... e neve. Logo, meterem pneus de chuva, e na partida, ele liderou do principio ao final, mesmo com a perseguição de Jody Scheckter, até este desistir na volta 25, devido a problemas de motor. O segundo lugar ficou nas mãos de John Watson, no seu Surtees, que aguentou os ataques de Ronnie Peterson, no seu Lotus, depois de Watson o ter passado quando este perdeu tempo atrás de pilotos atrasados.

No final, Pryce conseguiu a única vitória de um galês na Formula 1. Foi popular, e nesse ano, havia esperanças que ele pudesse voar mais alto. Colin Chapman admirava-o e tentou contratá-lo por duas vezes, mas não aconteceu. Muitos especulam que provavelmente, o campeão de 1978 poderia ser ele...

segunda-feira, 18 de março de 2019

Youtube Formula 1 Classic: 1975, Race of Champions


Este domingo, há precisamente 44 anos, acontecia a primeira vitória de um carro da Shadow, e a única vitória do galês Tom Pryce na sua carreira. Num muito frio dia de março, em Brands Hatch, Pryce levou a melhor sobre John Watson, no seu Surtees, e Ronnie Peterson, no seu Lotus, numa corrida onde Pryce herdou a vitória de Jody Scheckter, que teve de ir às boxes a oito voltas do fim, por um problema mecânico.

Eis um video dessa corrida, narrado e a cores, com muita gente interessante no pelotão, incluindo a italiana Lella Lombardi, que não chegou ao fim. E um acidente nos primeiros metros, entre o dinamarquês Tom Belso e o alemão Jochen Mass. 

terça-feira, 5 de março de 2019

A imagem do dia

Recordar Tom Pryce, morto há 42 anos num acidente horrível no GP da África do Sul. O único galês na Formula 1, com dois pódios e toda uma carreira - excepto uma corrida - ao serviço da Shadow, entre 1974 e 77, onde conseguiu uma pole-position e dois pódios.

Para este dia, deixo esta foto de 1975, do seu momento de maior sucesso, quando venceu a Race of Champions, em Brands Hatch, a bordo do seu Shadow DN5.

domingo, 5 de março de 2017

A imagem do dia

Há precisamente 40 anos, a Formula 1 assistia a um dos acidentes mais horríveis da sua história. É verdade que o automobilismo viveu os seus momentos sombrios, mas este atingiu em particular devido ao grafismo da cena. A ideia de uma pessoa destruída pelo carro de outra, o carro desgovernado com o seu ocupante morto, acelerando até ao final da reta, batendo noutro carro e acabar por parar na gravilha, sem cabeça, no final de um momento terrível.

Para piorar as coisas, na Shadow, aquele era o seu segundo pior momento, e de novo na África do Sul. Quase três anos antes, numa sessão de testes, viram Peter Revson terminar a sua vida quando a suspensão do seu DN3 se quebrar e o carro entrar no guard-rail adentro na curva Crowthorne, matando o seu ocupante. E Pryce tinha sido o seu substituto...

Por estes dias, coloquei no site onde agora trabalho, o Autoracing, uma biografia de Tom Pryce. Via-se que era um piloto que adorava automobilismo, gostava de guiar porque era o seu mundo, a sua vida. A fama, a fortuna, a chance de ser campeão, era algo secundário. Houve uma chance de ir para a Lotus em 1975, mas acabou por não acontecer. Não se sabe se ele seria poupado a isso, mas como se sabe que Chapman andou algum tempo até encontrar Mário Andretti e este lhe ter dado a chance de ser campeão, o que poderia ter acontecido.

Ou então, se tivesse vivido mais tempo e saboreado aquilo que o seu substituto, o australiano Alan Jones, acabou por saborear, quando conseguiu vencer uma corrida e subir ao pódio por mais uma vez, dando à equipa 21 dos 23 pontos conquistados em 1977. A ideia de vê-lo à beira de algo grande deve ser provavelmente a maior frustração que se pode dizer sobre Tom Pryce.

Hoje, 40 anos depois, os carros são fabricados de outra forma. A velha Kyalami não existe mais, a Formula 1 não corre mais em paragens sul-africanas, a Shadow não existe, mas a memória de Pryce continua tão viva como antes.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

A foto do dia

Se acham que Tom Pryce foi apenas um piloto de monolugares, enganam-se. E esta foto é prova: a fazer a Karussel, no Nurburgring, durante os 1000 Quilómetros de 1975, num carro partilhado com John Watson. Vi esta foto no sitio do excelente Rodrigo Mattar, que escreveu hoje um especial sobre ele.

O convite apareceu através de George Loos, o patrão da Gelo Racing, para que ambos participassem na prova. Pryce até estava a fazer um ano razoável na Shadow - tinha sido poleman no GP da Grã-Bretanha, em Silverstone - enquanto que Watson penava na Surtees. A qualificação correu bem para ambos, conseguindo um sexto lugar na grelha, mas na corrida, a sorte foi diferente, com um acidente a colocá-los fora de prova.

O potencial estava lá, mas para Pryce - unico galês a andar competitivamente na Formula 1 - não teve tempo para mais. Ano e meio depois, a 4 de março de 1977, em Kyalami, na África do Sul, Pryce atropelava um comissário de pista que levava um extintor, que o atingiu na cabeça, matando-o. O piloto tinha 27 anos.


sexta-feira, 15 de maio de 2015

The End: Renzo Zorzi (1946-2015)

A Autosprint italiana anunciou esta tarde a triste noticia da morte de um piloto "lado Z", o italiano Renzo Zorzi. Tinha 68 anos de idade e já estava doente há algum tempo. A sua curta carreira na Formula 1, correndo na Williams e na Shadow entre as temporadas de 1975 e 1977, foi suficientemente atribulada para merecer o seu lugar nos livros de história do automobilismo.

Nascido a 12 de dezembro de 1946 na localidade de Ziano de Fiemme, no Trentino italiano, a sua carreira nos monolugares começou em 1972 na Formula 3 italiana, sem grande sucesso. Contudo, o seu primeiro grande feito aconteceu em 1974, quando mudou para um chassis GRD, que lhe deu melhores resultados, que atraiu a atenção de Franco Ambrosio, que decidiu financiar a sua carreira.

Em 1975, Zorzi estava na Formula 3 quando alcançou a sua maior vitória até então, no GP do Mónaco. Isso deu-lhe a chance de correr no final desse ano na Formula 1, com um chassis Williams no GP de Itália, em Monza, terminando na 14ª posição. no ano a seguir, correu num chassis FW04 no GP do Brasil, a prova inaugural desse campeonato. Curiosamente, não correu no desenho da Wolf-Williams, e foi 17º na grelha, na frente do outro piloto da equipa, Jacky Ickx. Na corrida, foi nono, um lugar atrás do piloto belga.

Contudo, a próxima chance que Zorzi teve na Formula 1 seria no ano seguinte, quando se tornou piloto oficial da Shadow, ao lado de Tom Pryce. A sua entrada deveu-se a Franco Ambrosio, e ele esteve sempre distante em termos de performence do piloto galês. Mas teve o seu momento de glória quando sobreviveu a um destruidor GP do Brasil, acabando a corrida no sexto lugar e conseguindo um ponto, que viria a ser o único da sua carreira.

Mas logo a seguir, em Kyalami, esteve indiretamente envolvido num momento infame do automobilismo. Na volta 21 do GP da Africa do Sul, o carro de Zorzi sofre um rompimento no tubo de combustível e para na reta da meta. Este tenta sair do carro quando este começa a pegar fogo, fazendo com que dois jovens comissários de pista atravesassem a pista com um extintor para apagar o fogo. Um deles, Jensen Van Vuuren, de 18 anos, levava o extintor e acabaria por ser atingido pelo Shadow de Tom Pryce, matando ambos.

Contudo, depois dessa corrida, as performances de Zorzi não corresponderam às expectativas e Franco Ambrosio e a Shadow decidiram substitui-lo por Ricciardo Patrese a partir do GP do Mónaco, acabando ali a sua carreira, depois de sete corridas e apenas um ponto.

Após a sua carreira na Formula 1, ainda participou em 1980 na britânica Aurora AFX Formula 1 Series, guiando um Arrows A1 na etapa de Monza, onde não chegou ao fim. Após o final da sua carreira automobilistica, no inicio dos anos 90, rumou para Binetto, na zona de Bari, onde dirigia uma escola de pilotagem da Pirelli, e nos tempos mais recentes, participava em vários encontros automobilísticos, apesar da sua progressiva deterioração do seu estado de saúde. Ars lunga. vita brevis.

quinta-feira, 5 de março de 2015

A foto do dia (II)

Como alguém já me falou, é a imagem de um dos momentos mais marcantes da história do automobilismo. É um "memento mori", pois este piloto acabou de morrer, vitima de um extintor, trazido às pressas por um comissário de pista de 19 anos, que provavelmente no momento em que esta foto foi tirada, já jazia no chão, morto, irreconhecível pelo choque com o Shadow de Tom Pryce.

Vi esta imagem pela primeira vez há muitos anos, num livro chamado "F1 Autobiography". A imagem impressiona, mais de dez anos após ter visto pela primeira vez. E ao longo deste tempo, à medida que sabia mais pormenores desta história, não conseguia pensar nas ironias que aconteceram naquele dia e naquele momento. De como Hans-Joachim Stuck esteve a milimetros de ter sido o infeliz contemplado e como descobriram quem tinha sido o infeliz quando viram quem faltava, na contagem dos comissários.

Sobre o assunto, escrevi há quatro anos neste mesmo espaço. E de lá, tiro este excerto, vindo de um mecânico da Tyrrell, Trevor Price:

"Lembro-me perfeitamente do pequeno fogo que vinha do outro carro [de Renzo Zorzi] e depois do carro de Pryce a entrar na reta. De repente notei que o motor tinha deixado de acelerar mais cedo do que o previsto e algo a levantar-se momentaneamente para o ar quando o seu carro lá passou, que depois viemos a ver que era o infeliz comissário de pista".

Mas se vão perguntar se a corrida foi interrompida, a resposta é... não. Esqueçam isso, em 1977, se a pista estava livre, a corrida continuava. Outros tempos...


quarta-feira, 26 de março de 2014

Bólides Memoráveis - Shadow DN5 (1975-77)

O carro do qual escrevo desta vez foi o terceiro chassis da equipa Shadow na Formula 1. Depois de uma evolução com potencial, mas com frustrações pelo meio, o terceiro carro desenhado por Tony Southgate mostrou um potencial ainda maior, que os faz sonhar com as vitórias, conseguindo pole-positions e voltas mais rápidas. Contudo, os resultados foram dececionantes, senão frustrantes, e a melhor prova foi a vitória de Tom Pryce… numa corrida extra-campeonato. Hoje, falo sobre o Shadow DN5.

Desenhado por Southgate, o DN5 foi uma evolução do DN3, o chassis de 1974. Aqui, as grandes modificações em relação ao chassis anterior foi o de refinar a aerodinâmica e a reequilibrar a distribuição de peso ao longo do chassis, de forma a melhorar as suas performances. Com essas alterações, toda a gente pensava que as coisas poderiam fazer com que fossem mais velozes do que no ano passado… e foi mesmo o que aconteceu.

A Shadow entrou na temporada de 1975 com estrondo, pois o chassis foi introduzido na corrida inaugural, na Argentina. Jean-Pierre Jarier foi o contemplado com o primeiro exemplar, a combinado com a sua propensão para a velocidade pura, fez a pole-position, surpreendendo toda a gente. Contudo, a felicidade foi de pouca dura: na volta de aquecimento, um problema num dos cubos de roda, na volta de aquecimento, fez com que visse a corrida das boxes.

Na corrida seguinte, Jarier repetiu o feito, ao ser “poleman” em Interlagos e a liderar a corrida durante boa parte do tempo, fazendo até a volta mais rápida. Contudo, na volta 32, o sistema de alimentação de combustível falha e quem aproveita é o Brabham de José Calos Pace, que guia até à vitória final.

No regresso à Europa, um segundo chassis ficou pronto para Tom Pryce, que aproveitou para mostrar a sua rapidez, vencendo a “Race of Champions” em Brands Hatch, uma corrida extra-campeonato. A vitória, que aconteceu debaixo de condições adversas, foi o primeiro grande resultado quer de Pryce, quer da Shadow. A meio do ano, o galês repetiu o feito em Silverstone, ao fazer a pole-position, a terceira da marca naquela temporada. Contudo, tal como a Jarier, Pryce não conseguiu terminar essa corrida.

Nas corridas da Austria e de Itália, a Shadow decidiu colocar um motor Matra V12 no carro de Jean-Pierre Jarier, e para isso, o carro foi modificado no sentido de aumentar a distância entre-eixos e de acomodar um depósito de gasolina maior. Este Shadow-Matra ficou conhecido como o DN7, mas os resultados foram dececionantes. Nunca passou do meio do pelotão nas qualificações, e não chegou ao fim em qualquer uma das corridas. No final do ano, a Matra decidiu fornecer os carros da Ligier para a temporada de 1976, e o projeto ficou descartado.

No final de 1975, depois de terem conseguido 9,5 pontos e um pódio (Pryce, na Austria), o chassis foi melhorado, passando a ter uma versão B. O carro ficou mais fiável, mas perdeu alguma da sua velocidade, embora na corrida inicial dessa temporada, no Brasil, Jarier conseguiu uma volta mais rápida e Pryce subiu ao degrau mais baixo do pódio. Mas para o resto do ano, o carro não conseguiu mais resultados de relevo, excepto um quarto lugar em Brands Hatch. A meio da temporada, a equipa introduziu o DN8, que foi guiado por Pryce, enquanto que Jarier andou com o DN5B até ao final do ano. No inicio de 1977, Jarier sai da equipa e é substituído pelo italiano Renzo Zorzi, que em Interlagos dá um último motivo para sorrir para a equipa, ao conseguir um ponto no GP do Brasil, que viria a ser a última corrida deste chassis.


Ficha Técnica:

Chassis: Shadow DN5
Projetista: Tony Southgate
Motor: Ford Cosworth DFV V8/ Matra V12
Caixa de Velocidades: Hewland de 5 velocidades
Pneus: Goodyear
Pilotos: Tom Pryce, Jean-Pierre Jarier, Renzo Zorzi
Corridas: 32
Vitórias: 0
Pole-Positions: 3 (Jarier 2, Pryce 1)
Voltas Mais Rápidas: 2 (Jarier 2)

Pontos: 18,5 (Pryce 15, Jarier 1,5, Zorzi 1)

segunda-feira, 17 de março de 2014

Bólides Memoráveis - Shadow DN3 (1974-75)

O carro que falo hoje é o resultado de uma evolução natural do chassis anterior. Quando no inicio de 1973, o chassis DN1, que serviu de estria à equipa Shadow, ficou pronto para correr, o carro mostrou potencial para andar ao nível da concorrência, com dois pódios para Jackie Oliver e George Follmer, mas surgiram defeitos: o carro era pouco rígido, devido à inexperiência de Southgate de desenhar um carro com motor Cosworth V8 (tinha vindo da BRM, que tinha a sua própria unidade V12), e o chassis sofria com as vibrações vindas do V8 anglo-americano.

Assim sendo, no final de um campeonato que serviu de aprendizagem para todos, Tony Southgate, o projetista da marca, decidiu aproveitar as lições do DN1 no novo DN3: o chassis ficou mais rigido, aumentou a distância entre-eixos e o monocoque aumentou em cinco quilos o seu peso total. Southgate decidiu também tornar o carro mais leve, incluindo componentes de titânio nos braços da suspensão do carro. Isso viria mais tarde ter consequências trágicas.

A dupla de 1973, constituída por Jackie Oliver e George Follmer, sai de cena para dar lugar a uma nova dupla: o americano Peter Revson, vindo da McLaren, e o jovem e veloz francês Jean-Pierre Jarier.

O carro estreia-se no GP da Argentina, nas mãos de Revson, e os resultados são promissores: o americano leva o carro para os lugares da frente na Argentina e no Brasil, mas não chega ao fim em ambas as corridas. Contudo, as promessas viram tragédia: a 22 de março, em testes que antecediam o GP da África do Sul, o carro de Revson perde o controle na Barbecue Bend, devido a uma quebra da suspensão e ele teve morte imediata.

Tony Southgate contou sobre esse episódio, anos depois, na Motorsport britânica: “‘Revvie’ era um tipo fabuloso, fácil de lidar e um excelente piloto. Mas, tragicamente, não ficou conosco por muito tempo. Classificou-se na segunda linha na Argentina e para o Brasil na terceira flia da grelha. Então, ele, eu, o nosso mecânico-chefe Pete Kerr e mais outros dois mecânicos fomos para Kyalami, para testes antes do GP sul africano.

“Revvie estava muito bem, muito contente com o carro, e então, depois de ter iniciado uma volta, ele não apareceu. Corremos para a parte de trás do circuito e encontramos o carro enterrado sob as barreiras de proteção, do lado de fora de uma curva rápida [Barbecue Bend]. Peter já estava na ambulância quando chegamos. Liguei para o hospital, e eles me disseram que eu tinha que ir para a morgue e identificá-lo. Quando a notícia saiu, foi um inferno, com todos os jornalistas a bater na porta do meu hotel, até que o advogado da família Revson chegou e assumiu o controle."

"Estávamos usando bastante titânio bastante no DN3, que era então um novo material. Titanio é delicado, tem que ser trabalhado de forma suave e a sua superfície bem polida,  e descobrimos que tinha havido uma junta esférica que tinha sido feita de forma grosseira sobre ele, e foi aí que quebrou. Ali [no local do impacto] havia apenas uma camada de Armco e o carro, em vez de ser desviado ou parado, tinha entrado no carro, até à zona do cockpit.”

“Senti-me pessoalmente responsável. Foi uma época muito difícil. Desapareceu o glamour da Fórmula 1, e foi substituído por uma espécie de solidão. Você não tinha outra hipótese que não trabalhar. Claro, na corrida seguinte, substitui todos os componentes de titânio por aço.", concluiu.

Abalada, a Shadow não participa nesse Grande Prémio, e como substituto provisório, arranja o britânico Brian Redman, que tinha guiado para eles na temporada anterior. Fica com eles durante três corridas, altura em que Jarier consegue o melhor resultado do ano, um terceiro lugar no GP do Mónaco. Após terem dado um lugar ao sueco Bertil Roos, acabam por contratar um jovem piloto promissor de 25 anos, o galês Tom Pryce.

Pryce começa a guiar para eles no GP da Holanda, e adapta-se rapidamente ao carro, conseguindo o seu primeiro ponto no GP da Alemanha, no Nurburgring, quando termina a corrida no sexto lugar. Contudo, essa é a última vez que a equipa consegue pontos nessa temporada, acabando no oitavo lugar no campeonato de Construtores, com sete pontos.

Em contraste, a Shadow dominava nesse ano a Can-Am, dando a Jackie Oliver o campeonato que procuravam havia muito tempo. Contudo, esse “The Jackie and George Show” acontecia numa Can-Am minguada em termos de pelotão, prejudicada fortemente pela crise petrolífera que viveram nessa altura. Tanto que após o final de 1974, a Can-Am sofreu uma interrupção nas suas atividades apenas voltando a competir em 1976.

No inicio de 1975, uma versão modificada do DN3 foi para as mãos de Pryce, para correr nas duas primeiras corridas do ano, na Argentina e Brasil, enquanto que o novo DN5 era usado por Jarier. O galês só teria o carro novo na terceira corrida do ano, na África do Sul.

Em jeito de conclusão, o DN3 foi uma ótima evolução do DN1, contudo, os resultados nessa temporada de 1974 revelaram que as dores de crescimento iriam ser mais dolorosos do que se esperava, e essa foi uma temporada onde viram o lado mais negro do automobilismo. Tão negro como a pintura dos seus chassis.

Ficha Técnica:

Chassis: Shadow DN3
Projetista: Tony Southgate
Motor: Cosworth DFV V8 de 3 litros
Caixa de velocidades: Hewland de 5 velocidades
Pneus: Goodyear
Pilotos: Peter Revson, Tony Pryce, Jean-Pierre Jarier, Bertil Roos e Brian Redman
Corridas: 16
Vitórias: 0
Pole-Positions: 0
Voltas Mais rápidas: 0

Pontos: 7 (Jarier 6, Pryce 1)

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Youtube Formula 1 Classic: O anuncio da morte de Tom Pryce


O Grande Prémio da África do Sul de 1977 ficou marcado pelo acidente fatal do galês Tom Pryce, quando o seu Shadow atropelou um jovem comissário de pista chamado Jenson Van Vuuren, um bagageiro de 19 anos no aeroporto Jan Smuts. Pryce foi atingido pelo extintor que o jovem comissário levava, mas a sua trajetória continuou pista abaixo até bater no Ligier-Matra de Jacques Laffite e se enfaixar nas barreiras de proteção.

Na noticia da BBC, ouve-se a carreira do jovem galês, que então tinha 27 anos e que teve alguns bons resultados, como uma vitória na Race of Champions de 1975, e a pole-position no GP da Grã-Bretanha daquele ano, que foi no circuito de Silverstone. E também se fala da vitória de Niki Lauda, a sua primeira desde o seu acidente quase fatal em Nurburgring-

Este video é sem dúvida raro, mas não mostram as imagens do impacto, apenas o seu rescaldo. 

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Youtube Formula 1 Classic: A Geração Perdida (Tom Pryce)


Ao longo da existência deste blog lembrei profusamente destes três pilotos: Tom Pryce, Tony Brise e Roger Williamson. Do talento destes três pilotos, das expectativas que existiam sobre eles e das suas prematuras mortes, ao longo dos anos 70, em acidentes altamente mediáticos: Williamson, no GP da Holanda de 1973 e Pryce, no GP da África do Sul de 1977. Pelo meio, o acidente aéreo que matou Brise, a 29 de novembro de 1975, no avião pilotado por Graham Hill. 

O título "Lost Generation" (Geração Perdida) vêm de um livro escrito pelo jornalista britânico David Tremayne em 2006, onde se fala profusamente desses três talentos desaparecidos precocemente, e que poderiam ter abrilhantado ainda mais os anos 70 e 80 na Formula 1 para as cores britânicas. Este é o terceiro video, que fala sobre o galês Tom Pryce.

Ao contrário de Williamson e Brise, Pryce teve tempo para conseguir um palmarés: em quatro temporadas, venceu a Race of Champions de 1975, em Brands Hatch, - uma corrida extra-campeonato - conseguiu uma "pole-position" no GP da Grã-Bretanha de 1975 e mais dois terceiros lugares como melhores resultados, os outros dois pouco ou nada conseguiram, pura e simplesmente porque não tiveram tempo. Tirando uma corrida com a Token, em 1974, todas as outras corridas foram ao serviço da Shadow. Muitos dizem que Pryce era ótimo à chuva, e a sua pole em Silverstone foi nessas circunstâncias.

Em 1977, a Shadow parecia ter um carro capaz e Pryce era definitivamente o primeiro piloto, contra um Renzo Zorzi claramente inferior. Ironicamente, o único ponto que a equipa tinha conseguido até ao GP da África do Sul daquele ano, a terceira prova da temporada, fora conseguido pelo italiano. E as circunstâncias do seu acidente mortal aconteceram - dupla ironia - por causa de Zorzi. O seu carro tinha parado e deitava fumo do motor. Dois jovens comissários de pista, um deles chamado Jansen Van Vuueren, de 19 anos, atravessaram a pista num local de baixa visibilidade e Pryce não teve tempo de se desviar dele, que trazia um extintor. Ambos tiveram morte imediata. 

segunda-feira, 5 de março de 2012

Para Tom Pryce

Caro Tom:

Quando tu te foste, tinha apenas sete meses de vida. Estava mais preocupado em ver se me erguia da minha posição de sentado e tentava ter noção do mundo à minha volta, sem saber que para além desse meu pequeno espaço, havia algo enorme, um planeta azul, cheio de vida, com coisas boas e más, onde anjos e génios conviviam, nem sempre pacificamente, com demónios. Como é óbvio, não faço a mínima ideia do que fazia nesse dia 5 de março de 1977, mas certamente que os maus pais e avós devem ter visto, certamente com horror, aos eventos do qual acabaste por ser vítima, sem que a vida te tenha pedido licença. Nem a ti, nem a aquele jovem comissário de pista.

Com o passar dos anos, primeiro quando cresci e me apercebi do mundo à volta, depois quando achei o automobilismo e me apaixonei por ela, é que parecebi do seu passado. E de quantos pagaram o preço mais alto pela sua paixão pela velocidade. Pela sua vontade de vencer, de ser o mais rápido, de ser o melhor de todos. De como jovens promessas se tornaram grandes campeões ou morreram a tenter sê-lo: Collins, Von Trips, Bandini, Rindt, Cevért... tu, meu caro Tom Pryce, viste colegas teus a morrerem em pista ou a sofrerem acidentes graves, se calhar passou na tua mente se serias o próximo ou se algum dia irias acabar como alguns deles. Infelizmente, esse foi o teu destino.

Engraçado saber que podias ter ido para a Lotus e ser campeão do mundo, caso tivesses aceite a oferta de Colin Chapman em 1975. Perferiste ficar na Shadow e estava no teu direito, mas não conseguiste mais do que uma pole-position e dois pódios. Podias ter conseguido mais, e irias ter conseguido mais, se não fosse aquele extintor, transportado por aquele adolescente. Eu sei que é a vida, e que muitas vezes é injusta, especialmente quando vejo em video a violência do acidente.

O tempo passou e hoje, é uma nova geração. Os bebés do teu tempo se tornaram adultos e têm os seus bebés. A Formula 1 é mais um negócio do que um desporto de milhões e a segurança é enorme. Morrer tornou-se impossivel, graças à tecnologia dos carros e dos pilotos. Já não morre ninguém há quase 18 anos. Já reparaste? Quase uma geração inteira sem ver pilotos a morrerem em direto na TV, pelo menos na categoria máxima do automobilismo.

Contudo, apesar do tempo passado e daquele dia horrivel não ser mais do que uma memória difusa, não posso esquecer de ti, Tom Pryce. Pessoalmente, apesar de nunca ter cruzado contigo, tenho quase aquele dever moral de recordar às gerações mais novas o que tu foste e o que poderias ter sido, caso aquele comissário não tivesse aparecido à tua frente, ou atravessado a pista um segundo mais cedo. Nem eu posso esquecer de ti, nem os "petrolheads" que te conheceram ou cresceram a admirar-te.

De ti, sei que escreveram um livro. O seu autor era um admirador teu, o David Tremayne. Ele até batizou um dos seus filhos com o teu nome. A tua cidade natal fez-te um mural a lembrar de ti, e eu, claro, faço a minha parte. Afinal de contas, falo sobre o primeiro - e até agora unico - piloto galês na história da Formula 1.

Os 35 anos do acidente mortal de Tom Pryce


(...) Estamos a 5 de Março de 1977. A terceira corrida da temporada, depois de paragens na Argentina e no Brasil, no inicio do ano, é em paragens sul-africanas, ainda a aproveitar o verão austral, pois o frio ainda se instalava na Europa. O pelotão ainda vivia os ecos da temporada anterior, com o duelo entre a Ferrari e a McLaren, com a Lotus, Brabham e Tyrrell a espreitar. Mas também tinha observado com espanto a vitória de Jody Scheckter na corrida inaugural da temporada, a bordo de um Wolf-Ford, desenhado por Harvey Postlethwaithe, antigo projetista da Hesketh.

(...) para Tom Pryce, o piloto britânico da Shadow, este estava a ser um inicio de temporada frustrante. Tinha desistido em ambas a corridas, e a última em particular tinha sido frustrante porque rolava em segundo quando o seu motor rebentou. Nesta qualificação, tinha tido dificuldades com o seu carro e iria partir apenas da 15ª posição da grelha.

No momento da largada, as coisas pioraram quando Pryce tem uma má partida, caindo para a 23ª e última posição, mas após isso, começou a efetuar uma recuperação de trás para a frente, chegando à 13ª posição no final da volta 18. Na frente, James Hunt segura Niki Lauda até á sétima volta, altura em que passa o britânico e fica no comando. Pryce continuava a subir na grelha de partida até que na volta 21, o seu companheiro de equipa, o italiano Renzo Zorzi, fica parado devido a uma rutura do tubo de combustível, fazendo com que se vertesse e começasse a pegar fogo ao carro, tudo observado por ele, que já estava fora do bólido.

Do outro lado da pista, dois comissários, um mecênico de 25 anos chamado Bill, e um jovem rapaz de 19 anos chamado Jensen Van Vuuren, que trabalhava como bagageiro no Aeroporto de Joanesburgo, correm para junto dele em modo de prevenção, caso o carro pegue fogo. Atravessar a pista em plena corrida era extremamente perigoso, mas algo corriqueiro por esses dias, ainda mais quando se sabia que linha de partida se situava no alto de uma colina, bloqueando a vista de quem fazia o The Kink, a rápida curva antes da meta. (...)

Esta é a descrição do dia e dos os momentos antes do acidente fatal no circuito de Kyalami, que matou o piloto galês Tom Pryce e do comissário de pista local Jensen Van Vuuren. Ele e mais outro comissário de pista decidiram atravessar a pista para ver se apagavam o fogo que vinha do carro de Zorzi, numa altura em que não deviam e num local onde os pilotos não os viam atravessar. 

Pryce, que vinha na aspiração do carro em frente, o March de Hans-Joachim Stuck, não teve hipótese de se desviar do comissário que atravessava a pista e levou em cheio com o extintor que ele levava consigo, decepando parcialmente a sua cabeça, ao mesmo tempo que o seu carro destruia Van Vuuren, espalhando restos humanos pela pista, para horror de milhões a ver a corrida em direto na TV. O resto da história e um pouco da vida e carreira de Tom Pryce, pode ser lido hoje no portalf1.com

GP Memória - Africa do Sul 1977


(...) No inicio da volta 22, com os primeiros classificados a passarem, dois jovens comissários de pista, que estavam do outro lado, viram o carro de Zorzi, com o piloto à espera que aparecesse alguém para extinguir o fogo que entretanto ameaçava aumentar. Os comissários decidiram atravessar a pista no sítio onde esta fica num ângulo morto, tapando a vista dos pilotos que os poderiam ver. E esses dois comissários, um deles um jovem de 18 anos chamado Jensen Van Vuueren, bagageiro no aeroporto de Joanesburgo, atravessaram a pista no preciso momento em que o grupo de pilotos acelerava a toda a velocidade na reta da meta.

Stuck era o primeiro do grupo e os viu, desviando-se à justa. Mas Pryce estava na aspiração do March e praticamente não teve tempo de reagir e varreu o pobre comissário, que transportava consigo um pesado extintor. Este atingiu em cheio o piloto galês, matando-o. Mas o frama não acabava ali, pois o Shadow descontrolado ainda atingiu em cheio o carro de Jacques Laffite, e ambos acabaram nas redes de proteção da curva Crawthorne. O francês nada sofreu, mas nada se podia fazer por Pryce, morto aos 27 anos.  

Sem saber do drama, na frente, Niki Lauda controlava os acontecimentos, enquanto que Hunt era acossado por Scheckter e Depailler, que tentavam livrar-se do piloto britânico. Um a um, ambos passaram-no e o piloto da Wolf levou a melhor sobre o seu ex-companheiro da Tyrrell. Na bandeira de xadrez, Lauda corta a meta na primeira posição, conseguindo provar aos críticos que estava de volta às vitórias e que o acidente que sofrera, sete meses antes, em Nurburgring, não o tinha afetado em nada a sua capacidade de guiar.

Mas essa sua vitória tinha sido assombrada pelos eventos na pista e ninguém estava com vontade de festejar, não quando se sabia que não muito longe dali estavam restos humanos na pista e na curva Crawthorne, a carcaça retorcida do Shadow de Pryce. (...)

O GP da Africa do Sul ficou marcado por dois eventos: a primeira vitória de Niki Lauda na Formula 1 após o acidente em Nurburgring, sete meses antes, e pelo horrível acidente que envolveu um comissário de pista e o Shadow do galês Tom Pryce, ambos a terem morte imediata, e ainda o carro inerte a levar consigo o Ligier de Jacques Laffite, que nada sofreu com o embate na curva Crawthorne. 

E sobre esses eventos de há 35 anos que falo hoje no portalf1.com.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Francois Cevért e os mitos do automobilismo

Era uma vez um rapaz de olhos azuis. Apaixonou-se por um desporto perigoso e tornou-se bom naquilo que fazia. Aos poucos, tornou-se na esperança de uma nação inteira para que este conquistasse o título de campeão. Consciente disso, o melhor piloto de então, e também seu melhor amigo, decidiu ajudá-lo para que tivesse o mesmo sucesso do que ele. 

Quando achava que tinha feito todo o que tinha, decidiu reformar-se e entregar o volante para ele e concretizar o sonho de toda uma nação. Mas na sua última corrida, quando o mestre se prepara para abandonar, vê ao longe um fumo negro. Com medo, aproxima-se e vê o seu pior pesadelo, ao ver o seu discípulo favorito, morto no meio dos destroços do seu carro. Abandona a competição, desgostoso, com esse golpe profundo no coração, e vive o resto dos seus dias a pensar no que poderia ter sido se tivesse sobrevivido a aquele dia.

Quem me segue regularmente, sabe que falo frequentemente de Francois Cevért. Hoje deveria ter sido o seu 68º aniversário natalício, e nos últimos tempos tenho descoberto que cada vez mais e mais "petrolheads", cada vez mais novos, ficam fascinados com ele. Pessoas que não eram nascidas quando ele viveu, pessoas que provavelmente os seus pais ainda eram crianças quando o piloto francês correu e morreu, naquele 6 de outubro de 1973. De uma certa maneira, sempre achei que aqueles olhos azuis eram faiscantes, hipnóticos até, o seu físico atlético, a sua face e corpo de Adónis poderá ter ajudado um pouco no fascínio que as pessoas tinham por ele quer na altura, quer nos dias de hoje.

A psicologia tenta explicar os mitos. O automobilismo, como todos sabem, está cheio deles. Na Formula 1, é só escolher: Alberto Ascari, Wolfgang Von Trips, Jim Clark, Jochen Rindt, Ronnie Peterson, Gilles Villeneuve, Ayrton Senna. Nos ralis, há bem menos, mas existem: Henri Toivonen e Colin McRae. No Brasil, "santificou-se" o piloto brasileiro até ao ponto de saturação, ajudado por uma cadeia nacional que "surfou" no sucesso dele - e de Nelson Piquet e Emerson Fittipaldi, antes - e que se sente órfão porque era o simbolo do "Deus é brasileiro", ou se perferirem, um ufanismo nacionalista quase levado ao extremo. Na campa de Senna, no Cemitério do Morumbi, em São Paulo, nunca irão faltar flores e muitos mais novos falarão dele com tanta convição do que aqueles que viram toda a sua carreira, como eu, por exemplo.

Num grau tão grande como Senna, fala-se de Villeneuve. Ainda por cima, este ano, comemora-se o 30º aniversário da sua morte, no final de semana de Zolder, na Belgica. E se outro dia vos mostrei a galeria de fotos do belga Carlos Ghys sobre esse dia fatídico de 1982 - a minha segunda memória mais antiga da Formula 1 - direi que esses mitos, agora alimentados pela Internet 2.0, graças a vídeos do Youtube, galerias do Facebook ou blogs e afins, fazem com que surja uma nova geração de pessoas, adolescentes e pré-adolescentes, que ficam fascinadas por personagens de um passado distante, mortos muito antes de nascerem, mas que graças a fãs dedicados e amigos pessoais, não deixam a sua memória desaparecer.

Não vi Cevért correr. Nem Jim Clark, nem Ronnie Peterson. Apanhei Gilles Villeneuve no dia em que morreu. Mas vi a ascenção, auge e final trágico de Ayrton Senna. e no tempo em que vivi, entendi a razão porque esta gente ainda vive muito depois de terem morrido. O que fizeram, a sua maneira de estar na vida, a adrenalina da velocidade, o "do or die", o "viver depressa e morrer jovem", é tudo demasiado bom para deitar fora. Alimenta o mito, qualquer mito, seja automobilístico, motociclismo ou não. Olhem agora para os exemplos de Amy Winehouse e Whitney Houston, mortas na flor da idade, e uma delas a alimentar o mito do rockeiro "Clube dos 27", do qual o automobilismo contribui dois membros: o galês Tom Pryce e o alemão Stefan Bellof. 

Mas aos que nunca viram uma morte em direto, quero dizer-vos que estes cadáveres não ficaram bonitos. Nunca vimos os cadáveres de Senna e Cevért, por exemplo, e o cadáver de Pryce, no seu Shadow destruído, em Kyalami, ainda hoje impressiona, quase 35 anos depois. E quem conseguiu ver a última imagem de Dan Wheldon vivo, em Las Vegas, no passado mês de outubro, a ser levado para o helicóptero, sabe que tinha uma toalha em cima da cabeça, para que não fotografassem as horríveis lesões cerebrais que tinha sofrido quando a sua cabeça bateu vezes sem conta nas redes de proteção daquela oval americana. 

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Bólides Memoráveis - Shadow DN8 (1976-78)

(...) No inicio de 1977, Jarier sai para dar lugar ao italiano Renzo Zorzi, imposto pela Ambrosio, o novo patrocinador da equipa. O chassis foi largamente modificado de forma a ser mais eficiente em termos aerodinâmicos, o que era importante para manter, senão melhorar, as performances do carro. Mas os bons andamentos de Pryce nas duas primeiras corridas do ano terminam abruptamente na terceira prova daquela temporada, o GP da Africa do Sul, em Kyalami.

Na corrida, um comissário local, Jenson Van Vuuren, atravessa a pista para acudir um carro parado quando aparece Pryce, que o atropela. Ele transportava um extintor que o atinge na cabeça, matando-o de imediato. Ironicamente, Van Vuurem ia acorrer... ao companheiro de equipa de Pryce, Renzo Zorzi.

Devasatada, a equipa fez uma mudança radical nos seus pilotos, contratando o australiano Alan Jones, sem lugar depois de uma temporada na Surtees. Duas corridas depois, Zorzi era substituido por um novato promissor, de seu nome Riccardo Patrese.

Contudo, com Jones ao volante, os resultados começaram a melhorar. Em Zeltweg, na Austria, numa corrida onde a pista secava progressivamente depois de uma chuva que tinha caído minutos antes, o australiano aproveitou bem essa oportunidade e conseguiu dar à equipa a sua primeira vitória - e que acabou por ser a sua unica - da carreira. Duas corridas depois, em Itália, Jones conseguiu subir de novo ao pódio, no terceiro lugar, e acabar regularmente nos pontos, contribuindo para que a equipa terminasse na sétima posição no Mundial de Construtores, o melhor de sempre. (...)

O ano de 1977 talvez tenha trazido, paradoxalmente, os melhores e piores momentos para a equipa Shadow. Em março, o seu piloto Tom Pryce morreu em Kyalami, vitima de um extintor que era trazido por um jovem comissário de pista local, que tinha sido atropelado por ele. Contudo, cinco meses mais tarde, em agosto, o seu substituto, o australiano Alan Jones, dá em Zeltweg, na Austria, o seu grande momento à equipa, quando chega à meta na primeira posição. Iria ser a primeira - e depois a unica - vitória desta equipa americana.

Contudo, esse auge foi de pouca dura, pois na equipa fundada por Don Nichols, um homem com um passado misterioso - dizia-se que tinha sido operacional da CIA - havia agitação, pois os seus membros queriam despojá-lo dali. O golpe falhou e os dissidentes sairam para dar lugar à sua própria equipa, que deram o nome de Arrows. O chassis DN8 ficou na história por ser o carro que deu os maiores sucessos à equipa. E é sobre esse chassis que falo hoje no Portal F1.

domingo, 24 de julho de 2011

Os automobilistas do "Clube dos 27"

"As noticias sobre a morte de Amy Winehouse, este Sábado, e o fato de ela terminar a sua vida aos 27 anos fizeram todos lembrar do tal "clube dos 27", termo cunhado entre 1969 e 71 quando Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrisson morreram, num espaço de pouco tempo cada um, com a mesma idade. Essa coincidência fez com que a imprensa falasse de uma "maldição dos 27 anos" existente entre os musicos, que morriam como moscas, mais vitimas de si mesmos do que algum problema fisico. Embora no caso de Hendrix, todos aceitem agora que a sua overdose fora acidental...

Claro, também podemos falar de Kurt Cobain, mas quando se pensa nas circunstâncias da sua morte, em abril de 1994, só realça a ideia inicial de que são eles os causadores do seu próprio fim. Acidental ou intencionalmente.

Mas não é sobre musica que falo hoje. Fiz o exercício para saber se há um "Clube dos 27" no automobilismo. Tal coisa existe? Se sim, quem faz parte de tal clube? A resposta a essa pergunta é sim. Mas é um clube com dois membros, pelo menos na Formula 1: Tom Pryce e Stefan Bellof. Separados por oito anos, ambos têm em comum o fato das suas carreiras terem sido promissoras e que acabaram cedo demais. As suas mortes estão bem documentadas e os detalhes são arrepiantes. (...)"

Tom Pryce e Stefan Bellof têm em comum o fato de terem sido alguns dos melhores pilotos da sua geração. Mas são os unicos dois membros - pelo menos na Formula 1 - que podem reclamar pertencer ao maldito "clube dos 27", as pessoas que morreram nessa idade, na plenitude das suas capacidades, e quando todos acreditavam que iriam ser, um dia, campeões do mundo.

Mas ao contrário dos cantores, mortos pelas suas próprias mãos numa espiral autodestrutiva, Pryce e Bellof acabaram as suas vidas de forma abrupta e trágica. O primeiro, decapitado a mais de 270 km/hora quando foi atingido pelo extintor que levava Jensen Van Vuuren, um comissário de 18 anos, atropelado mortalmente pelo carro do galês. O segundo, quando tentava fazer uma manobra "impossivel" para passar Jacky Ickx na temida Eau Rouge nos 1000 km de Spa-Francochamps, batendo em cheio no muro de proteção, tendo morte imediata.

E é para recordar mais uma vez as suas carreiras que falo hoje no site Pódium GP.

sábado, 5 de março de 2011

A horrivel morte de Tom Pryce, e os eventos que levaram a ela

Na história do automobilismo, há acidentes mortais que nos marcam, quer pela sua violência, quer pela sensação de que poderia ser evitável, quer até pela violência em si. Uma vida desperdiçada a fazer o seu melhor é isso mesmo: desperdiçada. O que aconteceu há precisamente 34 anos no circuito sul-africano de Kyalami marca pela sua violência e pela perda associada e pela sensação de que poderia ter sido evitável. E também tem o seu toque de ironia.

O GP da Africa do Sul era a terceira prova do ano de 1977, e aí já tinha havido um pouco de tudo: uma equipa estreante a ganhar à primeira, corridas debaixo de um calor infernal e até Renzo Zorzi tinha conseguido chegar aos pontos... nesse dia, na volta 21, o Shadow de Zorzi fica parado na meta com o tubo de combustível furado. Do outro lado da pista, dois comissários, um deles um jovem rapaz de 19 anos chamado Jensen Van Vuuren, correm para junto dele em modo de prevenção, caso o carro pegue fogo. Atravessar a pista em plena corrida era perigoso mas algo corriqueiro por esses dias, ainda mais quando se sabia que linha de partida se situava no alto de uma colina, bloqueando a vista de quem fazia o The Kink, a rápida curva antes da meta.

Quando os dois rapazes começaram a atravessar a pista, um grupo de quatro carros estava a acelerar a toda a velocidade nessa zona, começando a 22ª volta da corrida. Eram o March de Hans Stuck, o Shadow de Tom Pryce, o Ligier de Jacques Laffite e o Lotus de Gunnar Nilsson. Stuck viu os dois comissários a correr e só tem tempo para corrigir a trajetória o suficiente para o evitar por "milimetros". Mas Pryce não tem essa sorte. Atropela Van Vuuren e leva com o extintor que ele transportava na cabeça, e ambos morrem de imediato.

No final da corrida, Hans Stuck comentou sobre o incidente: "Quando subia a pista, notei essa pessoa a correr da minha direita, trazendo um extintor consigo. Confiei no meu instinto e nem sei como é que consegui safar. Reagi apenas naquele momento". Provavelmente foi isso que o salvou a ele, mas não a Pryce, que indo mesmo atrás do alemão, não teve tempo de reagir.

Mas isso não foi o final do drama. Sem controle algum e com o cadáver de Pryce lá dentro (ficou parcialmente decapitado com o acidente) o Shadow acelera em plena reta, até à Crawthorne Corner, e ainda colide fortemente com o Ligier de Laffite, acabando ambos nas redes de proteção. Laffite nada sofre.

O acidente ocorre mesmo à frente das boxes, e algumas pessoas tiveram pesadelos durante muito tempo. Aparentemente, esse foi um dos motivos porque a mulher de Patrick Depailler resolve deixá-lo, e um dos mecânicos da Tyrrell, Trevor Price, conta:

"Lembro-me perfeitamente do pequeno fogo que vinha do outro carro [de Renzo Zorzi] e depois do carro de Pryce a entrar na reta. De repente notei que o motor tinha deixado de acelerar mais cedo do que o previsto e algo a levantar-se momentaneamente para o ar quando o seu carro lá passou, que depois viemos a ver que era o infeliz comissário de pista".

O corpo de Van Vuuren estava irreconhecível: partes dele estavam pela pista, e a corrida não foi interrompida com bandeira vermelha. Quando terminou, com a vitória de Niki Lauda - a sua primeira depois do acidente de Nurburgring, sete meses antes - comentou: "Não conseguia retirar qualquer prazer daquela vitória".

domingo, 4 de março de 2007

GP Memória: Africa do Sul 1977

Hoje e amanhã assinalo aqui os 30 anos do acidente mortal de Tom Pryce, ocorrido no circuito de Kyalami, durante o GP da Africa do Sul de 1977.

Toda a gente sabe mais ou menos o que aconteceu, mas agora mostro o panorama completo: o fim de semana do GP.

Antes de Kyalami, o “Grande Circo” já tinha estado na Argentina e no Brasil, corridas onde o equilíbrio tinha sido a nota dominante. Se em Buenos Aires, assistiu-se à espantosa vitória de Jody Scheckter, a bordo do estreante Wolf, em Interlagos viu-se uma corrida tumultuosa, com a vitória do argentino Carlos Reutmann.

O fim-de-semana do GP da Africa do Sul começou chuvoso. Na sexta-feira, o Shadow de Tom Pryce mostra que é o melhor no molhado. Mas no Sábado, o tempo melhora e o McLaren de James Hunt leva a melhor sobre o Brabham de José Carlos Pace e o Ferrari de Niki Lauda. Scheckter, o piloto da casa, parte em quinto, e Pryce, o homem que deslumbrou na chuva do dia anterior, sai em 15º lugar na grelha.

A corrida começa sem incidentes, com Lauda a levar o melhor sobre Hunt, uma reincidência das lutas do ano anterior. Entretanto, Pryce atrasa-se na partida a passa em último no final da primeira volta. A corrida segue o seu ritmo normal até à volta 21, altura em que o italiano Renzo Zorzi para o seu Shadow na berma da recta da meta.

O carro começa a pegar fogo e logo dois comissários de pista vão socorrê-lo. Mas para lá chegaram, têm que atravessar a pista, e no sítio onde estão, a visibilidade é pouca, pois em Kyalami, a recta da meta começa numa subida, para descer vertiginosamente a partir da linha de meta (é o famoso The Dip”). Um dos comissários é um bagageiro de 18 anos: Jensen Van Vuuren.

Na altura em que atravessam a pista, quatro carros passam pela recta da meta: Pryce, o alemão Hans-Joachim Stuck, o francês Jacques Laffite e o sueco Gunnar Nilsson (1948-1978). Stuck consegue ver os dois comissários e guina para a direita, evitando-os. Mas Pryce, que estava colado a Stuck, não os vê e atropela Van Vuuren, matando-o. Mas no momento em que o atropela, o extintor que Van Vuuren transportava atinge o capacete de Pryce, matando-o imediatamente.

Mas isto não acaba aqui. O carro descontrolado de Pryce vai de encontro ao Ligier de Laffite e arrasta-o para a berma do final da meta. O francês escapa ileso, mas nada se podia fazer pelo piloto galês. Tinha 27 anos.

Depois disto, a corrida continua. Pace atrasou-se, Hunt também, e Lauda acaba por vencer a corrida, a sua primeira vitória depois do pavoroso acidente de Nurburgring, sete meses antes. No pódio, sabendo o que tinha acontecido antes, afirmou: “a morte de Pryce tirou todo o prazer da minha vitória”.

Em 13º lugar classificou-se o brasileiro José Carlos Pace. Seria o seu último GP. Treze dias depois, morre num acidente aéreo na Serra da Cantareira, em São Paulo. Tinha 33 anos. O Autódromo de Interlagos tem agora o seu nome.