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terça-feira, 22 de março de 2022

Entretanto, nas Arábias...


A Formula 1 está a caminho de Jeddah, na Arábia Saudita, e se o mundo anda atento à guerra entre a Rússia e a Ucrânia, as pessoas pouco sabem que esse país também está em guerra com outro. Diendo melhor: está contra uma fação que toma conta do poder. Os "houtis" uma coligação xiita apoiada pelo Irão, ataca a Arábia Saudita desde que esta se envolveu na guerra, em 2016. E esse envolvimento passa a que o país esteja sujeita a ataques de mísseis contra as suas instalações perolíferas. Foi o que aconteceu no domingo, contra a cidade de Jeddah... uma semana antes do Grande Prémio.

Segundo conta a Reuters, um míssil ia a caminho da cidade quando foi intercetada pela defesa local. O alvo era uma refinaria da Aramco, a petrolífera local, e não houve feridos, nem estragos materiais. A Formula 1, que foi super-lesta em retirar a Formula 1 da Rússia, por causa da guerra - rasgou mesmo o contrato que os ligava até 2025, que incluía a ida do campeonato a Igora Park, nos arredores de São Petersburgo - parece estar muito amiga do dinheiro e do "lobby" saudita.

Contudo, não deveria ser assim. E não falo das hipocrisias e do "double standards", falo de exemplos recentes que passaram pouco apercebidos. 

No Dakar deste ano, uns dias depois do seu começo, uma misteriosa explosão atingiu um carro pilotado por uma dupla francesa, ferindo gravemente o seu navegador. Falou-se de uma explosão "acidental", mas também de uma "propositada" do qual agitou um pouco a organização do Dakar, que recebeu avisos bem fortes do governo francês, depois de uma equipa de peritos ter sido impedida de ir à Arábia Saudita para investigar o caso. 

Os franceses foram super-lestos em 2008 cancelarem o rally Dakar quando este partia de Lisboa. Podem não ter feito desta vez, mas deixaram o aviso: se não melhorarem a sua segurança, irão organizar o rali para outro lado. 

Falei no final do ano passado sobre o "sportwashing" do qual o automobilismo - e sejamos honestos, o desporto em geral - está a ter com os ultra-ricos e os fundos soberanos que injetam centenas de milhões de dólares para modalidades onde precisam do dinheiro para se manterem competitivos. E esquecem-se que, quando as coisas dão para o torto, e o leite for derramado, as pessoas irão perguntar como é que foram capazes destas e outras coisas. É verdade, as pessoas esquecem destas coisas por omissão ou por hipocrisia, mas falem ao pessoal do Chelsea, que descobriram agora que ter o seu clube nas mãos de Roman Abramovich tornou-se num ativo tóxico do qual a sua própria existência está em risco...  

Desejo o melhor aos pilotos e equipas que forem a Jeddah. Só espero que se lembrem que há guerras de baixa intensidade que um dia poderão aumentar...

sexta-feira, 4 de março de 2022

A(s) image(ns) do dia



Nesta sexta-feira, ao final da tarde, foi uma doideira circular ao pé da minha casa. Agora está mais calmo. Mas a razão de todo este pânico é que na segunda-feira haverá um aumento de preço absolutamente forte. A gasolina aumentará 9 cêntimos por litro, mas o gasóleo é que sofrerá o maior aumento: 15 cêntimos.

Filas intermináveis de carros para abastecer, em pânico porque pensavam que não teriam tempo para encher o depósito. E mesmo com a primeira boba fechada, a que está mais ao pé da minha casa, fechada, vi dezenas de carros a circularem ali, pensando que estaria aberta para abastecimento. Na outra bomba que visitei, a fila era grande quer para reabastecer, quer para pagar. 

Isto é a consequência da guerra russo-ucraniana. Provavelmente vamos a caminho de um choque petrolífero semelhante aos de 1973 e de 1979, o primeiro por causa do Yom Kippur, o embargo petrolífero árabe ao ocidente por causa do seu apoio a Israel, e o segundo por causa em embargo ao petróleo iraniano, consequência da queda do Xá e a ascensão do regime teocrático dos "ayatolahs", aliado com a tomada da embaixada americana, do qual fizeram reféns os seus funcionários por 444 dias. 

Ao contrário das outras vezes, estamos melhor preparados para isto: por causa das alterações climáticas, há alternativas para isto. Poderemos trocar por um carro elétrico, ou poderemos deixá-lo em casa e andar e transporte público. E se começássemos a fazer isso, encher os autocarros, poderia ser que existisse mais linhas, mais horários e mais a circular, variando conforme a cidade. 

Logo, em vez de reclamar, agir seria melhor.

Aliás, isto fez lembrar uma conversa que tive com uma velha amiga minha. Ela é professora, e encontrei-a na minha hora de apanhar o autocarro para casa. No meio da conversa, contou-me que tinha trocado de carro no ano passado, um carro... a gasolina. Cujo preço ao litro é o mais caro, e o menos eficiente. E quando soube do preço que pagou pelo carro, cerca de 21 mil euros, fiquei mais espantado ainda. É que por esse preço - mesmo pago a prestações - poderia ter um Renault Zoe ou um Nissan Leaf, ambos elétricos e se calhar, ambos novos. Ainda por cima, já são carros que têm uma autonomia de 300 quilómetros, no mínimo, e quase não custam nada para reabastecer... dizendo melhor, recarregar. 

Em 2021, 25 por cento dos carros novos em Portugal eram elétricos, e previa-se um aumento para os 35 por cento este ano. E não se previa nem esta guerra, nem este possível choque. E fala-se que na semana que vêm, haverá novas sanções à Rússia, e podem passar por um embargo petrolífero. Com as alternativas que existem, não trocar de carro ou deixá-lo em casa... não vou dizer que seja persistir no erro, mas tem de mudar de atitude o mais depressa possível.  

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

O piloto mais odiado do mundo


Já se falou muitas vezes de Nikita Mazepin, o piloto russo da Haas que lá chegou graças à fortuna do seu pai, um dos oligarcas ajudados por Vladimir Putin, o líder russo. Dimitri Mazepin, de 53 anos, é o dono da Uralchem, que se especializa em fertilizantes, e patrocinou em larga medida a Haas F1. Contudo, nestes últimos dias, com a Russia a entrar em conflito com a Ucrânia, as coisas ficaram de mal a pior para ele, a família... e o resto. É que não bastou o cancelamento do GP da Rússia, em setembro, em Sochi, e a retirada dos patrocinadores paternos do chassis da Haas, poderá vir mais... e pior.

Um exemplo? A Federação Automobilística da Ucrânia, inscrita na FIA, pediu à entidade máxima do automobilismo para que exclua Mazepin da Formula 1, que retire a sua Super-Licença, segundo uma recomendação do COI para a exclusão de atletas da Rússia e da Bielorrússia de competições internacionais. A razão para isso foi, oficialmente, a violação da trégua olímpica que está em vigor até 20 de março, data da final dos Jogos Paralímpicos de Pequim. A possível exclusão de Mazepin da Formula 1 não era algo que não se previa, aliás, começou a ser discutido logo na sexta-feira, quando foi cancelado o GP russo, falando logo que Pietro Fittipaldi, o neto de Emerson Fittipaldi e piloto de reserva da marca, iria guiar no seu lugar.

Claro, há gente que aproveita a ocasião para ir bem longe. Exemplo? Jeremy Clarkson. O antigo apresentador do Top Gear e conhecido por ter uma lingua bem afiada, decidiu escrever esta frase no Twitter: “Nikita Mazepin. Seu retardado de m****. Vai correr para a Rússia sozinho. Perdias ainda assim.”

Apesar de tudo que esteja a levar, Gunther Steiner achou que o "orangotango" foi longe demais. E foi defender o rapaz: 

“Ouvi falar sobre o tweet de Jeremy Clarkson acerca disso. Talvez tenha sido feito num momento de fúria ou algo assim, porque foi bastante direto. O melhor é não olhar para o que está lá porque, neste momento, ele não tem nada a ver com isto. Só precisamos de continuar e ver onde isto vai parar e trabalhar. Esperemos que ele [Mazepin] consiga manter a cabeça erguida e continuar a trabalhar”.

Mazepin junior é uma pessoa acossada. Dá a cara - quer queira, quer não - a um país, que neste momento cometeu o imperdoável na ordem e harmonia das nações. E tem de pagar um preço por terem pisado o risco. O povo russo está agora a pagar o preço pelas ações do seu ditador. Não é só os soldados que morrem esturricados pelas balas e misseis de um povo que está a dar tudo para defender a sua terra, porque ninguém lhes disse que são os maus da fita, mas também é os que saem à rua, enfrentando o frio e os cassetetes da policia, em dezenas de cidades do vasto império, protestando contra Putin e as suas decisões, e provavelmente a partir de hoje, sofrerão na carteira o isolamento do mundo, a desvalorização da sua moeda, o aumento do custo de vida, o de não poderem voar para lado algum nos seus aviões. 

E a cada dia que passa, este turbilhão tem consequências imprevisíveis. E Mazepin pagará o preço por estar no lado errado da História, na pior altura possível. Não creio que alinhe em Shakir a 20 de março.  

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

O GP russo está em perigo... ou nem por isso?


Todos sabemos que, por muito que amemos automobilismo e não queiramos saber o que se passa lá fora, o mundo nos irá bater à porta. É inevitável. E com Vladimir Putin, o novo czar russo, a querer mandar na Ucrânia, e o Ocidente a impor sanções para evitar que entre até Kiev e derrube o governo legitimo, o desporto poderá ser afetado com tudo isto. 

A UEFA, organismo máximo do futebol europeu, já disse que poderá retirar a final da Liga dos Campeões de São Petersburgo, e a Formula 1 anda a monitorizar os eventos para saber se viabiliza ou não o GP da Rússia, que se disputa em Sochi, mas em 2024, será em Igora Park, nos arredores de São Petersburgo. A corrida será em setembro, mas poucos acreditam que o conflito se arraste até lá.

“A Fórmula 1 está a monitorizar a situação na Rússia e na Ucrânia”, disse Craig Slater, repórter da Sky UK. “De momento, a corrida em Sochi aparentemente vai acontecer, já que não é até setembro. Essa é a situação no momento”, acrescentou.

Só que nestas coisas, há alguns problemas. Por exemplo, o futebol depende do dinheiro da Gazprom, a gigantesca firma russa de petróleo e gás, do qual boa parte da Europa está dependente, especialmente nos meses de inverno. Por agora, não está incluída no pacote de sanções, mas é provável que esteja na mira da Europa mais adiante, caso haja uma escalada na guerra. Se assim for, os interesses russos serão afetados.

E a Formula 1 tem uma equipa que é bem apoiada por russos. O pai de Nikita Mazepin, Dimitri Mazepin, é um homem muito rico (a sua fortuna pessoal ronda os 1,5 mil milhões de dólares) e a sua firma, a Uralchem, é o maior complexo químico do país e claro, patrocina a Haas. Não há conhecimento direto das suas relações com o presidente Putin, mas os seus negócios ao longo dos últimos vinte anos, desde os mais visíveis até aos mais polémicos, aconteceram com o beneplácito do governo, logo, apoia-os. E isso poderá ser um possível alvo de sanções mais tarde, caso a Europa persiga os oligarcas que enriqueceram desde o final da União Soviética, em 1991, e desde que Putin chegou ao poder, no ano 2000.

Resta saber qual será a ação da Formula 1, nomeadamente, a Liberty Media, sobre este caso. Como tem muitas maneiras de receber dinheiro, desde os sauditas até às criptomoedas, os rublos poderão ser algo do qual eles não se importam de sacrificar, só para estarem de bem com o mundo. Mas os exemplos do passado - furar o boicote desportivo do regime do apartheid na África do Sul até 1985, por exemplo - não abonam nada a favor da competição...

sábado, 3 de novembro de 2018

No Nobres do Grid deste mês...

No passado dia 17 de outubro, saiu a noticia de que a organização do GP do Brasil não iria pagar para receber a sua corrida em Interlagos, pelo menos até 2020. Ou seja, nas próximas três edições - a corrida deste ano só irá acontecer a 11 de novembro - a organização vai pagar zero à Liberty Media. Segundo se conta, o acordo foi alcançado no final de 2016, quando a Liberty Media tomou conta dos negócios da Formula 1 a Bernie Ecclestone, e aparentemente, esta foi a "prenda" que ele deixou à nova organização...

Sobre isso, uma fonte comentou:  "Essa é a versão mais abreviada, mas não está muito longe da verdade. Ficamos surpreendidos quando vimos o contrato, mas o sr. E era o chefe na época..."

(...)

No GP do Japão, em Suzuka, Toto Wolff convidou os restantes diretores de equipa a reunir-se no motorhome da equipa. O assunto era confidencial, ao ponto de o motorhome ter sido fechado sem aviso e depois, no final, ninguém abrir a boca sobre o que andaram a conversar. Pelo menos oficialmente, porque depois, alguns abriram a boca sobre os assuntos abordados nessa tal reunião: "apimentar" o espectáculo e a descida de receitas provenientes da FOM por causa do declínio das audiências.

Em 2018, apesar de coisas novas que a Liberty Media introduziu - novo logótipo, musica temática, um serviço de streaming - a audiência caiu cerca de quatro por cento. A contribuir isso, a descida de horas dedicadas à Formula 1, de 23 mil em 2017 para 18.500 este ano, por causa do final de canais como a F1 Latin America e a Sky Germany/Austria, canais fechados e pagos. E em alguns sitios, como na Rússia, as audiencias cairam cerca de 20 por cento, o que poderá explicar os constantes ajustes no calendário - de setembro para abril/maio e agora voltou para o final de setembro - mas isso está por confirmar.

E também há outra coisa, do qual todos sofrem - e quando se diz "todos", pode-se alargar à IndyCar e à NASCAR - são as audiências. Elas estão a envelhecer e os mais novos tem novos gostos. Não só estão largando a televisão para ver programas e séries no Netflix ou no Youtube, como também não ficam com os gostos dos pais. E isso também faz mossa nos patrocinadores: os que vão embora são substituídos por outros que pagam menos.

E no meio disto tudo, a Formula E cresce. Bastante. (...)

Sempre misteriosa, a discussão sobre as finanças da Formula 1 aparece de vez em quando na praça pública com números nem sempre confirmados ou desmentidos. Mas uma certa forma, é esta a situação atual: a média de idade é cada vez maior, as equipas tem cada vez mais dificuldade em arranjar patrocinadores, e os custos estão cada vez mais descontrolados. E mesmo em competições mais baratas, encontram-se os mesmos problemas da Formula 1: a combinação de espectadores a desaparecerem com a diminuição de receitas.

A grande excepção é a Formula E: a competição é mais barata, é verdade, mas é o que concentra a maior quantidade de construtoras. A pouco mais de um mês de nova temporada, quase todas as equipas são entradas oficias de construtoras, como a Jaguar, Mahindra ou Nissan. A Mercedes entrará este ano, com a HWA e a Porsche irá entrar no ano que vêm.

E é sobre esta situação que escrevo este mês no Nobres do Grid.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O que a nova gerência vai fazer com os elefantes na sala?

Como toda a gente sabe, a Formula 1 tem este ano uma nova gerência. Chase Carey, Sean Bratches e Ross Brawn fazem o trabalho que antes era feito por Bernie Ecclestone. E desde que lá chegaram têm falado de mudanças na organização, quer em termos de calendário, quer em termos de organização, desde transmissões televisivas até a interação com os pilotos, e com as redes sociais.

Contudo, com a chegada destes novos membros que há questões pertinentes, e uma delas têm a ver com os destinos mais... controversos. Ontem, mostraram-se fotografias da reunião que Carey teve com Reçep Tayip Erdogan, o presidente da Turquia, e a ideia de um regresso pairou no ar. Ora, naquele país, irá haver um referendo dento de alguns dias e a ideia do presidente ficar com o poder executivo é bem real, e muitos dizem que é o passo final para uma ditadura. 

Mas não é só a Turquia que pode regressar - talvez em 2018. Esta e a semana em que estamos no Bahrein, a primeira das duas corridas noturnas no calendário, e no final do mês estarão na Rússia, a terra governada por Vladimir Putin, e que também não é propriamente amigo da democracia e do estado de direito. O Bahrein, pequeno emirado de pouco mais de milhão e meio de habitantes, passou por sarilhos em 2011, com o povo a revoltar-se contra a classe dominante, aproveitando a "Primavera Árabe". A corrida foi cancelada nesse ano, mas regressou com muita controvérsia e apelos ao boicote, em 2012, sem efeito porque o pessoal que geria a Formula 1 não quer saber muito de politica, desde que paguem o dinheiro.

Mas, como sabem, há nova gerência. E a grande pergunta é: iremos ver mais do mesmo? É provável que sim, daquilo que vimos da reunião com os turcos. E como os países do Golfo vão continuar a cumprir contratos e a pagar o que pedem, não creio que haja alterações.

Contudo... o que aconteceria se tivessem numa situação complicada? Algo semelhante ao que acontecia nos anos 80, quando iam à África do Sul, no tempo do apartheid, do governo da minoria branca? É certo e sabido que a FIA foi a última a ceder nesse campo, que só em 1985, a Formula 1 descobriu que correr em Kyalami era um embaraço de ordem mundial e colocava a sua categoria nas noticias pelas piores razões? Agora, está tudo calmo, mas num mundo em ebulição como é o nosso, agora, o que aconteceria com o GP da Rússia, caso o "titio Putin" decidisse fazer mais algumas expansões nas suas fronteiras, como fez com a Crimeia? A nova gerência iria largar os rublos russos tão facilmente?

Esta nova liderança deve saber que existem alguns "elefantes" na sala, em maior ou menor grau. Se a entrada da França é bem-vinda, a possível entrada turca pode ser um embaraço maior, tão grande quanto os exemplos ditos anteriormente - e em menor grau, Abu Dhabi e China - principalmente quando a geopolitica decidir acordar e mexer umas peças de xadrez com estrondo. O potencial está lá, e vai ser um teste bem interessante sobre saber se iriamos ver mais do mesmo, ou haveria uma maior sensibilidade ao que se passa no mundo.

Veremos. Esta nova liderança tem muitos testes pela frente.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

"Brexit" automobilistico

Como é sabido, os britânicos votaram ontem em referendo a sua saída da União Europeia. 52 por cento votaram pela sua saída, enquanto que 48 por cento votaram para a permanência. Foram cerca de 1,2 milhões de votos de diferença, com os mais jovens, as cidades como Londres e Liverpool a votarem pela permanência, acompanhados por regiões como a Escócia e a Irlanda do Norte. Do lado da saída, o campo, as pequenas cidades operárias e os mais velhos votaram massivamente nesse sentido.

As consequências imediatas foram fortes: a libra desvalorizou-se para níveis de 1985 (!) e o primeiro-ministro David Cameron demitiu-se. A Escócia já exigiu um novo referendo, e há pessoas na Irlanda do Norte a pensar também no mesmo, não no sentido da independência, mas sim na unificação com a Irlanda.

A economia vai ficar afetada, e há receios de que eles entrarão numa recessão de cerca de um por cento a partir do próximo ano. A fuga de capitais e de empresas poderá ser uma realidade e Londres, como praça financeira, poderá ressentir-se disso.

Mas o que uma decisão politica como esta afeta a Formula 1 e o automobilismo em geral? Tudo. A Grã-Bretanha é uma potência automobilística, e 80 por cento das equipas tem como sede o centro do país, que é adequadamente chamado de "Motorsport Valley". Na Formula 1, tirando a Ferrari, Sauber, Toro Rosso e (parcialmente) a Renault e a Haas, as equipas estão todas concentradas nesse local, enquanto que na Endurance, tirando as equipas que tem chassis Ligier, na LMP2, estão quase todas em paragens britânicas.

O que vai acontecer com a Formula 1 depois do "Brexit"? Bom, com a libra a desvalorizar, os custos de transporte irão inevitavelmente aumentar. E não agora, mas mais tarde, os camiões terão de parar mais vezes nas fronteiras, aumentando a burocracia, para além disso os funcionários poderão ter de pedir um visto de trabalho para permanecer por ali. Apesar de serem funcionários especializados, podem não ter problemas em arranjá-lo - os estrangeiros - mas outros poderão ter problemas.

Outro grande problema serão os orçamentos. Se dependerem totalmente da libra, a conversão para o euro ou o dólar, a partir de agora, foi perdida. Dias antes do referendo, a proporção para o dólar era de 1,5 (uma libre valia 1,50 dólares) com a diferença para o euro de 1,2. Agora, essa vantagem poderá ser perdida, pois se a desvalorização poderá favorecer as empresas exportadoras, para montar um orçamento vai ser mais custoso.

Apesar de tudo, as equipas esperam que o impacto seja pequeno. Paddy Lowe, o diretor da Mercedes, contou ao Luiz Fernando Ramos, por alturas do GP do Mónaco, que isto não fará grande diferença: "Fizemos uma análise. Um dos nossos diretores estudou o assunto porque alguns dos nossos funcionários perguntaram como eles deveriam votar. A conclusão foi que não fará muita diferença, seja para a companhia, seja para a Formula 1 em geral, em termos de como conduzimos os nossos negócios", afirmou.

Mesmo que haja otimismo nesses lados, apesar do impacto de uma decisão destas, se a libra continuar a desvalorizar-se em relação ao euro, por exemplo (ou até ao dólar), o poder de compra perderá, é inevitável. E para piorar as coisas, se as pessoas antes poderiam suportar o mau tempo, com o dinheiro que cairia na conta bancária no final do mês, agora, outras paragens, que antes não eram atraentes, podem subitamente se tornar algo mais sedutor. Especialmente no sul da Europa, que eram antes apenas um mero destino de férias... 

sábado, 18 de junho de 2016

Um sábado entre a tradição e o novo-riquismo

Para o amante de automobilismo, este fim de semana vai ser fantástico. Não só vai ver mais uma edição das 24 Horas de Le Mans, como também verá a oitava prova do Mundial de Formula 1, a decorrer nas ruas de Baku, a capital do Azerbeijão, num "GP da Europa" que quem conhece bem a geografia, sabe que de europeu, tem muito pouco... mesmo que esteja a ocidente dos Montes Urais e um pouco na zona do Cáucaso.

Contudo, aquele que segue isto com mais pormenor, sabe que desde que soube da data desta corrida, tornou-se critico da sua escolha. Um grande prémio de Formula 1 na mesma data de uma das corridas mais famosas do mundo, parece ser um insulto, pois não só se divide entre ambas as corridas, como também as verá a acontecer ao mesmo tempo. O "timing" de ambas as corridas vai ser quase coincidente, apesar da diferença horária entre ambos ser de duas horas, entre Le Mans e Baku. E isso não só causa má fama à Formula 1, como também lança mais criticas sobre a figura que manda no calendário, ou seja, Bernie Ecclestone.

Quem está a seguir as últimas noticias sobre Baku, sabe que o novo circuito citadino já deu dores de cabeça aos pilotos, devido à estreiteza em alguns lados, chegando ao ponto de na citadela, a largura da pista ser inferior a sete metros, menos ainda do que o gancho do Hotel Loews, no Mónaco. Nesta noite, estava a acontecer em contra-relógio a retirada de algumas das "zebras" em curvas mais criticas, porque os carros eram quase levados a bater no muro de proteção, bem como a redesenhar a entradas das boxes, que os pilotos consideravam "demasiado estreita". 

O octogenário anão nunca gostou muito da concorrência. É conhecida a história de como acabou o Mundial de Endurance, em 1992. Alguns anos antes, em meados da década de 80, o Mundial era uma competição forte, com presenças de marcas como Jaguar, Porsche, Mazda, Nissan, Toyota, Sauber-Mercedes, entre outras. Algo que a Formula 1 lutava para ter e olha para os Grupo C com inveja, com as suas grelhas cheias. Em 1991, a FIA decidiu que os construtores de Endurance deveriam andar com motores de 3.5 litros, exatamente iguais aos da Formula 1, de uma certa forma para os atrair para lá. E resultou, tanto que em dois anos, o Mundial acabou, porque algumas dessas marcas foram para lá, esvaziando a Endurance.

Alguns anos mais tarde, quando a CART e a Indy se separaram, o rumor que se correu foi que Ecclestone falou com Tony George, então o diretor da Indianápolis Motor Speedway, incentivando a separação para conseguir melhores contratos com a CART. Algum tempo depois, em 2000, a Formula 1 correu na Speedway. Se é verdade ou não, não se sabe muito bem...

Desde há uns anos que a Endurance começou a ver um renascimento, primeiro com a chegada de algumas marcas como a Peugeot, Audi, Porsche e Toyota, algumas delas depois de passagens frustrantes pela Formula 1, mas a coincidência de datas entre ambas as provas - muitas vezes calhava no fim de semana do GP do Canadá - impedia os pilotos de Formula 1 de participarem na competição. Contudo, desde 2012-13 que as coisas começam a mudar um pouco, e isso viu-se quando em 2015, Nico Hulkenberg fez parte da tripla vitoriosa em Le Mans, sendo o primeiro piloto no ativo a ganhar em La Sarthe desde 1991, quando Johnny Herbert e Bertrand Gachot fizeram parte do Mazda vencedor.

O mais interessante é que durante esse tempo, outros pilotos de Formula 1 estiveram interessados a andar na Endurance (cujo campeonato regressou em 2014, numa parceria entre a FIA e a ACO, o Automobile Club de L'Ouest, que gere Le Mans), o mais importante deles foi o espanhol Fernando Alonso. Ele considerou seriamente a hipótese de entrar dentro de um dos Porsches 919, mas acabou por não acontecer. A marca alemã já nessa altura tinha nas suas fileiras outro ex-piloto de Formula 1, Mark Webber, que aproveitou a ocasião para sair da Red Bull, sem olhar para trás. A visão de Hulkenberg com o troféu de vencedor, no paddock da Force India, causou mais atenção daquilo que devia, para o anão, e muitos vêm a marcação deste "GP da Europa" num circuito urbano sem experiência automobilística, num petro-estado, como um insulto, do qual o grande prejudicado será o adepto comum.

Para piorar as coisas - a desfavor da Formula 1, diga-se - todos os que andam pela Endurance dizem que a atmosfera no "paddock" é bem mais descontraída do que na categoria de monolugares. Não há tanta artificialidade, e mesmo os ex-pilotos como Webber - que sendo australiano, é honesto naquilo que fala - dizem sem papas na língua que não tem saudades desses tempos. 

Pode-se dizer que esta coincidência não passa de uma manobra para avisar a concorrência de que ali, quem manda é ele. Que a Formula 1 tem de ser o centro das atenções, onde quer que esteja, e não uma corrida que acontece desde 1923 em estradas à volta de uma cidade no centro de França, e que estão abertas ao público no resto do ano. Mas parece que manda para fora a ideia de que tem mais inveja e medo do que petulância. Se quisesse, não poderia marcar nada para aquela data, mas marcou. A FIA não manda no calendário, apenas coloca o selo de aprovação aos negócios de Bernie faz com os promotores, a troco de malas cheias de dinheiro. É graças a Bernie que temos o maior calendário de sempre da Formula 1, e tem tendência para alargar em pelo menos mais uma prova, nos próximos tempos.

Pode-se também pensar que Bernie, o sempre visionário homem de negócios que moldou a Formula 1 nos últimos 45 anos, esteja a perder qualidades, com esta manobra. Na realidade, não é bem assim. Ele tem plena consciência de que após o seu desaparecimento, muito daquilo que a Formula 1 é agora se irá desmoronar, como um castelo de cartas. A enorme quantidade de traçados construídos nos últimos 15 anos, em países sem tradição, desaparecerá quando os promotores deixarem de pagar as dezenas de milhões que o anão exige. E as pessoas - construtores e pilotos - exigirão de uma certa forma o regresso à tradição, e muitos dos novos-ricos sairão de cena, porque já não querem pagar mais aquilo que exigem. E provavelmente, voltaremos a um calendário mais magro e com maior respeito às tradições. Incluindo não só uma maior abertura às redes sociais como a um regresso à televisão aberta.

Mas esse futuro possível, neste momento, é mais um desejo do que uma realidade. Por agora, dividiremos as atenções numa overdose automobilística de dois dias.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Automobilismo como meio politico

Vendo as coisas desta forma, é mais uma piada, mas em ano de eleições, a politica tornou-se algo importante especialmente quando a luta entre democratas e republicanos arrisca a ser nos extremos. E tudo conta para que um grupo decida fazer propaganda contra determinado candidato presidencial. Neste caso, Hilary Clinton.

A Autoweek fala hoje que um grupo de pessoas no estado do Indiana está a tentar juntar um milhão de dólares numa campanha de "crowdfunding" no sentido de colocar uma mensagem anti-Hilary num dos carros da IndyCar. Segundo o grupo, eles afirmam que "Hilary Clinton representa tudo que é errado hoje em dia". E eles querem juntar esse valor em 50 dias. 

Boa sorte para eles: até agora, conseguiram 760 dólares. 

Não é a primeira vez que tal acontece: em 2008, Sarah Fischer correu as 500 Milhas de Indianápolis a bordo de um carro apoiado pela campanha eleitoral de Hilary Clinton, que também estava a concorrer para a presidência, mas que perdeu a corrida a favor de Barack Obama.


sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Maldonado e os tempos agitados do seu país

Toda a gente sabe que Pastor Maldonado chegou à Formula 1 com uma grande carteira, é mais do que óbvio. E que ele não tem provado muito que merece esse lugar, exceptuando aquela inesperada vitória em Barcelona, em 2012. Quer na Williams, quer na Lotus-Renault, sabe-se que a sua patrocinadora, a estatal venezuelana PDVSA, poderá ter injetado uma média de 50 milhões de dólares por ano desde que chegou à categoria máxima do automobilismo, em 2011, e em 2016, irá entrar para a sua sexta temporada.

Contudo, se de vez em quando se fala dele, não se pode deixar de falar sobre a situação do seu país. É certo que a Formula 1 não fala ou comenta politica, mas Bernie Ecclestone adora a politica de ir a sitios de reputação duvidosa, só pelo cheiro do dinheiro. Contudo, por estes dias, mesmo que ninguém diga em público, comentou-se sobre Maldonado no paddock de Interlagos. Dizendo melhor, comentou-se sobre a segurança desse patrocínio e do país de onde ele vêm... Primeiro que tudo, a Venezuela vai a votos a 6 de dezembro, para escolher um novo parlamento, e a oposição anti-chavista parece liderar as sondagens, apesar das ameaças do seu presidente de que não irá reconhecer os resultados em caso de derrota, e já ameaçou que irá meter tropas na rua para impor o seu poder.

Eis a situação politica e económica naquelas bandas para tentar entender porque é que o lugar de Maldonado pode estar (mais uma vez) em perigo. Na semana passada, dois sobrinhos de Nicolas Maduro foram presos no Haiti pela DEA americana, pois levavam consigo um carregamento de 800 quilos de cocaína. Ambos foram imediatamente levados para Nova Iorque, onde aguardam julgamento por tráfico de droga. Este incidente só veio aumentar os rumores de que a Venezuela tornou-se num narco-estado, onde não sendo produtor de cocaína (o grande produtor è a Colômbia), este usa o país como passagem até aos Estados Unidos. E tudo isso com a conivência (e provavelmente o envolvimento) do governo chavista.

Para piorar as coisas, o país encaminha para o clube dos estados falhados: há anos que sofre de uma escassez de alimentos devido a problemas de abastecimento, vive com uma inflação estratosférica (números não oficiais indicam que esta poderá rondar os... 800 por cento) e um PIB que só este ano irá contrair cerca de dez por cento, acumulando com outros sete por cento de contração que teve em 2014. E acumulado com isso tudo, os elevados índices de violência (é o terceiro país mais violento da América Latina, apenas superado por Honduras e El Salvador), e a agitação politica entre o poder e a oposição, que recentemente condenou um dos seus líderes, Leopoldo Lopez, a 13 anos de prisão, num processo que todos consideraram politico. Tanto que o procurador que o acusou, exilou-se recentemente em Espanha, afirmando que o governo "plantou provas" para o condenar.

E tudo isto acontece numa altura em que o preço do petróleo está em níveis muito baixos, um terço do que valia em julho de 2014. Esta quarta-feira, o barril de Brent baixou dos 40 dólares em Nova Iorque e não há sinais de um aumento significativo do preço do barril nos próximos tempos. Os principais países produtores não dão sinal de diminuir a produção, que está num máximo histórico, numa espécie de guerra económica para saber quem se arruinará primeiro. Se Arábia Saudita e Qatar tem bolsos bem fundos, por aquilo que acumularam ao longo destes anos, já a Venezuela ou Angola, por exemplo, andaram a gastar em infraestruturas ou até a "comprar regimes", dando petróleo a preços mais baratos em troca do seu silêncio quando eles se envolviam em esquemas duvidosos.

Com tudo isto em cima da mesa, muitos apontam este exemplo como mais um de que a Formula 1 é sedenta de dinheiro, aceitando tudo que venha de sitios duvidosos, principalmente dos governos que enriqueceram com a alta do petróleo, para não falar dos regimes de "homem forte", daqueles que Bernie Ecclestone adora. Mas se muitos não entendem a razão porque uma petrolifera continue a injetar dinheiro, apesar das dificuldades, outros entendem que a presença de um piloto como ele só pode ser entendido como a politica de um país que se quer mostrar ao mundo E enquanto o regime quiser, Maldonado se manterá. Resta saber por quanto tempo mais este regime se manterá...   

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A imagem do dia

Juan Manuel Fangio  a abraçar Juan Domingo Peron, sob o olhar atento da sua mulher Eva, algures em 1949, num comicio na Casa Rosada, a sede do governo de Buenos Aires. 

Este é o capitulo mais polémico de Fangio na Argentina: o seu posicionamento politico. "El Chueco" só foi para a Europa em 1948, aos 37 anos, e depois de uma carreira consolidada na sua Argentina natal e em várias provas da América do Sul, que começou ainda antes da II Guerra Mundial. Apesar de ter prosperado durante o conflito com um negócio de venda de pneus, no final do conflito, ao retomar a competição e aos seus dias de glória, não tinha a capacidade financeira de competir fora do seu país. Mas houve uma pessoa que ajudou nisso: Juan Domingo Peron, uma das personagens mais controversas do século XX argentino.

Liderando com mão de ferro o seu país desde 1946, mas com um enorme apoio popular, especialmente dos "descamisados", a Argentina estava na mó de cima após o final do conflito mundial, que tinha devastado a Europa. A sua politica populista, culminando com o carisma da sua mulher Eva Duarte - a Evita - fez com que a Argentina estivesse nas bocas do mundo. E o automobilismo não fugia a esse brilho: Peron era "petrolhead" e decidiu que não seria mau de todo se promovesse um campeonato onde os melhores pilotos europeus competissem contra astros locais como Fangio, Froilan Gonzalez, Onofre Marimon, entre outros.

Assim sendo, investiu na ACA (Automovil Club Argentino) e em 1948, esse grupo de pilotos foi à França para disputar a corrida local, em Gordinis, para no ano seguinte, correr com Maseratis, onde foram mais bem sucedidos. Fangio venceu cinco corridas e ganhou um contrato oficial com a Alfa Romeo para 1950.

Na Argentina, Peron promoveu um torneio de verão, com corridas em Buenos Aires, Mar del Plata e outros locais, onde pilotos como Achille Varzi, Jean-Pierre Wimille, Louis Rosier, Luigi Villoresi, entre outros, competiram com os locais, com sucesso. Até a Mercedes, mal teve levantado o embargo aos carros alemães em 1951, foi correr com os W154, com Karl Kling, Hermann Lang e... Fangio. Apesar de tudo, foram batidos pelo Ferrari 166 de Froilan Gonzalez. E em 1953, a Formula 1 fazia a sua longa viagem à América do Sul, algo que durou até 1960.

Depois da Alfa Romeo lhe ter dado um contrato e um salário, em 1950, Fangio não teve muito mais contactos com os Peron, apesar de aparecer ao lado deles em alguns eventos. Com o tempo, também se tornou o importador da Mercedes para a Argentina, mas em 1955, Peron foi derrubado pelos militares e exilado - só voltaria em 1973, seis meses antes da sua morte, a 1 de julho de 1974. 

Fangio, que tinha sido campeão pela marca alemã, teve uma vida difícil por causa da sua ligação ao peronismo. O novo regime investigou os seus negócios, e apesar de não ter encontrado nada de irregular, não o deixava sair do país. Apenas a poucas semanas de começar a temporada de 1956, conseguiu uma autorização e assinou pela Ferrari, para vencer o título mundial pela quarta vez. Apesar dos vários regimes que se sucederam naquele país, ainda hoje há quem o associe ao peronismo, um regime que tanto causa amores como ódios, mais de 60 anos depois.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Sobre as politiquices brasileiras e os nomes dos autódromos

Os circuitos de automóveis devem ser batizados por um herói ou uma personalidade relevante para o automobilismo, essa é a minha opinião. Da mesma forma que um estádio de futebol deve ser batizado com o nome de um futebolista ou uma personalidade ligada ao desporto. Claro que ter um estádio de futebol com o nome de Sepp Blatter ou um autódromo com o nome de Bernie Ecclestone ou Jean Todt seriam politicamente incorretos, mas isso já é outra história.

Agora, o que não gosto e me lixa completamente é ver isso nomeado com o nome de um politico. Parece coisa de uma república das bananas algures em África ou na América Latina, como nos tempos do ditador Trujillo, da República Dominicana, que batizou tudo que era relevante, desde montanhas até edifícios com o seu nome. Até a capital se chamada de Cuidad Trujillo! Felizmente, depois de o matarem, as coisas voltaram à moralidade.

No Brasil, há três autódromos com o nome de Ayrton Senna. Sim, leram bem: três. Um em Londrina, outro em Goiânia e outro em Caruaru, em Pernambuco. Todos foram batizados nos anos seguintes após a sua morte, como aconteceu às muitas estradas, ruas, túneis algures pelo Brasil fora. É algo normal. Mas se acham que isso é esquisito, podemos dizer que Jacarépaguá e Brasilia tinham ambos o nome de... Autódromo Nelson Piquet. Pobre Emerson Fittipaldi, será que há kartódromos com o seu nome? 

Só que neste inicio de semana, surgiu a polémica: o governador do estado de Goiás, local onde se situa a cidade de Goiânia, decidiu mudar o nome do tricampeão do mundo (que curiosamente, nunca correu lá!) para dar o nome... a um ex-governador. Ainda por cima, o sujeito está vivo para ver a história. Marconi Perillio, o nome do sujeito, decidiu homenagear Ary Valadão, ex-governador e aliado politico dele. Como seria de esperar, a indignação surgiu forte e feio, e muitos apontaram como o exemplo de irresponsabilidade dos políticos. 

Já agora, de forma bem interessante, uma pesquisa rápida no Google ou na Wikipédia brasileira afirma que Valadão, atualmente com 93 anos, foi governador entre 1979 e 1983, ainda no tempo da ditadura militar. E nem foi eleito, bem pelo contrário: nomeado. E eles têm um nome para isso por lá: "governador biônico". Mas claro, Valadão converteu-se à democracia, e até foi deputado por outro estado, o Tocatins, que em 1990 se cindiu de Goiás.

Contudo, a polémica pode ter durado pouco mais de 24 horas. É que, como conta o Flávio Gomes no seu sitio, a Agetop, a Agência de Transportes e Obras de Goiás, afirmou que tal medida é ilegal, porque há uma lei - não se sabe se é local ou estadual - que proíbe o batismo de lugares públicos com o nome de pessoas ainda vivas. Curiosamente, Valadão têm o seu nome em vários sitios no seu estado, pois pode ser bem uma lei local.

Mas sobre Goiânia, há algo interessante: um circuito com 40 anos, recebeu o MotoGP entre 1987 e 1989, e já esteve para ser demolido no final da década passada porque os terrenos são valiosos para a construção civil. A ideia caiu, e no ano passado, começou até a haver uma remodelação do espaço por parte do governo estadual, para eventualmente receber o MotoGP. E quem sabe, mais coisas...

Enfim, serve a história para afirmar que estas coisas não duram para sempre. Durarão até que um politico qualquer decida que é altura de dar outro nome, como todo e qualquer capricho que os políticos têm. Haverá montanhas em Goiás? 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Caterham, Forza Rossa e a Roménia

Há que tempos se fala da Forza Rossa, a provável aventura romena na Formula 1, do qual se fala que estará em ação em 2015 ou 2016, mas que nos últimos meses, pouco ou nada se têm falado. Pois bem, ontem houve a segunda volta das eleições presidenciais, e os candidatos eram o atual primeiro ministro e um ex-presidente da câmara, de origem alemã. Victor Ponta (na foto) e Klaus Iohannis disputavam entre si o lugar mais importante na hierarquia nacional, e no final, foi Iohannis o vencedor, com uma margem de 54-46, depois de Ponta ter vencido na primeira volta, com 34 por cento dos votos.

Ora, o que é que uma eleição presidencial têm a ver com uma equipa de Formula 1? De acordo com o Joe Saward, tudo. É que caso Ponta tivesse vencido a eleição, a Forza Rossa avançaria com o apoio estatal, dado que um dos financiadores era um ex-membro do governo, e Colin Kolles têm muitas ligações com o governo de Ponta, e a aquisição da Caterham, em julho, tinha ligações romenas no percurso, e não só tinha a ver com Kolles.

Segundo ele conta, a ideia de Kolles e de todos os outros era o de ficar com os planos da Caterham - chassis para 2015, por exemplo - e levá-los para uma firma independente, a CF1, que desenvolveria o plano para que construisse o chassis, do qual iria fornecer à Forza Rossa. Ainda não se saberia que motores teria, mas apesar das ligações à Ferrari, graças a Ion Bazac - ex-ministro e representante da Ferrari naquele país - fala-se que ficariam com o contrato que a Caterham têm com os motores Renault, e como a marca francesa têm fortes ligações romenas, graças à Dacia, nada garantia que esses motores tivessem outro nome.

Uma das razões pelos quais a história da Forza Rossa ter andado bem caladinha por estas semanas foi por causa da campanha eleitoral, e também por causa das implicações politicas que tal projeto teria. E a Roménia, apesar de pertencer à União Europeia, é um dos países mais atrasados e mais corruptos da Europa, apenas superado pelos Balcãs, Grécia e Bulgária. E as polémicas que houve tinham a ver com acusações de fraude eleitoral e de votos multiplos. Para piorar as coisas, Ioannis foi fortemente votado na Transilvânia e na parte ocidental dos Carpatos, onde existe uma minoria hungara e alemã, enquanto que no resto do país, Ponta foi massivamente votado. Para quem conhece o mapa da Roménia há cem anos, era assim mesmo.

Contudo, com a eleição de Ioannis, parece que o projeto da Forza Rossa poderá ter perdido o seu principal financiador. Veremos quais são os próximos capitulos.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

As sanções internacionais e a ameaça de boicote sobre o GP da Rússia

A cada dia que passa sobre o conflito russo-ucraniano, e as hipóteses de sanções quer por parte da União Europeia, quer dos Estados Unidos aumentam, dado que os russos parece que se envolvem cada vez mais no leste do país, com o envio de armas - e ao que parece, tropas - o nervosismo cresce dentro do meio da formula 1 sobre o GP da Rússia, em Sochi, a 12 de outubro. É sabido que Bernie Ecclestone está disposto a levar a corrida para adiante, mas poderá ter as coisas dificultadas pois hoje surgiram rumores de que a Europa e os Estados Unidos poderão recomendar um boicote cultural e desportivo à Rússia. E isso poderá passar pelo Grande Prémio e pelo Mundial de Futebol, que ser realizará em 2018.

Nos próximos dias existirão reuniões da NATO, en Swansea, no País de Gales, e na sexta-feira, a União Europeia revelará o pacote de sanções que aprovou na semana passada em Bruxelas. E a imprensa internacional fala que serão sanções bem duras à Rússia, que poderão envolver desde restrições no mercado de capitais, embargo tecnológico e por último, isolamento internacional de eventos desportivos e culturais. E se o Mundial de 2018 ainda é um evento distante, já a Formula 1 é mais próximo, e isso está a causar ainda mais nervosismo, apesar das repetidas garantidas por parte de Bernie Ecclestone de que a corrida se realizará.

"Boicotar realizações desportivas internacionais passará a ideia de um regresso à Guerra Fria", afirmou um analista do grupo de consultadoria Euro Asia Group ao jornal Financial Times. "Contudo, isto vai ferir mais os russos do que propriamente a União Europeia", concluiu.

Contudo, Bernie Ecclestone continua a afirmar que apesar das ameaças, tudo vai acontecer conforme o planeado. E é ele próprio que diz que "temos um contrato e respeitamos contratos", como ele também elogiou Vladimir Putin e a maneira como ele faz as coisas. "Ele é confiável. Ele quer que a corrida aconteça e vamos fazer com que ela aconteça", afirmou numa entrevista ao jornalista Chris Sylt.

Que Bernie adora pessoas com poder, isso não é novidade. Já elogiou Adolf Hitler, Robert Mugabe e Margaret Thatcher no passado, e Putin encaixa no estilo de pessoa autoritária que ele sempre gostou e gosta. Contudo, sabe-se há muito que a história do GP russo mexe com as pessoas dentro do meio, e isso viu-se há mês e meio, quando no fim de semana do GP da Hungria, os rebeldes russos na Ucrania abateram um avião malaio. Logo, surgiram as perguntas sobre se ainda estariam dispostos a ir à Rússia. E isso incomodou o pessoal da Formula 1, como Christian Horner, da Red Bull.  

Contudo, a ideia do boicote cultural e desportivo é algo que a União Europeia poderá deixar para mais tarde, caso haja um agravamento da situação no Leste do país, apesar de existir conversações em Minsk entre ambos os lados para chegar a um acordo de paz. Contudo, é melhor esperar pelo final da semana para saber o que Estados Unidos e Europa decidirão fazer para penalizar a Rússia, e até que ponto este conflito no Leste ucraniano irá afetar a Formula 1.

Se o pior acontecer, as tensões no próprio paddock aumentarão certamente, pois faltam nesta altura cinco semanas para o Grande Prémio. E mais perguntas incómodas serão colocadas, a começar agora, em Monza...

segunda-feira, 2 de junho de 2014

A abdicação do rei automobilista

Que os tempos que vivemos são outros, disso não há dúvida. No ano passado, meio mundo ficou chocado quando se soube que o Papa Bento XVI decidiu abdicar do seu trono, quebrando uma tradição vaticanista de seiscentos anos em que as pessoas deverão ficar nos seus lugares "hasta la muerte". Hoje, pela hora do almoço, soubemos que o Rei de Espanha, Juan Carlos I, decidiu abdicar após quase 39 anos de reinado. O cansaço relativo à idade, as suas várias lesões e os escândalos associados à sua família, cujo melhor exemplo é o que afeta a Infanta Cristina e o seu marido, o ex-andebolista Iñaki Urdangarin, para não falar a famosa "caçada do elefante" no Botswana, levaram a que a percepção pública sobre a família real espanhola alcançasse recordes de (não) popularidade em 40 anos e que ele decidisse que, aos 76 anos de idade, era a melhor altura de se reformar e entregar o trono ao seu filho, que será coroado como Felipe VI de Borbon, algures no meio do verão.

Mas o que aconteceu em tempos mais recentes não deverá apagar o papel que teve no consolidar da democracia numa Espanha que temia o seu futuro após a morte de Francisco Franco, a 20 de novembro de 1975. Pensando todos que iria continuar com o trabalho do "Caudilho", surpreendeu toda a gente quando decidiu levar a Espanha para a democracia e ser o seu maior garante, especialmente depois do golpe de estado de 23 de fevereiro de 1981, quando Tejero Molina tentou sequestrar as Cortes num golpe patético, transmitido em direto (e a cores) pela TV.

Felipe VI de Borbon, agora com 46 anos, vai ter desafios tão grandes quanto o do seu pai. Não só por causa dos escândalos em que estão metidos a sua irma e o seu cunhado, as pressões para que a sua mulher faça um filho para que seja um rapaz e não uma rapariga para suceder no trono - acreditem, ainda há pessoas em Espanha que preferem isso! - como também os desafios provenientes de uma sociedade em mudança, num país com a mais alta taxa de desemprego na Europa e de movimentos separatistas, especialmente na Catalunha, onde o governo local quer organizar um referendo e do qual o governo do Partido Popular está manifestamente contra, porque está agarrada à ideia de que o que a descentralização é melhor do que a separação.

Mas num sitio de automobilismo como este, queria realçar o lado automobilista de Juan Carlos I. Quem for ver as imagens ao Arquivo Cahier ou do Rainer Schlegelmilch, a partir do inicio dos anos 70, podem vê-lo nos pódios, a entregar os troféus a pilotos como Emerson Fittipaldi, Jackie Stewart, James Hunt, Gilles Villeneuve, Michael Schumacher, Mika Hakkinen e especialmente Fernando Alonso. É que Juan Carlos de Borbon - que já agora foi criado no Estoril - adorava tudo que era velocidade, fossem carros ou motos. 

Recentemente, conta-se que foi ele que obrigou dois motociclistas desavindos - Jorge Lorenzo e Dani Pedrosa - a cumprimentarem-se no pódio à frente de toda a gente. Mas há historias mais antigas deste "rei automobilista". Desde os anos 80 que se falava que Juan Carlos costumava dar passeios à noite numa moto de alta cilindrada pelas ruas de Madrid, decerto para se descomprimir dos compromissos de ser o rei. Outra história muito boa, contada pelo jornalista da Eurosport João Carlos Costa, foi algures em 1999, quando andou no McLaren bilugar guiado por Martin Brundle na pista de Montemeló. Ele e mais uma duzia de "vips" andaram a bordo desse carro como passageiros, e cada um tinha um botão onde tinham de carregar, caso quisessem que ele andasse mais devagar. Ora, ele foi o unico que não carregou. E a razão, segundo ele fala, foi porque... deixou cair o botão. Sem querer ou de propósito?

Enfim, poderemos dizer que é uma personalidade com as suas paixões. Não acredito que as venha a gozar nestes seus anos de reforma que aí vêm, devido ao seu delicado estado de saúde. Mas sendo um dos "nossos", saudemo-lo pela sua decisão. E não deixe de aparecer nos circuitos, onde decerto será sempre bem-vindo.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Bernie Ecclestone e o futuro

Reza a lenda que no dia em que Winston Churchill recebeu as noticias de que o Sexto Exército alemão se tinha rendido na cidade russa de Estalingrado, ele estava num banquete. Ao saber, pronunciou uma das frases que ficou na história. "Não, não é o fim, e provavelmente nem é o principio do fim. Mas provavelmente deverá ser o fim do principio".

O julgamento de Bernie Ecclestone, que começou ontem em Munique poderá não ser o fim do principio, mas provavelmente é o principio do fim. Porque, se não leram os sinais anteriores, agora é altura de pensarmos a ideia: a Formula 1 depois de Bernie Ecclestone. É certo que o julgamento irá ocorrer até setembro, mas as provas contra ele são gritantes, mesmo que diga que foi forçado a fazê-lo porque Gerhard Gribowsky o chantageou por causa de eventuais fugas aos impostos.

Se não é por causa das polémicas, podemos falar da idade: Ecclestone vai a caminho dos 84 anos, e confesso que não me recordo de ninguém trabalhar - pelo menos em termos desportivos - até tão tarde. É verdade que ele, certo dia, disse que iria trabalhar até morrer, mas mesmo assim, acho que é um exagero. A Formula 1 precisa, mais do que nunca de sangue novo, porque se vermos os protagonistas, posso afirmar que, tirando Jean Todt e Christian Horner, todos os outros andam na Formula 1 há pelo menos 40 anos.

Querem um exemplo do que estou falando? Em 1974, Niki Lauda era piloto da Ferrari. Como diretor desportivo da Scuderia estava um jovem Luca de Montezemolo, enquanto que como rival, na Brabham pilotada por Carlos Reutemann e (a partir da segunda metade do ano) José Carlos Pace, tínhamos Bernie Ecclestone, que estava na Formula 1 há algum tempo, depois de ter sido piloto e vendedor de carros usados, tendo lá chegado como "manager" de Jochen Rindt. Um os seus amigos na Formula 1 estava na March, cuidado do aspecto comercial dos carros. Chamava-se Max Mosley.

Bem vistas as coisas, a Formula 1 vê as mesmas caras ha mais de 40 anos. Uma geração inteira viu a ascensão destas pessoas ao topo da categoria máxima do automobilismo. E mesmo Jean Todt não é tão novo assim: está por estas banas desde 1993. E em 1974, era um mero navegador de ralis na Alpine... apenas estava noutra categoria. E Ron Dennis estava na Formula 2, tentando montar a sua equipa para o objetivo da Formula 1, que alcançaria poucos anos depois.

Apesar das inovações tecnológicas, nunca houve uma verdadeira renovação das mentalidades. É um desporto iminentemente conservador e nos últimos vinte anos, perdeu aquele amadorismo garagista que dava cor a sabor a ela, e do qual muitos se viram atraídos. É certo que não desejo o regresso dos Andrea Modas e das Lifes desta vida (trocadilho nada intencional), mas ver esta Formula 1 virar um clube super-elitista, com boxes enormes e esterelizadas, com um público demasiado afastado do "paddock", com novos-ricos a passearem pela grelha, com bilhetes super-caros e transmissões televisivas em canais pagos, é um prego no caixão de um certo tempo onde os garagistas podiam arriscar e ser felizes, contra as marcas que gastavam milhões e pouco ou nada conseguiam. Uma Williams contra uma Alfa Romeo tinha tanta piada como ver o nosso corredor favorito vencer, mas isso hoje não existe mais.

Suspeito que depois de Bernie, venham tempos agitados. É certo que muita desta agitação atual é artificial, por causa dos gostos e das apetências de certos dirigentes. Há muito circo nas declarações de Luca de Montezemolo e do próprio Bernie Ecclestone, mas na verdade, sabemos que quando um se vai embora, todos querem o trono, para poderem mandar nos outros. E a Formula 1 - há que reconhecê-lo - é muito mais rica graças a Ecclestone. E todos querem uma fatia maior desse bolo que no final do ano passado já valia 1700 milhões de euros.

Em suma, o final de uma era que crescemos, observamos e por vezes odiamos, está aqui. O que vai acontecer a seguir é uma incógnita. Tanto pode ser bom, como mau. Mas será diferente, com certeza.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

A dependência automobilística do dinheiro russo

E nestes dias que correm, quando um mal surge na Formula 1, parece que nunca vêm só. Continua a ter a ver com a politica, mas já vai além do duelo entre Jean Todt e Bernie Ecclestone. A situação periclitante no leste da Ucrânia, com as ameaças de guerra civil entre o governo central e as "regiões rebeldes" pró-russofonas do leste, para além da ameaça de invasão russa, a tomar forma a cada hora que passa, arrisca a uma reação em cadeia da comunidade internacional. E esta já começou, logo após a tomada da Crimeia por parte da Rússia: os Estados Unidos e a União Europeia aplicaram sanções económicas a bancos e pessoas estritamente ligados ao presidente Vladimir Putin. E algumas dessas entidades, nomeadamente o banco SMP, têm investido bastante no automobilismo, nomeadamente na Endurance, na IndyCar – Mikhail Aleshin – e na Formula 1, com Serguei Sirotkin e Daniil Kvyat.

Muitos desses oligarcas que andaram nos últimos anos a ligar-se a Vladimir Putin também começaram a fazer ligações à Formula 1, particularmente a Sauber e a Marussia. A equipa suíça tenta desde meados de 2013 atrair capital russo, chegando a dar em compensação um lugar como piloto de testes ao jovem Serguei Sirotkin, de 19 anos, no sentido de o preparar para a Formula 1 em 2015, enquanto que a Marussia, apesar de ter sede inglesa e ser gerida pela Manor, é financiada pelos oligarcas. Primeiro, Nicolai Fomenko, o fundador dos automóveis Marussia, e depois por outro oligarca, que aparentemente, no final de 2013, pagou todas as dívidas da fábrica contraídas até agora.

No caso do banco SMP, esta foi fundada e têm como grande acionista o banqueiro Boris Rotemberg, cuja fortuna pessoal rondava os 1,7 mil milhões de euros no final de 2013. Para além do futebol - e proprietário do clube Dinamo de Moscovo - ele está envolvido na Endurance, através da SMP Racing, bem como quatro carros da Ferrari na European Le Mans Series. Na IndyCar, são eles que bancam a aventura de Mikhail Aleshin na Sam Schmidt Motorsports, enquanto que na Formula 1, quando se soube que Daniil Kvyat fora escolhido na Toro Rosso em detrimento de António Félix da Costa, falava-se que o banco russo tinha contribuído com a equipa de Faenza na ordem dos 15 milhões de euros.

Sem o dinheiro russo, devido ao congelamento das contas, poderá ser quase impossível a estas equipas financiarem as suas operações, pelo menos no curto prazo, e teme-se pelo futuro, o que poderá levar ao encerramento das suas atividades, pois o dinheiro fornecidos pelas equipas não é o suficiente para pagar as contas. Daí que a Sauber e a Marussia, estarem agora a puxar por uma limitação de custos, pois só assim as suas operações se tornam sustentáveis.

Para além disso, existe um problema que surgir no horizonte num futuro próximo: como será em outubro, quando a Formula 1 ir a Sochi, palco do Grande Prémio da Rússia? Se Bernie Ecclestone ainda mandar no circo, e a situação continuar a estar como está, poderemos ver de novo os exemplos do passado (África do Sul, Bahrein) e muito provavelmente ignorará as sanções internacionais e levará o pelotão à cidade olímpica, a 12 de outubro. Mas dependendo do que acontecer até lá, muito provavelmente a comunidade internacional poderá não ser tão passiva assim neste caso, como foi em 2012 com o Bahrein, onde ele ignorou os apelos ao boicote, preferindo receber o dinheiro e ir para a pequena ilha do Golfo Pérsico, num autêntico “business as usual”.

Em suma, vamos esperar para ver. Esta quinta-feira houve conversações a quatro (Rússia, Ucrânia, Estados Unidos e União Europeia) em Genebra e tudo indica que houve progressos. Vamos a ver como acabará esta história.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Youtube Motor Collection: os carros do filho de Victor Ianucovich


Se neste sábado mostrei-vos fotos da coleção de automóveis do ex-presidente ucraniano Victor Ianucovich, hoje mostro-vos outra coleção - mais frota de automóveis - ucraniana: a do filho, que partilha o mesmo nome do pai. A coleção é tipicamente russa, para impor respeito, com jipes imponentes, mas com algumas coisas interessantes. Um Mercedes-Benz mais clássico, outro SLS descapotável, num Volkswagen Phaeton, alguns "camiões" - exclusivos - e todos com algo em comum: são pretos.

O custo? Cerca de dois milhões de dólares.

Vi isto no Jalopnik.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A Formula 1 e a situação do Bahrein

A partir de quarta-feira, a Formula 1 começará a testar no circuito barenita de Shakir o primeiro de duas baterias de testes antes da ronda inaugural, a 16 de março, no circuito australiano de Melbourne. Mas a vinda da Formula 1 ao pequeno emirado do Golfo coincide com a passagem do terceiro aniversário da rebelião da maioria xiita contra a família real, de origem sunita, e que causou duas mortes, entre os quais, um policia, vitima de uma explosão causada por uma bomba no meio da estrada. Outros três policias ficaram feridos.

A violência no emirado é neste momento de baixa intensidade, o que pode levar a pensar na ilusão de que as coisas se acalmaram. Bem pelo contrário: as tensões mantêm-se entre ambas as etnias e as prisões de ativistas continuam. Segundo a Amnistia Internacional, mais de três mil pessoas estão presas devido a crimes de ordem politica. E as Nações Unidas ainda não conseguiram que o seu relator para a Tortura visitasse o país, depois de ter feito esse pedido em abril do ano passado.

A agitação social pode não danificar a passagem da Formula 1 desta vez, mas o facto do governo ter apostado todas as suas fichas no automobilismo para mostrar ao mundo que as coisas estão calmas poderá ser um "magneto" para a oposição e os ativistas, demonstrando que não vão querer a Formula 1 por aquelas bandas, afirmando que "estão a fazer o jogo do governo". E é verdade: o grande impulsionador do automobilismo é o herdeiro da coroa, da familia al-Khalifa.

Por agora, podemos pensar que as coisas acontecerão sem problemas, quer agora, quer no final deste mês, mas a 6 de abril, a Formula 1 vai ao Bahrein, para pela primeira vez, correr à noite. A ideia é celebrar o décimo aniversário do Grande Prémio, mas como têm acontecido desde 2012, os ativistas da oposição irão fazer o possivel para perturbar. E claro, o governo fará a sua "ilha de segurança" para assegurar que tudo acontece sem problemas. Faz lembrar muito quando a Formula 1 era a unica entidade desportiva que ia à Africa do Sul no tempo do "apartheid"...

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Noticias: Indigenas bolivianos ameaçam perturbar o Dakar

O Rali Dakar é um chamariz, sem dúvida alguma. Para o bem... e para o mal. Digo isso porque em 2014, o rali vai passar pela primeira vez por terras bolivianas, e isso poderá ser perturbado pelas reivindicações politicas e ambientais dos indigenas locais, que ameaçam usar arame farpado para impedir - ou dificultar - a passagem das motos (só serão eles a passar por lá) no sul da Bolivia.

“Onde vão passar é da TCO Tolapampa, que é dos povos indígenas. Em resumo, lá estão os ovos de avestruz, a plantação de quinua e tem as vicunhas. Quando o Dakar passar, será como uma invasão. Deve haver uma consulta prévia, livre e informada, deve existir um estudo sobre o impacto ambiental”, defendeu Rafael Quispe, dirigente indígena boliviano. 

Para além disso, há mais de vinte dias que existe um estado de tensão entre os indigenas e o governo de Evo Morales, com estes a cercarem a sede do Conselho Nacional de Ayllus e Markas de Qullasuyu (Conamaq). Este bloqueio resultou numa vigília no local, com alguns índios a optar pela greve de fome.

Falando à imprensa no Palácio do Governo, o presidente Evo Morales minimizou os protestos e afirmou que é normal que existam alguns opositores ao rali, que passará pelo seu país a 13 de janeiro, depois do dia de descanso em Salta, no norte da Argentina.