terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O dia em que Stefan Johansson atropelou um veado, contado pelo próprio

Stefan Johansson é provavelmente dos pilotos mais virtuosos que anda por aí. Dono de um dos capacetes mais fixes que conheço, o piloto sueco, agora com 59 anos tem uma carreira eclética: vencedor das 24 Horas de Le Mans em 1997, ao lado de Michele Alboreto e do dinamarquês Tom Kristensen, nunca ganhou corridas nem na Formula 1 ou na CART, apesar de ter sido o "rookie do Ano" em 1992. 

Na categoria máxima do automobilismo ficou conhecida a sua passagem pela Ferrari e McLaren, mas também passou pela Shadow, Spirit, Tyrrell, Toleman, Ligier, Onyx, Arrows e AGS, conseguindo doze pódios e 88 pontos no total, os últimos dos quais no GP de Portugal de 1989, com aquele incrível terceiro posto. E na CART, conseguiu quatro terceiros lugares, sempre pela Bettenheusen Racing.

Mas boa parte desta carreira poderia não ter acontecido caso um encontro imediato tivesse corrido mal. Na sexta-feira, 14 de agosto de 1987, durante os treinos de qualificação do GP da Austria, Johansson ia a mais de 225 km/hora ao volante do seu McLaren MP4/3 TAG Porsche quando um veado atravessou no meio da pista para tentar escapar do barulho à sua volta. O sueco não teve como evitá-lo e ele atingiu-o no seu lado direito, destruindo a suspensão do carro e o fez ir parar aos rails de proteção. O veado teve morte imediata, e Johansson nada sofreu, para além de escoriações na cabeça, que não o impediram de correr no domingo.

Agora, 28 anos mais tarde, Johansson conta o que aconteceu nessa tarde. Num relato publicado este fim de semana ao site Motorsport.com, ele conta aquilo que é batizado de "deer-death experience". Gosto da expressão, e de facto, é verdade. Mas também revela o bom humor do piloto sueco.

"Todo o episódio ainda me dá arrepios quando me lembro", começou por recordar Stefan. "Você faz aquela curva de forma completamente cega e apontas o carro para a cabana dos comissários de pista do lado de fora daquele canto, então você tem a linha ideal para a próxima curva. À medida que o carro faz aquela curva e vejo um pouco de luz, vi o veado e ele estava apenas a começar a entrar no meio da pista", continuou.

Sem tempo para nada, pois foi uma questão de poucos segundos, o impacto foi enorme. Mas no meio da desgraça, ele teve sorte. "Não tive tempo para fazer alguma coisa, nem tentei travar", lembra o piloto sueco. "Ele bateu no meu lado esquerdo e ainda hoje me lembro do som do impacto - foi horrível. Foi realmente um impacto enorme. Ele rasgou todo o lado esquerdo do carro. A suspensão foi arrancada para fora do chassis, o monocoque ficou destruído. Se eu tivesse sido apanhado talvez mais 10 polegadas para o outro lado, teria me atingido e arrancado a minha cabeça, não tenho dúvidas sobre isso", comentou.

De facto, as imagens desse acidente são horríveis, e caso tivesse acontecido o pior, iria fazer lembrar os eventos de dez anos antes, em Kyalami, quando o galês Tom Pryce morreu, atingido pelo extintor de incêndio trazido por um comissário de pista sul-africano. Contudo, o acidente também faz lembrar aquilo que o brasileiro Cristiano Da Matta passou na pista de Elkhart Lake, em 2006, e que precipitou o seu final de carreira como piloto.

Contudo, o acidente não acabou com o impacto no veado. Descontrolado - sem direção e sem travões - o carro acabou nos rails de proteção, totalmente destruído. A equipa acabaria por trazer outro chassis diretamente de Woking, e o sueco pôde correr no domingo, apesar de ter ficado magoado em algumas costelas.

"Só me lembro de ter recolhido as minhas pernas tanto quanto eu podia, cruzando os braços e esperar pelo melhor", lembra ele. "Foi um forte impacto e eu quebrei um par de costelas"

"Eu fiz a corrida, mas eu estava com tanta dor que foi realmente desagradável. Lembro-me que Ayrton [Senna] estava atrás de mim, talvez a 10 comprimentos do meu carro na sua Lotus e ele passou a toda a velocidade sobre o que restava do veado. Não acho que ele era muito feliz por isso depois!"

No final da corrida, Johansson acabou no sétimo lugar - que na altura era o primeiro fora dos pontos - a duas voltas do vencedor, o britânico Nigel Mansell. E após isso, ele conseguiu ainda mais onze pontos naquele campeonato, incluindo mais dois terceiros lugares em Jerez e Suzuka, terminando o ano com 30 pontos e o sexto lugar. Mas isso não o impediu de ficar na equipa de Woking para 1988, pois ele foi substituído por Ayrton Senna.

E ainda teve o resto da carreira que sabemos, primeiro pelas passagens na Ligier, Onyx, Arrows e AGS, a ida para os Estados Unidos, onde correu na CART e depois a Endurance, onde venceu as 24 Horas de Le Mans e onde ainda faz esporadicamente umas provas em lugares miticos como Daytona ou Sebring. 

2 comentários:

rodres disse...

Ótima história!

Fabio Santos disse...

o capacete dele era muito legal mesmo, mas pelo que me recordo no começo da carreira na F1 ele usava um diferente.
quanto ao atropelamento.. que horrível cena... se não houveram vítimas fatais de pilotos nesta temporada, deveria ser pra sempre recordada o veadinho que perdeu sua vida de forma tão brutal.

R.I.P veadinho
ou como vemos aqui no blog - The end - Veadinho (19XX - 1987)