terça-feira, 31 de março de 2015

Como dizer que não gosto de alguém sem passar por machista?

Esta é uma foto interessante. Foi tirada em Barcelona em 2012, durante a etapa inaugural da temporada de GP3 desse ano, e demonstra algo raro: três mulheres juntas numa categoria de acesso à Formula 1. E da esquerda para a direita, estão a italiana Victoria (Vicky) Piria, a britânica Alice Powell e a espanhola Cermen Jordá

Poderei dizer que estas três mulheres são consideradas um exemplo de algo que está em falta, que é ver uma mulher na Formula 1. Algo que não existe de 1992, quando Giovana Amati tentou qualificar-se por três vezes numa Brabham no seu estretor final, sem sucesso. Contudo, quando três anos mais tarde vejo os resultados das três, posso dizer que Piria está num "reality show" tentando a sua sorte nas 24 Horas de Le Mans, e Powell estava no final do ano passado a comemorar a vitória na Asian Formula Renault Series, depois de vencer quatro corridas. E Carmen Jordá? Bem, ela agora é "piloto de desenvolvimento" da Lotus na Formula 1. 

Quando soube da noticia da piloto espanhola, não deixei de manifestar por aqui o meu descontentamento sobre a escolha. Das três presentes, era a que tinha piores resultados. Na realidade, em três temporadas de GP3, com passagens pela Ocean Racing, Bamboo Engeneering e Koiranen Bros, Jordá conseguiu como melhor resultado três... 17º lugares. Em contraste, Powell têm um oitavo lugar - logo, ela já pontuou uma vez - e Piria tem um 12º posto, na sua passagem pela Trident Racing. 

Aliás, a última passagem de Jordá na GP3 é representativa do seu... "talento". Depois de uma temporada onde esteve presente no final do pelotão, foi substituída após a ronda italiana pelo britânico Dean Stoneman, que veio a Manor Racing, que tinha encerrado as suas atividades. O britânico - que recuperou de um cancro nos testículos detectado em 2011 - aproveitou as duas ultimas jornadas duplas para aparecer no pódio por três vezes. Em duas delas, no lugar mais alto. Isso é para ver como que o problema da velocidade de determinado carro tinha a ver com aquela peça entre o volante e o chassis.

Ver Jordá a passear no "paddock" é uma injustiça, e não deixo de expressar a minha opinião sobre isso. Mas parece que alguns me acusam de machismo só porque ela é mulher. Não sou machista, bem pelo contrário: acredito que as mulheres têm de ter uma oportunidade no automobilismo, mas não através de um saco de dinheiro à porta das equipas. Não sou hipócrita e não me comporto como os pinguins do Madagascar, que quando vêm perigo, acenam e sorriem de forma amarela.

Contudo, os meus desabafos por mostrar o desagrado perante determinada situação podem ser interpretados por outras pessoas como algo politicamente incorreto, e poderemos ser mal interpretados se não justificarmos detalhadamente as razões porque aponto defeitos a alguém que pertença a algo e não é homem, branco e europeu. Assim sendo, acho que um pouco de diplomacia não faz mal algum, logo, vamos explicar as coisas: 

Primeiro que tudo, eu quero acreditar na igualdade de oportunidades no automobilismo, que as mulheres terão o seu espaço, não só como pilotos, mas também como engenheiras e mecânicas, indo para além dos habituais papeis de "grid girls", que nada mais servem de "mobiliário" para abrilhantar as corridas. Mas também acredito na meritocracia, que elas devem conquistar por mérito e não porque é a mulher de um co-proprietário de uma equipa, como é a Susie Wolff, ou porque têm um saco cheio de dinheiro, como é a Jordá, na minha opinião.

Porque depois, há certas verdades inconvenientes que não posso deixar passar em claro: porque a Jordá teve uma chance e a Powell, bem mais talentosa, não? Porque a primeira menina é bonita e a segunda não é. E nestes tempos, temos de vender a imagem. E neste mundo muito machista que é o automobilismo (desculpem-me de novo o meu politicamente incorreto) ter a Jordá na capa de uma revista, de bikini (ou pior) é bem mais interessante, afirmando que é "piloto de automóveis".

É por isso que não gosto da Jordá. E não tem nada a ver com a ideia de que "mulher é na cozinha". Porque não tem resultados que sustentem isso. Prefiro mil vezes a Simona de Silvestro ou até a Danica Patrick e critico por vezes as bocas do anãozinho tenebroso, quando certo dia comparou Patrick a um eletrodoméstico, ou agora recentemente, quando teve a ideia de uma "Formula 1 feminina". Vê-la ali não ajuda à causa feminina no automobilismo, bem pelo contrário. Para mim, uma mulher tem de mostrar que é piloto, e num mundo onde a diferença é olhada com desconfiança, elas têm de ser duas, três ou mais vezes melhores para ganhar o respeito dos seus pares. Foi assim que a Michele Mouton chegou onde chegou no mundo dos ralis, nos anos 80. Correu contra os melhores do mundo e venceu-os, em máquinas monstruosas como as do Grupo B. E quase foi campeã do mundo por causa disso.

Em suma, ela é aquilo que Ecclestone sempre quis ter, o seu eletrodomestico. E isso, para vos ser honesto, não gosto. E não estou a ser machista, nunca fui. Apenas digo uma verdade inconveniente.    

4 comentários:

Bruno Patuleia disse...

Partilho da mesma opinião que tu

Babi disse...

Muito bom ver um homem escrevendo de maneira tão consciente sobre o universo das mulheres na F1 e essa história maluca do Sr. Bernie. ;)

Aline Rodrigues disse...

Só ficou pesado quando diz que a garota tem que ser 2 ou 3 vezes melhor do que os caras pra ser reconhecida. Isso cansa :)

Silvestre Zanon disse...

Não acho, sinceramente, a ideia do chefão tão maluca assim.
Por que não pensar seriamente a respeito disso? Na maioria esmagadora dos esportes as mulheres competem entre si...basquete, lutas, volei, futebol, etc.
Teria que ser diferente na F-1?
Mas, por favor, não estou levantando nenhuma bandeira aqui...só colocando um outro ponto de vista.
Abraço