domingo, 8 de março de 2026

A imagem do dia



Faltavam duas semanas para o inicio da temporada de 1986 quando a Williams fazia o seu teste privado no circuito de Paul Ricard, no sul de França. Nelson Piquet e Nigel Mansell aceleravam no novo FW11, que iria se estrear na pista de Jacarépaguá, e até ali, parecia que todos estavam confiantes: pilotos, equipa técnica, como Patrick Head e Frank Dernie, e claro, a Honda, que fornecia os seus motores. 

No meio disto tudo, Frank Williams. Então com 43 anos, o co-fundador (com Patrick Head) da Williams Grand Prix International, está também satisfeito. Estava a entreter cerca de vinte convidados da gasolineira Mobil, um dos patrocinadores. Mas está impaciente: era sábado e depois da hora do almoço, ele quer ir para Nice e apanhar um avião para Londres, porque quer participar na meia-maratona de Londres, que iria acontecer no dia seguinte. E pergunta a Peter Windsor, seu assessor de imprensa, se não queria ir com ele. Windsor aceitou e ambos saíram dali num Ford Sierra verde alugado. Williams quer ter tempo para apanhar o avião para Londres. 

Mal ele sabia que iria ser o seu último dia a andar sem assistência. 

A Williams era a equipa a ter em conta no inicio de 1986. Depois de duas temporadas com a Honda, no final de 1985, tinha conseguido ganhar as três últimas corridas do ano, duas delas com Nigel Mansell ao volante, uma aposta pessoal de Williams, contra a opinião de muita gente, alguns deles que desejavam Derek Warwick, por exemplo. Mas o outro piloto da Williams, o finlandês Keke Rosberg, decidiu ir para a McLaren, para substituir o retirado Niki Lauda e para o seu lugar, Williams tinha escolhido o brasileiro Nelson Piquet, que tinha vindo da Brabham, ele que corria na equipa desde 1979 e tinha alcançado os seus dois títulos. 

Piquet tinha sido escolha de Williams, porque a equipa tinha começado a gostar de Mansell, mas o brasileiro tinha algumas coisas a seu favor, como de saber afinar carros e ter o gosto de fazer testes de desenvolvimento. 

A estrada para a cidade era sinuosa, e Williams tinha a mania de carregar no pedal do acelerador, porque queria chegar o mais rápido possível ao aeroporto. Ainda por cima, eram estradas alpinas, apesar de ali, as curvas não eram tão apertadas como aquelas ao pé de Monte Carlo, por exemplo. Numa parte onde a estrada fazia uma suave curva à esquerda, Williams, para tentar passar por um carro que cruzou muito perto dele, fez uma manobra brusca e no limite, meteu as rodas na berma e despistou-se de traseira, batendo contra uma pedra. O carro capotou e atingiu o lado do condutor, e Williams, fatalmente, não tinha o cinto de segurança colocado. Ele andou solto dentro do carro, e apesar de não ter sido cuspido, acabou na parte de trás do carro, com algumas malas soltas, que numa situação destas, acabariam por ser armas de arremesso contra os ocupantes. 

Peter Windsor safou-se sem ferimentos de maior, mas Williams tinha uma fratura severa entre a quarta e a quinta vértebra cervical, e tinha causado lesões permanentes do pescoço para baixo. Pior: ele lutava pela vida. 

Windsor contou esse episódio há pouco mais de um mês no seu canal do Youtube:  

"Frank não era como o Colin Champan, que queria sempre um Mercedes, ele queria sempre o mais barato, o mais razoável", começou por afirmar, falando porque ele ter escolhido um carro mais mundano. "Fomos andando, numa estrada toda sinuosa, eu sabia que ele tinha um passado como piloto, e ele 'atirava o carro' estrada fora, lembro de ele travar muito tarde para fazer uma curva apertada. Eu disse a ele: 'não tão depressa', e ele respondeu, 'os travões estão ótimos, não te preocupes'.

"Chegamos a uma secção de descida, com uma curva relativamente suave, com gravilha em ambos os lados da estrada, suficientemente largo para caberem dois carros, e quando passou um carro, a traseira soltou-se, perdendo o controle do carro. Nessa altura, íamos relativamente rápido, a 65-70 milhas por hora [105-110 km/hora] Frank, obviamente, corrigiu demais, saiu de estrada e a última coisa que vi [antes de bater] é que íamos direito a um muro de pedra. Eu encolhi-me, numa bola, no lugar do passageiro... e fechei os olhos.

"Depois do choque, vi... nada. Era o carro a voar, antes de cair, nariz primeiro, antes de capotar por duas ou três vezes, antes de parar. Quando tudo acabou, havia um cheiro a combustível, estávamos de cabeça para baixo, o teto tinha colapsado, não tínhamos muito para manobrar, tudo solto, malas, cintos, e o Frank a dizer 'estou preso, tira-me daqui'. E tinha de ser por causa do combustível, tinha de o tirar dali. Tentei arrastá-lo dali pelas axilas, e tirei-o do carro, pelas traseiras, que estava mais ou menos danificado, ao mesmo tempo que estava um senhor que estava a quebrar o que sobrara do vidro traseiro. Neste ponto, ele já dizia 'não sinto as minhas pernas, não sinto as minhas pernas'."

"Depois disse ao senhor para ir ao circuito, para falar com a Williams. Nelson Piquet tinha um Mercedes com um telefone dentro do carro, para pedir socorro." Windsor contou depois que ele era um professor de matemática e entre os seus alunos estava Cora Reutemann, a filha de Carlos Reutemann, e pouco depois, os socorros foram acionados. Uma ambulância chegou ao local, e um helicóptero foi levado para o circuito, para que Frank fosse evacuado, rumo a um hospital, em Toulon, onde o seu estado era critico. 

A partir dali, cada dia passado era um dia ganho. E a sua vida tinha mudado para sempre. A próxima vez que as pessoas o iriam vê-lo seria em julho, no GP da Grã-Bretanha, em Brands Hatch. 

Formula 1 2026 - Ronda 1, Melbourne (Corrida)


E pronto, começa uma nova temporada, com novos regulamentos, e com todos a resmungarem a sua adaptação. Poderemos considerar como algo normal, mas quando vemos aquilo que se passou na qualificação, e também com o que se passa na Aston Martin - apesar de tudo, ficaram na frente dos Cadillac - tenho mais aquela sensação de "abraçar o furacão" do que falar mal dos novos regulamentos. Porque sobre isso, tinham sido avisados tempos antes, e também, as equipas, bem como os pilotos, eles irão adaptar-se, é certo.

Com um dia relativamente nublado, mas sem chances sérias de chuva, a grande pergunta é saber sobre o alerta do dia: será que os arranques podem baralhar tudo na grelha? É que, de repente, o arranque tornou-se num dos momentos mais críticos e complexos de um Grande Prémio de Fórmula 1. A razão? Uma dependência sem precedentes da energia elétrica e a eliminação de componentes eletrónicos de auxílio, e por causa disso, o risco de erro na grelha de partida aumentou drasticamente. 

Ou seja, mais uma razão para ver como será a corrida. Pelo menos nos primeiros metros. 


Mas ainda antes das luzes se apagarem... Oscar Piastri perde o controlo do seu McLaren na volta de instalação. Incrível, mas verdade. Na curva 4, ele bateu o carro na parede e o carro ficava muito danificado. E a menos de 40 minutos das luzes se apagarem, era provável que vejamos a primeira retirada de 2026. Isto é pior que ver Alain Prost na volta de aquecimento do GP de San Marino de 1991... e pior ainda: é na sua corrida caseira!

Mas espera... e o Isack Hadjar no ano passado? Ele durou mais tempo, tenham calma. E estava a chover. E era estreante, e o Anthony Hamilton foi ter com ele para o consolar. 

Nico Hulkenberg parecia ter uns problemas com o seu Audi, e os mecânicos recolheram o carro às boxes. 


Assim sendo, quando as luzes se apagaram, Antonelli largou lento e foi passado por Charles Leclerc, seguido por George Russell. Hadjar era terceiro, mas depois foi passado pelo piloto da Racing Bulls, Arvid Lindblad. Claro... com o passar das curvas e com estes novos sistemas, os pilotos andavam lentos e eram passados. Hamilton, por causa disso, era terceiro. No fundo, Max Verstappen era 16º no final da primeira volta.

No inicio da segunda, Leclerc era passado por Russell, para ficar com a liderança, com Hadjar e Lindblad a serem quarto e quinto, na frente de Lando Norris. E na volta seguinte... Leclerc volta na liderança, com Russell logo atrás e Hamilton à espreita. E por esta altura, Max subia mais algumas posições: 13º no inicio da quinta volta, duas voltas depois, passa Oliver Bearman e estava nos pontos.

E foi assim nas primeiras voltas: ultrapassagens constantes, pilotos a andarem bem perto uns nos outros. Está a ser bem entretido!

Na volta 11, Isack Hadjar tinha fumo a sair do seu carro, e o Safety Car Virtual foi accionado. A altura ideal para que alguns pilotos foram às boxes trocarem de pneus. Lando Norris fazia a troca de pneus, como os Aston Martin de Fernando Alonso e Lance Stroll. todos metendo duros. Não perdiam muito tempo, logo, na volta 13, Kimi Antonelli e George Russell também iam às boxes, também para meterem duros. 

Na volta 14, Fernando Alonso se torna na quarta desistência da corrida, a pedido das boxes. E podemos ver o ponto da situação da Aston Martin. Tem de começar por algum lado, não é? Nesta altura, Max Verstappen era sexto, mas ainda não tinha parado nas boxes.

Na volta 18, Valtteri Bottas era o primeiro Cadillac a desistir na corrida, e a quinta da corrida. Segunda passagem do Safety Car Virtual da corrida, e os pilotos como Lindblad, Max e Bearman a irem às boxes, colocando duros. Mas quem ficava na pista eram... os Ferrari, ainda com os médios! Quem diria.

No regresso à bandeira verde, Max pressionou Lindblad para ficar com o sexto posto, e depois de alguma insistência, conseguiu passar. Na volta 25, Charles Leclerc foi às boxes para colocar duros, e Hamilton veio a seguir, na 29ª passagem pela meta. Pelo meio, Russell passou-o para a liderança, com pneus duros. 

A partir daqui, a corrida ficou mais calma, com os Mercedes que pareciam ter a corrida controlada - Russell disse para as boxes que ele achava que uma paragem era suficiente - com Antonelli logo atrás. Em quinto, Norris via aproximar Max Verstappen e a ameaçar o seu lugar. Mas de repente, na volta 34, o Safety Car Virtual tinha sido acionado pela terceira vez, por causa de destroços vindos de algum carro. Norris foi às boxes na volta seguinte, para colocar médios, e regressou em oitavo. Não demorou muito até passar o Haas de Ollie Bearman e depois, o Racing Bulls de Arvid Lindblad, tudo isto antes da volta 39.

No meio disto tudo, Lance Stroll tinha parado de vez. Era a sexta desistência da corrida.

Na volta 43, Max parava pela segunda vez nas boxes, para colocar novo jogo de duros. Ficava atrás de Norris, no sexto posto, mas foi logo atrás para o apanhar. Contudo, apesar de se aproximar, os pneus médios do piloto da McLaren conseguiram deixar à distância o neerlandês da Red Bull. 

A parte final foi tranquila. No final, Russell acabou por ganhar, e em dobradinha com Kimi Antonelli. De uma certa forma, tornou-se naquilo que muitos esperavam que iria ser esta admirável mundo novo da Formula 1, mas em relação às novas forças, o que mais surpreendeu foi a McLaren, que está numa situação um pouco mais abaixo. A andar a par com a Red Bull? Não. Eles tem potencial, mas isto foi apenas uma corrida. 

Aliás, é isso mesmo que todos devem encarar isto: apenas uma corrida. De uma nova era. A seguir, teremos Xangai, e depois, Suzuka. Ao longo deste mês, começaremos a ter uma ideia deste novo mundo.