No meio disto tudo, Frank Williams. Então com 43 anos, o co-fundador (com Patrick Head) da Williams Grand Prix International, está também satisfeito. Estava a entreter cerca de vinte convidados da gasolineira Mobil, um dos patrocinadores. Mas está impaciente: era sábado e depois da hora do almoço, ele quer ir para Nice e apanhar um avião para Londres, porque quer participar na meia-maratona de Londres, que iria acontecer no dia seguinte. E pergunta a Peter Windsor, seu assessor de imprensa, se não queria ir com ele. Windsor aceitou e ambos saíram dali num Ford Sierra verde alugado. Williams quer ter tempo para apanhar o avião para Londres.
Mal ele sabia que iria ser o seu último dia a andar sem assistência.
A Williams era a equipa a ter em conta no inicio de 1986. Depois de duas temporadas com a Honda, no final de 1985, tinha conseguido ganhar as três últimas corridas do ano, duas delas com Nigel Mansell ao volante, uma aposta pessoal de Williams, contra a opinião de muita gente, alguns deles que desejavam Derek Warwick, por exemplo. Mas o outro piloto da Williams, o finlandês Keke Rosberg, decidiu ir para a McLaren, para substituir o retirado Niki Lauda e para o seu lugar, Williams tinha escolhido o brasileiro Nelson Piquet, que tinha vindo da Brabham, ele que corria na equipa desde 1979 e tinha alcançado os seus dois títulos.
Piquet tinha sido escolha de Williams, porque a equipa tinha começado a gostar de Mansell, mas o brasileiro tinha algumas coisas a seu favor, como de saber afinar carros e ter o gosto de fazer testes de desenvolvimento.
A estrada para a cidade era sinuosa, e Williams tinha a mania de carregar no pedal do acelerador, porque queria chegar o mais rápido possível ao aeroporto. Ainda por cima, eram estradas alpinas, apesar de ali, as curvas não eram tão apertadas como aquelas ao pé de Monte Carlo, por exemplo. Numa parte onde a estrada fazia uma suave curva à esquerda, Williams, para tentar passar por um carro que cruzou muito perto dele, fez uma manobra brusca e no limite, meteu as rodas na berma e despistou-se de traseira, batendo contra uma pedra. O carro capotou e atingiu o lado do condutor, e Williams, fatalmente, não tinha o cinto de segurança colocado. Ele andou solto dentro do carro, e apesar de não ter sido cuspido, acabou na parte de trás do carro, com algumas malas soltas, que numa situação destas, acabariam por ser armas de arremesso contra os ocupantes.
Peter Windsor safou-se sem ferimentos de maior, mas Williams tinha uma fratura severa entre a quarta e a quinta vértebra cervical, e tinha causado lesões permanentes do pescoço para baixo. Pior: ele lutava pela vida.
Windsor contou esse episódio há pouco mais de um mês no seu canal do Youtube:
"Frank não era como o Colin Champan, que queria sempre um Mercedes, ele queria sempre o mais barato, o mais razoável", começou por afirmar, falando porque ele ter escolhido um carro mais mundano. "Fomos andando, numa estrada toda sinuosa, eu sabia que ele tinha um passado como piloto, e ele 'atirava o carro' estrada fora, lembro de ele travar muito tarde para fazer uma curva apertada. Eu disse a ele: 'não tão depressa', e ele respondeu, 'os travões estão ótimos, não te preocupes'.
"Chegamos a uma secção de descida, com uma curva relativamente suave, com gravilha em ambos os lados da estrada, suficientemente largo para caberem dois carros, e quando passou um carro, a traseira soltou-se, perdendo o controle do carro. Nessa altura, íamos relativamente rápido, a 65-70 milhas por hora [105-110 km/hora] Frank, obviamente, corrigiu demais, saiu de estrada e a última coisa que vi [antes de bater] é que íamos direito a um muro de pedra. Eu encolhi-me, numa bola, no lugar do passageiro... e fechei os olhos.
"Depois do choque, vi... nada. Era o carro a voar, antes de cair, nariz primeiro, antes de capotar por duas ou três vezes, antes de parar. Quando tudo acabou, havia um cheiro a combustível, estávamos de cabeça para baixo, o teto tinha colapsado, não tínhamos muito para manobrar, tudo solto, malas, cintos, e o Frank a dizer 'estou preso, tira-me daqui'. E tinha de ser por causa do combustível, tinha de o tirar dali. Tentei arrastá-lo dali pelas axilas, e tirei-o do carro, pelas traseiras, que estava mais ou menos danificado, ao mesmo tempo que estava um senhor que estava a quebrar o que sobrara do vidro traseiro. Neste ponto, ele já dizia 'não sinto as minhas pernas, não sinto as minhas pernas'."
"Depois disse ao senhor para ir ao circuito, para falar com a Williams. Nelson Piquet tinha um Mercedes com um telefone dentro do carro, para pedir socorro." Windsor contou depois que ele era um professor de matemática e entre os seus alunos estava Cora Reutemann, a filha de Carlos Reutemann, e pouco depois, os socorros foram acionados. Uma ambulância chegou ao local, e um helicóptero foi levado para o circuito, para que Frank fosse evacuado, rumo a um hospital, em Toulon, onde o seu estado era critico.
A partir dali, cada dia passado era um dia ganho. E a sua vida tinha mudado para sempre. A próxima vez que as pessoas o iriam vê-lo seria em julho, no GP da Grã-Bretanha, em Brands Hatch.




