domingo, 2 de fevereiro de 2014

Esta pode ser a doença escondida da NASCAR (1ª parte)

Na passada sexta-feira à noite, enquanto lia os meus sítios favoritos, dei por mim a ver um artigo na "Road & Track" americana que ao mesmo tempo era fascinante... e assustador. Porque apesar de estar ligado a uma modalidade, com consequências dramáticas em termos pessoais e de reputação poderá ter consequências tão dramáticas e pessoais para toda outra modalidade: a NASCAR.

Confesso que até sexta-feira à noite nunca tinha ouvido falar da Encelopatia Traumática Crónica (ETC), mas ao ler o artigo escrito pelo jornalista Steven Cole Smith, fiquei assustado no sentido de que as lesões na cabeça causados por acidentes, choques ou colisões, têm efeitos devastadores a longo prazo, causando uma demência cerebral semelhante a da Doença de Alzheimer. E por estes dias, está a ser noticia porque no ano passado, centenas de antigos jogadores da NFL, o futebol americano, decidiram processar a marca devido ao facto de não terem avisado das consequências a longo prazo das dezenas de choques que sofreram ao longo da sua carreira. Soube-se agora que o caso ficou resolvido fora do tribunal por mais de 765 milhões de euros, o que é uma soma gigantesca.

Só que não é a NFL que vai sofrer com isto, com as dezenas de suicidios e homens na casa dos 50 e 60 anos precocemente reformados devido a este tipo de demência. A NASCAR é outra modalidade que poderá ver muitos dos seus heróis sofrerem de demências desse tipo, devido às dezenas - senão centenas - de choques que sofreram ao longo das suas carreiras, muitos deles tiveram permanências longas na modalidade. E algumas das suas lendas estão a sofrer agora dessa demência, no caso deste artigo em particular fala de Fred Lorenzen, que venceu a Daytona 500 em 1965 e que hoje, aos 79 anos, está confinado a uma cadeira de rodas, num lar, não se lembrando de quem é e dos seus feitos.

Assim sendo, decidi traduzir isto para que possam ler este fascinante artigo na integra. Se quiserem ler o original, podem seguir este link.

COMO A MALDIÇÃO DA NFL PODE AMEAÇAR OS PILOTOS DA NASCAR

Como o automobilismo pode ser mais perigoso do que pode imaginar

Por Steve Cole Smith, 31 de janeiro de 2014/Fotos de Brett Nadal



Mesmo aos 79 anos, os olhos azuis de Fred Lorenzen são tão inflexíveis como eram nos seus tempos aureos, e o seu queixo com covinhas ainda o faz parecer mais com Kirk Douglas do que com um piloto de automóveis. As câmeras amavam-no. Assim como as mulheres. Apesar de ter aparecido - e positivamente dominado - durante a época de 60 da NASCAR, quando os seus adversários, como Curtis Turner, celebravam noite fora aterrorizando motéis em todo o Sul, Lorenzen não fazia nada disso . "Ele era todo negócio", lembra o sete vezes campeão Richard Petty. "E ele era um adversário difícil de bater." 

"Flyin' Fred , Foxy Fred, The Golden Boy, Fast Freddie, Freddie Destemido, o Elmhurst Express: a estrela de Lorenzen ardeu de forma quente e brilhante, mas depois acabou. Em 1963, guiando pela Holman - Moody, ele foi o primeiro piloto a vencer mais de 100 mil dólares numa só temporada . Em 1964, e entrando apenas nas etapas mais bem pagas, ganhou oito dos 16 provas. Em 1965, ele foi o vencedor da Daytona 500. Na sua carreira de 158 corridas no total, Lorenzen venceu por 26 vezes, qualificou-se na pole-position por 32 vezes e terminou no top 10 numas impressionantes 84 vezes. Depois de terminar a corrida, ele iria correr do pódio para o telefone mais próximo, não para partilhar a notícia com a família, mas sim para conversar com o seu corretor e dizer-lhe quanto e onde deveria investir. Aposentou-se por um breve periodo, mas de seguida, fez um regresso, dirigindo para Junior Johnson e Ray Fox. Após um grave acidente em 1972, ele pendurou o capacete de vez.

Esse capacete fica perto da cama de Lorenzen, numa casa de repouso em Elmhurst, um subúrbio de Chicago no Illinois, onde ele foi criado e onde ele criou os seus dois filhos. Lorenzen sofre de uma demência que acabará por matá-lo. Mas ao invés de sofrer de uma das formas mais comuns, tais como a doença de Alzheimer, existe uma grande possibilidade de que ele sofre de encefalopatia traumática crônica, ou ETC. É uma doença cerebral provocada por uma ou mais contusões. Desde que estudos sérios tiveram o seu começo, há cerca de uma década, dezenas de atletas profissionais, principalmente no futebol, hóquei no gelo e wrestling, foram diagnosticados com essa doença. Júnior Seau, um jogador problemático da NFL e que acabou por cometer suicidio em 2012, tinha ETC. Não se sabe muito sobre a doença, exceto que ela é causada pela acúmulação de uma proteína tóxica, apelidada de "tau", no cérebro. Essa acumulação pode ser o resultado de vários pequena contusões ou algumas grandes contusões, ou até mesmo uma enorme, como evidenciado por soldados que aparentemente desenvolveram ETC após terem ficado expostos a uma única explosão. 

ETC é incurável, e ela só pode ser detectada depois da morte. 

A encefalopatia traumática crônica tem sido notícia recentemente devido à ação de jogadores aposentados contra a NFL, o que foi resolvido fora dos tribunais no ano passado, num acordo que valeu 765 milhões dólares. E, enquanto o futebol é o desporto mais associado à doença, é bem provável que este seja o maior problema que o mundo do automobilismo não quer falar.

Isso pode mudar rapidamente. Há pesquisas atualmente em curso para encontrar técnicas que podem detectar ETC em pacientes ainda vivos. Um estudo de fevereiro de 2013, publicado no American Journal of Geriatric Psychiatry, detalhou como os cientistas da UCLA conseguiram ETC em cinco ex-jogadores da NFL. Usando uma tomografia cerebral e marcadores químicos, os cientistas descobriram uma clara evidência da proteína tóxica "tau". "O Santo Graal da pesquisa sobre o ETC é identificar cedo aqueles que sofrem da síndrome, enquanto eles ainda estão vivos", disse o Dr. Julian Bailes, autor do estudo. "Encontrar bem cedo os efeitos do trauma cerebral prévio abre possibilidades para o tratamento dos sintomas e prevenção da doença."

Contudo, também abre possibilidades enormes para ações judiciais. Visto que actualmente o ETC só pode ser detectado através de autópsias, os membros sobreviventes da família são os únicos que poderiam arquivar fatos relacionados com a doença. E para autoridades como a NASCAR, "isto pode ser enorme", disse Jason E. Luckasevic, um advogado que representa a firma de Pittsburgh Goldberg, Persky & White. Luckasevic é especializado em casos de trauma cerebral e tem ensinado sobre o assunto na Universidade de Carnegie Mellon. Ele representou mais de 600 dos jogadores da NFL que entraram com uma ação contra a liga, por esta se ter recusando a reconhecer e prevenir adequadamente lesões cerebrais. Esse processo e mais oitenta ações similares foram unidas numa ação de classe no ano passado que inicialmente opôs quase 2200 antigos jogadores contra a liga. Esse número mais tarde subiu para mais de 4500. 

Um processo desse tamanho poderia devastar uma organização como a NASCAR. "Há alguma responsabilidade real lá ", disse Luckasevic. Ele observa que dados vindos do Centros de Controle de Doenças afirmam que os acidentes de automóvel são a segunda maior fonte de lesões cerebrais traumáticas, sendo as quedas a primeira. "E isso é o que é em grande medida a stock-car: acidentes de automóvel."

A responsabilidade "não seria apenas com o piloto e sua própria saúde", disse E. Marcus Davis, do escritório de advocacia Davis, Zipperman, Kirschenbaum & Lotito, de Atlanta. "Isso se aplicaria também ao perigo que poderá causar para os outros condutores para ter uma corrida em 320 km/hora com uma contusão." Davis, que representou muitos dos jogadores da NFL no caso em questão, cuida de casos refrentes a lesões cerebrais e da espinal medula. A NASCAR, afirma ele, "tem razões para se preocupar."

A partir desta temporada, NASCAR obriga todos os seus condutores a fazerem o teste imPACT. ImPACT é a avaliação neurocognitiva que estabelece a partir de uma linha de base contra a qual os resultados dos testes de pós-acidente podem ser medidos, ajudando os médicos a diagnosticar eventuais contusões. É um passo em frente, mas as avaliações do teste pós-acidente ainda é deixada para os pilotos ou para a equipa, e não os médicos da NASCAR. 

NASCAR tem tido até agora sucesso em isentar-se de responsabilidade em casos isolados no passado, alegando que que não emprega condutores, eles são na realidade contratantes independentes para suas equipas, do qual eles fizeram suas próprias escolhas. Para além disso, Steve O'Donnell, o vice -presidente da NASCAR encarregado da operações de corrida, afirmou em outubro de 2012: "Eu acho que quando você olhar para a história das contusões... nós tivemos um total de nove na nossa National Series, nos últimos cinco anos. Isso é menos de dois por ano. Quando você olha para o número de eventos que corremos por fim de semana na Truck Series, e Nationwide e Cup, é um número bastante pequeno".

Claro, essas são as contusões que a NASCAR conhece, ou porque os pilotos trouxeram à atenção dos dirigentes, ou porque os ferimentos eram suficientemente graves para a associação estar ciente delas. A menos que um piloto está disposto a ficar de fora por várias corridas, ele ou ela não pode comunicar o sucedido à NASCAR. Richard Petty uma vez brincou dizendo que ele "provavelmente correu mais vezes com uma contusão" do que sem ela. Duas vezes vencedor das 500 Milhas de Daytona, Michael Waltrip disse que ele teve pelo menos 10 acidentes durante sua carreira na NASCAR. Ele recordou uma certa corrida em Las Vegas, onde ele bateu forte nos treinos, perdeu momentâneamente a consciência, voltou a correr com um carro de reserva, para logo em seguida, rumar para o seu hotel. "Eu acordei na manhã seguinte perguntando a mim mesmo como é que tinha chegado lá.

Para Lorenzen, contudo, os avisos chegaram tarde demais. Ele ainda estava na casa dos cinquenta quando os sintomas começaram, de acordo com sua filha, Amanda Gardstrom. O primeiro sinal revelador veio no dia do seu casamento no México: "O meu pai não entendeu que me iria levar ao altar no dia seguinte. Era o começo de algo devastador." Dois anos depois, quando ele estava em Daytona, para as comemorações do 50 º aniversário das 500 Milhas, um funcionário do hotel ligou para o quarto de Lorenzen e pediu-lhe para entregar dados do seu cartão de crédito. "Ele não sabia onde ele estava, por que ele estava lá, ou como ele tinha chegado lá", disse Gardstrom. Eles não podiam mais desprezar sintomas como fadiga ou simples esquecimento. Os médicos eventualmente diagnosticaram-lhe um tipo de demência, mas Gardstrom sentiu que os sintomas que o seu pai sofria - perdas de memória, instabilidade emocional, comportamento errático, depressão e problemas de controle dos seus impulsos - não coincidiam com aqueles mais conhecidos, como a doença de Alzheimer.

(continua amanhã)

1 comentário:

José Wilson Carvalho de Mesquita disse...

Do ponto de vista epidemiológico, algo deve ser feito rapidamente. Quantas categorias expõe seus pilotos a esse risco?