terça-feira, 11 de junho de 2019

A imagem do dia

Jackie Stewart comemora hoje 80 anos de idade. Uma das maiores lendas vivas do automobilismo, e praticamente um dos últimos moicanos de uma era "romântica", o escocês, tricampeão do mundo e em boa parte da sua carreira fiel a Ken Tyrrell, o seu maior legado, e aquele que mais o defende não são as suas 27 vitórias, conquistadas em 99 Grandes Prémios entre 1965 e 1973, ou os seus três títulos mundiais. E o de tornar o ambiente mais seguro, para ele e para os seus colegas de profissão.

E tudo aconteceu numa tarde chuvosa de 1966, em Spa-Francochamps.

Quem quer saber - mais ou menos - como foi essa corrida, recomendo que assistam a um filme chamado "Grand Prix", pois eles registaram boa parte dessa ação, de como aquela zona do leste da Bélgica, as Ardenas, tem um microclima que favorece as tempestades súbitas. E nesse ano de 1966, onze carros focaram de fora da corrida logo na primeira volta, enquanto o único sobrevivente tinha sido o Ferrari de John Surtees.

Dos que acabaram na berma, o escocês, então na BRM, foi o que sofreu mais. Ficou preso no seu carro, enquanto havia uma fuga de gasolina, e esta vertia para o seu cockpit, onde ele não se podia mexer porque o seu volante não era amovível, e os estragos causados pelo acidente tinham, para além das sequelas físicas - ombro deslocado e fraturas nas costelas - corria o risco de ver tudo aquilo pegar fogo, o que seria o seu fim.

Anos depois, na sua autobiografia, o escocês contou os pormenores desse dia:

Eu devia ir a uns 265 km/hora quando o carro entrou em acquaplaning e perdi o controlo. Primeiro bati contra um poste telegráfico e depois entrei na fazenda de um lenhador e acabei na cave exterior de uma propriedade. O carro ficou todo retorcido, comigo preso dentro dele. O tanque de combustível tinha rebentado internamente e o monocoque estava todo cheio de gasolina, que enchia o cockpit, O painel de instrumentos fora arrancado e encontrado a uns 200 metros do carro, mas a bomba de gasolina elétrica continuava a funcionar. Não conseguia retirar o volante e não conseguia sair dali.”

O primeiro a socorrer foi o seu companheiro de equipa Graham Hill. Ele contou na altura como foi o resgate: 

A primeira coisa que fiz foi desligar tudo para a bomba não puxar mais gasolina para dentro do carro e para não haver o perigo de alguma faísca. A gasolina estava a queimar o Jackie, isso pode até arrancar a pele de uma pessoa somente pela reacção química. Tentei levantá-lo, ele estava atordoado e queixava-se de dores no ombro. Foi quando vi que tinha de retirar o volante para o retirar, mas estava preso contra as suas pernas. Corri para pegar uma caixa de ferramentas junto de um comissário. Foi então que conseguimos tirar o Jackie do carro e ficar seguros que o BRM não se ia transformar numa tocha."

"Levamo-lo para uma propriedade e despimo-lo. Não chegavam os socorros, pelo que telefonei de um posto de comissários. Quando as enfermeiras chegaram, a primeira coisa que fizeram foi tapar o Jackie com o seu próprio macacão ensopado em gasolina! Foi uma luta com elas, que estavam mais preocupadas com a nudez do que com a saúde dele”, referiu.

Stewart continuou depois o seu relato: “No meio delírio, nem sei mesmo se elas lá estiveram. Tinha magoado o pescoço, deslocado o ombro e fracturado costelas, com mais umas contusões nas minhas costas. No entanto, a minha maior preocupação era estar ensopado em gasolina. No fim, tive queimaduras e a toda a minha pele caiu."

"O edifício para onde fui levado, um tal de centro médico mas na realidade mais parecia uma lixeira, com pontas de cigarros e porcaria. Meteram-me numa ambulância e levaram-me para o Hospital de Liége, ainda longe. Para piorar as coisas, o condutor da ambulância perdeu-se da escolta policial e não sabia o caminho. Apesar de todos estes precalços, seis horas após o acidente, estava no Hospital de St. Thomas, graças a Louis Stanley [patrão da BRM]”, concluiu.

Depois de recuperar das suas feridas, Stewart decidiu levar uma chave de fendas no seu carro para retirar o seu volante em caso de acidente, com instruções nas línguas dos países onde iriam correr. O resto veio por acréscimo, como cintos de segurança, volantes removíveis e capacetes integrais, para além de uma ambulância médica, para socorrer os pilotos no local, em caso de acidente. Surgiu a GPDA, Grand Prix Drivers Association, e foram os pilotos que decidiram onde é que deveriam correr. E em 1971, o velho Spa-Francochaps, com 14 quilómetros de extensão, foi vetado para as corridas de Formula 1. Quando voltou, doze anos depois, foi numa ersão bem mais curta e mais segura.

E tudo graças a pilotos como Jackie Stewart. Feliz Aniversário!

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