quarta-feira, 27 de outubro de 2021

A imagem do dia


Ayrton Senna e o seu pai, Milton Senna, celebrando as suas vitórias, algures em 1991, se calhar o título mundial daquele ano, num abraço fraterno de pai e filho.

Milton era um apoiante relutante. Descendente de espanhóis, nascido e crescido no ABC paulista, dava valor ao trabalho duro, que lhe deu sucesso e prosperidade. Acumulando capital, ampliou os negócios, primeiro montando uma metalúrgica, e depois investindo na construção civil, na compra de fazendas e cabeças de gado. Teve três filhos, sendo Ayrton o do meio, entre Viviane e Leonardo. 

No final dos anos 70, não achava muita graça as ambições automobilísticas do seu filho, bem como a sua ideia de ir para a Europa tentar a sua sorte. Não era daqueles pais que queriam transportar para os filhos as suas ambições frustradas, ou alguém que, para ajudar as ambições dos rapazes e o talento deles, são capazes de gastar milhões. Isso é agora, com os Strolls e outros. Milton Senna não achava muita graça a isso. E a certa altura, ele conseguiu que ficasse a trabalhar na sua empresa, pensando que ele seguiria os seus passos. Mas quando viu ele ficar insatisfeito, e não querendo cortar as suas asas, deu-lhe as chances para ir para a Europa tentar a sua sorte. Isso foi em 1981, e o filho até se casou para poder estar mais fora das tentações. Não resultou... porque a sua obsessão eram os carros - e sobretudo, a vitória. 

Não o viu correr na Formula 3, e depois na Formula 1. Viu os seus triunfos e as suas derrotas na televisão, ele e a mãe. Era discreto, não entendia a crescente admiração pelo seu filho, os seus feitos que marcaram história num periodo da Formula 1, num Brasil em transformação. Só quando as coisas começaram a ser sérias é que começou a acompanhar nos circuitos. Foi ele que arranjou gente como  , que ajudaram nos seus negócios. Ele ficava no fundo das boxes, observando tudo à volta, e se o seu filho triunfasse, ficava contente. E ambos contentes, via-se o abraço contido entre ambos, mas com ele expressando o seu orgulho de ser o pai de alguém que se tornara um ídolo.

Com o trágico desaparecimento do seu filho, os pais retiraram-se para a sua fazenda de Tatuí, no interior de São Paulo, deixando as luzes para a filha mais velha, Viviane, que geriu a fundação com o nome do seu filho. Provavelmente, observou a crescente admiração do seu nome, da sua história e dos seus feitos, e não deve ter deixado de ficar admirado com o facto de não o deixaram esquecê-lo, apesar da perda irreparável, e de viver o pior das situações, o de eles o terem de o enterrar. E se calhar ainda pensava que poderia cuidar dos seus negócios. E deve ter tido muitos maus pensamentos quando o seu neto Bruno Senna quis seguir os passos do tio, chegando ao topo, mas tendo uma carreira menos importante. 

Milton Senna morreu esta quarta-feira aos 94 anos, na sua fazenda em São Paulo, de causas naturais. Viu nascer o ser humano, mas observou o inicio, auge e o abrupto final da sua carreira, mas o mito permanece para sempre. Ars longa, vita brevis.

1 comentário:

Leonardo Emerim disse...

Boa noite!
O Sr. Milton era "da Silva".... O sobrenome Senna veio da mãe dele....