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quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A história do campeonato sul-africano de Formula 1 (Parte 1)

Nos primeiros anos da Formula 1, os regulamentos existentes faziam com que existissem dezenas de automóveis, feitos pelas marcas para se sustentarem e os seus projectos automobilísticos, quer fossem nos carros de Sport, quer fosse nos monolugares. Marcas como Ferrari, Maserati, Aston Martin, Lotus, Brabham, entre outros, construíram dezenas de exemplares dos seus modelos, que vieram a correr nas várias competições espalhados um pouco por todo o mundo, desde a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, até aos cantos mais recônditos do mundo.

Sobre a Formula 1, houve poucos os casos de campeonatos nacionais. O mais conhecido foi a Formula Aurora, que correu entre 1978 e 1982, nas pistas britânicas, com algum sucesso, e houve a Mecânica Formula, na Argentina, no final dos anos 60 e inicio dos anos 70, com muitos chassis e motores preparados por Orestes Berta. E a Tasman Series, onde no inicio do ano, aproveitando o verão austral, os pilotos da Formula 1 iam à Austrália e Nova Zelândia para correr contra alguns pilotos locais. Essa série decorreu entre 1964 e 1976, mas o seu apogeu foi até 1969, com pilotos como Jackie Stewart, Jochen Rindt, Jim Clark e Graham Hill, entre outros, fizeram a sua aparição.

Mas hoje falo de uma série que ficou marcado pela sua duração, mais do que a classe de pilotos que faziam a sua aparição. Entre 1960 e 1975, a África do Sul albergou um campeonato nacional de Formula 1, onde os melhores pilotos daquele país, e alguns vindos da então Rodésia (agora Zimbabwe) competiam para ver quem era o melhor, e algumas vezes, batiam o pé aos melhores pilotos do pelotao na única vez em que competiam com eles, no GP da Africa do Sul, primeiro em East London, e depois, em Kyalami. A partir de hoje, conto a história de um campeonato absolutamente único no automobilismo, e os pilotos que lá surgiram.


OS PRIMORDIOS


O primeiro Grande Prémio da África do Sul aconteceu em 1934, vencido pelo americano Willy Straight, num Maserati 8CM, e houve algumas corridas até ao nicio da II Guerra Mundial, em 1939. Nesse ano, o vencedor foi Luigi Villoresi, numa corrida onde participaram o alemão Paul Pietsch, os italianos Piero Taruffi e Franco Cortese, e os britânicos Peter Whitehead e Earl Howe, vencedor das 24 Horas de Le Mans em 1931 e presidente do BRDC.

Após o final da guerra, o automobilismo retomou a atividade naquele país, mas nunca houve um Grande Prémio sul-africano até 1960, altura em que as autoridades locais decidiram que era altura de fazer um campeonato local... de Formula 1. Por essa altura, há havia pistas suficientes para tal, pois para além de east London, havia pistas em Killarney, nos arredores da Cidade do Cabo, em Piertmaritzburg, no Transvaal, em Bellville, também no centro do país, e em Kyalami, nos arredores de Joanesburgo. Cedo acrescentou-se uma pista na Rodésia, nos arredores da Sailsbury (agora Harare), e a partir de 1962, visitaram Moçambique, num circuito na cidade de Lourenço Marques (agora Maputo).

Os carros, em muitos aspectos, eram semelhantes aos carros de Formula 1, mas havia algumas modificações dos quais faziam com que inscrevessem carros de outras categorias, como os Formula Junior, alguns chassis feitos de forma local, como os Heron e o LDS. Cedo a competição foi um sucesso, e logo nos anos iniciais, alguns pilotos que faziam parte do pelotão da Formula 1 faziam a sua aparição, abrilhantando o campeonato.Um exemplo foi o Rand Grand Prix de 1961, onde Porsche e Lotus fizeram a sua aparição com as equipas oficiais. A corrida foi ganha por Jim Clark, no seu Lotus oficial, seguido por Trevor Taylor, seu companheiro de equipa, com Jo Bonnier e Edgar Barth a seguirem-os, nos seus Porsches.

O campeonato tinha outros regulamentos estranhos como o de contar apenas três das sete corridas realizadas, e tinham de ser feitas em duas provincias distintas para que pudesse contar para o resultado final. O primeiro grande campeão foi Syd van der Vyer, que já era um veterano desta competição quando começou a participar, em 1960. Tinha 40 anos de idade quando venceu os dois primeiros títulos, em 1960 e 60, a bordo de um Lotus com motor de quatro cilindros em linha... da Alfa Romeo.

Por essa altura surgiram também a primeira geração de pilotos que fizeram parte desse campeonato: Neville Lederle, Ernst Pieterse, Trevor Blokdyk e sobretudo os rodesianos John Love e Sam Tingle. E um desses pilotos iria tentar a sua sorte fora do país com sucesso: Tony Maggs.


UMA ESTRELA CADENTE DAS DUAS RODAS


Em 1962, a Formula 1 inclui a África do Sul no seu calendário com uma prova no final do ano, no circuito de East London. Curiosamente, essa corrida não conta para o campeonato local, mas os pilotos locais participarão nessa competição. Mas o calendário desse ano era o maior até então, com uma corrida em Lourenço Marques e outra em Khumalo, na Rodésia. E em termos de pilotos, havia alguns nomes interessantes a aparecer, como Pieterse, que guiava um chassis Heron, com motor Alfa Romeo.

O chassis Heron tinha sido feito na Grã-Bretanha, para competir na Formula Junior, em 1960, e no ano seguinte, Tony Maggs encontrou-o e trouxe para a sua terra natal com a ideia de competir nele, com um motor Climax. Contudo, o carro não funcionou, e vendeu o chassis a Pieterse. Contudo, este trocou por um motor Alfa Romeo de 1.5 litros, e em 1961 alcançou os seus primeiros resultados de relevo quando foi segundo em Lourenço Marques. Mais tarde, venceu no Grande Prémio da Rodésia, e continuou a guiar até ao inicio da temporada de 1962, altura em que Pieterse trocou-o por um Lotus 21.

Na temporada de 1962, Pieterse vence quatro corridas (Pietmaritzburg; Republic Festival, em Kyalami; East London e Rand Winter Trophy, também em Kyalami) e consegue o título mesmo a tempo de aparecer uma estrela cadente no automobilismo local: Gary Hocking.

Nascido a 30 de setembro de 1937 em Caerelon, no País de Gales, Hocking emigra em criança para a Rodésia, onde começa a correr no motociclismo. Em 1958, aos 20 anos, volta à Europa e começa a fazer impacto no motociclismo, correndo desde os 125 até aos 500cc, em máquinas diferentes como a MZ, a MV Agusta ou a Norton. Vence as suas primeiras corridas em 1959, e em 1960, torna-se vice-campeão do mundo em 125, 250 e 500cc, todos a bordo de um MV Agusta, sendo um digno sucessor de pilotos como Geoff Duke e John Surtees, e ainda por cima, eram bem mais novo do que eles. Em 1961 torna-se campeão na classe 350 e 500cc, ainda na provecta idade de 24 anos.

Contudo, no inicio de 1962, Hocking decide abandonar o motociclismo após o acidente mortal de Tom Philis na edição desse ano da Isle of Man TT, edição do qual tinha acabado como vencedor. Assim sendo, decide regressar à sua terra natal e fazer o que Surtees tinha feito com algum sucesso nessa altura: mudar-se para as quatro rodas. Adquire um Lotus 24 e vai correr no campeonato local, conseguindo um forte impacto, vencendo as três últimas provas do campeonato, o Rand Spring Trophy, em Kyalami, a Total Cup, em Zwartkorps, e o GP da Rodésia, no circuito de Khumalo, e inscrevendo-se para as provas que faltavam até ao GP da África do Sul, em East London, prometendo ser tão importante quanto Jim Clark e Graham Hill.

Contudo, a 21 de dezembro de 1962, em Durban, durante o GP do Natal (e poucos dias antes do GP da África do Sul), Hocking sofre um acidente fatal. Tinha 25 anos. Especula-se que a causa do seu acidente tinha sido um problema fisico, pois não tinham sido detectadas marcas de travagem no seu carro, antes deste ter saído da pista e catapultado, cuspindo o seu piloto e ferindo-o mortalmente.

O Grande Prémio, que não só era o momento culminar do ano automobilistico sul-africano, como também era a prova de encerramento do campeonato do mundo, aconteceu a 29 de dezembro, em East London. O duelo era entre Graham Hill e Jim Clark para ver quem ficaria com o campeonato, mas na lista de inscritos, no meio dos pilotos consagrados, também estavam os locais. Tony Maggs, que tinha ido à Europa e competir na equipa oficial da Cooper, era o cabeça de cartaz, mas também estavam Nevile Lederle, Ernst Pieterse, Bruce Johnstone, Doug Serreuier, Mike Harris, Syd van der Vyer e o rodesiano John Love. Sam Tingle e Gary Hocking também estavam inscritos, mas estavam ausentes, com Tingle a competir noutro lado no dia da corrida.

Se no computo geral, Clark tinha a vantagem no inicio da corrida, mas uma fuga de óleo na volta 62 fez encostar à berma o seu Lotus e aplaudir o título mundial de Graham Hill, o seu primeiro e o da sua equipa, a BRM. Atrás, Maggs chega ao fim no terceiro lugar, subindo ao pódio (conseguindo o segundo da sua carreira), e Neville Lederle chega no sexto posto, conseguindo um ponto para o campeonato. E isso foi um ponto alto da sua carreira, pois essa foi a única corrida em que participou no Mundial de Formula 1, e essa única chance, ele conseguiu pontuar.

(continua)

quarta-feira, 3 de junho de 2009

The End: Tony Maggs (1937-2009)

O piloto sul-africano Tony Maggs, que competiu pela Cooper entre 1962 e 63, e certamente um dos pilotos mais consistentes da sua época, morreu ontem á tarde na sua casa em Pretoria, na Africa do Sul, devido a complicações de ordem pulmonar. Tinha 72 anos de idade.


Maggs foi o piloto do seu país com maior palmarés até á chegada à Formula 1 de Jody Scheckter, doze anos mais tarde, para conquistar o seu título mundial. Na biografia que escrevi sobre ele em Dezembro de 2007, afirmou que começou a correr em 1958 no seu país natal, num Austin-Healey, para depois correr em Turismos na Europa. em 1960, corre na Formula Junior, onde se torna campeão em 1961, a bordo de um Cooper T56, pertencente à equipa de Ken Tyrrell. As suas performances não passaram despercebidas a Charles e John Cooper, que o contrataram em 1962, substituindo Jack Brabham e correndo ao lado de Bruce McLaren.


Conhecido pelo seu capacete amarelo vivo, Maggs conseguiu três pódios: dois segundos lugares em França 62 e 63, bem como um terceiro lugar no seu Grande Prémio natal, em 1962. Porem, o seu contrato não é renovado após a temporada de 1963, decidindo correr pela Scuderia Centro-Sud na temporada de 1964, ao volante de um BRM. A sua última corrida na Formula 1 foi o seu GP natal de 1965, a bordo de um Lotus 25 da Reg Parnell Team, terminando na 11ª posição. Em Junho desse ano, quando corria em Pietermaritzburg, atropela mortalmente uma criança e para de correr.


Em paralelo com a sua carreira na Formula 1, correu nos Turismos. Venceu por duas vezes as 9 Horas de Kyalami e disputou algumas edições das 24 Horas de Le Mans, sendo que o seu melhor resultado foi um sexto lugar na edição de 1964, ao lado do britânico David Piper. Depois da sua carreira competitiva, Maggs retirou-se para a sua quinta, situada no norte da provincia do Transvaal, e foi noticia mais uma vez quando sobreviveu a um desastre aéreo, que matou um dos trabalhadores.


Maggs encontrava-se doente há já vários meses e o desfecho verificou-se hoje. E de uma era onde os sobreviventes foram poucos, estes lentamente se vão. Ars lunga, vita brevis.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

O piloto do dia - Tony Maggs

A Africa do Sul sempre foi um viveiro de talentos ao longo dos anos 60. A par da Austrália e da Nova Zelândia, com a Tasman Séries, os sul-africanos tinham um campeonato nacional de Formula 1, que fomentava o aparecimento de jovens talentos, e antes de aparecer Jody Scheckter, nos anos 70, houve um piloto que se aventurou para fora do seu país e espalhou talento pelas pistas europeias e mundiais. Hoje, falo de Tony Maggs.


Anthony Francis O'Connell Maggs nasceu em Pretória, na África do Sul, a 9 de Fevereiro de 1937 (tem agora 70 anos). Começou a disputar corridas de Turismo no seu país natal em 1958, a bordo de um Austin Healey. No ano seguinte foi para a Europa, onde passou a correr em provas para carros de Turismo, com um Lotus 11 e um Tojeiro-Jaguar.

Em 1960 passa para a Fórmula Junior, conseguindo uma vitória no circuito inglês de Snetterton, com um Gemini MK3. Começou a correr na Fórmula 2 com um Cooper T51 do Essex Racing Team, chegando em terceiro lugar no Vanwall Trophy, em Snetterton.


Em 1961, torna-se campeão europeu de Formula Júnior, correndo pela equipa de Ken Tyrrell, com um Cooper T56, conseguindo oito vitórias e seis segundos lugares. Entretanto, estreia-se na Fórmula 1 no GP da Inglaterra, com uma Lotus 18 privado, terminando na 13ª posição. Na corrida seguinte, na Alemanha, chega ao fim no 11º lugar. Volta à sua terra natal em Dezembro, para disputar a temporada Sul-Africana de Fórmula 1, chegando na quarta posição no GP da África do Sul, com um Cooper T53 do Reg Parnell Racing Team.


Todas estas performances não passam despercebidas a Charles e John Cooper. que o contratam para correr na equipa oficial em 1962, sendo o parceiro de Bruce McLaren nas nove etapas do Mundial de Pilotos. É aqui que consegue os seus melhores resultados, com um segundo lugar em França e um terceiro na sua terra natal. Termina a época no sétimo lugar da classificação geral, com 13 pontos e dois pódios.

Entretanto, na Fórmula Júnior, vence duas corridas e chegou em segundo lugar por seis vezes, com o Cooper T59 de Ken Tyrrell. Nos Turismos, também consegue boas posições, terminando na quarta posição nos 1000 Km de Nurburgring, com um Aston Martin DB4 GT, e na segunda posição nas 9 Horas de Kyalami, com um Austin Healey 3000.


No início de 1963, disputa a temporada de Fórmula Livre da Austrália e Nova Zelândia com uma Lola Mk4 do Reg Parnell Racing Team, conseguindo três segundos lugares, em Levin, Teretonga e Sandown Park, na Nova Zelândia e um terceiro lugar em Wigram, na Austrália. Na Formula 1, começa uma segunda época na Cooper, onde consegue novo pódio, ao terminar no segundo lugar do GP de França. No final da época, fica com 9 pontos de um pódio. Disputou as 24 Horas de Le Mans com um Porsche 718 GTR, mas abandona a prova após um acidente. Venceu as 9 Horas de Kyalami com uma Ferrari 250 GTO, em dupla com David Piper.


Dispensado pela Cooper, em favor do antigo campeão do mundo Phil Hill, irá disputar três Grandes Prêmios em 1964, com uma BRM P57 privado, da Scuderia Centro-Sud, terminando o campeonato na 12ª posição, com 4 pontos. Deu uma perninha na Fórmula 2 com uma Lola T54 da Midland Racing Team, conseguindo um terceiro lugar no Vanwall Trophy, no circuito inglês de Snetterton, e dois quartos lugares em Viena e Clermont-Ferrand. Foi o sexto colocado nas 24 Horas de Le Mans desse ano, com uma Ferrari 250 GTO, e venceu novamente as 9 Horas de Kyalami, a bordo de uma Ferrari 250 LM, ao lado de David Piper.


Em Janeiro de 1965 disputará o seu último Grande Prémio, na África do Sul, com um Lotus 25 da Reg Parnell Racing Team, terminando na 11ª posição. Pouco tempo depois, chega em terceiro lugar nas 12 Horas de Sebring, com uma Ferrari 250 LM. Correu na Fórmula 2 com uma Lola T60 do Midland Racing Team, chegando em segundo em Roma e em quarto em Oulton Park e Pau.

Contudo, em Junho desse ano, um acidente quando disputava uma prova do Campeonato Sul-Africano de Fórmula 1, na cidade de Pietermaritzburg, sofre um acidente com o seu Brabham BT10, saindo da pista e atropelando mortalmente um menino que assistia à prova em local proibido. Muito abalado com o acontecimento, Maggs abandona as pistas após essa corrida, para se concentrar na quinta que detêm em Zontspanberg, no norte do Transvaal. Nos anos 70, torna-se notícia ao sobreviver a um acidente de aviação, onde um dos seus trabalhadores morre no impacto do pequeno avião onde viajavam.


A sua carreira na Formula 1: 27 Grandes Prémios em cinco temporadas (1961-65), três pódios, 25 pontos.


Fontes de pesquisa:

http://www.f1total.com.br/
http://www.grandprix.com/
http://en.wikipedia.org/wiki/Tony_Maggs