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sábado, 24 de janeiro de 2026

As imagens do dia




Nas primeiras imagens, o trio finlandês que encheu o pódio de 1986, há 40 anos neste dia. Da esquerda para a direita, Hannu Mikkola, piloto da Audi, Henri Toivonen, que guiava o Lancia Delta S4, e Timo Salonen, o campeão do mundo de 1985, que começava a defesa do seu título com um segundo lugar nas estradas alpinas à volta de Monte Carlo. Na imagem final, ele comemora a sua vitória ao lado do seu navegador, o italo-americano Sergio Cresto, depois de seis dias e 36 especiais. O mais longo Monte Carlo de sempre.

Era a segunda vitória seguida de Toivonen no WRC. Mostrava ao mundo, e especialmente à concorrência, Peugeot, Audi e outros, que a Lancia tinha montado um carro vencedor, e ia lutar pelo título. Quer Toivonen, quer os seus companheiros de equipa, o seu compatriota Markku Alen e o italiano Miki Biasion. E mostrou um Henri Toivonen que, mesmo depois de um contratempo, que o fez perder a liderança, e mesmo com carro com a direção dobrada - que fez cansar o piloto por causa das suas constantes correções - conseguiu apanhar e superar Timo Salonen, que queria dar à Peugeot a sua segunda vitória seguida em Monte Carlo. 

E foi duro: depois do acidente na ligação da 12ª especial, e a penalização de um minuto que fez perder a liderança do rali, ele partiu para o ataque, para recuperar a liderança, mesmo com um carro no qual Toivonen afirmava ser difícil de guiar, porque os danos tinham afetado a direção.

“Não é nada fácil conduzir. Estamos a entrar nas curvas como se estivéssemos nas estradas de terra batida: todas as curvas para a direita de lado, curvas para a esquerda em subviragem. É difícil conduzir. Acho que nem toda a gente tem um carro-banana!”, queixou-se.

Cesare Fiorio, o diretor da equipa da Lancia, disse o que andaram a fazer nas especiais seguintes:

“Não tínhamos tempo para corrigir tudo completamente”, recorda Fiorio, em 2021, à motorpsortmagazine.com. “Só tínhamos alguns minutos em cada oficina – cinco minutos aqui, cinco minutos ali. O carro ainda funcionava e ele conseguia continuar, mas o S4 não estava a render o máximo. Em cada oficina, íamos reparando aos poucos. Precisamos de pelo menos quatro ou cinco oficinas para o reparar completamente. Naquele momento, ele estava à frente de toda a gente. Mas depois de todas estas revisões, e com o carro lento que estava a usar, perdeu muito tempo.”, concluiu.

Para além da sua condução, as trocas de pneus, conforme as condições, ajudaram muito no seu resultado. Numa altura em que se poderia trocar em cada especial, calculou-se que das 36 trocas feitas durante o rali, Toivonen acertou em 34, o que foi um feito, porque normalmente, os pilotos poderiam errar muito mais, mesmo os mais experimentados. E um dos "erros" foi na PEC22, onde ele chegou atrasado e não tinha tempo para trocar. Ele pediu para continuar com os que tinha calçado, que deixaram. Não penalizou, mas ganhou mais adiante, quando passou Salonen.

E na PEC30, o Col de Turini, à noite, perante 50 mil espectadores, todos a torcer pela Peugeot, ele arrasou-o, com uma performance que o deixou com uma vantagem de quatro minutos sobre o seu compatriota, com uma performance de classe mundial, aliado a um erro na escolha de pneus por parte de Salonen. 

Depois da comemoração, no pódio, Toivonen contou ao jornalista britânico Martin Holmes, um dos melhores do seu tempo, a primeira coisa que fez depois de cruzar a meta. Ele afirmou que telefonou ao seu pai, Pauli Toivonen, que tinha ganho o rali vinte anos antes, e ele lhe respondeu que "a nuvem negra que pairava sobre o nome Toivonen no Rali de Monte Carlo tinha-se finalmente desvanecido."

A partir dali, ninguém mais falava dos eventos de 1966, onde a vitória calhou ao quinto classificado do rali, que guiava num Citroen. A partir daquele momento, "Toivonen" significava vitória categórica na estrada. Outra maneira para chamar "finlandês voador".

Fiorio saiu de Monte Carlo com o seguinte pensamento: “A prestação de Henri foi absolutamente fantástica. So por isso, pensámos que ele poderia tornar-se campeão do mundo. E a Lancia também pode voltar a ser campeã do mundo, como já aconteceu muitas vezes.”

Pouco mais de três meses depois, a 2 de maio, na Córsega, esses sonhos cairiam por terra.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

As imagens do dia




No final da 12ª especial do rali de Monte Carlo de 1986, Henri Toivonen estava a levar a melhor sobre a concorrência, particularmente sobre o Peugeot 205 do seu compatriota Timo Salonen. Quando o Lancia Delta S4 andava a uma velocidade normal no troço de ligação  - o Col de Mounchery, entre Burzet e Eintragues, uma estrada estreita e sombreada - o seu carro viu na sua frente, na saída de uma curva fechada, um Ford Cortina a alta velocidade. Sem ter tempo para manobrar, a colisão foi inevitável e ambos os carros ficaram com danos na sua frente. Rumores na altura diziam que o carro não tinha pneus para a neve e a taxa de álcool no sangue do condutor era... muito elevada.

A sorte de Toivonen e do seu navegador, Sergio Cresto, é que, ao contrário do Ford Cortina, o carro dele era mais descartável. A parte da frente do Lancia estava danificada, era certo, mas todos os sistemas estavam intactos, incluído o eixo da frente, que era critico para poder continuar no rali. Logo no local, as carrinhas de assistência da assistência começaram a fazer o trabalho indispensável no mínimo de tempo possível, para que Toivonen pudesse continuar, sem perder a liderança que estava a ser defendida. 

Temeu-se o pior, mas a Lancia e os seus mecânicos fizeram o milagre que se queria, ao fazer as reparações necessárias para poder continuar. Quando ficou pronto, Toivonen ficou com 53 quilómetros para fazer em 25 minutos e acabou por apenas penalizar um minuto, ao entrar com 14 segundos de atraso sobre a sua hora ideal. De facto, um pequeno milagre, em algo que poderia ter sido catastrófico. 

Mas claro, o tempo perdido fez com que o Peugeot de Timo Salonen se aproximasse, e ainda iria demorar um bocado até o carro entrar nos eixos. E o Peugeot estava intacto... e com vontade de lutar pela vitória. Faltavam 24 especiais e três dias até chegar a Monte Carlo, e ainda tínhamos os espectadores, que fariam de tudo que o vencedor fosse francês...

Toivonen depois queixava-se do carro, especialmente com as dificuldades de curvar por causa da direção dobrada, mas a sua vontade de vencer superava isso tudo. Afinal, ele sabia que as coisas poderiam ter acabado naquele momento e naquele local, mas o acidente, do qual o piloto esteve ilibado de culpa, só galvanizou o piloto para a única coisa que queria: vencer.   

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

As imagens do dia





Na semana em que começa o Mundial de Ralis, em Monte Carlo, recuo 40 anos no tempo para falar de uma altura onde o Grupo B está no seu auge, e meia dúzia de marcas tem os seus carros na estrada para tentarem a sua sorte. E em 1986, sabia-se que a chance de haver um duelo pela vitória era bem real. 

Todos sabem o que aconteceu: um duelo para a história, entre a Peugeot e a Lancia. 

A Peugeot tinha o 205 Ti16, campeã do mundo com Timo Salonen, e queria ir para Monte Carlo para revalidar a vitória que tinha conseguido com Ari Vatanen, alcançada depois de um acidente no inicio, que o fez atrasar quase quatro minutos, antes de fazer uma corrida de recuperação, que o levou ao lugar mais alto do pódio. Uma das vitórias mais épicas da carreira do piloto finlandês, que em 1986 era a maior ausência deste rali, pois recuperava do seu arrepiante acidente na Argentina, quase meio ano antes.

No seu lugar, havia outro finlandês, Juha Kankkunen, que estava ao lado de Salonen e dos franceses Bruno Saby e Michele Mouton, que faziam parte da armada da marca do Leão. Em contraste, com a Audi algo enfraquecida, com o seu modelo Quattro S2, e pilotos como Walter Rohrl e Hannu Mikkola outras marcas que ainda estavam no seu inicio, como a Rover e a Citroen, com o BX - e a Ford só apareceria na Suécia com o RS200 - outra marca estava em ascensão: a Lancia, com o seu Delta S4. Quinhentos cavalos de potência, com um turbo compressor e um supercompressor, potencias brutais do qual poucos eram capazes de domar. 

Ao contrário da Peugeot, apenas dois Delta S4 estavam presentes, inscritos para Markku Alen e Henri Toivonen, outros dois finlandeses. E nesse ano, um deles era o favorito: Toivonen. Vencedor do Rali RAC de 1985, onde o carro se estreou, o piloto, então com 29 anos, dava-se tão bem com o carro como Alen, que tinha a fama do "Maximum Attack". Mas Toivonen ainda tinha mais uma razão para ganhar em Monte Carlo, e esse era familiar, que em 1986 fazia vinte anos.

Em 1966, a edição do rali de Monte Carlo ficara marcada pela desclassificação dos Mini Cooper oficiais, que ficaram com os três primeiros lugares, por causa de uma irregularidade... nos faróis dianteiros, que emitiam mais luz que o indicado pela direção de corrida. Carros desclassificados, o quinto classificado (o Ford Cortina de Roger Clark foi também desclassificado pela mesma razão) foi declarado vencedor. Que era um Citroen DS21, um carro francês, guiado pelo finlandês Pauli Toivonen, o pai de Henri, que em 1966 tinha nove anos de idade.

Toivonen pai acabou por ser campeão europeu de ralis em 1968, mas sempre lhe falaram que a sua vitória em Monte Carlo, que deveria ser um dos corolários da sua carreira - ele ganhou o Rali dos Mil Lagos em 1962, antepassado do atual Rali da Finlândia, num Citroen DS19 - eles recordavam daquele "asterisco", algo do qual o seu filho sempre esteve disposto a defender a honra da família. E ganhar Monte Carlo, numa altura importante, teria sido fantástico.       

Em 1986, o rali durou quase uma semana - começou a 18 de janeiro, acabou a 24 - e era bem longo: 3991 quilómetros, divididos pelos percursos de concentração, classificação, comum e final. 36 provas especiais de classificação, no total de 880 quilómetros. O tempo por esses dias esteve na maioria seco, mas com alguns nevões em determinadas zonas. Os pilotos lidavam com pisos dos mais variados tipos, desde seco a coberto por neve, passando por húmido, placas de gelo e neve derretida. 

O rali começou com os Lancia ao ataque perante Salonen (número 1) e o seu Peugeot, e Rohrl (número 2) e o seu Audi. Primeiro, com Alen (número 9) a liderar, mas a partir da segunda especial, Toivonen (número 7) ficou com o comando e começou a distanciar-se da concorrência, tentando ir mais rápido num asfalto que como já foi dito, por vezes gelava, noutras nevava. E em certos sítios, os espectadores não ajudavam muito...

Contudo, o rali, que estava a ser bem interessante, com Toivonen a liderar no final do primeiro dia, iria ter um momento critico no inicio da manhã do dia 21 de janeiro, no final da 12ª especial, mais concretamente, num troço de ligação...