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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Extra-Campeonato: Fundamentos sobre a minha posição anti-nuclear

O assunto de ontem sobre os 25 anos do desastre da central nuclear de Chernobyl fez o suficiente para ser atraído por um "advogado do Diabo", daqueles que defendem a energia nuclear afirmando estar "mal informado sobre este assunto" e que de forma educada mas por outras palavras, deveria permanecer na minha área e abster-me de comentar sobre o caso. Francamente, este post é, mais do que responder ao sujeito - também é - também é altura de dizer a minha opinião pessoal sobre este assunto actual de forma fundamentada, informada e o mais estruturada possivel sobre este assunto em concreto. Como vivo em democracia, mas não cuspo para o ar - para isso existem os fóruns e as caixas de comentários dos jornais - tenho todo o direito de dar a sua opinião sobre os assuntos da atualidade. Ou então, se preferirem, mostrar que posso ser objetivo mesmo deixando de ser "suiço" ou seja, neutro.

Primeiro que tudo, digo ao "advogado do Diabo" que considero uma ofensa pessoal que me diga que estou "mal informado" sobre este assunto. Muito pelo contrário: estou suficientemente - até demasiadamente - informado para tomar uma opinião sobre este caso, e ao longo da tarde andei a dizer no meu Twitter as razões pelos quais não gramo em nada a energia nuclear. Uma delas é a sua má reputação: em apenas 32 anos houve três acidentes graves: Three Mile Island, nos Estados Unidos, Chernobyl, na Ucrânia (então parte da União Soviética) e agora Fukushima, no Japão. Centrais de construção diferente, com materiais diferentes, com processos de arrefecimentos diferentes - os russos usam grafite, os ocidentais água doce - e acidentes diferentes. Contudo, mesmo que cada caso é um caso, as consequências foram graves: a periculosidade e a alta radioatividade dos materiais mostram que a sua vulnerabilidade perante uma catástrofe é intolerantemente alta.

Francamente, os céticos e os lobbystas do nuclear não me convencem. Os números que apresentam sobre a enorme segurança das suas centrais - mais do que existirem, tem de os fazer pois é a sua obrigação - não me convencem de que o nuclear é a alternativa. Para mim, não o é. É demasiado cara para construir, para manter e até para o desmantelar, passada a sua vida útil. E numa altura em que as centrais nucleares mais antigas estão a chegar ao final da sua vida útil, começam a surgir relatórios e estudos preliminares de que o desmantelamento das centrais mais antigas serão um processo longo e custoso, para não falar dos resíduos, que serão "a batata quente" que gerações de físicos irão lidar para os próximos séculos, até que encontrem um método mais rápido e seguro de os neutralizar.

E para finalizar, as alternativas começam a ser viáveis. As eólicas e as centrais solares começam a ter um impacto no peso total da energia produzida nos países que os usam, e em Portugal, onde a dependência energética é maior do que os outros países da Europa, pois não tem petróleo suficiente para ser viável em termos comerciais, o peso desse tipo de energia já alcança os 20 por cento. O que começa a poupar na factura e a ser menos dependente do exterior nesse aspecto.

Há alguns meses vi na National Geographic o documentário sobre uma central de energia solar nos arredores de Sevilha que começa a ter potência para alimentar uma cidade de milhão e meio de habitantes. Não fixei o numero, mas tem de ser da ordem de alguns Gigawatts. Se isto funciona agora, com essas centenas de painéis solares que alimentam a turbina a vapor que gera a eletricidade durante 24 horas por dia, com os depósitos de energia acumuláveis nos dias de menor intensidade solar, imaginem dentro de dez ou quinze anos, quando a tecnologia for melhor, quando os painéis solares forem mais eficientes a absorver energia, mesmo nos dias nublados? Já não é uma questão de "se" mas sim de "quando". E quando isso acontecer, as restantes energias arriscam a ser inviáveis.

Portanto, mais do que ser contra a energia nuclear por principio, sei perfeitamente que existem outras alternativas que estão a ser usadas, acarinhadas, pesquisadas e utilizadas. O fantasma do nuclear é demasiado enorme e óbvio para conseguirmos ver as vantagens existentes. O seu "cartão de visita" é demasiado óbvio para ser ignorado mesmo pelos "advogados do Diabo" que o tentam demonstrar que é uma energia "segura" e "limpa". Francamente, quando oiço isso, lembro-me de Montgomery Burns...

terça-feira, 26 de abril de 2011

Extra-Campeonato: Chernobyl, 25 anos depois, ou como a questão nuclear nunca sairá de cena

A comemoração dos 25 anos do desastre de Chernobyl calha por coincidência numa altura em que discutimos um novo desastre nuclear, num outro pais. Mas como dizem os médicos, "cada caso é um caso", e Fukushima não é Chernobyl por tudo: diferente central, diferente construção e fabricação, diferentes circunstâncias. No caso japonês, falamos de um devastador terramoto, ao qual deveria resistir, e pelos vistos, não resistiu. Aliás, fala-se que aquela central em particular teria grandes dificuldades em resistir a uma terramoto de grau acima de sete na escala de Richter. E o evento de 11 de março foi de 9.0...

Lembro-me desses dias de Chernobyl. O primeiro aviso veio da Suécia, quando no inicio de maio as autoridades locais avisaram os soviéticos que uma nuvem radioativa tinha passado por eles, vindo do seu pais, e pediram explicações. Primeiro houve silêncio, depois surgiram os rumores, que se fortaleceram nos dias a seguir. E por fim, depois das autoridades ocidentais terem começado a insistir fortemente nos soviéticos para exigirem saber o que se passava, eles cederam. Mikhail Gorbachov, o lider soviético da altura, fez uma comunicação inédita ao pais para dizer o que se passara na noite de 25 para 26 de abril em Prypiat, no norte de Kiev, a capital ucraniana. Aliás, esta cidade de quatro milhões de habitantes somente se salvou porque os ventos daquela noite sopravam para norte-noroeste, fazendo com que a nuvem voasse atraves da Bielorussia e Rússia, parando na Suécia e Finlândia.

Tal como aconteceu em 1986, todos questionavam o nuclear, fazendo com que alguns paises decidissem cancelar os planos de construção de centrais nucleares. Podia ser uma energia limpa, não poluente, mas os resíduos são dificeis de serem tratados e a radioatividade pode ficar presente durante dezenas de milhares de anos na atmosfera. Logo, os custos de desmantelamento dessas centrais serão largamente elevados. Em suma, o nuclear tem muitas mais coisas contra do que a favor.

Fukushima acontece numa altura em que as grandes potências tinham começado a virar para o nuclear como uma alternativa à energia vinda das ondas, das eólicas e da solar. Os seus defensores vendem-na como uma energia limpa, capaz de produzir em grande quantidade aquilo que milhares de ventoinhas ou painéis solares são capazes de fazer. Mas o senso comum sabe que um painel solar ou uma turbina são de fácil montagem e não causam tanto impacto na paisagem do que um mamarracho como uma central nuclear. E por muito que a tecnologia avance, o risco, por minimo que seja, é demasiado alto, sensivel e intolerável para as pessoas. Basta ver os milhares de ucranianos que sofreram, sofrem e sofrerão para as gerações futuras. E os japoneses que sofrerão no futuro com os cancros da tiroide, para não falar do envenenamento causado pela forte exposição à radioatividade...

Não queremos mais que se repita Chernobyl e Fukushima. Mas temo que esta história não esteja encerrada de vez. Veremos mais alguns destes capítulos no futuro.